– por Bernardo Brum

A Máscara de Satã, de Mario Bava (1960)

Apesar de já ter seus antecessores – como Riccardo Freda, para quem completou alguns filmes – pode-se dizer que Bava e seu debut como diretor autoral que deu o pontapé para o “boom” dos filmes de horror da Itália. Muitos dos diretores conterrâneos, após a consolidação do estilo, passaram a se tornar “especialistas” e não apenas versáteis realizadores de encomenda, assim como o próprio Bava. O diretor e a atriz Barbara Steele formaram uma das mais consagradas duplas do horror nesta obra que combina o horror gótico expressionista da Hammer e uma antecipação da violência gráfica que tomaria de assalto a década seguinte. O início da violência hiper-estilizada italiana já demonstrava a sua força no preto-e-branco demarcado pelos filtros bruxuleantes de Bava, um verdadeiro artesão da luz, já inigualável à época de sua estréia.

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Prelúdio Para Matar, de Dario Argento (1975)

Após a trilogia dos Animais, Dario Argento  levou ao máximo o que Bava havia iniciado em Seis Mulheres para o Assassino e fez o grande filme do gialli, onde o assassinato é encenado de forma ritualística. Ao colocar o espectador no lugar do assassino, Argento costurou uma obra que nos torna cúmplices da obsessão pelo diretor de encontrar a catarse final da violência através de imagem e som.É uma obra onde assassino e investigador só existem por intermédio de quem assiste. Nós somos os olhos do covarde, que não hesitam em matar mas não querem ser pegos, e também somos os olhos do paranoico, arriscando a própria vida para conhecer algo que preferia não saber. O “profundo vermelho” reflete em suas poças fatais o lado feio de cada um.

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O Estranho Vício da Senhora Wardh, de Sergio Martino (1971)

Martino é a quarta via do cinema italiano após Bava, Argento e Fulci. O caráter mais narrativo de seus filmes não isenta suas obras de um caráter sombrio e alucinatório, onde em histórias de cunho contracultural (encenando o sexo livre, o consumo de drogas, os fetiches, o ocultismo) personagens perdidos e confusos tem o mesmo lado feio e imoral dos seus algozes. Senhora Wardh, interpretada pela musa Edwige Fenech, é o ícone do seu cinema – uma personagem que compartilha uma relação de prazer e dor com seu antagonista. Enquanto desenrola a trama sobre traição e conspiração, somos tragados à espiral de alucinações sadomasoquistas da protagonista, uma jovem burguesa perdida em seu papel social  numa sociedade em plena revolução de costumes. As lentes distorcidas do diretor  apontam para cantos escuros e situações fragmentadas e bizarras que só aumentam a sensação constante de perigo – os filmes de Sergio Martino são em toda a sua perturbação sensorial uma verdadeira bad trip de LSD.

Zombie eyeZombie – A Volta dos Mortos, de Lucio Fulci (1979)

A já clássica cena da porta arrombada sintetiza bem o cinema de Fulci: não estamos mais no terreno das imagens catárticas de Argento. Não há imagem definitiva. Há a imagem, pura e simples. Brutal, agressiva e rústica. A atmosfera de seu filme de zumbi feito para lucrar em cima do frisson em volta do Despertar dos Mortos de Romero trouxe zumbis tropicais de aparência pode e decomposta, com uma violência tão ou mais extrema que o filme do americano. O aspecto empobrecido do filme de Fulci, filmado na pressa e na fúria, só reforça a atmosfera menos fantasiosa que intentava tornar os zumbis mais críveis em toda a sua ameaça muito mais física que sobrenatural. Após esta obra, os filmes do italiano tornariam-se progressivamente mais irracionais e fragmentados, mas neste emblemático filme (que consagrou Fulci como artífice do gore) já há toda uma atenção especial dispensada mais às set-pieces do que propriamente à história em si. Essa sucessão de maneiras de se destruir um corpo humano garantiu um merecido e duradouro culto ao filme.

cannibal holocaustHolocausto Canibal, de Ruggero Deodato (1980)

