por Bernardo Brum

A vingança. A reação mais quente e passional presente em nosso instinto. Agressiva e desvairada,  com um toque de destruição e pestilência que só piora através dos anos, décadas e séculos. Um dos sentimentos que o ser humano mais está familiarizado desde seu início como humanidade, a retribuição já foi tema de inúmeros filmes, nos mais variados graus qualitativos.

Exemplos mil surgem à cabeça, como a mega-estilização de Kill Bill e Bastardos Inglórios, a estranheza crônica de Oldboy ou a força bruta e tosca de um Desejo de Matar. Bravura Indômita, readaptação dos Coen do livro de Charles Portis (a primeira havia sido de Henry Hathaway, com John Wayne no papel central, lá nos idos 1969), é outro que vem a somar nessa longa fileira da justiça com as próprias mãos.

E acrescenta como nunca a essa espécie de “subgênero” com uma maturidade e controle do que se filma só adquiridos depois de anos esculpindo tempo e espaço de uma forma toda particular. Bravura Indômita não tem medo de se longo, de se demorar no desenvolvimento das relações entre seus personagens, de apostar em leit-motivs, de jogar luz em detalhes escabrosos, intercalar a árida imensidão e a carniceira escuridão, e de destilar aquele misto de humor negro e tensão que impera em cada filme dos manos.

É incrível como o faroeste se encaixa desde o primeiro momento dentro das obsessões Coenianas. Bravura Indômita é um filme sobre uma terra sem lei onde vivem pessoas perdidas que nem de longe lembram o sonho americano (o tipo de personagem favorito dos irmãos, como ladrões interioranos de E Aí Meu Irmão, Cadê Você? e os losers viciados em boliche de O Grande Lebowski). É dessa terra que saem o federal alcoólatra Rooster e a menina Hattie, que quer encontrar de qualquer maneira o assassino do seu pai.

É um filme que de maneira nenhuma quer ser um faroeste clássico (até porque é um gênero que está desfalecendo; dá pra contar nos dedos quantos filmes relevantes do gênero foram produzidos desde Os Imperdoáveis). Apesar de haver concessão para os tiroteios que o gênero pede, o filme se constrói basicamente por palavras: discussões, brigas, alianças, separações e conspirações. A violência, quando vem, é ao gosto de seus diretores: bruta, seca e explícita.

Esqueça a adaptação anterior; Bravura Indômita é um filme encaixado nos novos tempos e não só o gênero como o cinema mudaram demais para que se possa traçar uma base decente de comparação. A adaptação dos irmãos é vista sob o prisma dos valores modernos – o mesmo tom derrotado, cinzento e duro de Fargo e Onde Os Fracos Não Tem Vez.

A dicotomia dos Coen é ambígua: se por um lado eles reforçam o tempo todo o contraste entre experiência e inocência encarnados no velho e na garota, também mostram-se os tons de cinza: esse homem tão destemido e impiedoso é um doente, um guerreiro movido por álcool que pouco sabe fazer além de rastrear e matar; a garota teve sua adolescência roubada no momento que lhe tiraram o pai. O Texas Ranger que acompanha os dois não é de forma nenhuma um mediador, e sim, mais outro para reforçar os conflitos: arrogante, espalhafotoso e orgulhoso, pouco disposto a respeitar qualquer um dos dois, seja o velho caolho ou a pirralha pentelha.

Esta não é uma obra apenas sobre declínio de valores, como grande parte dos faroestes revisionistas fizeram: Rooster passa a ver na chacina o único jeito de se provar o valor para a próxima geração, encarnada em Hattie. É um mergulho a fundo nesse tal sentimento citado no início do texto, onde os diretores esmiuçam como é cansativo, desgastante e quase enlouquecedor se entregar numa caçada sem tréguas atrás de alguém que fez algo contra você.

Pouco une os personagens nisso além dos cem dólares prometidos pela menina: e é agarrando-se nisso que dois derrotados cheios de gana darão o troco em um mundo árido que pouco fez além de tirar entes queridos e apresentar vícios. O bode expiatório é o assassino, Tom Chaney.  Suas roupas negras e a cara manchada por pólvora denunciam: ele é a própria injustiça a ser enfrentada – e, como bem prova o final da obra, nunca totalmente compensada.

