por Bernardo Brum

Na pele do escritor protagonista Peter Neal e do assassino cuja face só iremos ver na última cena, Argento põe em choque duas forças primordialmente opostas, e talvez justamente por isso, tão facilmente confudidas (a velha história dos dois lados da mesma moeda): a criação e a destruição. Pulsões de sexo e morte são jogadas na cara do espectador o tempo todo por meio de assassinatos encenados com uma obsessão ritualística não vista nem nos filmes anteriores do próprio Dario. Concentrar, de uma vez só, algoz, vítima, diretor e espectador através da câmera: Tenebre é, portanto, o grande exercício de metalinguagem de Dario Argento.

O interesse vem obviamente do fato de Dario filmar e problematizar a metalinguística do assassinato. E  o diretor utilaiza-se justamente de nosso interesse para, por mais de uma vez, nos levar da culpa ao êxtase – e vice-versa. Para tanto, sacrifica a sua principal busca – o simples whodunit, solucionado através de uma reconstituição de imagem, para então, no clímax do filme obter a imagem mais poderosa de todas – para chegar ao mesmo caminho. O roteiro de Tenebre é tão importante quanto a estilização de Argento, fazendo o refinamento constante de temas em comum dar um passo além. Uma atitude inteligente: você poderia achar que não havia mais para onde crescer depois de Prelúdio Para Matar e Suspiria, mas Argento insistiu em criar uma terceira via.

É isso que faz Tenebre ser um filme concentrado não no mistério do whodunit, mas no desenrolar dos fatos, onde o protagonista não tem a mínima curiosidade e não faz as vezes de detetive. Apenas atua como testemunha, suspeito, culpado, espectador. Aquele que investiga o mistério não é mais a figura principal – está em pé de igualdade com várias outras.. As partes envolvidas vão encarar um autêntico jogo de gato e rato – ou uma sinuca de bico, como preferir. Cada vez mais envolvido nos crimes que antes só existiam no plano das suas idéias, em forma de livros, Peter Neal tenta investigar quem suja sua reputação e ameaça sua vida por conta própria o que, é claro, só poderiam resultar em mortes. Mortes estas com doses extras de brutalidade; Argento não teve nenhuma sutileza e lançou mão de um hipergrafismo intenso até para quem já teve a proeza de filmar algumas das sequências mais impressionantes e/ou angustiantes do cinema fantástico italiano.

A forma que o realizador quis estreitar as relações entre criador, criatura e receptor configura algum dos momentos mais inacreditáveis do cinema – onde Dario, ao utilizar uma câmera subjetiva à espreita que passa a se movimentar com a liberdade de uma objetiva, dissipa quaisquer fronteiras técnicas e dramatúrgicas – o espectador é quem está matando, e a câmera que persegue duas mulheres é um grande ciborgue, onde a impulsão e o desejo se misturam ao meio. Nem terceira nem primeira pessoa. Um assassino-câmera.

Esse assassino inacessível e onipresente aparece e desaparece com rapidez incrível. Suspeitos caem feito moscas. Muitas vezes o roteiro dá muitas pistas sobre um determinado sujeito que irá morrer alguns minutos depois. E isso leva ao clímax do filme, onde a herança maldita é assumida – Peter deixa de contemplar os crimes que escreveu para cometê-los, fazendo-se ativo, transgredindo a posição de espectador e fazendo às vezes de autor.

É a chave para fazermos o mesmo: em dez minutos, irá ocorrer uma matança generalizada e completamente ensandecida – mais uma vez, há de se relaxar e gozar: nós pedimos por isso. O que não contamos é com uma força da natureza, o azar. Mais um assassino em potencial. Que desperta no minuto final do filme para destruir o criador, restando apenas a espectadora – que pasmem, mata por engano. Fecha-se, então, todo esse bestial conceito de Argento – se o espectador sobreviveu à criação e à destruição, ele é o grande culpado, o grande responsável. Que se chegou aqui, gostou disso, não adianta negar. A violência é inerente a cada um de nós, no final das contas. Resta apenas gritar de desespero, em um dos finais mais escabrosos e mesmerizantes do cinema em geral.

