por Bernardo Brum

Woody é como todo bom mágico: todo mundo acha que ele sempre faz a mesma obra indefinidamente ao longo de toda a sua carreira, mas sempre encontra algum meio de parecer totalmente novo aos nossos olhos.  É assim mais uma vez com Neblinas e Sombras, filme que mesmo sendo uma homenagem ao expressionismo alemão, não foge ao estilo Allen de produção: ótica ateísta, personagens complexos e complicados, humor afiado e sempre com aquela velha pontinha de desconforto…

Assim, não se trata de mera cópia ou homenagem vazia em si, mas apenas um terno novo na vasta coleção do realizador. Assim como já vestiu o manto de Bergman em Interiores ou se cobriu de Fellini em Memórias e jamais pareceu derivativo, com Woody, o expressionismo alemão renasce como uma comédia de de personagens, e não de ação.

Em uma história que envolve a busca por um assassino, o humor é negro, seco, cruel. Não há matadores atrapalhados, investigadores imbecis, nem gags visuais. Pelo contrário; apesar de ainda ser ainda possuir um texto afiado e hilário, é um dos filmes mais opressivos de Woody. O riso nervoso vem das próprias enrascadas em que indivíduos perdidos em seus próprios problemas têm de lidar com um criminoso, provavelmente louco, à solta nas ruas.

Em outros filmes, todos esqueceriam seus próprios problemas para caçar ou fugir da figura que parece onipresente em todos os cantos. Mas o universo de Woody é outro. Entram aqui a engolidora de espadas sentimental, o palhaço cheio de dilemas, o escrituário covarde e puxa-saco que desfilam pelo cenário de época de Santo Loquasto enegrecido pela fotografia personalíssima e sombria de Carlo Di Palma.  Tudo isso deixa o filme a um passo do puro desespero: normalmente, problemas pessoais e situações de perseguição vêm em filmes separados. Juntos, nos dá a idéia de como somos vulneráveis e frágeis. Como sobreviver naquela noite fatídica?

A neblina do título engole e cospe para a câmera piadas sexuais,  questionamentos existenciais e relacionamentos complicados; nunca se sabe com o que iremos nos deparar quando virarmos a esquina: uma nova paixão, um novo grilo na cabeça, uma lâmina reluzente. É nesse turbilhão de vida com sua carga forte de entropia presente que o diretor brinca de prestidigitador e mostra ao seu espectador o seu cinema-mentira: é engano e encanto o tempo todo.

De tão complicado que se tornou, o filme só poderia acabar mesmo em um passe de mágica. Afinal, este é o mundo dos 24 quadros por segundo e só mesmo Woody para depois de enforcar quem assiste por dezenas de minutos seguidos com dilemas claustrofóbicos e situações de puro pânico e ainda lançar um humor jocoso por cima, completar a cereja do bolo com aquele típico final ambíguo e puramente cinematográfico que só ele saberia criar. Esperança e pessimismo ao mesmo tempo, indissolúveis.  Certa vez, Groucho Marx disse que o judeu neurótico do Bronx era o comediante mais original e engraçado de nosso século. Diante de um filme como esses, quem sou eu para discordar do bigodudo?

4/5

Ficha técnica: Neblina e Sombras (Shadows and Fog) – EUA, 1991. Dir.: Woody Allen. Elenco:  Kathy Bates, David Ogden Stiers, John Cusack, John C. Reilly,Woody Allen, John Malkovich, Lily Tomlin, Madonna, Mia Farrow, Jodie Foster, Donald Pleasence, Michael Kirby

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– por Guilherme Bakunin

Ah, sempre tem aqueles amigos né, “ei, você vai fazer alguma coisa nesse findi?”, e você, na santa inocência vai lá e diz que não, aí ele continua “ei, então vamo chamar a galera pra ver um filme!”. Ficar alimentando a cinefilia virtualmente tem lá suas vantagens. Você pode elaborar melhor seus pensamentos sobre os filmes que assiste, e além disso fica livre de amigos cinéfilos que, acreditem, pessoalmente são um saco (porque ninguém quer discutir a linguagem cinematográfica do Godard enquanto pode dar umas risadas e contar piadas sobre putas). A desvantagem de limitar a sua cinefilia ao mundo virtual é: você vai ser chamado pra ver filmes retardados.

Aí seu amigo te chama pra ir no cinema, e perceba: você sabe que 2012 tá passando, mas vai mesmo assim. Haha, é como ver um acidente (sic) antes de acontecer. E então você está no shopping, você e mais 5 amigos e o destino conspira contra você: vocês chegam tarde pra sessão de Deixe Ela Entrar (você convenceu o pessoal, dizendo que é um filme sobre vampiros… ponto) e só dá tempo de ver 2012. Sua primeira reação é “de jeito nenhum, prefiro dar um rolé no McDonalds”, mas aí satã começa a agir sobre a sua vida, e trás à sua memória aqueles tópicos nos foruns e nas comunidades do orkut… 2012, né, filme badalado do ano, milhões de posts e tudo mais. Satã diz: “você não vai querer ficar de fora das discussões, vai?”. Aí você fica pensando nisso e fica pensando naquele seu “amigo” virtual que diz pra você que 2012 tem diálogos horríveis, mas as cenas de destruição – e só elas – são boas pra caramba, “eletrizantes”, então ele recomenda, e já que seu “amigo” virtual recomendou, você acaba aceitando ir, afinal, você não quer ficar parecendo um pseudo intelectual, não é mesmo?

