– por Guilherme Bakunin

É impressionante, Walter Salles conseguiu ficar à frente de um projeto que iria adaptar um dos livros mais badalados do século XX sem nunca ter realizado nada realmente memorável. A Grande Arte, talvez, seja digno de nota, e eu particularmente gosto bastante de Central do Brasil por algum motivo, mas muita gente despreza. Certamente Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta e Água Negra são terríveis, e Linha de Passe eu considero especialmente desprezível, por ser mais uma daquelas coisas nas quais o Walles tenta penetrar invasivamente com essa alma de pseudo-radicant que ele possui, subvertendo valores e equivocando-se na compreensão.

Na Estrada é mais um desses filmes, o que é chocante, por três motivos. Primeiro, Walles parece bastante apaixonado ao referir-se ao livro. Segundo, se a produção escalou o diretor brasileiro pra levar à obra de Kerouac às telas, ele deve ter tido algum pitching ou algo assim, algo que desse aos produtores certa segurança. Terceiro, segundo o próprio Walles, ele percorreu a mesma jornada de Sal, Dean e companhia, para familiarizar-se com o percurso, permitindo um melhor registro cinematográfico da história.

Ainda assim, mesmo com essas e outras vantagens, Walles conseguiu filmar algo que, embora superficialmente fiel ao material original, é completamente o oposto “espiritual” e filosoficamente daquilo que ele pretendia. E eu não acho que Walles tenha errado de propósito: pra mim ele simplesmente é ruim a esse ponto.

Porém, a diferença entre adaptação e obra original não é necessariamente um problema. A questão é que o livro deu muito certo. Então entre as centenas de escolhas estéticas & narrativas que Walles e sua equipe tinham à disposição, permanecer com àquelas pertencentes ao livro traria melhores resultados para o filme que eles quiseram fazer. Ao se afastarem dessa obra original, o diretor e equipe assumem o risco de acertarem ou não. O não foi definitivamente o caso.

Em Na Estrada, abre-se o filme de forma interessante, com a voz em off de Sal, o protagonista-narrador, entoando uma canção folclórica sobre desapego enquanto a câmera enquadra seus pés andando por diversos tipos de solo. Créditos. Então, Sal pega carona com algum caminhoneiro, e na caçamba, alguém lhe pergunta “você está indo para algum lugar, ou apenas indo?”, e Sal responde “apenas indo, eu acho”. Sal & filme encarnam essa postura de espírito livre e desbravador, sem uma diretriz definida para toda a vida.

O primeiro problema surge aí. Essa noção desaparece logo depois no filme. Raramente existe a impressão de que os personagens estão realmente na estrada. Eles parecem sempre estar em algum lugar bem definido, em interiores, fazendo alguma coisa.

Um segundo grande problema é que Walles nunca consegue expressar seus personagens sem o recurso literário (diálogos e narração). Dessa forma, praticamente todos os personagens carecem de empatia, pois a história é longa, os tipos que Sal encontra pelo caminho são numerosos e ninguém tem muita chance de realmente aparecer e marcar. Cabe ao espectador, portanto, assistir à distância personagens que se apaixonam uns pelos outros, num ato de fé de que eles poderiam se comportar dessa maneira, mas sem jamais entender o motivo dessas paixões.

Logo no início, por exemplo, um dos amigos de Sal e Carlo Marx (um dos personagens mais importantes do filme, e um dos mais marcantes, muito por causa de seus diálogos voluptuosos e a boa atuação de Tom Sturridge) anuncia que “Dean está em Nova York”, e os três disparam em direção à casa do sujeito, em alta expectativa, como se estivessem prestes a conhecer a pessoa mais sensacional do mundo. E eles realmente parecem conhecer a pessoa mais sensacional do mundo, embora o espectador não descubra exatamente o porquê, já que o Dean de Walter Salles não passa de um alcoólatra ignorante e vagabundo.

Essa falta de tato para lidar com personagens permanece como o status quo o tempo todo e durante todo o filme, o espectador é posto tão à distância de quem aquelas pessoas realmente são (e o que elas realmente querem), que as cenas parecem flashes de um sonho de algum desconhecido.

É compreensível que Na Estrada seja assim. Seus personagens viveram um momento específico da história/mitologia americana: os anos 1950. Quase sessenta anos depois, Walles e sua equipe parecem ter se obstinado a não apenas contar a história de Sal, Dean, Marylou e outros, mas usar esses personagens como reflexos de décadas da história: os beatniks dos anos 1950, a liberação sexual dos anos 1960, a ressaca flower power dos anos 1970.