Deodato, ao fazer o filme pioneiro do falso documentário de terror – no qual décadas mais tarde renderia diversos filhotes como a Bruxa de Blair, [REC], Cloverfield e Atividade Paranormal – também fez um daqueles filmes malditos, muito mais comentados do que vistos. A polêmica que rondou o filme, que fez inclusive Deodato ter que responder legalmente quanto à localização dos atores cujos personagens morriam no filme, rendeu alguns fãs célebres, como Sergio Leone. Em carta enviada a Deodato, o mestre do spaghetti classificou seu filme como uma obra-prima realista que seria, por causa disso, injustamente incompreendida. Relevando o superlativismo de Sergio, dá para entender o que o mesmo quis dizer: abandonados os filtros e refletores, abandonada qualquer temática sobrenatural e exagerando mais do que nunca na violência (providenciada pelos efeitos simples e verossímeis de Aldo Gasparri), tendo direito inclusive à matança snuff on-screen de uma tartaruga, Deodato fez um filme que era tônica dos anos setenta, onde a ideia era explorar o lado bestial da raça humana da forma mais gráfica possível.

house 3A Casa com Janelas Sorridentes, de Pupi Avati (1976)

A pérola esqueci de Pupi Avati é um caminho sem volta. Embalado em um ritmo de filme de investigação, o cineasta mostra a contraposição entre campo e cidade, mas invertendo o escopo que era praticado décadas antes, quando o campo era símbolo dos valores morais: aqui, segredos escondidos no tempo revelam uma cidade interiorana hipócrita e doentia, cristã e satânica ao mesmo tempo. A trama envolvendo restauração de imagem acaba trazendo consigo a ideia de acontecimentos e histórias que ninguém gostaria de saber – quanto mais testemunhar. E junto com o restaurador, iremos lentamente desencavar um final perturbador que não conseguimos ignorar com o nosso interesse mórbido. Essa perturbação culpada tão característica dos filmes metalinguísticos italianos encontra uma de sua expressões máximas aqui. Sem jamais deixar de insinuar o horror, A Casa com Janelas Sorridentes é brutalidade à conta-gotas.

Buio_OmegaBuio Omega, de Joe D’Amato (1979)

O apaixonado filme de D’Amato pode não ser o mais controverso da sua imensa filmografia – o posto pertence ao infame Antropophagous – mas com certeza bem que tenta. Se o filme com o gigantesco George Eastman promovia um verdadeiro bacanal da repulsão, o sensacionalista Buio Omega vai direto no campo da necrofilia. Longe de julgar o personagem, o próprio diretor caminha junto com o mesmo, num bizarro cruzamento entre Eros e Tânatos, onde a maioria dos corpos humanos despidos vistos são de cadáveres. A cinematografia simples e tosca é tão pervertida quanto seu protagonista, e é aí que reside a força de Buio Omega, que pode não conter avalanches de sangue, mas que por mostrar seu protagonista não como um vilanesco monstro mas sim como um ensandecido apaixonado ainda é uma cotovelada na boca do estômago ainda nos dias de hoje. Apesar de se gabar por sua violência extrema, ainda não vi nenhum dos “terrores de multiplex” ter coragem de dar close em um mamilo que fosse. Que dirá carbonizado….

nightmare-city2Nightmare City, de Umberto Lenzi (1980)

Poucos cineastas desse ciclo são tão “baixos” quanto Umberto Lenzi. Sem requinte, sem aprofundamento, apenas o interesse de chocar da forma mais sensacionalista possível. Não há um questionamento quanto a quem é o verdadeiro monstro, tampouco uma tentativa de desencavar os cantos mais obscuros da mente: apenas um profundo sentimento de misantropia onde o perigo está à espreita quase o tempo todo. Umberto foi pioneiro nos filmes de canibais, dirigiu um sem número de polizieschi e também adentrou no campo zumbi. Nightmare City possui zumbis que correm e usam armas bem antes de Extermínio ou Madrugada dos Mortos terem sua primeira linha de roteiro escrita e um fatalismo que evita a catarse e se interessa, unicamente, em catalogar uma morte atrás da outra, sempre filmadas da forma mais seca, apelativa e simplória. Não à toa, o cineasta é quase um sinônimo do cinema exploitation.

demons5Demons, de Lamberto Bava (1985)