Bom, tenho uma notícia pra você camarada: sua mente é templo do seu corpo e você não devia ter feito isso. Sua mente é maravilhosa e é capaz de assimilar Bergmans e agora você a sujou, você assistiu 2012. Você está impuro; vai ter que se lavar no Jordão sete vezes e mesmo assim vai continuar impuro até à tarde. E não me venha com essa de que “as cenas de destruição são “eletrizantes””, sua marionete caipira, cinema não foi criado pra ter “cenas de destruição “eletrizantes””, e você sabe disso! – você vê Hawks, pelo amor de Deus!

Caras, sim, eu me recuso a comentar muito sobre o filme. Antes, porém, vou dar algumas dicas para quem for fisgado pela maldição do cinema de shoppings: NÃO, o mundo não vai acabar em 2012. SIM, você tem que ir no cinema com isso em mente, pra, sei lá, não sair chorando no meio na sessão (ninguém vai acreditar que isso aconteceu, mas ok). Outra coisa: o Roland Emmerich é um diretor medíocre. Não, Independence Day não é um bom filme. Nem Godzilla, nem O Dia Depois de Amanhã, nem – hahahaha – 10.000 a.C, por favor. E por último, lembrem-se de ter em mente que pessoas são idiotas, e que se seu “amigo” virtual chega pra você recomendando 2012 por ter cenas de ação legais, você precisa urgentemente conhecer esse amigo pessoalmente, porque ele pertence ao grupo das pessoas que te chamam pra ver filmes retardados, não ao grupo de pessoas com as quais você discute Agnes Varda.

Mas cuidado, não saia dizendo isso por aí. A mediocridade de Emmerich está um pouco em cada um dos corações humanos, e as pessoas tem medo de admitir que BOM CINEMA não é o bastante. Então, elas vem com um papo MUITO ESTRANHO como “ei, seu pseudo intelectual de merda, o mundo não gira em torno do Kubrick! Bays são divertidos, só pra passar tempo!, nem todo filme tem que ser uma tese filosófica de doutorado”. Sim, um papo realmente muito estranho e que, infelizmente, é amplamente apoiado nesses nossos pré-apocalípticos dias. Caras, muito cuidado! Vai chegar o tempo em que apedrejarão aqueles que se negarem a assistir filmes do McG, e esses dias estão próximos. Sua mente é templo do seu corpo e você tem que cuidar desse templo, meu filho!, alimentá-lo bem, com Rohmers e Fords e, mesmo que você dê uma escapadinha leviana pra ver Se Beber, Não Case, fique longe de obras medíocres, fique longe de obras medíocres, fique bem longe de obras medíocres. E eu não sei se mencionei, mas Emmerich fez várias delas.

0/5

Ficha técnica: 2012 – 2009, EUA. Dir.: Roland Emmerich. Elenco: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Thandie Newton, Oliver Platt, THomas McCarthy, Woody Harrelson, Danny Glover, Liam James, Morgan Lily.

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– por Guilherme Bakunin

Os anos noventa declaram algo importante na carreira de Woody Allen: ele está ficando velho e, progressivamente, deixará de ser tão frequente em seus próprios filmes, especialmente porque a temática de seu trabalho costuma ser invariavelmente a mesma: as neuroses do cotidiano na vida dos metropolitanos. Tem sido assim desde A última Noite de Boris Grushenko e até agora, poucos de seus filmes saem dessa alçada.

Tiros na Broadway é o segundo noventista a não contar com a presença do diretor. Aqui, não há personagem que faça paralelo com a persona de Woody. O mais próximo que temos disso é David Shayne, interpretado por Cusack, escritor de peças teatrais com um leve complexo de superioridade que geralmente acompanha autodeclarado artistas, que se vê obrigado a aceitar uma má atriz em sua peça para poder produzi-la.

O filme segue, em geral, dois caminhos: a construção da peça e pequenas cenas onde são narrados acontecimentos paralelos que de uma forma ou de outra envolvem o pessoal do teatro. Allen trabalha aqui com gângsters idealizados, retratados como figuras estereotipadas pelo cinema que o cineasta tanto admira. E se aprendemos algo vendo seus filmes, podemos dizer que os ‘mocinhos’ de Tiros na Broadway foram feitos em torno dos gângsters, e não o contrário, como pode parecer. Além das intrigas no preparo da peça e o conflito interno de auto questionamento de Shayne, o filme abre um leque pra clássica filosofia manhattiana dos filmes de Woody, indo de Nietzsche às artes, Shakespeare à Crepúsculo dos Deuses.

O texto aqui é poderoso, firme e objetivo, porém flexível o bastante para dar espaço às fantásticas reflexões de Woody Allen sobre a vida, sobre a arte, sobre o amor. Referente ao esquema do gângster ser o verdadeiro gênio, não vou corroborar com esse tipo de coisa. Woody Allen deixa sua ideia bem clara: o artista nasce pronto e ninguém pode tornar-se um. É simplista demais, cômico demais pra ser algo levado tão à sério (um tramamento mais dramático poderia ter servido melhor pra sustentar a queda de Shayne e sua arte, algo que Allen hesita em utilizar aqui).

Num universo controlado por armas e chapéus, onde as duas únicas saídas parecem ser viver uma vida ordinária ou se entregar de corpo e alma à salvação da arte, qual é o papel do homem nesse lugar? A discussão pode ir longe, e entre cães e Helens Sinclairs, nós, juntamente com Allen, descobrimos que tudo o que podemos aspirar é ao amor, ainda que jamais venhamos a ter certeza do que ele seja.

5/5

Ficha técnica: Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway) – EUA, 1994. Dir. Woody Allen. Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Jennifer Tily, Chazz Palminteri, Mary-Louise Parker, Jack Warden, Joe Viterelli, Rob Reiner.