Terminando duro e seco, em duas ou três cenas que resumem toda uma vida, a idade não trouxe nenhuma experiência, apenas amargura. O que restou para aquelas pessoas além da vingança? Agora um ser cinzento, Hattie pouco fez além de tudo aquilo. A retribuição pagou uma vida? Compensou outra? Novamente, eles não respondem, novamente eles tiram nosso chão. Tudo o que resta é a lembrança de pólvora e sangue manchando uma vida inexperiente. Vidas marcadas pela violência, em uma terra violenta. E o significado de tudo isso? Novamente, o vazio.

5/5

Ficha técnica: Bravura Indômita (True Grit) – EUA, 2010. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: Matt Damon, Jeff Bridges, Barry Pepper, Josh Brolin, Leon Russom, Paul Rae, Domhnall Gleeson, Hailee Steinfeld, Ed Corbin,Elizabeth Marvel

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– Guilherme Bakunin

O Woody Allen de 2010 não é o que ninguém esperava. Não é ruim, como os detratores do diretor insistem em comentar, e tão não tá perto de um Vicky Cristina Barcelona ou de um Dirigindo no Escuro. É completamente regular em todos os sentidos, diverte, é bem escrito, tem bons personagens, mas é um trabalho incompleto, preguiçoso.

O arco do personagem vivido por Josh Brolin bem que se aproxima dos áureos tempos do Woody. Um escritor que só emplacou um livro tem a chance de pôr as mãos numa intocável obra-prima de seu amigo quando este entra em coma, justamente quando pensa que sua vida está caminhando pra dias melhores – separou-se da esposa e agora vive com a exótica amante chama Dia. O problema é que esse é o final do final. Nada de errado com tudo o que passou para que Allen chegasse até aqui, o problema está naquele negócio que a gente vê no começo de Annie Hall: a vida é muito ruim, e vem em pequenas porções. É sempre bom  ter um novo filme do mais autoral dos cineastas que hollywood já teve notícia (pronto, eu disse), mas ultimamente as porções estão cada vez menores. O resto do filme é bem interessante também: Helena é uma simpática velhinha bebedora de whisky que fica emocionalmente abalada com a repentina separação, iniciada pelo marido, que se recusa a envelhecer. Naomi Watts é a esposa de Josh Brolin, que consegue um emprego de secretária do Antonio Bandeiras, e choquem-se: se apaixona por ele, ao passo que o Bandeiras também enfrenta problemas conjugais, mas ao invés de enxugar suas lágrimas no delicado ombro inglês de Watts, chega junto na gatíssima Eleanor Gecks. E Hopkins (agora ex-marido de Helena) fica noivo de uma prostituta.

Sem dúvida são pequenos recortes que já foram visitados nos outros filmes do Woody, mas tudo bem, e essa vibe soapopera é bacana, sempre dá certo com o Almodovar, e quase sempre funcionou pro Woody Allen também. E o cineasta sabe fazer cinema, sabe montar um filme, escalonar o drama, a comédia, sabe criar personagens e colocar atores para vivê-los, e pouquíssima gente por aí conseguiu atingir o que Allen atingiu em direção de atores, e não é agora, depois de 40 anos, que ele ia falhar. Não, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos não é uma grande história, mas é muito bem contada. Jogando com seus clichês, Allen transforma psicólogos em videntes, finais felizes em desastres emocionais, egoísmo em comédia (Naomi Watts explodindo com a mãe no final é uma cena a ser estudada, psicanalíticamente falando), e texto em imagens. São as trocas de olhares, o voyeurismo, os incríveis e claustrofóbicos planos-sequência, que um espectador mais desatento talvez nem perceba, que darão a fluidez pra que o filme passe tranquilo, sem grandes abalos, mas também sem grandes emoções. Fica a felicidade de continuar vendo a história de um personagem tão tocante quanto o Allen sendo feita, e a expectativa pra que, finalmente em Paris, a gente tenha mais um daqueles filmes dos anos 70 ou 80 que todo mundo adora.