A geração mais nova desse levante de cineastas já fazia filmes com caráter tardio e, por que não, revisionistas. Filho de Mario Bava, Lamberto fez em Demons um dos filmes de horror mais icônicos dos anos oitenta. Se antes Argento se preocupava em ser metalinguista sem propriamente tocar no assunto, Demons já manda a sutileza ladeira abaixo: a história do filme realmente se passa em um cinema onde o filme de horror salta da tela para a realidade. Uma temática recorrente, o fetiche pela violência de quem assiste é encarnado em um filme claustrofóbico onde, após um rápido início, o sangue é espirrado nos olhos de quem assiste quase o tempo todo, até um improvável heroísmo embalado pelo melhor do heavy metal oitentista. A experiência metalinguística de Lamberto é, no final das contas, um bem-humorado comentário sobre o hábito adquirido no último século de se entreter com imagens em movimento – inclusive da forma mais grotesca e gráfica o possível.

dellamorte dellamorePelo Amor e Pela Morte, de Michele Soavi (1994)

Depois de fazer pontas como figurante e ser assistente de direção de filmes de Lamberto e Argento e fazer um documentário sobre Dario, Soavi lançou-se com O Pássaro Sangrento em 1987. O slasher italiano foi o primeiro de uma série de quatro filmes que fez antes de um longo hiato que só teria fim em 2006. O mais marcante talvez tenha sido essa adaptação livre dos quadrinhos fumetti Dylan Dog, de Tiziano Sclavi. O detetive sobrenatural inglês transformou-se no coveiro Francesco Dellamorte, em um filme simbólico e angustiado. Uma espécie de Caronte cansado e confuso que tem de devolver os mortos aos seus túmulos. Uma metáfora dos anos 90, o filme mostra um protagonista e um mundo apáticos que só saem do seu estado de alienação geral com sexo e violência – para logo em seguida voltar ao tédio. As pitadas generosas de humor negro e surrealismo são o fio condutor de um filme tardio no horror italiano  – e um dos seus últimos – que refletiu a condição de um mundo alienado demais para se esbaldar na orgia sangrenta de décadas passadas. O cinema fantástico italiano, mais uma vez, relacionava libido e rigor mortis para comentar o absurdo do real de forma exagerada e grotesca. O prego de ouro na tampa do caixão.

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Desde representações literais do lugar onde, na simbologia cristã, o homem pagará por todos os seus pegados, até representações mais abstratas que trabalham com a ideia de terror absoluto. Existem inúmeras representações, no cinema, do inferno; eis as melhores segundo minha opinião.

(mais…)

por Bernardo Brum

Mario Bava, certa feita, disse que todos os seus filmes eram grandes bobagens. É de um humor negro fortíssimo que um homem que delineou tanta coisa enquanto estava em atividade (lançou sementes para o giallo, o slasher e o visual psicodélico/gótico dos filmes do Tim Burton e de determianadas obras de David Lynch como Veludo Azul e Coração Selvagem) e arquitetou a estética de todo o cinema de horror pós-Hammer, tornando-se um dos diretores mais referenciados e copiados do cinema recente, nunca tenha perdido o espírito de brincadeira fantástica que vem desde George Meliés, enquanto muitos que levam cinema muito mais a sério, como arte e coisa tal, produzindo obras mil vezes mais sisudas e ditas vanguardistas, tenham sumido nas areias do tempo…

Levando por esse lado, As Três Máscaras do Terror é outra dessas zoeiras revolucionárias de Mario Bava. E com o delicioso diferencial que aqui a intenção de brincar com cores, sons e expectativas está esfregada na nossa cara desde o início, desde a pomposa e sarcástica introdução feita pelo ícone Boris Karloff até um daqueles finais sacanas que só Bava poderia ter a idéia de filmar (e com toques metalinguísticos – novamente, mais para fazer graça do que para fazer você pensar cada segundo da sua vida – no final das contas, isto é uma piada, não se esqueça).

Nesses três contos que Bava dirige para formar um único filme nota-se quase que imediatamente o talento singular do assim chamado “Maestro do Macabro” para tecer tensão e angústia nas suas mais variadas formas. A primeira instância apresentada por Bava é bem mais “pé no chão” do que as outras: O Telefone seria, então, um dos precursores do giallo – mulheres européias sensuais, tramas bizarras, assassinatos ritualísticos, desfechos mirabolantes. Ao contrário das outras sementes de estilo lançadas pelo diretor em filmes como Olhos Diabólicos e Seis Mulheres Para o Assassino que se desenvolviam em vários lugares, com vários personagens e uma avalanche de acontecimentos enfileirados, Bava torna tudo o mais simples possível: três atores, uma locação e uma trama esperta, cheia de insinuações sexuais que hoje em dia parecem um tanto inocentes a nossos olhos já maliciosos e bastante funcional.

