– por Guilherme Bakunin

Os pilares sociais americanos são aniquilados pela subversão religiosa de uma família no interior dos Estados Unidos: eles não participam do Halloween. Ora, isso é um quase pecado para pessoas que são tão cegas pela tradição e que se recusam a deixar morrer o corpo doente de um país enfermo. O que a família de Phillip não percebe é que não se pode escolher. Eles serão obrigados a brincarem com o velho jogo do horror dos doces ou travessuras. O doce é a suculenta vagina religiosa da mãe e quem pede não é uma criança fantasiada, é um bandido de verdade. A mãe lhe devolve gelo, e repulsa. Então os bandidos optam pela  travessura. Butch e Terry Pugh são dois condenados que escapam da prisão no dia primeiro de novembro, logo após o Halloween. Eles procuram por carros para roubar e acabam dando exatamente na mesma casa que nós conhecemos no começo do filme – a de uma família de testemunhas de Jeová. Com o tumulto dos vizinhos, e a polícia bem perto de chegar, os bandidos sequestram Phillip e partem sem rumo para qualquer lugar na esperança de concretizar a escapada.

Abrem-se então as cortinas  para a história que Clint realmente deseja contar. Não se trata de um thriller envolvendo um sequestro de uma criança pois, na verdade, Phill não é de fato um cativo; por diversas vezes ele mesmo escolhe acompanhar Butch. Na verdade, Um Mundo Perfeito tenta falar sobre o conflito humano entre essas duas figuras tão díspares. Um quarentão condenado por assassinato e um garoto de seis anos testemunho de Jeová. O contato entre os dois é quase que uma abertura de um portal de viagem no tempo, já que podemos dizer que é o mesmo homem em dois momentos de sua vida. A infância, onde os traumas se instauram e onde o caráter é fatalmente moldado para a solidão; e a fase adulta, onde as consequências pelos pecados que ele não cometeu, mas que foram-lhe atribuidos são marcadas na flor da pele. É por esse ponto em comum que os dois sentem a necessidade de estar na companhia um do outro. E se agarram, na esperança de alguém que lhes compreenda, que lhes estenda a mão, em  um mundo tão imperfeito.

Não me interessa aqui se abordagem é melodramática demais. Um Mundo Pefeito é um melodrama existencial cabal, e não abre espaço para sorrisos ou esperanças. Antes, fada seus personagens a um futuro pessimista e necessariamente traumático, conturbado. As marcas de criação estarão latentes, apenas esperando o despertar da memória relacional. Tomemos como exemplo o segmento que dá início ao terceiro ato do filme, quando Butch e Phill vão parar na casa de uns fazendeiros negros. O homem covarde abusa de seu filho e isso desperta em Butch uma nostalgia dolorosa. Ele se torna imediatamente um psicopata, condição engatilhada por abusos que ele mesmo sofreu no passado. A intensidade dramática desse arco é sentida pelo espectador, pelo menos naqueles que ainda se permitem sentir ao ver um filme, graças ao esforços perspicazes de Eastwood para contar a história sempre do melhor jeito que ela pode ser contada. É através da sucessão de fatos e diálogos que compreendemos que Butch sofreu com a opressão de um sistema – no caso o familiar – da mesma maneira que Phill também sofre. É através da astúcia para contar essa história de forma lenta, direta e simples que o terceiro ato desse filme se torna um negócio extremamente épico, monumental. Barreiras do tempo são destruídas ali quando Phill toca o bandido, como reconhecimento de sua bondade e inocência. O sequestrado entende tudo o que o bandido passou e se sensibiliza com essa tragédia.

Quando Butch, ferido por Phill, tenta escapar da polícia, após libertar o garoto, este retorna para o bandido. Existe ali um único momento de bondade no filme. Um único momento de perfeição. Quando uma pessoa compreende a alma da outra e assim elas se conectam, o estado mais puro da sociedade se instaura. Família, poder,dinheiro, essas coisas tornam-se momentaneamente dispensáveis ao Homem e apenas a presença do outro deve bastar. Acho que esse deve ser o mundo perfeito do qual o filme faz referência. Não é bem isso, mas eu também não saberia como colocar. Me enxergo muito mais no Clint, interpretando Red Garnett, o policial responsável por mandar Butch adolescente a um presídio de menores. Ele já simplesmente não sabe de coisa nenhuma.