3/5

Ficha técnica: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger) – EUA, 2010. Dir.: Woody Allen. Elenco: Gemma Jones, Pauline Collins, Anthony Hopkins, Naomi Watts, Josh Broling, Freida Pinto, Antonio Bandeiras, Ewen Bremner, Lucy Punch.

por Bernardo Brum

Encarado com menos cinismo do que é habitual, O Homem Sem Sombra levanta uma interessante questão: o rótulo de “filme B” é uma condição ou um estado de espírito? Melhor falando, os filmes considerados desse filão só podem ser considerados como tais quando tem orçamento minúsculo e falta de caras conhecidas pelo grande público, ou ao longo dos anos, o que era uma condição virou, ao criar seu nicho de público, suas abordagens em comum e ícones cult de algumas gerações, uma identidade singular de um tipo de cinema que deixou de depender do dinheiro colocado em sua produção? Os cineastas que fizessem a transição das películas “pobres” para o grande mercado da tecnologia de ponta e das grandes estrelas eram considerados apenas um nome nas fichas técnicas ou levariam para o alto escalão as características de estilo que o destacaram, atributos esses que muitas vezes não combinam com as tendências mercadológicas da indústria cinematográfica?

Visto por esse lado, a última película rodada por Paul Verhoeven em terras americanas é, incontestavelmente, um filme B: gore escatológico, atuações canastronas, cenas softcore aparentemente gratuitas e um claro espírito contracultural que o holandês carrega desde seus exploitations polêmicos e melodramas escandalosos, ainda que cercado de estrelas como Elisabeth Shue, Josh Brolin e Kevin Bacon e equipado com um dos trabalhos mais orgânicos (ou, se não quiser chegar a tanto, “bem elaborados”) de computação gráfica desde o surgimento de tal tecnologia. Um filme que, ainda que produzido por encomenda de uma grande produtora (e com todas as limitações narrativas que esse modo de produção impõe), não deixa de lado o espírito de filme de fundo de prateleira de videolocadora.

Como é comum no que acontece  nos filmes B, O Homem Sem Sombra foi considerado por grande parte do público mais uma subversão, ou melhor, uma corrupção da obra do ilustre romancista científico H. G. Wells, assim como nos anos cinquenta foi produzido o hoje já muito ultrapassado Guerra dos Mundos (refilmado, cinco décadas depois, com o mesmo espírito de Verhoeven de “podreira de alto orçamento” por Spielberg) e A Ilha dos Homens-Peixe, versão altamente esquizofrênica do italiano Sergio Martino de A Ilha do Dr. Moreau.

Em comum com este último, O Homem Sem Sombra tem a semelhança de tomar uma série de liberdades em relação a obra original e dar motivos de sobra para os fãs da obra original criticarem a sua pouca fidelidade e má qualidade evidente por ser “de estúdio”, atendendo mais às vontades de produtores do que aos questionamentos que o livro suscitava.  Se é por isso ou por outro motivo, esta livre adaptação de Verhoeven se atém apenas ao pensamento básico: de que o ser humano seria naturalmente “podre”.

Para Wells, qualquer cidadão de bem, quando visse que a lei não poderia mais capturá-lo, iria perder totalmente a noção de superego e exposição e fazer o que bem entendesse. Para Verhoeven, um indivíduo arrogante, desprezível e medíocre (apesar da sua extrema inteligência, ainda se vê preso a uma hierarquia de patrões) sairia de controle assim que fosse retirada de si uma das trava morais mais básicas: a de que “o inferno são os outros”. Ele nunca havia sido um bom indivíduo que caiu nas garras da corrupção – mas sim um verdadeiro filho da puta que nunca foi além por medo de passar décadas na cadeia ou ganhar uma pena de morte. A palavra usada no título (“hollow”, vazio, oco) denuncia a principal intenção do que Verhoeven queria retratar: ele já era alguém sem nada por dentro muito antes de sumir da vista de todos.

Assim, a preocupação do diretor não é a de quantos homens seriam corrompidos com esse “dom”, mas sim quantos indivíduos potencialmente nocivos finalmente veriam-se livres de suas amarras. Tônica de várias outras de suas obras: muitas pessoas, com um pouco de poder a mais, logo tornam-se hostis e arrogantes. Ou seja, indivíduos que, caso fossem agraciados com mais poder, logo agiriam de maneira totalitária, homicida e brutal.