Tido como o segmento mais fraco, é para lá de bem-escrito e desenvolvido, além de criar sequências que mostram como se filma um suspense – como quando o diretor nos obriga a compartilhar com o assassino a sensação de ser um voyeur, invadindo o espaço da bela jovem com nossos olhos intrometidos. E não é que este seria um conceito exaustivamente explorado por Dario Argento em obras como Prelúdio Para Matar?

O Wurdulak é um conto nitidamente feito às luzes da literatura gótica, onde Bava, brincando habilmente com luz e som, cria uma atmosfera onírica de pesadelo que toma o espectador em questão de minutos. Adaptação do diretor de um conto de Tolstói sobre uma criatura vampiresca que bebia o sangue daqueles que mais amou em vida. Este “vampiro doméstico” é interpretado por ninguém menos que Boris Karloff, que mostra a razão de certos atores tornarem-se lendas: assim como Vincent Price, Bela Lugosi e Robert Englund, não é qualquer um que consegue ter uma presença magnética como a do ator. A maneira como ele controla sua postura, seus passos e sua voz tornam o Wurdulak uma criatura ameaçadora e ao mesmo tempo trágica. Quas nos faz esquecer que é um velho ator com maquiagem carregada.

Ancorado pelos jogos de luz de Bava, o conto se torna literalmente aquelas histórias de bicho-papão que nos assustava quando eramos crianças. Bava também não facilita; a cada vítima do vampiro,  o segmento revela uma sequência arrepiante atrás da outra, desde a chegada do personagem de Karloff até o desolador final, passando por sequências de literalmente apertar o coração – como a do menino trancado fora de casa. Uma verdadeira manipulação de expectativas e emoções que só mesmo alguém sacana feito Bava para conceber.

Por fim, A Gota D’água antecipa todo o (bom) terror moderno; um fiapo de história (uma enfermeira rouba a única jóia de uma recém-defunta e esta volta para se vingar) elevado ao mais puro terror sensorial: insetos, torneiras vazando e outras miudezas vão se somando para criar uma atmosférica tétrica. Os jogos de luzes expressionistas de Bava logo deixam tudo claustrofóbico. Até o espírito voltar de vez, nós já sabemos que há algo de errado há bastante tempo. Mais do que nunca, o demônio está com os (planos) detalhes; o italiano consegue impregnar qualquer coisa com uma aura de maldade  se assim desejar. Enfim, o mais visualmente elaborado dos três, onde a estética do terror italiano constrói uma narrativa profundamente rica, ainda que curta.

Ainda que não figure entre os melhores do Bava, sendo muito mais uma diversão tétrica do que qualquer outra coisa – inclusive, mais tarde, o diretor experimentaria elementos de cada segmento de forma mais impactante e definitiva; o que ele experimentou no segmento do Telefone seria mais aprofundado em Banho de Sangue e Seis Mulheres Para o Assassino; já os dois últimos lançariam sementes para O Ciclo do Pavor, Lisa e o Diabo e Shock – certamente não merece ser esquecido. Não apenas por ser fundamental para a carreira do próprio diretor, mas por já antecipar em dez anos tudo o que Argento, Fulci, Martino e afins aprontariam.

“Pronto. Não lhes parece que devia terminar assim? Com os fantasmas não se brinca, porque eles se vingam… Bem, chegamos ao fim de nossas histórias e agora infelizmente devo deixa-los. Mas tomem cuidado quando voltarem para casa. Olhem ao redor, olhem para trás. Cuidado quando abrirem a porta, não entrem no escuro… Sonhem comigo! Nós nos tornaremos amigos!”

–  Boris Karloff

3/5

Ficha técnica: As Três Máscaras do Terror (Black Sabbat/I Tre volti della paura) – França, Itália, Estados Unidos, 1963. Dir.: Mario Bava. Elenco: Boris Karloff, Michèle Mercier, Mark Damon, Lidia Alfonsi, Susy Andersen, Massimo Righi

– por Guilherme Bakunin

Em Terror nas trevas, Lucio Fulci delega para si uma das características mais marcantes de Mario Bava: o filme se concentra em torno da idéia da criação de uma atmosfera única e surreal de horror.

