pela Equipe Cine Cafe

Chegamos ao fim do especial. Foram, acho, nove dias de resenhas unicamente voltadas à análise dos filmes de M. Night Shyamalan, procurando decifrar não apenas o que está na superfície e no subtexto de seus filmes, mas também todas as relações contextuais que constituem o hype e o ódio do seu cinema. O obrigado da equipe a todos que acompanharam, comentaram e curtiram, e fiquem com a certeza que terão mais especiais logo mais.

Pra finalizar, tops da cada membro da equipe. Quem quiser é bem vindo a deixar o seu.

(mais…)

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por Guilherme Bakunin

Shyamalan começou a acompanhar a série animada de Avatar: The Last Airbender por causa da filha, e depois de assistir às duas primeiras temporadas declarou que o universo da animação certamente daria um grande filme. Não em suas mãos, não senhor. O Último Mestre do Ar é um trabalho de bom faro, perspicaz em sua construção de planos e arco central, mas não possui emoção e imersão do espectador na história.

O problema de Avatar começa com Shyamalan fazendo um filme infantil, praticamente traindo a autoridade que havia construído para si até aquele momento (2009-2010). Os filmes do cineasta eram adultos, artísticos no sentido que caracterizavam uma sincera expressão criada na mente de uma pessoa (nos termos de Frank Capra, era exatamente nisso que consiste um “filme de arte”, ou “cinema”). Criar um espetáculo infantil significa interromper esse caminho e trabalhar com linguagens completamente diversas das anteriores. O fator mais decisivo nessa diferença é a atmosfera, que em Último Mestre do Ar é leve, apesar das proporções épicas que o filme tenta atingir, e não consegue (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas por sua vez trabalha muito bem nisso, e citar Labirinto do Fauno é covardia).

Fora da densidade atmosférica, os diálogos tornam-se tolos e sem nenhuma razão, inexpressivos. Se em Fim dos Tempos Mark Whalberg e Zooey Deschanel são desumanizados para ressaltar a verdade de que eles só possuem emoções e sentimentos enquanto casal, compartilhando cada momento, aqui o negócio é apenas sem graça mesmo. A impressão que fica é que os atores não botaram fé no projeto, e leram em voz alta o que lhes foi delegado, sem necessariamente atuar. Sem a força dos atores, sem a força de um universo conciso para quem sabe justificar essa falta, o projeto de Shyamalan rui. O espectador simplesmente não compra a aventura que lhe está sendo contada.

Contudo, o projeto fraco é pontuado por diversos lapsos de criatividade cinematográfica. Os planos sequências são uma aposta arriscada, plasticamente bonitas, mas sem os cortes as lutas perdem emoção. Mas acompanhar Aang pelas lutas em grandes e fluidos planos é um artifício autoral, uma escolha quase filosófica, deixando o espectador a par exatamente dos mesmos elementos do personagem principal. As batalhas do filme são as batalhas do ponto de vista de Aang. Assim, o espectador também adormeceu por cem anos e precisa se adaptar aquele novo mundo, vivendo em guerra em perigo constante. A introdução a esse mundo pode parecer (e de fato é) didática, mas ao contrário de diversas coisas, é efeciente ao propósito do filme.

Portanto, Último Mestre de Ar é a descida mais íngrime na carreira de M. Night Shyamalan, um filme com mais erros que acertos e que certamente não desperta grande paixão. Não chega a ser ruim, a história original, se me perguntarem, também não é tão impressionante assim, preenchida por piadas sem graças a todo instante, algo eliminado corretamente pelo filme, mas definitivamente não reflete as melhores características do cineasta que ainda é uma das mentes mais criativas em atuação nos Estados Unidos.

2/5

Ficha técnica: O Último Mestre do Ar (The Last Airbender) – EUA, 2010. Dir.: M. Night Shyamalan. Elenco:  Noah Ringer, Dev Patel, Nicola Peltz, Jackson Rathbone, Shaun Toub, Aasi Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel, Damon Gupton, Summer Bishil.


ou aqui: Fim dos Tempos – por Bernardo Brum [4/5]

– por Guilherme Bakunin

Praticamente todos os textos por aí que falam sobre Fim dos Tempos vêm acompanhados de um tom passivo-agressivo em relação ao filme (falando, obviamente, das críticas que são favoráveis). São elogios cheio de ressalvas, que costumam definir o filme como um terror b, onde todas as coisas que não se enquadram exatamente nesse raio (do terror b), são dispensadas. Sob essa visão, não existiriam muitas coisas mais b’s do que Os Pássaros, onde uma trupe de pássaros mais recortados devastam uma cidade inteira. Mas as coisas não são exatamente assim.