5/5

Ficha técnica: Um Mundo Perfeito (A Perfect World) – EUA, 1993. Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Kevin Costner, Clint Eastwood, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Paul Hewitt.

por Bernardo Brum

Visto por muitos como apenas um exemplar do que a Sessão da Tarde do Império de Roberto Marinho tem de mais memorável, Jurassic Park é isso aí: uma enorme referência – junto a Tubarão, Indiana Jones, Encurralado e outros – da excelência de Steven Spielberg quando o mesmo resolve não se levar a sério, relaxar e fazer um filme divertido à beça. E, curiosamente, feito no mesmo ano que o estadunidense quis ser levado a sério como artista e lançou o longo e dramático A Lista de Schindler.

Comentar Jurassic Park como o grande filme de aventura que é não é muito difícil. O filme é jogo ganho: efeitos especiais e sonorização de últma geração, elenco estelar e talentoso (entre eles, Sam Neill, Laura Dern, Jeff Goldblum e sir Richard Attenborough), clássica trilha de um John Williams no auge, uma computação gráfica orgânica como poucos conseguiriam gerar ainda que com o mesmo montante, tudo isso orquestrado por uma das mentes mais célebres do cinema que conseguiu tornar seu nome uma logomarca tão grande atualmente quanto Alfred Hitchcock e Frank Capra conseguiam ser décadas atrás: um sinônimo para a sétima arte.

Para a geração da década de 90, que testemunhou da queda do muro do Berlim até o auge dos grupos vocais chinelões, Jurassic Park é nada mais, nada menos, que um clássico eterno. É o que muitas gerações esperam que sejam cinema – é tradição que o cinema de Spielberg nunca confronte o espectador (e quando o faz, nunca de forma impactante), então voltemos a nossa atenção para a grande razão desse sucesso: a destreza e o timing com que Spielberg sempre trabalha no absurdo – no caso, dinossauros revivendo, fugindo do controle humano e tomando conta de uma ilha – e uma vez inserindo o espectador naquele universo, jamais voltando atrás, até o final.

E tome aventura, suspense, humor levemente negro, perseguição, gritaria… Uma grande vitória do cinema high-concept, que estendia para lém da película produtos como bonés, brinquedos, pôsteres e outras bugigangas colecionáveis e facilmente descartáveis, impulsionados por nada mais nada menos que a grande fórmula de gente como Howard Hawks de se fazer um bom filme – além da já clássica “três cenas excelentes e nenhuma ruim”, que o filme segue a risca – mas também a grande mescla de artifícios dramatúrgicos, da intensidade dramática à comédia histriônica, flutuando da sutileza – uma das coisas que tornam o filme inesquecível é como o diretor apresenta apaixonadamente cada bicho pré-histórico, desde a majestade do Braquiossauro ao terror da visão de um T. Rex, passando pelo calculismo frio (psicótico, se fosse humano) dos Velociraptors e a hilaridade de um Dilofossauro (que ataca o sabotador gordinho exibindo sua crista e cuspindo ácido) – até o frenesi total (quanto a isso, não é necessário lembrar demais – fugir de velocis; escalar cercas eletrificadas; tentar não entrar em desespero em frente a um predador bem maior que você), Stevie arquiteta lances que só alguém que estivesse se divertindo muito com aquela empreitada tão inacreditável conseguiria pensar, ancorado por toda a equipe – e os atores são um bom exemplo disso, uma vez que não constróem seus personagens e sim entendem suas criações como nada mais que arquétipos  (paleontólogo aventureiro, scream queen, traíra desajeitado, matemático curioso, velho sábio, crianças prodígio) responsáveis por dar foco e dinâmica à ação e fazer o espectador acompanhar o desencadear vertiginoso dos fatos.

Dito isto, vê-se que logo do início, desde a escolha do tema, Spielberg quis trabalhar distante da reconstrução estilizada que fez no mesmo ano em Schindler e desconsiderou verossimilhança, compromisso, credibilidade (são poucos os dinossauros que o diretor não tomou uma ou mais liberdades criativas) e pariu daí um dos grandes clássicos dos filmes-pipoca, mais um que ele pode juntar à sua coleção de êxitos de bilheteria e dizer que sim, ele sabe como envolver todo mundo nas suas brincadeirinhas, de trens desgovernados em fitas caseiras à última moda em tecnologia digital, e não tem vergonha de admitir isso. Ou é mentira que após anos de continuações caça-níquel e dramas de medíocres a excelentes, ele conseguiu lançar Guerra dos Mundos e Indiana Jones no Reino da Caveira de Cristal, filmes tão absurdos e divertidos quanto Jurassic Park e, mesmo em épocas de Michael Bay, Roland Emmerich e outros, ainda conseguiu levar uma parcela considerável de público para ver seu jeito de fazer aventura à moda antiga?