Mesmo em um filme em que suas “asinhas” de estilo, narrativa e conteúdo são seriamente cortadas, Verhoeven não poderia deixar de perder a oportunidade de fazer suas gracinhas gorecore: Kevin Bacon realiza o sonho de todos que já se imaginaram invisíveis, vendo mulheres nuas sem elas saberem que ele está por lá provavelmente descascando a banana e aprontando mil e umas sacanagens pelas ruas (como assustar crianças e entrar na casa dos outros sem convite), além do cruel humor negro envolvendo cenas particularmente fortes (o surto histérico que o protagonista tem com um cachorro é tão tenso quanto hilário). Verhoeven fez, sem a produtora perceber, um filme B “travestido” – como diz a sabedoria popular, certos hábitos são difíceis de largar. Especialmente se os velhos hábitos envolvem nudez feminina e sangue em profusão…

3/5

Ficha técnica: O Homem Sem Sombra (Hollow Man) – 2000, EUA. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Kevin Bacon, Josh Brolin, Kim Dickens, Elisabeth Shue, Steve Altes, William Devane, Rhona Mitra

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– por Luiz Carlos Freitas

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Premiações de ‘Melhor Filme’ tanto podem ser o empurrão à fama como ao abismo para uma obra. Exemplos não faltam, indo da mega-produção Titanic, de James Cameron (verdadeiro sucesso à época, mais pela penca de Oscar’s arrebatados que por sua qualidade em si) ao mais recente O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan (as especulações acerca do Oscar póstumo de Heat Ledger contribuíram para que o longa encabeçasse numa velocidade sem precedentes a lista das maiores bilheterias da história). Todavia, o efeito inverso tem tanta ou mais força ainda.

Lançado em 2007, Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Ethan e Joel Coen, sofreu bastante com a fama adquirida à época de seu lançamento, levando multidões a saírem decepcionadas dos cinemas após verem que não se tratava de um “novo suspense de um assassino cruel em uma caçada humana cheia de sequências eletrizantes de ação”. Entretanto, essa definição não se mostra nem um pouco incoerente. O grande problema à luz da maior parte do público é o modo como isso é apresentado. Temos aqui talvez o maior representante da já característica quebra das convenções cinematográficas sempre presente no cinema dos Coen, tão perigosa ante esse público acostumado às formulas de fácil assimilação quanto corajosa.

A trama [aparentemente] é sobre Llewelyn Moss (Josh Brolin), um ex-combatente do Vietnã que, numa tarde de caça no deserto, depara-se com um cenário de morte, aparentemente uma chacina promovida por traficantes mexicanos. Em meio aos corpos, encontra uma bolsa com alguns milhões de dólares e, sem pensar muito, foge do local com ela, passando a ser perseguido por Anton Chigurh (Javier Bardem), assassino extremamente frio e cruel contratado pelos traficantes para recuperar o dinheiro. Em seu encalço está o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones – personagem que também narra os acontecimentos do filme) e Carson Wells, um segundo assassino contratado para encontrar Llewlyn e Anton e garantir o retorno do dinheiro (uma vez que Chigurh poderia não ser tão confiável).

O “aparentemente” acima, além de uma observação mais que pertinente quando se trata de uma obra dos Coen (as tramas de seus filmes geralmente são pouco mais que um pretexto para desenvolver e [des]construir seus personagens), já serve também para refutar o principal argumento de 97,12% dos detratores da obra: não, esse não é um filme sobre um cara de cabelo engraçado correndo atrás de uma mala.

Aliás, a tal mala é o que o mestre Hitchcock chamaria de McGuffin, um determinado elemento dentro da trama (objeto, indivíduo ou acontecimento) que tem, à primeira vista, grande importância dentro da obra, mas que serve apenas para desencadear uma série de acontecimentos maiores que tragam à tona a verdadeira ‘mensagem’ do filme. Dizer que o filme é sobre a caçada a uma valise é o mesmo que afirmar que Janela Indiscreta é sobre um assassinato na vizinhança, O Poderoso Chefão conta a história de uns carcamanos mafiosos, Blade Runner fala sobre robôs assassinos revoltados ou que A Mosca é sobre um cientista que vira um monstro.

