far from heaven

– por Guilherme Bakunin

Haynes propõe uma experiência: um filme aos moldes dos anos 1950, mas que agora põe luz a questões que eram tratadas com obscuridade em décadas passadas. O conflito de raças (numa era ainda pré-direitos civis) e a homossexualidade são as duas questões que o diretor & roteirista escolhe como pontos centrais da trama. Julianne Moore interpreta Cathy, uma dona-de-casa prestigiada e ultra dedicada ao marido, Frank (Dennis Quaid). Cathy encontra, porém, seu marido beijando um outro homem, e a partir deste momento, as bases de tudo que sustentava sua vida cedem irreparavelmente.

O que eu interpretei: a história de Haynes se situa em um universo onde todos os pilares sociais existem por mera percepção & ilusão; todas as coisas que fazem os personagens felizes são, na verdade, apenas reflexo da ilusão de felicidade que os personagens possuem; essa ilusão ocorre por ignorância, por inocência ou por desprezo.

Por exemplo: é bastante óbvio, desde o começo, que Frank acumula certo desprezo por Cathy (e a personagem pode ser realmente irritante com seus carinho e atenção exarcerbantes), e ela não reconhece desprezo nele, por ignorância de fatos que ela viria a descobrir. No momento em que ela descobre que seu marido é, na verdade, homossexual, a brilhante atuação de Moore não deixa dúvidas que, por mais que Cathy tente ignorar ou reprimir a ciência daquilo que já sabe, as coisas não são e não poderão voltar a ser o que eram antes.

Outro ponto que Haynes faz questão de ressaltar é a misoginia daquele universo, a Hartford dos anos 1950. Misoginia praticada não apenas por homens, mas também pelas próprias mulheres. Repetidas vezes Frank comete adultério, mas Cathy é amplamente rechaçada pela sociedade (representada aqui por seu grupo de amigas) porque, desconfiam, ela teria cometido adultério com Raymond. Obviamente, o suposto adultério não é a única questão para o isolamento a que Cathy é induzida. O fato de que Raymond é um homem negro certamente é levado em consideração. Mas ainda assim existe claramente uma relação fatalmente desigual de direitos e deveres entre homens e mulheres.

Por isso o filme de Haynes é tão impactante. Quando se vê um filme dos anos 1950, não se vê machismo, racismo, intolerância. Até nos trabalhos mais subversivos de Sirk ou Nicholas Ray, o conflito americano da guerra fria é maniqueísta, homens brancos maus versus homens brancos bons. A violência e a desigualdade social americana eram temas abordados, principalmente porque essas questões são reais para qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Não há porque negar a violência, pois todos, independentemente de preconceitos ou origens, convivem com ela dia após dia.

Questões civis, porém, raramente eram mencionadas e por isso era como se não existissem. Longe do Paraíso poderia ser um filme moderno e de época. Poderia falar sobre os anos 1950 através de uma perspectiva do novo século, mas Haynes se recusa a fazer isso. Ele não apenas emula Douglas Sirk, ele se torna um contemporâneo seguidor do diretor. A experiência a que me referi no primeiro parágrafo não é apenas narrativa porque Longe do Paraíso dificilmente é apenas um filme (sic). É uma máquina do tempo. Nos transporta de volta a um lugar a que não pertencemos, um lugar preenchido por tudo que é velado e oculto, e lança luz na escuridão para fazer a revelação surpreendente: os tempos provavelmente não mudaram.

Ao final, Cathy lida com o preconceito, desconfiança e intolerância. Assiste, pasma, todas as solidificações da sua vida desmancharem no ar e descobre que, como em qualquer outra época, antes ou depois, ela é apenas uma pessoa que, como qualquer outra, está completamente sozinha.

5/5

Ficha técnica: Longe do Paraíso (Far From Heaven) – EUA, 2002. Dir.: Todd Haynes. Elenco: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert, Patricia Clarkson, Viola Davis.

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por Guilherme Bakunin

Eu acredito que Minhas Mães e Meu Pai tenha o propósito bem claro de falar a respeito dessa dinâmica social em que duas mulheres são perfeitamente capazes de formar uma família, uma família que não possui nada de muito especial, a não ser pelo fato de que são duas mulheres mesmo. Todos os problemas que o filho, as mães e a menina, terminando no clássico ‘mãe(s), tou indo pra faculdade’ já foram feitos, refeitos, vistos. No cinema, na televisão, na nossa vida. É tão importante mostrar essa normalidade cotidiana, que a diretora Lisa Cholodenko, que honestamente eu nunca ouvi falar na minha vida, faz questão de quase não mencionar homossexualismo.

Aí entra o dilema a respeito  do filme: a história abusa de clichês e de normalidade com o óbvio objetivo de ressaltar a normalidade de uma relação homossexual. Mas ainda sim, o filme se baseia em pressupostos batidos e pouco  criativos. E aí, é bom ou ruim? O que vai fazer o espectador ficar sentado durante cem minutos assistindo ao filme? O que o filme de Lisa Cholodenko oferece ao público além de sua premissa?