Pois é. Descanse suas preocupações intelectuais um pouco e vá correr de uns dinossauros. Tudo isso com o selo de qualidade Steven Spielberg.

4/5

Ficha técnica: Jurassic Park – O Park dos Dinossauros (Jurassic Park) – EUA, 1993. Dir.: Steven Spielberg. Elenco: Jeff Goldblum, Samuel L. Jackson, Sam Neill, Wayne Knight, Laura Dern, Richard Attenborough, Bob Peck, Martin Ferrero, B.D. Wong, Joseph Mazzello, Gerald R. Molen, Ariana Richards

– por Cauli Fernandes

No início, fez-se a sombra. Atravessando dezenas de tons de cinza, vemos uma mulher desconhecida chorando, ouvindo uma música que vem de um vinil que toca. Somente para nós, surge o título do filme, mas quase não é possível distingui-lo. A mulher continua lá, sentada, sofrendo e olhando para uma TV com estática. Ela parece um pouco absorta naquilo, como também indiferente, vendo aquelas pontos de luz.

E isso é só o começo, o batente da entrada. Corte após corte, passeamos por aposentos diferentes de algum lugar, de alguma cabeça, por algo dentro de algum ser vivo ou não, sem qualquer linearidade. É tudo luz, sons, cores, ruídos, sonho, uma experiência sensorial jamais vista, dando conta de contar… O quê? Não sei. As histórias não se encaixam, os delírios são delirantes demais, tentar amarrar os personagens em algo coeso é insanidade. Tem mafiosos, uma burguesa às voltas com as questões da vida, alguém que sofreu violência durante a vida de casada.

E coelhos. Homens com cabeças de coelhos. Coelhos com corpo de homens. Eles fazem um programa de TV, talvez um sitcom, sem conteúdo nenhum, mas que há alguém que ri, há. Eles transam, transam, transam para perpetuar a geração de besteiras. Em um momento, ouve-se alguém batendo na porta e um dos coelhos a abre. Vê o que era. Sai. Silêncio.

Laura Dern. Laura Dern. Laura Dern. Ela é uma atriz que mora numa casa dourada e bonita e faz um filme amaldiçoado. Ela recebe uma visita de uma senhora que diz que um menino abriu uma porta, diz que o filme tem um assassinato foda pra caralho, diz que se hoje fosse amanhã. E aponta o dedo para uma poltrona e não se sabe o que acontece, três mulheres, incluindo Laura, aparecem lá. De um segundo para outro. Esse é o espírito.

Onde estarão as prostitutas? Mostrando os peitos para Laura, fazendo a maior cena musical da história, transando com quem? Elas transam? São prostitutas? Elas devem vagar pelo mundo, feito fantasmas. Será que já morreram? Faça perguntas sempre, sempre, se não, não se sobrevive nesse mundo de gente louca.  Laura Dern foi conversar com alguém, em algum lugar bem alto, falar sobre espancamentos, ameaças, morte.

Pomona fica onde? Muito perto ou muito longe? É algum lugar capaz de se alcançar? Para Laura Dern, apunhalada, deve ser difícil. Mas mesmo assim, estão filmando-a. Gravando a morte para fazer arte. Ou dinheiro? Dizem “corta” e ela anda, quase flutua para chegar em algum lugar, atravessa sets de filmagem, atravessa olhares. Chega onde? Em algum fundo saturado de contrastes, em alguma sala atolada de memórias, desvarios, demônios. Laura Dern diz que ama alguém. Mais luz e escuridão.

Todos os impérios estão mortos. Os sonhos estão sempre vivos, guerreando, acima de tudo e todos. Mas o Império dos Sonhos ainda está vivo do que nunca. Soberbo, pulsando. Na tela de cinema? Sim, talvez. Os filmes conversam entre si? Qual seria o fruto de um debate entre Casablanca e O Iluminado? Janela Indiscreta e Scanners são amigos? A gente gosta dos filmes, mas será que eles gostam da gente? Esse século de cinema quer toda a humanidade morta, de miolo espalhado na parede? Perguntem para eles.

C’mon, baby.

Do the locomotion.

5/5

Ficha Técnica: Império dos Sonhos (INLAND EMPIRE) – 2006, EUA. Dir.: David Lynch. Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux