– por Guilherme Bakunin

Nós já vimos essa repercussão antes: Aterrorizada, de John Carpenter, O Aviador, de Martins Scorsese, Giallo, de Dario Argento, Fim dos Tempos, de Shyamalan ou Missão: Marte, de Brian de Palma sofrem nas mãos de uma má receptividade e as pessoas parecem cada vez mais convencidas a não procurarem avaliar um filme como um todo, julgando apenas as supostas falhas no desenvolvimento da história.

E de Palma sabe que Missão: Marte tem muitas. Especialmente porque o diretor lida com um roteiro ofensivamente medíocre, com uma coletânea impressionante de diálogos ruins, situações supervisitadas e elementos narrativos de pouco substanciais. Uma discussão de longa data entre quem conversa sobre cinema é até onde um cineasta pode ir com um roteiro ruim, mas a questão aqui não é exatamente essa. Além de um roteiro terrível, pesa sobre os ombros de de Palma um orçamento de 90 milhões de dólares, o que inevitavelmente diminui a autonomia, como qualquer um pode imaginar.

A câmera do diretor é então colocada à gravidade zero, parecendo captar as imagens dos personagens sem interesse em ouvi-los. Flui por entre as conversas, pessoas, objetos e locações numa curiosidade puramente plástica. Essa é a essência de Missão: Marte – ou ao menos a faceta que mais vale à pena conferir: se em 2001, Kubrick orquestrou o balé espacial através da movimentação sutil dos quase-estáticos movimentos de câmera, trilha sonora e objetos, de Palma orquestra o seu a partir  do imperturbável fluxo da steadycam – tudo que a câmera do de Palma captura, das paisagens terrestres às marcianas, está a dispor desse fluir.

A estética adotada pelo diretor confere ao filme a visualidade mais ‘depalmiana’ de todos os seus trabalhos anteriores (Femme Fatale, de dois anos depois, parece elevar sua câmera até a última potência), apesar de servir à história mais estranha aos trabalhos do diretor. Todos os tripulantes, da primeira e da segunda viagem, são retratos como heróis embutidos de bravura, honestidade e talento.

Com personalidades tão incríveis, nenhum conflito pode surgir a partir daí. O único inimigo é o universo. A imensidão negra do espaço é um antagonista não-hesitante, segue e ameaça os personagens a todo instante, apenas à espera de que o menor dos erros de comando da engenhoca espacial seja o erro fatal. A imersão da câmera de ‘de Palma’ eleva o suspense em níveis agoniantes, de forma que nem mesmo os tripulantes das espaço-naves parecem cientes da iminência do perigo que os persegue. É o espectador consciente de todas as coisas, responsável, sozinho, de dar poder ao filme que assiste.

Numa das sequências mais paralisantes do filme, quatro astronautas saltam da nave em seus uniformes especiais e estão, sozinhos e quase desprotegidos, diante da imensidão não apenas de Marte, mas do universo. A pulsão da relação especial e temporal, principalmente nessa, mas também em outras sequências é invejável – existe um autor no controle dessas sequências, e não a maquinaria do CGI.

O terror à flor-da-pele em Missão: Marte é apenas seu melhor aspecto; não é, de modo algum, o seu valor essencial. De Palma parece interessado em esculpir  algo de grandioso a respeito da força humana responsável pera superação. Não é por acaso que todos os personagens deste filme são heroicos. Transgredir a dor, aceitar as limitações e prosseguir. Em Missão: Marte, a partir da abdicação da fuga, a humanidade surge. É a tomada de responsabilidade e o seguir em frente. Seus personagens nunca olham para trás e não tremeluzem diante da decisão. O sacrifício do personagem de Tim Robbins, a última decisão do personagem de Gary Sinise. Nos filmes de ‘de Palma’, sempre há alguém que tenta impedir um assassinato, mas não consegue. Nos mundos que de Palma constrói, a falta de sintonia entre as pessoas está junto ao sangue, à psicose, à morte.  Seus personagens tiveram que fugir desse mundo para encontrar essa sintonia. No vácuo do universo, milhões de quilômetros longe da terra, é onde seus homens e mulheres estão mais próximos uns dos outros – e de si mesmos. E eles sempre chegam a tempo.

3/5

Ficha técnica: Missão: Marte (Mission to Mars) – EUA, 2000). Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Tim Robbins, Gary Sinise, Don Cheadle, Connie Nielsen, Jerry O’Connell, Peter Outerbridge, Kevan Smith, Jill Teed, Elise Neal.

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– por Guilherme Bakunin

Longe dos cinemas desde Fantasmas de Marte (2001), Carpenter retornou em 2010 com Aterrorizada, terror de sub-gênero manicômio (filmes de suspense ou horror que tocam em questões como loucura e instituições de tratamento psicológico são bastante recorrentes, como exemplos Paixões que Alucinam, Ilha do Medo ou do próprio Carpenter, À Beira da Loucura).

A história é a respeito de Kristen, uma jovem perturbada que é colocada numa seção especial de um hospital psiquiátrico (chamada ward, enfermaria vigiada em tradução literal) junto com outras quatro garotas, Sarah, Zoey, Iris e Emily, que estavam previamente confinadas na ward. As garotas recebem Kristen com cautela, e a troca sugestiva de olhares entre elas sugerem fortemente que existe um grande mistério que marca o passado daquele lugar.

A grande questão em Aterrizada é que a cada novo passo da narrativa, você sabe o que virá. Não há grande criatividade na criação e execução dessa história, e toda a relação entre paciente-são-versus-médicos-condescendentes já foi extremamente revisitada, de forma que, qualquer outra pessoa por trás das câmeras, o projeto seria invariavelmente um fracasso. Mas quem dirige é John Carpenter que, mesmo fora de forma, tem sempre algo a dizer.

Carpenter não é um mero operário da indústria. Na verdade, ele atua contra ela. Seu hiato se deve principalmente ao seu descontentamento com o maquinário de hollywood, e talvez isso explique que Aterrizada seja um filme que não dê passos largos tematicamente. É o retorno de um mestre, que caminha cautelosamente em um território que é, constantemente, hostil aos que criam pela paixão de criar.

Porém, são passos largos que impulsionam Aterrorizada na construção de sua atmosfera. Pouquíssimos cineastas americanos hoje conseguem ser tão sutis na hora de filmar, tão contidos no fluir da história, e tão precisos nos cortes quanto Carpenter. Que trabalhe especialmente com suspense, só existe um (Shyamalan). O filme poderia, facilmente, se segurar na maravilhosa protagonista interpretada por Amber Heard; ou poderia, como é comum no diluído mercado americano de filmes de horror, se sustentar em sombras artificiais e gritos repentinos, ou ainda em efeitos de computador ou filtros de cor. Mas Aterrorizada se sustenta na capacidade de, cena após cena, direcionar o olhar do espectador para o que interessa. Não para enganá-lo, conduzindo-o numa direção equivocada propositalmente pra garantir uma reviravolta, mas porque o que interessa é a condução do olhar e da percepção de quem assiste, para potencializar, sem truques baratos, um espetáculo de suspense de horror. Simples e contido, sim. Longe do que Carpenter pode e já fez. Mas ainda assim, satisfatório.

Outras observações:

– Percebi dois grandes momentos em Aterrorizada. No primeiro, Iris vai até o escritório do Dr. Stringer (Jared Harris, Lane Pryce de Mad Men), na expectativa de que ela receberá alta. A condução do suspense aqui é magistral e desconcertante. No segundo, Sarah recebe uma sessão especial de eletrochoques do fantasma de Alice, numa daquelas cenas semi-gore que entortam a espinha, realmente sensacional.

3/5

Ficha técnica: Aterrorizada (The Ward) – EUA, 2010. Dir.: John Carpenter. Elenco: Amber Heard, Mamie Gummer, Danielle Panabaker, Laura-Leigh, Lyndsy Fonseca, Jared Harris, Sali Sayler, Susanna Burney, Dan Anderson, Seam Cook, Jilian Krammer.

halloween-2007-01-4

– por Luiz Carlos Freitas

Não gostei de A Casa dos 1000 Corpos, mas dei uma nova chance ao roqueiro e fiquei surpreso com a sequência, Rejeitados Pelo Diabo, um filme que, se não inovador, tem todos os méritos pelo esforço do diretor de tirar grandes nomes do cinema de horror dos 70’s/80’s do ostracismo, bons momentos de tensão e algumas homenagens ao gênero, além do final a la Thelma e Louise e o subestimado William Forsythe uber-loucão (sem falar que Lynyrd Skynyrd – uma de minhas bandas favoritas – toca o filme todo). Mas esse Halloween – O  Início é tão ruim, mas tão ruim que deu vontade até de queimar os meus CD’s do White Zombie e colocar meu DVD de Rejeitados na boca de um sapo.