Sob esta lógica, tudo no filme pode fazer sentido. Não é como se a lógica narrativa fosse descartada em razão desse objetivo – a criação de uma atmosfera diferenciada -, mas este requer para si um sentido próprio. É por esse motivo que parece não haver linha do tempo nem espaço físico no filme. Corpos aparecem e reaparecem em lugares, tempos e circunstâncias diferentes, apenas para fazer fluir a narrativa, aumentando o terror na mente de quem assiste, e ainda de ressaltar o ponto ‘discutido’ por Fulci (mais uma vez, a atmosfera). Terror nas trevas é um pesadelo coletivo, e os espectadores compartilham deste sonho orquestrado pelo diretor, juntamente com os personagens.

O filme começa em 1927, onde um pintor é brutalmente torturado e assassinado (mas não antes de dizer que o hotel no qual se encontra é uma das entradas para o inferno) por o que parecem ser aldeões revoltados. Trata-se de uma cena forte, logo no inicio, que deixa claro a forma impiedosa como todas as personagens serão tratadas ao longo do filme. Após a morte desse misterioso pintor, a narrativa dá um salto de 50 anos no tempo e começa a acompanhar aquilo que seria os momentos finais de Liza – o que mais próximo podemos chamar de protagonista. Liza herdou o já citado hotel amaldiçoado de um tio que, para quem assiste ao filme, é anônimo. A história não dá rodeios: em menos de dois minutos, assustado com uma visão macabra de dentro do hotel, um pintor cai de uma plataforma e bate a cabeça. A partir desse instante, outros personagens nos são rapidamente apresentados para jamais serem devidamente desenvolvidos. Isso porque eles são meras peças que Fulci utiliza para glamourizar o gore, manipular a narrativa e criar um espetáculo para os sentidos. Não se trata de um filme que precisa ser detalhadamente entendido, pois é simplesmente baseado numa realidade alternativa ao próprio universo ‘normal’ da história (uma cidade no interior dos Estados Unidos) para adquirir significados próprios, que nem sempre podem ser traduzidos em palavras. É, de fato, um pesadelo.

Lançado em 1981, Terror nas Trevas não foi uma obra inovadora em nenhum aspecto, mas foi provavelmente o melhor filme do gênero e intenções utilizadas. Possui um trabalho autoral de Fulci na direção, que condensa a história em puro horror e objetividade, garante atuações aceitáveis e na dose certa para cumprir o objetivo de chocar, e trabalha de maneira inicialmente contida na criação ambiental para depois explodir com a as manifestações e eventos nos vinte minutos finais. Pode não ser o melhor trabalho de Fulci, mas com certeza tem força suficiente para figurar no topo de sua filmografia e consequentemente, entre os mais bem realizados filmes do cinema de terror italiano.

– ou aqui: Terror nas Trevas (Lucio Fulci, 1981) – Bernardo Brum [5/5]

5/5

Ficha técnica: Terror nas Trevas (E tu vivrai nel terrore – L’aldilà) – Itália, 1981. Dir.: Lucio Fulci. Elenco: Catriona MacColl, David Warbeck, Cinzia Monreale, Antoine Saint-John, Veronica Lazar, Anthony Flees, Giovanni De Nava, Al Cliver, Michele Mirabella, Gianpaolo Saccarola, Maria Pia Marsala, Laura De Marchi.

por Bernardo Brum

Perdido entre a fase mais narrativa – de O Segredo do Bosque dos Sonhos e Zombie – e a fase mais alucinada – com Terror Nas Trevas, A Casa do Cemitério, O Estripador de New York e A Cat In The Brain, está Pavor na Cidade dos Zumbis, uma obra de transição, com todas as qualidades e defeitos que obras do tipo carregam.

Aqui Fulci ainda mostrava-se, na falta de uma palavra melhor, contido. Percebia o poder violador que só o cinema tem, mas era só uma vaga impressão. Por várias vezes, fica nítida a impressão de abandonar a história de um espírito de um padre suicida que volta dos mortos e cerca uma cidade com seus poderes sobrenaturais junto a outros zumbis e apenas um grupo de quatro sobreviventes para tentar deter o mal, ou uma besteira qualquer dessas. O que acontece: sempre que o filme se desdobra mais sobre a história do que sobre as imagens, fica uma lenga-lenga interminável. E quando concentra toda a atenção em volta da atmosfera, do sangue, da nojeira, e enfim, tudo aquilo que entendemos por gore, cresce espantosamente.