Certamente inspirado em filmes b, mas sem deixar de lado a estética de seu diretor, Fim dos Tempos explora em graus um pouco mais sutis (relativos ao padrões do Shyamalan, que como eu disse no texto de Sinais, não são sutis) os mesmos temas de fé, natureza, medo, e o palco agora é toda a costa leste dos Estados Unidos que é atacada por algum tipo de toxina que faz com que as pessoas atentem contra a própria vida. Isso já denota algo inusitado: a toxina, que supostamente emana da natureza (flora), não apenas acaba com a vida humana, mas a extingue com masoquismo, crueldade, fazendo com que os homens encontrem formas criativas de se matarem. Nesse sentido, é quase um filme de vingança; e é interessante observar a maneira com a qual Shyamalan filme as plantas no filme, sempre acuando os personagens, como se fossem bestas à espreita, prontas para um ataque a qualquer instante.

Mas aí entram em cena Elliot (Whalberg) e Alma (Deschanel), no cúmulo de suas inexpressividades. O diretor parece ter uma complacência com personagens que não se expressam: Malcolm de Sexto Sentido, Joseph de Corpo Fechado ou Graham de Sinais, Lucius de A Vila. De alguma forma é não-inspirado dizer que são más atuações. A tendência perpassa por toda a carreira de Shyamalan e parece dizer que os personagens inexpressivos são os que essencialmente levam a história sempre para frente, por motivações que são muitas vezes misteriosas (já que a inexpressividade envolve certo mistério, já que não é claro o que se passa realmente na cabeça dos personagens), em contraponto com outros que realmente dizem muito do que pensam. Mas aqui temos Fim dos Tempos, onde o casal principal não conversa e também não se expressa, estando como entrave de sua própria relação.

Que Fim dos Tempos é, em parte, sobre um casal em crise matrimonial, todo mundo já está cansado de saber. E todo mundo meio que já admitiu que os diálogos são bem escusos e desconfortáveis. Mas existem mundos em choque aqui que valem a pena serem destrinchados. O primeiro e mais claro é a natureza x homem, onde o primeiro se rebela contra o segundo, numa ordem de caos que faz despertar a misantropia nas pessoas. Em certo momento do filme, Alma diz algo como “independentemente do que estiver acontecendo, é melhor ficarmos longe de pessoas agora”. Em meio ao caos, os homens se afastam e, pouco a pouco, Elliot e Alma são obrigados a se isolarem do resto do mundo e confrontarem o que há de errado com eles mesmos (mais sobre isso logo mais). É uma noção de enclausuramento bastante similar a de Sinais, exceto que Shyamalan consegue criá-la, em Fim dos Tempos, em amplos e abertos espaços. Pra quem pode.

Outro aspecto dicotômico é a relação entre racionalidade x o desconhecido. Não é exatamente fé, pois não há esse tipo de contorno no filme. É mais essa questão de aceitar que o mistério existe na vida e que nem todos os acontecimentos possuem ordem ou razão. É algo que Elliot sabe ser verdade (vida a cena introdutória na sala de aula), mas que ao longo do caminho, perde, procurando racionalizar demasiadamente em cima da situação em que eles estão, à procura de salvação, ocasionando momentos de forte significado, como a emblemática cena em que os personagens correm do vento. É interessante pegar essa cena um pouco mais, pra observar como a sobrenaturalidade do Shyamalan está pulsante em Fim dos Tempos, onde ele abstrai o e reconstrói o perigo, de forma a tornar o mero ar uma arma letal. Novamente, é pra quem pode.

Finalmente, existe a colisão entre o cinema e a estrutura do filme – enfim, a metalinguagem. Criticando o filme por situações absurdas e diálogos escrotos, o público falha em notar que a estrutura de Fim dos Tempos é bem alucinada. É um suspense catástrofe romântico meio road movie de terror: a cada cena, a necessidade dos personagens mudam para que eles se enquadrem a nova ordem estrutural de gênero que Shyamalan tenta imprimir. Existe o central park, depois o embarque na estação, depois a lanchonete, depois a estrada, depois o campo e depois a casa da senhora zumbi. É desconstrução após reformulação e vice e versa e assim por diante, para que o cineasta tenha a possibilidade de explorar todos os potenciais dos gêneros que ele resolveu se inspirar.