Uma estilização plástica e bruta para dissolver qualquer barreira entre prazer e dor, entre volúpia e sangue. Uma obra profundamente conceitual que analisou, antes de muita gente, o fascínio humano pela violência incontornável. Assim é o mundo retratado por Dario Argento. Assim é o mundo que ele compartilha com o espectador nessa obra. Lâmina, câmera e carne: eis Tenebre.

5/5

Ficha técnica: Tenebre (Tenebre) – 1982, Itália. Dir.: Dario Argento. Elenco: John Saxon, Daria Nicolodi, Ania Pieroni, Anthony Franciosa, Christian Borromeo, Mirella D’Angelo, Veronica Lario, Eva Robin’s

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por Bernardo Brum

A Hora do Pesadelo figura, provavelmente, como o filme mais bem acabado que Craven já entregou para a Sétima Arte: consegue atingir, confortavelmente, um meio termo entre a violência exploitation de Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos, o roteiro bem bolado inteligente de A Maldição dos Mortos-Vivos e a acessibilidade de Pânico.

A história real de um moleque de um pais asiático que teve um sonho tão horrível que morreu dormindo convergeu para a idealização e criação de Fred Krueger – e poucas vezes, o subgênero slasher teria outro vilão com um conceito tão original e um background que realmente funciona, ao invés das muitas besteiras e incorências da história de, por exemplo, Jason Vorhees em Sexta-Feira 13. John Carpenter em Halloween – A Noite do Terror já tinha avisado, ora bolas: se você não tem uma história realmente boa na mão, então não explique muito.

Craven segue esse recado de uma forma muito funcional: pouco sabemos além do básico, que Krueger era um pedófilo psicótico que foi queimado vivo pelos moradores da Rua Elm, e então volta para vingar-se, queimando seus filhos. O fato de todos os pais terem relações problemáticas com suas proles, apesar de ter certo valor semiótico, tem um valor muito maior na história – Craven cria um suspense incrível quando exibe o assassino de todas as formas – nas sombras, esticando os braços, nos corredores de uma escola, se auto-mutilando, deformando o tempo espaço – e deixa o grupo protagonista de adolescentes e o espectador ilhados sabendo que aquela história só pode ter um desfecho dos mais cruéis – não quando você está sozinho, não quando ninguém acredita em você, não quando você tem que ficar acordado o tempo inteiro. Se o ser humano tem medo do desconhecido,  o medo que ele tem da solidão é mito maior.

Aliás, é nessas cenas de pesadelos que Wes se realiza como um cineasta, distorcendo tempo, espaço, realidade e sonho ao seu bel-prazer – desde o início, em que closes de uma garota perdida em algum lugar desconhecido e todo branco chocando-se contra imagens de mãos deformadas por fogo fabricando uma luva cheia de navalhas até a impressionante morte em que a mesma garota, mais para frente, é arrastada pelas paredes e tetos e é retalhada impiedosamente, entedemos então qual é a do Craven e pensamos que, sim, ele merece estar naquela galeria de “Masters of Horror” – poucas vezes um cineasta conseguiria aliar instintos violentos e delírios aterrorizantes de forma tão tensa e marcante e, ainda por cima, saber vender o seu produto de modo a tornar o filme e a mitologia ícones da cultura pop.

Esqueça todas as bobagens posteriores, esqueça o fantasminha da mãe de Krueger, esqueça Fred se materializando no mundo real, esqueça garotas telepatas combatendo o vilão, esqueça ele renascendo através de um útero zoado. Esse sim, é o verdadeiro pesadelo na Rua Elm.

4/5

Ficha Técnica: A Hora do Pesadelo (A Nightmare On Elm Street) – 1984, EUA. Dir.: Wes Craven. Elenco: Robert Englund, John Saxon, Johnny Depp, Ronee Blakley, Heather Langenkamp, Nick Corri, Amanda Wyss