O pânico já começou quando foi anunciada a refilmagem que, baseado em um roteiro adaptado praticamente igual ao do original, contaria as “origens” do Myers. Em 1978, John Carpenter trazia ao Slasher uma carga psicológica jamais vista antes num filme do gênero, nem mesmo no clássico Banho de Sangue, do Bava. Michael Meyrs era a representação suprema do mal: cometeu seu primeiro crime na infância sem nenhum motivo aparente. Internou-se, cresceu e numa bela noite, foge do sanatório e volta para matar a irmã. Ponto!

Não há motivação para ele. Não há uma justificativa para seus atos. Ele simplesmente mata. E isso é uma das possibilidades mais aterradoras que podemos imaginar, a de que qualquer um ao nosso redor pode carregar consigo tamanha psicopatia ao ponto de sair matando a todos sem motivo, sem razão. A possibilidade de um mal tão profundo, de um ser tão perverso que transcende o limite da lógica. Eis aí o segredo do Carpenter. Toda a força de sua obra-prima residia justamente no lado obscuro e desconhecido das motivações do assassino. Esse, inclusive, é um dos principais fundamentos de boa parte dos filmes de terror, do homem contra um poder que ele desconhece e, por conseguinte, não tem como enfrentar, descobrir fraquezas.

Mas então, se um filme que tem suas “bases” apoiadas justamente no desconhecido, pra que uma explicação? À partir daí, já fiquei – como dizemos aqui na Paraíba – “encabulado”. Finalmente crio coragem e, dando um voto de confiança ao Zombie, baixo esse aqui. Bem, não preciso me prolongar muito pra dizer que esse é um dos maiores arrependimentos de minha vida. Esse equívoco (não chamo “isso” de filme nem ameaçado de morte) de responsabilidade do Rob Zombie é uma das piores coisas que já vi até hoje.

As tais “origens” para a psicopatia de Myers são as mais imbecis e clichês possíveis: uma criança perversa, que torturava animais, vítima de bullying e tinha uma família desestruturada, constituída pela mãe stripper (Sheri Moon Zombie), a irmã vadia (Hannah Hall) e o padrasto alcoólatra (Willian Forsytle). E só. Ah, tá, brilhaaaante explicação para a origem de um dos maiores assassinos da história do cinema.

Para Zombie, Myers era uma criança problemática que revoltou-se contra o mundo e decidiu sair por aí matando a tudo e a todos. Mas como isso explica o fato de seu super vigor, de levar seis tiros, uma facada no pescoço e continuar seguindo em frente, matando?

Aliás, houve uma total desconstrução do personagem em sua vida adulta. Antes, Myers era sorrateiro. Suas aparições eram pequenas ao longo do primeiro filme e a construção da tensão estava no suspense crescente, na expectativa de algo terrível que estava por acontecer a qualquer momento. Enquanto o Michael do Carpenter poderia estar escondido em qualquer sombra de canto de parede e se mostrar suavemente, sem pressa (e, justamente por isso, bem mais aterrador), o do Zombie é discreto como um ensaio de banda marcial pra desfile de Sete de Setembro. Chega como um trator, derrubando paredes e portas com socos. Até mesmo um cego (e surdo) perceberia sua aproximação a tempo de correr, tamanha sutileza do sujeito.

E o problema não é só com o Myers. Todo (repito, TODO) o elenco de apoio transcende o limite do insuportável. À exceção de Malcon McDowell (o “menos ruim” desse balaio) e outros poucos personagens sem importância, resta-nos um grupo de atores jovens (e ruins) que não servem de nada à trama. Não há um único diálogo entre eles em todo o filme no qual se note um mínimo interesse em trabalhar um roteiro mais elaborado. O que temos são piadas sobre sexo e palavrões (nem um filme estrelado pelo Christopher Walken e o Samuel L. Jackson e dirigido pelo Scorsese teria tantos “fuck” dito por minuto quanto esse  aqui) jogados para reafirmar a visão de mundo do Zombie: os homens são boçais cabeludos e as mulheres vadias (não que eu tenha algo contra isso).

Do ponto de vista técnico, o Zombie consegue ser tão (ou mais) incompetente ainda. A edição é porca, os enquadramentos (coisa que até Ed Wood sabia fazer) são péssimos e aquela câmera com Mal de Parkinson em fase avançada parece ser mesmo sua “marca” a ser carregada até o fim da carreira (que, espero eu, para o bem do cinema – e da humanidade – chegue o mais depressa possível). A sua edição consegue ser mais dolorosa à vista que as do Tony Scott (e isso é mesmo um grande feito).