O resultado é Fim dos Tempos, que chega bem próximo de ser um tratado sobre a criação do medo numa história, na mesma linha de Os Pássaros (que também é catástrofe, e que depois foi filme de vanguarda). Apesar do público ter se expelido de admirar o filme, sabemos que grande parte disso envolve o nome de Shyamalan, que tem sido irrevogavelmente relacionado a trabalhos considerados de mau gosto, pelos mais diversos motivos, criando um hype que dificilmente corresponde a realidade (seus filmes são bons, e são autorais e originais além de serem de fácil digestão).

Mas toda a estruturação do perigo toma, no final, a forma de um mcguffin que existe para resolver o conflito matrimonial de Alma e Elliot. Não é exatamente um mcguffin, já que, na minha opinião, esse conflito é colocado em vários momentos do filme em espera, para que M. Night brinque com o suspense e o terror, mas é algo que existe em segundo plano, de qualquer forma. O auge da catástrofe letal de origem desconhecida é também o auge da distância entre os dois. Se durante todo o filme Shyamalan raramente coloca Alma e Elliot no mesmo quadro, nesses últimos momentos muito menos: eles estão a vários metros de distância um do outro, justamente quando a ameaça atinge seus níveis de maior intensidade. Diante desse panorama, os dois conversam e se abrem. “Qual era a cor do amor?”, pergunta Alma. “Eu não me lembro.”, responde Elliot. mas depois os dois se lembram e, no meio da ventania, um corre na direção do outro, até se encontrarem e se reconciliarem bem no meio disso tudo. Se o diálogo é o maior problema do filme, tudo bem: aqui eles não falam, e nem precisam. E também não voltam a conversar durante o resto da metragem (existe um epílogo que existe pra explicar mais ou menos a origem das toxinas, dispensável na minha opinião). Como a visceralidade de um tiro de escopeta na cabeça, a sintonia entre o casal é clara demais para ter a necessidade de demais explicações.

4/5

Ficha técnica: Fim dos Tempos (The Happening) – EUA, 2008. Elenco: Zooey Deschanel, John Leguizamo, Mark Wahlberg, Alison Folland, Brian O’Halloran, Spencer Breslin, Alan Ruck, Betty Buckley, Robert Bailey Jr., Ashlyn Sanchez, M. Night Shyamalan, Jeremy Strong.

ou aqui: Fim dos Tempos – por Guilherme Bakunin [4/5]

por Bernardo Brum

Catapultado para a fama após O Sexto Sentido, o indiano M. Night Shyamalan arrebatou legiões gigantescas tanto de detratores  e desdenhadores quanto de admiradores e fanáticos. Já havia algum tempo que não havia um caso de “ame ou odeie” tão forte – dos seus contemporâneos, talvez apenas Quentin Tarantino possa ser classificado como integrante do grupo.

Esse era um probleminha meu: nunca havia conseguido nem amar, nem odiar o diretor. Acho que os dois pólos sempre levaram Shyamalan muito a sério: as críticas sociais, mensagens humanistas e pretensões estético-narrativas propostas em seus filmes ou eram consideradas um oásis nesse deserto de idéias ou fracassos retumbantes. Apreciador de algumas de suas obras (como O Sexto Sentido e A Vila) e detrator de outras  (mesmo com mais de cinco revisões, ainda acho Sinais involuntariamente hilário), o lançamento de Fim dos Tempos parecia prenunciar mais uma rodada de discussões sérias (e um tanto sisudas) de duas torcidas muito bem delineadas.

Exceto que, após alguns minutos de desconfiança, eis que surgiu uma agradável surpresa: Fim dos Tempos desbancava com uma facilidade surpreendente o posto de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal como o filme mais divertido do ano de 2008. Ainda que jamais caminhe um passo fora do estilo consagrado pelo diretor tão amado/odiado por aí, Fim dos Tempos é consciente de si mesmo e não tem a vergonha de ser um filme de terror com profunda inspiração no cinema B, além da óbvia referência da obra de Alfred Hitchcock que é ponto de partida para todos os bons filmes cataclísmicos, Os Pássaros. Isso inclui uma grande dose de presença de espírito que já previne a maioria das críticas.

