– por Guilherme Bakunin

Se o cinema é uma arte de imagens, Terence Malick provavelmente é um dos seus melhores artífices. Seus personagens são, geralmente, pessoas simples e comuns, que não possuem o dom da eloquência e não são capazes de expressar, com destreza, seus verdadeiros sentimentos. Nos anos setenta, ele ainda ia mais longe: seus personagens eram verdadeiros vagabundos, nômades, à procura de qualquer coisa que fosse latente e imediata o suficiente para que pudessem sentir algo verdadeiramente. Em Cinzas no Paraíso (1978), o narrador-protagonista era Linda, uma garota por volta dos seus 12 anos, e em Terra de Ninguém, é Holly, de mais ou menos 16.

Suas voice overs tratam de banalidades cotidianas (Holly lê frases de uma novela em diversos momentos), mas é através dessa analogia que os personagens de Malick conseguem realmente se expressar. Tudo que há de mais corriqueiro e secular assume, através dos slip cuts do diretor, significado alto valor narrativo e espiritual.

Em Terra de Ninguém (Badlands, no título original, fazendo referência ao local geográfico de refúgio dos protagonistas), Martin Sheen é Kit Carruthers, um James Dean pré-punk wannabe que cai como trovão na vida de Holly Sargis, despertando, ao que podemos apenas supor, dado o caráter completamente estoico das atuações, uma forte conexão amorosa. O pai de Holly (Warren Oates, eternizado em Traga-me a Cabeça de Alfredo Garia) é contra o romance e acaba sendo assassinado por Kit, que, junto de Holly, parte em uma fuga sem esperanças e sem destino específico na imensidão do norte da américa.

O debut de Terence Malick é um filme singular – é um crime road movie onde as mortes não possuem qualquer significado, e a grande fonte da angústia reside precisamente no fato de que Holly e Kit não conseguem se expressar. Pelo que podemos perceber, Holly não crê ser boa em nada, enquanto Kit crê ser bom em parecer com James Dean. Os dos jovens se aproximam do mundo através da mímese sem absorção: Dean é violento, inconsequênte e rebelde, portanto Kit age sempre dessa forma; Holly não parece ser muita coisa, portanto age na inércia de simplesmente não agir.

A fuga coloca o casal frente-a-frente em regiões desérticas, onde apenas céus e natureza fazem companhia e, ainda assim, o único momento onde eles parecem se aproximar é durante uma dança ao som de Nat King Cole.

Sob esse ponto de vista, estaria Malick interessado em estudar como existe um sentimento de apatia traumática no coração da américa? Quando o diretor precisa intervir na história para fazerem seus personagens se expressar, significa que há algo disfuncional em quem esses personagens são. Kit e Holly são livrementes inspirados em Charles e Caril Ann, o casal que de verdade saiu em disparada pelo norte dos Estados Unidos cometendo assassinatos no final dos anos 1950. Em plena era onde a guerra já era exibida ao vivo e à cores, não parece coincidência que Terra de Ninguém mostre jovens que cometem assassinados com a mesma significância com que mudam o canal da televisão.

Mas obviamente Malick não se interessa tanto pelo caráter social da guerra tanto quanto pelo impacto filosófico e emocional da violência assistida na vida das pessoas. Sendo o filósofo graduado que é, Terra de Ninguém tece as relações entre homem, natureza e violência da forma como poucos filmes foram capazes, erigindo seus personagens  como totems de recepção e perpetuação do impacto dessa relação.

É um filme filosoficamente delicado, com um caráter de emblema pulsante. É extremamente inteligente e, acima de tudo, muito, muito bonito. Os três fotógrafos registram maravilhosamente as faces angelicais e opacas de Sheen e Spacek contrastando com a imensidão gradiente das árvores, desertos e céus. A maneira como as três (natureza, violência e homem) e outras características se entrelaçam formam o tecido frágil e instigante que é o filme em seu resultado final. Como qualquer filme de Malick, a densidade temática transparece latentemente na medida em que cada imagens parece ecoar por diversas vertentes na história, e o significado reside plenamente apenas na retórica da subjetividade.