Não que Fulci não soubesse dirigir da outra maneira – afinal, O Segredo do Bosque dos Sonhos com suas interpretações intensas, direção crua e roteiro sarcástico e filho da puta não me deixa mentir para ninguém. Mas Pavor Na Cidade dos Zumbis parece um tanto indeciso. Fulci não soube dosar o quanto queria de narrativa e o quanto queria de atmosfera. E, necessário salientar, a narrativa é algo muito pouco interessante.

Mas eis que o fime vai melhorando de pouco a pouco. Logo os zumbis (que estão mais para espectros) aparecem, some logo aquele papo mala de livro amaldiçoado, cidade amaldiçoada, grupo de xeretas investigando e coisa e tal e entrega, de bandeja, sequências incrivelmente tensas, assustadoras e angustiantes, para não dizer nojentas, repulsivas e de uma insanidade inacreditável; catalepsia, chuva de vermes, lágrimas de sangue, vômito do intestino, uma broca atravessando as duas extremidades da cabeça, além de um clímax quase lisérgico onde não se entende porra nenhuma, seguido por um final em suspenso. Quase não dá para lembrar que começou chato e continuou indeciso, para só se entregar ao completo absurdo em seu final.

Pena que Fulci só sacou lá para o final do filme que a maluquice, irrealidade e doideira casavam muito bem ao seu cinema. Então, depois das experimentadas, ele estava pronto; em 1981, viria Terror nas Trevas; e o velho Lucio, sentaria, enfim, no trono de Rei do Terror oitentista.

3/5

Ficha técnica: Pavor Na Cidade dos Zumbis (Paura nella Città dei Morti Viventi) – Itália, 1980. Dir.: Lucio Fulci. Elenco: Christopher George; Katherine MacColl; Carlo De Mejo; Antonella Interlenghi; Giovanni Lombardo Radice; Daniela Doria; Fabrizio Jovine; Janet Agren; Luca Venantini; Michele Soavi; Venantino Venantini; Enzo D’Ausilio; Adelaide Aste; Luciano Rossi; Robert Sampson; Lucio Fulci

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– por Guilherme Bakunin

O Segredo do Bosque dos Sonhos é mais uma das numerosas obra-primas produzidas na década de setenta e é um dos trabalhos mais elogiados do grande diretor italiano Lucio Fulci. Um mix interessante de faroeste, thriller e filme policial, a história se concentra em misteriosos assassinatos a crianças de um pequeno e supersticioso vilarejo no interior da itália.

À época do modernismo, o contraste feito por Fulci é bastante interessante. O vilarejo é tão atrasado e fechado em sua própria cultura mística, que tem-se a impressão de se tratar de um outro universo. Com o início dos assassinatos (primeiramente, três crianças são assassinadas), pessoas de outras cidades – dentre elas jornalistas – chegam ao vilarejo (localizado na região da Sicília), e tornam-se perplexos diante da cultura supersticiosa do povo. Um assunto tratado de forma no mínimo interessante pelo filme – direção e roteiro trabalhando em conjunto, para evidenciar esse ‘combate’.

O que mais se percebe no filme, apesar da boa história – que funciona não somente como crítica pertinente à época, mas especialmente como suspense mesmo -, é a direção magistral de Fulci. Com uma câmera objetiva e ágil, o diretor conseguiu empregar um ritmo maravilhoso ao filme – muito mais agradável do que os gênios italianos das décadas de 60 e 70 conseguiram ser. Lucio Fulci se dá ao luxo de inclusive flertar com o noir e com o expressionismo, dando à luz a um dos grandes filmes europeus da história.

Violência e horror nas doses certas, um orçamento médio para uma produção impecável, O Segredo do Bosque dos Sonhos é tido como um dos grandes trabalhos de Fulci, é angustiante, veloz e sincero, tendo servido de inspiração para grandes trabalhos dos nossos dias, inclusive a cena mais famosa (a tortura de Mr. Blonde) em Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino. Indispensável para os fãs e futuros fãs do gênero, e volto a dizer, um trabalho de direção e fotografia que devem ser invejados por quem trabalha no mundo cinematográfico.

5/5

O Segredo do Bosque dos Sonhos (Non si sevizia un paperino) – 1972, Itália. Dir.: Lucio Fulci – Elenco: Florinda Bolkan, Barbara Bouchet, Tomas Milan, Irene Papas, Marc Porel, Georges Wilson, Antonello Campodifiori, Ugo D’Alessio, Virgilio Gazzolo.