Assim, Shyamalan parte de uma premissa ecochata e logo parte para o que interessa: uma onda de suicídios em massa causada por algum vírus muito cabuloso vindo das plantas que logo parece prenunciar a extinção de toda a vida humana sobre a Terra. E é nessas que prossegue até o vírus repentinamente sumir e deixar todo mundo apenas com um ponto de interrogação.

Ainda que faça concessões para os mais fanáticos pelo seu estilo – como as cenas no porão lá para o final do filme que  expressam a incomunicabilidade humana e coisas assim -, não se engane: Fim dos Tempos é pauleira pura. O grande barato do filme, no final das contas, é ver Shyamalan brincando feito uma criança retardada ou, vai saber, um psicótico sem os remédios: corpos caindo enquanto aparvalhados encaram, diálogos casuais que terminam em gargantas cortadas, além de pequenos arcos dramáticos de puro suspense que, se de início parecem prenunciar salvação pela nossa inteligência, acabam indo pro buraco quando um pequeno rasgo em um carro deixa entrar aquele maldito ar impregnado. O ser humano é impotente e a natureza implacável. Simples e terrível assim.

Tal qual um George Romero em dias inspirados, o indiano desenvolve muitos poucos personagens; a maioria que aparece logo morre após alguns minutos de aparecer em tela e os que restam não vão nos dizer muito a respeito, não vão compôr muitos trejeitos de métodos de atuação, nem nada. Vão ficar correndo de um lado para outro, desesperados em grupos cada vez menores… E mais cedo ou mais tarde terão um destino inevitável. Pura síntese do cinema B: ainda que tenhamos o popular e elogiado Mark e Wahlberg e a musa cult Zooey Deschanel e participação do quase onipresente John Leguizamo a coisa toda é tocada como se o orçamento fosse uma mixaria e os atores fossem zé-ruelas encontrados na lanchonete. A história que poderia ser pra lá de dramática concentra seus esforços, absolutamente na tensão, nas mortes mirabolantes e no medo de ser a próxima vítima. Sensação que o cinema mais polido e regido com ar professoral dificilmente consegue garantir.

Em suma, relaxa a bunda na cadeira e aproveita o fim do mundo. Quer algo mais sincero que isso?

4/5

Ficha técnica: Fim dos Tempos (The Happening) – EUA, 2008. Elenco: Zooey Deschanel, John Leguizamo, Mark Wahlberg, Alison Folland, Brian O’Halloran, Spencer Breslin, Alan Ruck, Betty Buckley, Robert Bailey Jr., Ashlyn Sanchez, M. Night Shyamalan, Jeremy Strong

– por Guilherme Bakunin

Shyamalan não é um cineasta preocupado em ser sutil. Ele se preocupa, de fato, com o subtexto, e não procura camuflar suas reais intenções. Sinais é um filme tão objetivo e tão escrachado em seu subtexto, que quase não é um mcguffin. Quase. Ainda assim, finge ser um intimista filme sobre uma invasão alienígena hostil.

Desarmado de sua fé após a morte da esposa, o ex-padre Graham Hess acorda um dia para encontrar estranhos sinais nas suas plantações de milho. Na busca pelos culpados, Hess e sua família vão tomando consciência que as origens destes sinais estão, muito provavelmente, fora do planeta Terra.

Desde Corpo Fechado, os filmes de Shyamalan constantemente extrapolam a diegese e tornam-se metalinguísticos na medida em que são ponderações a respeito da arte de se contar histórias (storytelling). Nesse sentido, o diretor não sai do didatismo na hora de constituir o corpo de seus filmes. Mas há o bom e o mau didatismo, e eu só posso supor que um filme de corpo didático precisa ter necessariamente uma intrincada relação imagética – Sinais certamente o tem.

Porém, Sinais é um filme cheio de paradoxos e incoerências, diegéticas ou não. A primeira é que, apesar de ser, em tese, didático na storytelling, parece ser completamente diferente de tudo que se faz nos altos escalões de Hollywood: quieto, sombrio, contido, emocional. Além do mais, é altamente simbólico. Não o tipo de simbolismo capenga referido por Susan Sontag como “tradução” (elemento A, na verdade, é elemento B), mas há uma compromissada e irrevogável relação entre os aliens e a invação alienígena e a fé e a manifestação do poder da fé.