Não me espanta, portanto, que Na Estrada tenha sido um filme ruim. Walter Salles nunca soube trabalhar muito bem com personagens, porque é um diretor idiossincrático, “poeta”, e quanto mais viciosa é a estética de um diretor, de uma maneira geral, menos representação é dada aos seus personagens (por exemplo, qual casal é mais tangível: Bonnie e Clyde de Arthur Penn, ou Pierrot e Marianne de Godard?). Além do mais, com a ambição de não apenas narrar uma história (ie estória, no sentido narrativo), mas usá-la como analogia para falar da História, Walles troca as mãos pelos pés e termina fazendo um filme longo, cansativo, apático e desconfortável, já uma das grandes decepções de 2012.

* Observação: a partir de um momento no texto eu comecei a me referir a Salles como Walles, provavelmente porque boa parte da resenha foi escrita durante as fatídicas wee hours; simpatizei com o apelido e mantive, especialmente porque fiquei com uma preguiça imensa de mudar.

1/5

Ficha Técnica: Na Estrada (On the Road)  –  EUA/França/Brasil, 2012. Dir: Walter Salles. Elenco: Sam Riley, Garret Hedlund, Tom Sturridge, Amy Adams, Viggo Mortensen, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Steve Buscemi, Terrence Howard, Elizabeth Moss, Alice Braga.

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por Bernardo Brum

Primeira vez. Primeiro porre. Primeiro carro. Primeiro emprego. Primeiro fora. Todas essas nuances, que dividem homens e mulheres de garotos e garotas, devem ser enfrentados por qualquer um. A adolescência é um período constrangedor, estranho e difícil, porém ainda divertido, frenético e com cheiro constante de novidade. Não somos mais inocentes, mas ainda não estamos “machucados” e cínicos.

Infelizmente, o cinema mainstream – principalmente o norte-americano – pouco parece se interessar sobre essas milhares de camadas, esses ritos de passagem que só significam grande coisa para o indivíduo que tem de enfrentar, esse literal batismo de fogo tragicômico não tão fácil de sobreviver sem carregar traumas e marcas para a vida toda. Na maioria das vezes, o mercado inunda o público-alvo juvenil com bombas travestidas de contos de fada ou aventuras escatológicas, sexualizadas e absurdas. Mas, de vez em quando, aparece algo tipo Férias Frustradas de Verão.

Greg Mottola teve uma evolução simplesmente surpreendente de Superbad – É Hoje para esse filme. Se o primeiro, ainda que com todo o vocabulário pesado e piadas escrotas ainda conseguisse falar sobre a amizade masculina na juventude de um jeito sincero que não se costuma ver por aí, este é um retrato para lá de sensível não apenas sobre um ou dois jovens – mas sobre a maioria deles.

Não me entendam mal; ainda há as piadas bestas, porque sem elas não se vive. Momentos sem noção como o patrão de Adventureland ameaçando arruaceiros com um bastão de beisebol; o amigo idiota e sem noção que passa o filme inteiro socando os testículos do protagonista; o esforço do mesmo para se enturmar contando para qualquer um à vista que é virgem e distribuindo baseados para a turma do trabalho. Mas o viés aqui é outro; é uma obra bem mais dramática e bastante angustiada para uma comédia supostamente leve.

Claro, dá para deduzir que não é como Bergman, chegando às raias dos maiores problemas da existência; mas quem, lá pelos 15, 17, 19 anos nunca se sentiu perdido e preso? Oprimido por família, escola e relações trabalhistas; sem saber o que vai fazer ano que vem ou mesmo no final de semana que vem.

Os personagens serão protagonistas de pequenos dramas – Além de ter que juntar dinheiro em Adventureland para tocar sua vida em outra cidade para frente, James terá que enfrentar a escolha entre a garota que ele caiu de quatro, mas que tem um humor para lá de volúvel, e a gostosinha sem muita coisa na cabeça. A tal maluquinha com flutuações de humor, Em Lewin, encara a madrasta autoritária e ressentida e um relacionamento com um homem bem mais velho. Eles não correm distantes; a todo tempo os problemas se chocam e criam problemas  aonde não deveria ter e nunca estão realmente preparados para nada. Ainda são jovens, com todos os problemas do mundo para enfrentar. James e Em tem um relacionamento tão bonito quanto confuso, e assim é com cada um dos personagens exóticos que monitoram o parque de diversões Adventureland.

Música alternativa desenha a trilha sonora, não apenas sublinhando mas também fazendo parte da história. Todo esse romance complicado (e qual relacionamento na adolescência não o é?) começa com Pale Blue Eyes, do Velvet Underground. Teremos ainda Just Like Heaven e Sattelite of Love; dois hinos de ídolos anacrônicos que passam longe de compôr um filme indie como as dezenas que entram  em evidência hoje em dia.