Não por acaso, quase quarenta anos depois, Malick lançaria Árvore da Vida que, dentre outras coisas, é uma espécie de ode ao não saber, e ninguém de fato realmente sabe, e toda análise, toda interpretação e todo sentimento é parte cabal da composição mosaica que o filme propõe. Árvore da Vida é um exercício estilístico extremo, mas Terra de Ninguém, em menores proporções, já faz florescer esse que é, pra mim, o aspecto mais ilustre na estética de Terence Malick: a perpétua busca pelo porquê.

 5/5

Ficha técnica: Terra de Ninguém (Badlands). EUA, 1973. Dir.: Terence Malick. Elenco: Martin Sheen, Sissy Spacek, Warren Oates, Alan Vint, Ramon Bieri, Garry Littlejohn.

– por Michael Barbosa

Violento, pesado, fantástico, escatológico, visceral, sem pudor, sem escrúpulos, muito sangue, muito bizarro, não é dos mais acessíveis. Isso e muito mais vem ao imaginário do cinéfilo quando se ouve o nome de David Cronenberg, tudo isso faz parte da identidade visual e dos recursos estilísticos comuns ao cinema do diretor, mas em 1983 Cronenberg resolveu adaptar aquele que é talvez o mais humano dos romances de Stephen King, A Zona Morta, e – como a obra que lhe inspirou está para a carreira de King – dar vida a algo longe do habitual, e que talvez cause certa estranheza para quem está acostumado com filmes como A Mosca, Scanners e Videodrome e isso pode, infelizmente, acabar atrapalhando na tarefa de abstrair os outros trabalhos do diretor e enxergar os méritos bem únicos de The Dead Zone, dentro da carreira do diretor e como adaptação de literatura pop (se bem que pra alguém anos depois encararia a missão de levar Burroughs às telas, adaptar King soa brincadeira).

Johnny Smith é um jovem professor de inglês, namorando e curtindo os pequenos prazeres da vida até que um acidente de carro o coloca num longo coma, e quando Johnny retorna, ao que parece, ele tem estranhos poderes que entram em ação ao tocar as pessoas. O que temos daí em diante é uma brilhantemente bem dirigida odisséia sobre os dilemas que esta nova condição trás a este homem e, mais do que tudo, a dificílima missão de optar entre interferir ou não. Quase que um pequeno estudo sobre a tentação de brincar de Deus.

O barulho da mídia, a fama instantânea, a dificuldade para voltar a ter uma vida normal, a responsabilidade, a paranóia, a perda do controle e o heroísmo. Está tudo ali na jornada do homem que previa o futuro com um toque. A capacidade de transformar o bizarro em belo dá lugar aqui para um trabalho de direção de atores fantástico, um Walken genial no protagonista e Martin Sheen igualmente feliz no papel do vilão. Um trabalho que ainda que singelo é extremamente digno e até memorável. Cronenberg é em The Dead Zone o cara que filma o roteiro (que pela primeira vez não fora escrito por ele) e se esforça para entregar um bom filme.

Tudo dito provavelmente The Dead Zone seja aquilo que habitualmente nos referimos como “filme menor” – o que chega a ser irônico tendo sido esse o filme mais caro e  mais próximo do mainstream de Crona até então.  Mas ainda assim é um daqueles filmes menores bons. Porque os grandes diretores, mesmo quando se desafiam a fazer algo “menor” ainda são grandes e competentes. Houve filmes melhores antes e depois deste aqui, mas nada que interfira em A Hora da Zona Morte ser – aparte do quão comercial ou menos autoral que posso parecer numa primeira olhada – extremamente bem dirigido, cheio de atuações inspiradas, uma trama envolvente com clímax dos bons e muito divertido. No fim das contas, vale mesmo a pena ver algo que parece atípico tanto pra King, quanto pra Cronenberg, mas que, com a devida atenção, se mostra um expoente pra lá de legítimo de ambos.

4/5

Ficha Técnica: A Hora da Zona Morta (The Dead Zone) – EUA, 1983. Dir: David Cronenberg. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Tom Skerritt, Herbert Lom, Martin Sheen.