Hitchcock nos levou, a partir de um possível assassinato no prédio da frente, à mais perfeita viagem metalingüística já filmada sobre a força do fascínio do cinema em nossas vidas; Coppola construiu uma das mais completas análises das relações de poder na sociedade; Ridley Scott nos brindou com um sci-fi referencial sobre fé e religião; Cronenberg fez, por meio da escatologia, uma brilhante relação entre o avanço da tecnologia e a regressão dos valores humanos. Aqui, Joel e Ethan Coen tornam esse objeto primordial para o desenrolar dos fatos e, ao mesmo tempo, o fazem quase completamente irrelevante perto do que realmente eclode após seu desaparecimento. Seu papel era dar início a uma onda de violência e brutalidade que, assim como a enorme sombra negra que cobre o deserto logo na primeira cena do filme, inevitavelmente se apodera de nosso mundo pelos motivos mais variados e (numa conclusão assustadora) cada vez mais insignificantes. A famigerada mala é tão irrelevante que o entendimento dos fatos não seria alterado mesmo que dentro dela tivesse Césio 137 ao invés do dinheiro (ou mesmo se ela não tivesse seu conteúdo revelado).

Após essa breve análise, pode-se perceber que esse não é um filme tão ‘fácil’ como boa parte do público esperava. E não só pela mala, mas também pela construção dos personagens, todos carregados de uma simbologia tão complexa quanto próxima de nosso entendimento.

Começando pelo assassino Anton Chigurh, largamente ridicularizado por seu visual esdrúxulo, é fácil um dos personagens mais viscerais do cinema, tanto pela interpretação do Bardem (indiscutivelmente a melhor de sua carreira – até agora) quanto por seu ar emblemático. Ao mesmo tempo em que mata sem maiores remorsos (atentem à estranha arma de ar-comprimido que ele carrega durante o filme – usada normalmente para abater animais, mostra o quanto a vida de um homem vale tanto quanto a de uma vaca), possui um questionável código de honra regido por um jogar de moeda. Tem as expressões de um demônio em contraste com seu estranho corte Chanel. É cruel em essência, mas carrega inconscientemente certa ‘doçura’ (a pronúncia de Chigurh é quase idêntica a de ‘sugar’). Isso tudo o distancia da imagem de um assassino comum, dificultando a cada nova aparição uma possibilidade de identificação com um ser real, tornando-o mítico, até.

Porém, mesmo sendo o personagem de maior destaque dentro do filme, não se destaca tão largamente ante os demais. Tanto Josh Brolin quanto Woody Harrelson merecem a referência (mesmo esse último não tendo tanto tempo em cena quanto os demais). Até Tommy Lee Jones, que aparece bem pouco, merece destaque, haja visto a importância de seu personagens (de todos, aliás – mas isso será citado mais adiante).

As glórias maiores nem devem ser direcionadas às interpretações (por melhores que sejam), mas ao conjunto como um todo. A interação entre os demais personagens e os elementos cinematográficos concede à obra ainda mais força. Os Coen imprimem aqui seu maior exercício de direção até então, firmando-se definitivamente entre os maiores gênios de qualquer esfera cinematográfica. Fica difícil saber o que é mais poderoso numa análise individual (sem cair novamente em elogios a já citada construção de personagens).

A mise-en-scène é espetacular. Incrível como eles conseguem aliar a riqueza de conteúdo a um forte apelo visual e, dadas algumas atmosferas, sensorial. Da fotografia aos elementos em cena (a própria arma de ar do Chigurh parece ter vida própria – as sombras ou recantos de paredes nunca tiveram tanta importância antes em nenhum de seus filmes). A ausência de trilha nem chega a ser sentida, uma vez que até a respiração ofegante dos personagens são mais que suficientes para embalar as cenas (vide a perseguição no deserto ou nas ruas da cidade). Eles fogem dos preceitos do estilo, mas fazem uso dos mesmos com maestria quando necessário, provando que possuem total domínio dos elementos cinematográficos e escapando da subversão pela subversão simplesmente, evidenciando mais ainda seu compromisso com o cinema.