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– por Luiz Carlos Freitas

O filme já começa repentinamente com um homem misterioso atirando na cabeça de um desconhecido envolto em um lençol. Daí, os créditos com o nome do filme aparecem e a cena corta para um belíssimo enquadramento de NY vista de longe, com as (ainda de pé) Torres Gêmeas … Um barco à deriva navegando sem destino e uma música calma, bastante agradável que, em poucos minutos, serviria de contraste ao primeiro momento verdadeiramente nojento do filme e que já nos dá uma breve noção do que está por vir.

Incrível o quanto o Fulci é simplesmente genial por fazer um filme tão grande com tão pouco, afinal o elenco de protagonistas, com exceção do Dr. Menard (Richard Johnson), é de fazer vergonha de tão ruim (e o orçamento que não foi dos melhores). Mas isso é realmente insignificante aqui.

O que interessa mesmo são os demais detalhes de sua obra. A trama é simples e vaga, como de costume no horror italiano (salvo algumas exceções aqui e ali), mas a direção segura é um dos pontos mais fortes do longa, ao lado do apuro estético (outra característica dos filmes de horror italianos – o cinema no resto do mundo nunca usou tão bem as cores em filmes), com destaque à caracterização dos zumbis. Diferente dos de Romero (quer queira ou não, ele é o referencial para esse tipo de análise), que eram apenas pessoas com maquiagem azul ou branca no rosto, estes aqui se mostravam como cadáveres putrefatos. Isso, além de conseguir chocar mais o espectador com cenas bem mais nojentas, enriquecia o filme pela maior possibilidade de variar nas cenas. Em alguns momentos, temos zumbis normais, apenas com maquiagem pálida, outros bem mais ‘estragados’, com vermes nos olhos, alguns eram apenas esqueletos e outros faltando membros do corpo. Tudo feito do modo mais realista possível.

Algumas cenas são antológicas e merecem destaque aqui, como a do morto-vivo lutando contra um tubarão (!!!) no fundo do mar e a mais arrepiante e tensa do filme: a esposa do Dr. Menard (a belíssima Olga Karlatos – que vivera a mãe do contar Prince no musical Purple Rain) tendo seu olho varado por uma farpa de madeira. Outra sequência fantástica, é a dos mortos se erguendo de seus túmulos, em pleno cemitério.

Ademais, é a tradicional correria de sempre, culminando num embate direto na igreja, onde tacam fogo nos mortos (os zumbis caminhando lentamente mesmo com os corpos em chamas ficou lindão). Nem o fato de terem usado o mesmo plano da explosão umas 50 vezes seguidas diminui o momento (na verdade, até pode entrar como mérito, uma vez que demonstra a versatilidade do Fulci diante das limitações ao seu trabalho).

Para completar, o filme passa um contraste belíssimo da floresta agitada e sombria à noite partindo ao mar calmo durante o dia. Os protagonistas ligam o rádio e ouvem as notícias da invasão à NY.

E a cena mais ‘bela’ do filme: os mortos-vivos caminhando lentamente pela Ponte do Brooklin enquanto os carros passam por baixo, ao som da trilha sonora (que música fudida da porra) e o carinha berrando no rádio “Atenção! O perigo é real! Tranquem suas portas e aguardem por.. Hum? O que? Ah, não! Eles entraram! Aaaaaahh ….”.

Fulci, dois anos após, ainda faria aquela que é sua obra-prima definitiva: The Beyond (aqui no Brasil, com o título ridículo de Terror nas Trevas), um filme denso, de atmosfera insana e angustiante, dos mais brilhantes já feitos com na história do horror, fazendo frente até mesmo aos grandes clássicos do Romero (entenda “grandes clássicos” como os dois primeiros ”… Of The Dead”), Argento e Bava (só para citar – novamente – os mais importantes).

Mas é um crime ignorarmos a importância desse que é indiscutivelmente um dos melhores e mais revolucionários filmes de horror já feitos.

5/5

Zombi – A Volta dos Mortos (Zombi 2) – 1979, Itália/EUA. Dir.: Lucio Fulci – Elenco: Tisa Farrow, Ian McCulloch, Richard Johnson, Al Cliver, Auretta Gay, Olga Karlatos, Stefania D’Amario, Lucio Fulci, Ugo Bologna, Monica Zanchi.