Sinais parece ser um filme tão conformado com seu status de “simbólico”, que se permite até brincar com isso. Em uma cena significativa nesse sentido, a família Hess encara o feed de notícias da invasão extra-terrestre na televisão, e um dos personagens diz: “parece Guerra dos Mundos”. A invasão de Sinais não se parece, nem remotamente, com Guerra dos Mundos, mas a narrativa diegética que os personagens acompanham em escala global pela televisão talvez resguarde suas semelhanças. Apenas durante os poucos minutos que os seus personagens aparecem se inteirando de tudo que acontece do “lado de fora” que Shyamalan permite que seu filme se torne um sci-fi de gênero. Durante praticamente toda a metragem, no entanto, Sinais é um filme sobre fé, família e medo.

Ao colocar frente a frente o trauma de Graham e a invasão alienígena (embora haja um bom espaço de tempo entre os dois acontecimentos), cria-se logo a relação. Inicialmente, a ameaça alien vem, para o personagem, como confirmação da sua descrença – embora exista menos em Graham Hess de descrença do que uma enfática anti-fé. Ao confrontar-se com a iminência de, não apenas vida extra-terrestre, mas uma vida que é maléfica e hostil, Hess estabelece que todo o universo é igualmente hostil ou, na pior das hipóteses, indiferente.

É um caso de antítese similar a mencionada no texto de Corpo Fechado – mas a antítese aqui não está apenas contra os personagens, mas contra a manifestação da espiritualidade, que existe, em Sinais, como uma cicatriz de feridas que passaram. Como a fantasmagórica mancha da poeira deixada pela cruz na parede do hall da casa Hess, a espiritualidade dos personagens palpita, latente, os lembrando que perderam algo que possuíam.

Essa espiritualidade não é, de forma alguma, necessariamente teísta, muito menos cristã, mas se expande para adequar aos níveis de identificação de cada espectador. É o cosmos, simplesmente, atuando com ordem, sentido e significado.

Em Sinais, muito provavelmente é onde Shyamalan atingiu o apogeu na sua capacidade de causar terror. Tomando para si uma estética que mistura, em igual proporção, o melhor de Alfred Hithcock e de Roger Sterling (do aclamado seriado Twilight Zone, Além da Imaginação no Brasil). Com o espectador sempre um passo à frente dos personagens e através de uma visualidade tão contemplativa quanto incômoda, o medo está na sugestão de algo que não se vê, ou que se vê muito pouco e muito rápido.

Mas é no clímax que Sinais mostra que bebeu das fontes certas – em um plágio descaradamente derivado de Os Pássaros (de Alfred Hitchcock), a família Hess se prende dentro de casa, e pela sonoplastia temos a certeza de que a ameaça extra-terrestre se encontra ali, a alguns metros dos personagens. Pancadas, baques e gritos indecifráveis constituem o potencial da ameaça, empurrando seus personagens mais para o fundo (o porão), numa relação de desconforto inexorável e kafkiano. Quando os personagens não têm mais para onde recuar, eles explodem em desespero e asma, levando à tona (através do medo e do horror) o que existe dentro deles: a inocência de Bo (Abgail Breslin), a fragilidade de Merril (Joaquim Phoenix), e a insuperada morte da mãe/esposa, que causam em Morgan e Graham a procura de um culpado para levar significado aos mistérios inexplicáveis da existência da vida.

No pós-clímax, os personagens são conduzidos para a sala-de-estar, e encaram, frente a frente, o alienígena que age, provavelmente, motivado por uma desavença pessoal contra Graham (teve os dedos decepados pelo ex-pastor). É quando acontece o maior charme de Sinais: o escancaramento do mcguffin é também o twist (ferramente narrativa que estigmatizou o cineasta, em que uma coisa é revelada ser, na verdade, outra): os sinais que o título faz referência não estão nas plantações, mas são a derradeira manifestação da espiritualidade – sinais que a família Hess está sob a tutela de algo que existe evidentemente (os detalhes específicos não serão aqui mencionados, mas estão bastante óbvios na história).

Finalmente, é de substancial importância observar que, mais uma vez, a água aparece como elemento fundamental. Em praticamente qualquer gênero de simbologia, ela possui caráter expiatório e purificador. Em Sinais, ela é o elemento de definitiva salvação.  Mas o mais interessante é que, ao final, a família Hess é completamente redimida de suas má-formações, já que suas fraquezas (a asma, a força bruta, a ojeriza da água e a dúvida) se transformam em sua salvação. Redimir os personagens por suas fraquezas é aceitar suas limitações e falibilidade – consequentes do caráter humano.