Férias Frustradas de Verão também é alternativo, mas de forma diferente: é uma digressão da maioria do que tem sido feito em solo americano. Pouca caricatura explode em tela; os tradicionais personagens de alívio cômico jamais sobrepujam a situação complicada que vivem os protagonistas. Há um bom tempo que não víamos, daquele canto do mundo, uma tragicomédia tão sensível e segura, capaz de ser leve e pesada ao mesmo tempo. Mottola não pesa a mão na direção em momento algum, e o filme flui fácil feito água, ainda que no caminho tenha que se misturar a algumas bebidas destiladas…

É compreensível que ultimamente ande todo mundo vacinado contra as comédias americanas; é possível aceitar alguma comédia depois de Billy Wilder, Jack Lemmon e Peter Sellers terem partido e todos os novos ícones incensados do gênero estão mais preocupados em fazer filmes baseados unicamente em peidos, bundas e maconha? Difícil, mas não impossível; aquele que se aventurar pelo rio de emoções orquestrado por alguém que entende do riscado e compreende as alegrias e dramas de seu público alvo ganhará um retorno muito grande. Ainda existe uma luz no fim do túnel, se de vez em quando algo do nível deste filme for lançado no circuito e no mercado. É ver e ficar bêbado, chapado, estropiado ao lado de James, Em e Greg sabendo que lá no final esses batismos de fogo devem ter servido para algo, afinal de contas.

4/5

Ficha técnica: Férias Frustradas de Verão (Adventureland) – EUA, 2009. Dir.: Greg Mottola. Elenco: Ryan Reynolds, Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Wendie Malick, Jack Gilpin, Margarita Levieva, Bill Hader, Kristen Wiig, Kelsey Ford, Michael Zegen, Ryan McFarland, Martin Starr

por Bernardo Brum

A não ser que você seja extremamente careta, The Runaways é um filme bem básico e despretensioso, que não fere ninguém (a não ser Lita Ford, que provavelmente deve ter ficado bem fula da vida por ser retratada como uma coadjuvante na história toda que, quando se manifestava, era como uma verdadeira evil bitch…).

Basicamente, segue a mesma fórmula de Ray, Johnny e June, A Fera do Rock e demais filmes sobre as grandes personalidades da música: a pindaíba antes do sucesso, as inovações conceituais-estéticas que trouxeram, o pico da fama, os amores, as drogas, a crise, a decadência… E a volta por cima. Mesmo os leigos já testemunharam essa fábula de glória, decadência e superação mais de dez, vinte ou trinta vezes.

E novamente ela é repetida aqui – com a diferença que ao invés de abordar um ícone que todo mundo conhece o alvo foram as Runaways, musas undergrounds que ao montar uma banda de hard rock só de garotas, foram tremendamente influentes – seu legado para a posterioridade influenciou a maioria das mulheres que fazem rock nos dias de hoje. Bem mais que apenas o vozeirão de Janis Joplin, as garotas eram música, atitude, visual e estilo de vida; tudo orquestrado e vendido genialmente pelo produtor (e pedófilo de macaco) Kim Fowley – aqui vivido de forma muito divertida por Michael Shannon – tornando as noviças rebeldes, freqüentadoras de boate e com problemas de família em roqueiras más e badass.

O erotismo constante das suas letras, o figurino ousado de Cherie Currie  (que já se apresentou só de lingerie) e a atitude “macha” e agressiva de Joan Jett transformaram a banda em uma lenda. O filme, por ser baseado na autobiografia de Cherie, não recria a lenda por inteiro;  apenas dois anos loucos e intensos vividos pela vocalista tendo que aguentar desde a hostilidade de machos chauvinistas que achavam que mulheres deveriam ser groupies, não formar uma banda até a egotrip estimulada por uma mania pela banda no Japão.

No meio tempo, tem chapação rolando solta, Dakota Fanning e Kirsten Stewart tendo um rendêvú e uns rocks da melhor estirpe, indo das próprias Runaways aos ícones Bowie e Iggy Pop. Fora a parte que me agrada como tarado profissional (Kirsten Stewart tocando guitarra, fazendo cara feia, simulando sexo com metade do elenco, acendendo um cigarro na guimba do outro e usando “fuck” como ponto final é demais para a minha libido resistir, afinal de contas), é o feijão com arroz de sempre. Mas com atrativos. E que beleza de atrativos, rapaz…

2/5

Ficha técnica: The Runaways – Garotas do Rock (The Runaways) – EUA, 2010. Dir: Floria Sigismondi. Elenco: Kristen Stewart, Dakota Fanning, Michael Shannon, Alia Shawkat