zatoichi

– por Michael Barbosa

Tem os filmes de samurai. Tem Kurosawa e Masaki Kobayashi, tem também Yoji Yamada e Takeshi Miike e tem os animes e tem muito mais. A figura do samurai, um dos grandes símbolos da cultura nipônica, foi explorado e recriado diversas vezes. Muitas delas no cinema. Eis que em 2003 se valendo de um dos samurais mais conhecidos dos japoneses e que já rendera entre filmes e séries; versões, continuações e prequels, mais de vinte Takeshi Kitano não tenta reinventar, mas apenas trazer algo que vibre novo, e a novidade aqui está nas personagens. Além do massagista-samurai-cego (sic) temos ainda uma dupla de gueixas vingativas – com direito a uma gueixa-travesti – e um amigo não muito esperto e no inimigo um mercenário de causa e nobre.

A história d’O Massagista, um homem cego com um apurado senso de justiça e habilidades incomuns com uma katana, é contada com um apuro e estilo louvável por Kitano. Se valendo de belos cenários, violência explícita – glamurizada e nunca gratuita – cenas de ação ágeis – aqui as lutas são resolvidas quando se saca a espada – e bem filmadas e um pra lá de típico humor pastelão e cheio de gags visuais típicos dos filmes de samurai mais “bem-humorados”, e até nisso ele é be sucedido, o vizinho que acha que é samurai e a absurda ideia de uma gueixa-traveco (essa por sua vez que é levada a sério) arrancam boas risadas e quebram o rítmo entre uma cena gore e outra de maneira muito virtuosa.

Pro bem ou pro mal há de se dizer que Zatoichi é bem menos empolado que outros filmes do diretor. Comparado à metalinguagem de Glória ao Cineasta este parece realmente um filme mais… Despretensioso diríamos. Se em Brother, por exemplo, ele fez a sua leitura da Yakusa e seus valores e dogmas aqui é “apenas” a sua e tão sua história de samurai e ele faz disso é uma experiência prazerosa ainda que a certa altura alguns flashbacks com propósitos elucidativos pareçam deslocados, na conclusão há ainda  um pouco de “filosofia oriental”, mas sem forçar a barra, fluindo naturalmente e – como não podia deixar de ser – com algum apelo cômico (afinal termina em um tropeção).

E no final, enquanto despeja na tela o desfecho da trama e releva verdades tão bem guardadas ao longo dela Kitano ainda faz questão de deixar algumas coisas claras e nos dá uma bela sequência musical, com música, danças e figurinos folclóricos e típicos. Zatoichi é – ao mesmo tempo – uma afronta e um ode ao samurai e ao que o cerca. Sua cultura. Takeshi bate e assopra com uma naturalidade e inspiração inacreditável.

4/5

Ficha Técnica: Zatoichi (座頭市) – 2003, Japão. Dir.: Takeshi Kitano. Elenco: Takeshi Kitano, Tadanobu Asano, Yui Natsukawa, Michiyo Ookusu, Gadarukanaru Taka, Yuuko Daike, Daigorô Tachibana, Ittoku Kishibe, Yoji Tanaka

A equipe agradece pela presença durante o especial. Altos recordes de visitas foram batidos, os comentários foram fartos, e o apoio, tanto dentro do blog quanto pelo pessoal do orkut e de outros blogs foi essencial pra isso. O que tem nos motivado a continuar com o blog, a presença cada vez mais ativa das pessoas acompanhando nossos textos, foi fato observado agora nesse especial. No especial Carpenter tivemos poucos comentários e visitas tímidas; agora, até pelo fato do tema ser bem mais amplo (afinal, quem é esse tal de Carpenter, que merda de escolha, né não) o ibope foi consideravelmente mais alto.  Só temos a agradecer mesmo a presença, leitura e comentário de todos vocês, e já afirmamos que projetos estão sendo arquitetados e já temos planos marcados para o início de 2010, na “cobertura” do Oscar e de outros festivais, como o de São Paulo, Rio de Janeiro, e quando tiver, Luiz Carlos promete uma cobertura completa do da Paraíba. Enfim, assunto pra ser tratado é o que não falta, e nossas intenções são sempre criar a interatividade entre leitores e escritores, como tentamos fazer nesse especial, ao criar a enquete com os temas pré-selecionados. Não preciso nem dizer que sugestão de diretores, filmes e de especiais são sempre muito bem-vindas.

Aproveitando o gás, gostaríamos de anunciar também que há mais um membro na equipe. Guarni, o chato, o poeta, o prolixo, nosso amigo rei do humor vai fazer parte do blog, com seus comentários sempre muito incompreensíveis mas (talvez por esse motivo?) muito inteligentes. Quem gosta de Kurosawas, Bergmans e cinema japonês em geral está a salvo. Quem gosta de “filmes medíocres de pouco ou nenhum conteúdo pragmático – Tarantino ou Scorsese são excelentes exemplos da mediocridade no cinema americano emergente” corram para as colinas.

Mais uma coisa: o podcast foi irresponsavelmente marcado para o dia 25, mas nem gravamos ainda. Garantimos, contudo, que vai sair, na próxima semana. Tentaremos gravar pela segunda, e se der, postaremos na segunda mesmo. Podem aguardar.

Feliz Natal e feliz ano novo à todos, e let it be.