Em Sinais ainda existe uma outra característica de extrema importância dentro da filmografia de Shyamalan: a essência do filme existe somente a partir do choque entre dois mundos paralelos – aqui, o mundo extra-terrestre choca-se contra o nosso, mas também o mundo espiritual choca-se com o natural, para restaurar a capacidade de Graham Hess em acreditar nas coisas. Não é, ainda, a mais eloquente investida de Shyamalan nesse sentido, e muito provavelmente falaremos mais sobre isso no texto de A Vila.

5/5

Ficha Técnica: Sinais (Signs)  –  EUA, 2002. Dir: M. Night Shyamalan. Elenco: Mel Gibson, Joaquim Phoenix, Abgail Breslin, Rory Culkin, Cherry Jones, Patricia Kelember, M. Night Shyamalan.

– por Guilherme Bakunin

Em todos os filmes de Shyamalan, existe um elemento que é rigorosamente sempre presente: o medo como conteúdo simbólico. Ao pegar emprestado a definição de mcguffin, que Hitchcock utilizava principalmente para ora driblar a censura ora filmar não apenas o suspense, mas também o amor, a violência, o sexo e o medo, Shyalaman trás em O Sexto Sentido um conto de incomunicabilidade: temos Cole, interpretado por Joel Osment, e sua mãe, interpretada por Toni Collette. O divórcio dos pais e a morte da avó criam, dentro da fria casa onde boa parte do filme acontece, barreiras de intransponíveis desintimidade. Como elemento simbólico dessa falta de comunicação, os dois mundos – dos vivos e dos mortos, que existem simultaneamente, que reagem um com o outro, mas sem interagirem.

Cole é um garoto peculiar de sociabilidade desajustada que vive com a mãe, quando começa a uma espécie de acompanhamento terapêutico com o aclamado psicólogo infantil Malcom Crowe (Bruce Willis). A essa altura da pós-modernidade, todos nós sabemos que o personagem de Willis é um fantasma que estava morto o tempo todo e, embora essa seja uma parte realmente impressionante de O Sexto Sentido, pois, à época, o cinema mainstream americano não tinha nenhum outro artesão do suspense com o brilhantismo em misce-en-scène de Shyamalan, a história é, realmente, sobre outra coisa, e os equívocos que geralmente são atribuídos ao filme (“a primeira assistida é inevitavelmente a melhor”) são, geralmente, fruto da uma percepção inadequada que foi vastamente propagada por toda a carreira do diretor.

Enquanto melodrama fantástico, não é difícil viajar em O Sexto Sentido. Viventes dentro de uma casa, mãe e filho têm dificuldades em se relacionarem. Como maior obstáculo dessa relação, fantasmas – figuras invisíveis resultantes de acontecimentos do passado. A ausência do pai, as experiências relacionadas à morte – da avó – criam a frieza desse relacionamento. E embora haja nesses dois personagens o desejo de serem espontaneamente abertos um com o outro, os elementos traumáticos do passado (novamente ressaltando, simbolicamente representados por fantasmas), atuam para engatilhar a desarmonia e a incompreensão.

Na verdade, ao redor dessa madonna and child, esses fantasmas estão tão estabelecidos, que as chagas tornam-se físicas, e em Cole, a criança que recebeu o jugo de perpetuar os traumas da mãe, os dois mundos colidem em feridas e em responsabilidade. E ao longo da história, e através do personagem de Bruce Willis que, não por coincidência, também age motivado por traumas, Cole aprende a lidar com suas atribuições, e numa grande cena do filme, se abre com a mãe, encerrando o ciclo do seu personagem na história. A última vez que os dois aparecem, eles estão abraçados e aos prantos, em perfeita sintonia com o que estão realmente sentindo.

Do outro lado da moeda, há a saga silenciosa de Malcom em busca da reconciliação da sua esposa e, embora Shyalaman não se ateie ao óbvio para narrar essa parte do seu filme, é realmente interessante na primeira ou no máximo na segunda vez em que se o assiste, já que todo o propósito desse arco existe em volta do twist final. Mas é sempre importante tornar o mais claro possível que essa saga pessoal do personagem de Willis é infimamente menos substancial do que o triângulo relacional que ele constitui com os personagens de Collette e Osment, que é, sem a menor dúvida, a essência definitiva de O Sexto Sentido, e o germe de toda a capacidade melodramática que M. Night expandiria com maior magistralidade em seus próximos trabalhos.

4/5

Ficha técnica: O Sexto Sentido (The Sixth Sense) – EUA, 1999. Elenco: Toni Collette, Haley Joel Osment, Bruce Willis, Olivia Williams.

– por Guilherme Bakunin

Minha memória não é muito precisa em relação a Olhos Abertos. Peguei o filme simplesmente empolgado com a ideia de ver todos os – disponíveis – do Shyamalan, e certamente fiquei surpreso. Olhos Abertos não passa nem de perto pela abordagem de Sexto Sentido ou Corpo Fechado, filme onde os garotos desempenham um papel fundamental na trama; é um filme desajustado, infantil na maior parte do tempo, mas abordando a morte como seu motim principal.

E nesse dilema prático o filme se perde; acompanha a história de um menino chamado Joshua, que (em flashbacks) perde o avô e tem que lidar com esse vazio ao longo do ano em casa e no colégio católico que frequenta. Existe certa precisão pra segurar uma história como essa, que insiste em não se decidir entre o infantil e o maduro, mas as coisas não se sustentam por muito tempo. O personagem da criança, Joshua, passa por uma crise existencial precoce, mas está inserido num universo distante, dificilmente identificável. Ao pautar-se na ingenuidade e na maturidade, o filme monta acampamento numa nebulosa região entre essas duas coisas, e na medida em que Joshua, a criança índigo protagonista do filme embarca irrevogavelmente na sua jornada em busca da fé, mais claros se tornam essa deficiência de alvo da história.

Há quem compare essa adocicada abordagem sobre morte e fé com os trabalhos de otimismo de Frank Capra. Porém, apesar do alto caráter universal contido nos filmes do mais clássico dos cineastas americanos, eles são obviamente produtos embalados para o consumo de um público adulto, e a abordagem de fé e esperança nunca é tão cruamente doce a ponto de causar repulsão. No filme de Shyamalan, as coisas estão sempre a meio caminho, portanto as crianças falam como adultos de pouca eloquência, professando um discurso não apenas superficial e juvenil, mas irritantemente ingênuo, e insubstancialmente eficaz para completar o ciclo da história.

Talvez por ter esse recheio insuficiente, Shyamalan opta por um plot twist no final, o seu primeiro, revelando que uma misteriosa criança que rondava o colégio era, na verdade, a forma encarnada de um anjo. Só através de uma revelação tão carnal é que Joshua é capaz de se convencer da prevenção divina. Importante notar duas coisas, que se relacionam, inclusive, com Sinais: a primeira é que, ao contrário do filme de 2002, nesse, Shyamalan pesa no caráter proselitista, o que em si já descontribui pra universalidade de público que ele desejara; a segunda é que o convencimento de Joshua vem através de um aparato secular, físico, carnal, diferente da ambiguidade divina manifestada espiritualmente em Sinais. É um contraste importante, que diz muito sobre os defeitos de Olhos Abertos, mas diz muito mais sobre as virtudes do seu diretor, que foi capaz de amadurecer temática e cinematograficamente.

Foi o trabalho de estréia do Shyamalan, a gente não possui muitas informações sobre o filme. Sabemos que o roteiro é do próprio Shy, que o vendeu para a Miramax e com muito esforço conseguiu dirigi-lo; seis milhões foram gastos no filme e menos de dois foram faturados. O fracasso comercial em qualquer filme não justifica sua qualidade, mas é muito compreensível porque Olhos Abertos não encantou o público. Complicado falar de crise de fé em um filme infantil, complicado divulgar um filme em moldes infantis para adultos. A história nós já conhecemos: apesar do fracasso comercial, Shyamalan conseguiu emplacar seu próximo roteiro por dois milhões, que resultaria num filme que conquistou mais do que 600 milhões ao redor do mundo todo. Pouco a pouco a carreira comercial de Shyamalan iria entrar em declínio, mas resta saber se a qualidade autoral de seus filmes desapareceu junto com essa queda.

Observação: este post foi originalmente feito no começo do ano passado, e passou por uma revisão antes de ser repostado em ocasião do especial.

2/5

Ficha técnica: Olhos Abertos (Wide Awake) – EUA, 1998. Dir.: M. Night Shyamalan. Elenco: Joseph Cross, Timothy Reifsnyder, Dana Delany, Denis Leary, Robert Loggia, Rosie O’Donnell, Camryn Manheim, Julia Stiles.