Aparentemente nada. Uma história sem gosto e sem cheiro que fala sobre como Jules (Julianne Moore) começa a se sentir subjulgada pelo sucesso profissional de sua parceira, Nic (Annette Bening) ao passo que seus dois filhos, Laser (Josh ‘abc-do-amor-ponte-para-terabithia’ Hutcherson) e Joni (Mia ‘alice-no-país-das-maravilhas’ Wasikowska) conhecem o seu pai, Mark ‘doei-esperma-sou-vegan-e-namoro-uma-pretinha’ Ruffalo. E entrada do personagem de Ruffalo na vida da família vai desestruturar as bases tida como sólidas nas relações entre mães e filhos, trazendo à tona as incertezas de Jules em relação a sua própria vida e ao casamento, e a suposta necessidade dos filhos de uma figura paterna.

Mas não se preocupem, o estrago não vai ser muito grande. Eventualmente Anettão vai mandar Mark Ruffalo de volta pro seu flat no coração ecologicamente correto de Los Angeles, vai perdoar a esposa, vai mandar a filha pra faculdade, e vai continuar transando pela casa ao som de Joni Mitchell, regada a pornografia homossexual masculina, vinho do porto e modernidade. Eu não sabia que o filme era tão ruim antes de começar a escrever isso daqui. Diante de uma folha em branco, a gente acaba percebendo que até pra criticar o aborto de Lisa Cholodenko é vazio e preguiçoso. Enquanto a gente assiste, é bem possível se deixar levar pela ilusão de que se trata de uma história bacana, porque o elenco interage muito bem, o grupo de atores é excelente, mas acredito que diante dum olhar -um pouco- mais crítico, o filme não se mantém em pé.

2/5

Ficha Técnica: Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right) – EUA, 2010. Dir: Lisa Cholodenko. Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson, Yaya DaCosta.

ou aqui: – Minhas Mães e Meu Pai (2010) – Bernardo Brum [4/5]

por Bernardo Brum

De início, Minhas Mães e Meu Pai parece, além de mais uma comédia indie (com direito a trilha sonora rebuscada e referências pop), um pretexto para que suas principais atrizes, as reconhecidas e premiadas Julianne Moore e Annette Benning atuem livres e desimpedidas em um filme despretensioso, feito com pouco orçamento, poucas locações e uma história resolvida, basicamente, na base dos diálogos. Mas, entre as piadinhas inspiradas, o filme cresce dramaticamente e o que a desconhecida Lisa Cholodenko (que não filmava há seis anos) nos oferece é um filme, obviamente, menor e pouco ambicioso, mas nem por isso menos sensível ou honesto.

A história de duas mães lésbicas, Jules e Nic (Moore e Benning, respectivamente) que acabam entrando em crise no casamento quando seus jovens filhos querem conhecer Paul,  o doador de esperma – seu pai biológico – encarnado na figura de um galante boa vida por Mark Ruffalo, que acaba por seduzir uma das mães, é contada de forma direta e simples, na lata. Joni e Laser, os filhos, uma CDF introspectiva e um atleta que só anda em más companhias mal sabem as risadas e as lágrimas que os esperam quando conhecem Paul.

O elenco é afiado feito uma faca – são só seis personagens e uns três ou quatro coadjuvantes que, juntos, não somam mais do que quinze minutos em tela – apoiados por uma direção segura que, discutindo uma família moderna e pouco tradicional e todos os problemas que envolvem juventude, como sexualidade, uso de drogas, o primeiro porre, a primeira paixão, a transição entre a infância e a vida adulta, entre escola e faculdade, enfim, nunca de forma preconceituosa. É uma família como qualquer outra, e o tom geral do roteiro transmite isso – pode ser uma família pouco ortodoxa, mas ainda é uma família como qualquer outra, com seus problemas, sofrendo da falta de diálogo, suas preocupações com os filhos, e assim vai.

Objetivo e direto em suas intenções, com alguns diálogos hilários (principalmente vindo de Paul – Ruffalo compôs um sem noção excelente) e arcos dramáticos muito bem resolvidos, Minhas Mães e Meu Pai é um filme gostoso de se assistir. Daqueles que passam bem estar mesmo tendo lá seus momentos dramáticos. Tem suas falhas, é claro, mas o resultado no geral é tão agradável que é difícil condenar o filme por não desenvolver mais ali ou aqui. E afinal de contas, um filme em que os protagonistas cantam Joni Mitchell na mesa de jantar não poderia ser ruim.

4/5

Ficha técnica: Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right) – EUA, 2010. Dir.: Lisa Cholodenko. Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Josh Hutcherson, Yaya DaCosta, Mia Wasikowska, Kunal Sharma, Rebecca Lawrence, Amy Grabow, Eddie Hassell, Joseph Stephens Jr., Joaquín Garrido