Mas voltemos à trama. Não ao que está ali, explicitado em qualquer sinopse do filme, mas no que há de verdadeiramente representativo, que está por trás de tudo e realmente motivou às ações e omissões dos envolvidos. O que diabos essa correria toda quer dizer afinal? Várias são as interpretações sobre, e apegar-se apenas a uma delas pode ser um erro. O fato é que há uma grande dose de violência transpirada por cada frame. Não a violência física explícita, muito além: assim como Anton carrega certa doçura em seu nome, os demais trazem consigo a brutalidade de uma degradação moral tão crescente quanto inconsciente. Temos vilões, mas não verdadeiros heróis, e isso graças ao meio em que tudo ocorre.

Indo mais além, os quatro personagens principais representam mais que classes ou posturas sociais. Alegoricamente seriam os quatro elementos principais da existência da humanidade: Chigurh seria a morte, implacável e que sempre segue seu curso, independente de quem esteja em seu caminho (nem mesmo uma mulher grávida tem seu perdão), não podendo ser detida por contra-propostas ou argumentos, apenas por um lance de sorte (a moeda que oferece as mesmas chances de viver ou não); Llewlyn é seu maior (e eterno) oponente, a vida, e sua odisséia após adquirir a mala seria o início de nossa jornada de fuga que inicia com o nascimento (ele começa a preparar sua fuga logo que pega a maleta, mesmo sem saber se alguém iria atrás dele – seriam os anos da inocência em que ainda não sabemos do destino inevitável a todos?).

Wells representa a redenção ou, numa concepção que todos nós conhecemos bem, a religião, que entra na trama para apresentar a Llewlyn uma forma de salvação por meio da renúncia, quando diz que ele poderia escapar de seu algoz se desfazendo do dinheiro (não por acaso ele entra em cena quase na metade do filme ou, no caso, da ‘jornada’ de Llewlyn – valores religiosos são adquiridos com o tempo, não se nascem com eles). Ele também mostra que, apesar de certo conforto, ela ainda não pode impedir o decurso da morte (o diálogo desesperado entre ele e Chigurh – um dos tantos pontos altos do filme – evidencia isso).

Por último (e talvez o mais importante), o xerife Ed Tom, a voz da justiça e, tal qual, em maior parte do tempo, faz as vezes de narrador e espectador, transitando em paralelo a tudo que acontece, tentando dar sua visão imparcial e, como esperado de si, mediar. E seria ele bem a representação do título do filme que, originalmente traduzido, seria de uma terra ‘onde os velhos não têm vez’. Ele representa a necessidade da renovação dessa justiça, a inevitável inversão dos valores. O mundo deveria evoluir de acordo com o que se tem por ‘justo’, não o inverso (como ficara cada vez mais evidente), onde os conceitos do que é justo deveriam se adaptar à sociedade (mesmo que esta esteja cada vez mais podre e corrompida).

Bem, à parte do virtuosismo da direção dos Coen e das interpretações do elenco principal, estes acima de qualquer crítica, essas foram minhas modestas impressões sobre a obra e seus significados. No fim há um pessimismo enraizado que se manifesta mesmo nas situações de acalento (como no diálogo de Llewlyn com a sogra: “Não se preocupe, tudo vai ficar bem!”“Como vai ficar bem? Eu tenho câncer!”) e que acabam, ao término dos quase 130 minutos de projeção, convergindo e ratificando seu título original: cada vez mais o mundo se corrompe e se você quiser continuar nele, tem de se corromper também.

Pode soar excessivamente pragmático e, realmente, o é. Evoluímos tanto e nos distanciamos dos animais para, no final, acabarmos regredindo ao ponto de sermos abatidos com tanto desdém quanto a uma vaca, e se você for um dos ‘fracos’, não irá muito além de um mero espectador e terá de se contentar com a justiça ‘dos velhos’ somente em sonhos como os de Ed Tom no final do filme, mesmo sabendo que, assim como o velho xerife, toda e qualquer forma de esperança irá findar em um “… e aí eu acordei!”.

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PS.: Ainda assim, todos têm o direito de gostar ou não. Mas, por favor, que venham com um argumento que  não seja “é só um filme sobre um cara de cabelo fálico correndo atrás de uma mala!”.  É o mínimo de respeito que essa obra-prima merece.

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5/5

Ficha técnica: Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men) 2007, EUA – Dir.: Joel e Ethan Coen – Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Stephen Root, Kelly Macdonald, Garret Dillahunt, Tess Harper, Barry Corbin, Beth Grant, Gene Jones.