Além disso, o longa transpira pretensão à cada frame. Cena após cena vemos o Zombie gritando “Ei, quero entrar para os anais do cinema, modafocka!”, usando de alguns maneirismos baratos na tentativa de criar aquela que seria a cena antológica de sua carreira. O maior exemplo disso é o massacre da família Myers ao som de (se preparem) ‘Love Hurts’. Isso mesmo, aquela baladinha grudenta do Nazareth que fez seu pai chorar em algum boteco após as brigas nos tempos de namoro com sua mãe virou uma impensável trilha de chacina. “Mas se o Kubrick embalou um estupro com ‘Singin’ in the Rain’ …” deve ser a desculpa que o Zombie usa quando questionado sobre.

O final, assim como todo o “desenvolvimento” (sic), é ridículo. Na verdade, foram filmados mais de quatro finais diferentes e, como esperado, todos são igualmente risíveis e, óbvio, todos com gancho para uma inevitável sequência. O único detalhe é que para a edição final foi escolhido o pior deles (não sei porque isso não me deixa surpreso). Só não é pior por carregar um “simbolismo” maravilhoso: os créditos subindo representam a libertação de quem perdeu quase duas horas de sua vida com isso.

Enfim, essa não é a primeira vez que tentam “explicar” Michael Myers na série. Outras das sequências (terríveis, por sinal – só considero, além do primeiro, a segunda parte e o H20: Halloween – 20 Anos Depois) arranjaram várias desculpas, uma sobrinha e até uma antiga Maldição Druida (!?!) para justificar toda a aparente invencibilidade do Myers. Claro, nenhuma dessas explicações soou convincente. Pelo contrário, contribuíram para que o personagem, um dos maiores do horror (e do cinema em geral), fosse visto cada vez mais como uma grande piada. O Myers cabeludo e de quase catorze metros de altura do Zombie só fez ajudar a denegrir mais ainda.

Bem, melhor parar de lembrar “disso” por aqui, afinal grandes traumas devem ser deixados no passado. Sério, Uwe Boll teria feito melhor. Pelo menos ele já deixou de se levar a sério, diferente do Zombie, que ainda se diz “Profeta Salvador do Cinema”. O próprio Rob deveria se martirizar todos os dias por ter aceitado levar isso adiante (eu mesmo me envergonharia bastante se o fizesse). O que ele tentou aqui não tem defesa nem perdão.

É pedir para, ao esbarrar com o Uwe Boll, Bruno Mattei, Jess Franco ou Andrea Bianchi (verdadeiros monstros na arte de NÃO fazer cinema) na rua ao sair para comprar pão Sábado de manhã, e ouvir de um desses um “Rá, como você é estúpido, cineasta de merda! Me envergonho por você!”, ter de abaixar a cabeça e aguentar caladinho, caladinho (e ainda oferecer um dos pães).
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1/5

Ficha técnica: Halloween – O Início (Halloween) 2007, EUA – Culpado: Rob Zombie – Cúmplices: Malcolm McDowell, Scout Taylor-Compton, Tyler Mane, Daeg Faerch, Sheri Moon, William Forsythe, Danielle Harris, Kristina Klebe, Skyler Gisondo, Danny Trejo, Hanna R. Hall, Tom Towles, Bill Moseley, Leslie Easterbrook, Steve Boyles.

Depois de 10 dias, 20 textos publicados, mais de 1200 visitas, mais de 100 comentários, chegamos ao final do Especial Carpenter. E para encerrar com chave de ouro, vamos de Top. Cada integrante da Equipe (com exceção do Murilo, que não participou do Especial), teve de escolher os 5 melhores filmes do diretor. Não é tarefa fácil selecionar cinco dentre os muitos filmes excelentes do cara, mas tentamos. E  sintam-se à vontade para se juntar a nós e postarem seus tops nos Comentários também. Aquele abraço.

– Equipe

Guilherme Bakunin

  1. À Beira da Loucura – A apoteose do horror; Lynch e Bava provavelmente estão com inveja até hoje.
  2. Alguém Me Vigia – O suspense pra tv que deixa aquele Encurralado do Spielberg completamente embaraçado. Hitchcock não poderia trabalhar melhor nesse que é seu filme, só que dirigido com muita propriedade pelo Carpenter
  3. Eles Vivem – ETs dominando a terra com mensagens subliminares, me recuso a fazer qualquer comentário
  4. Assalto à 13ª DP – Los Angeles com zumbis modernos, que ao invés de garras e dentes atacam com revólveres mesmo.
  5. Christine – O Carro Assassino – A falta de bagagem me obriga a colocá-lo nesse top, mas pouco realmente se salva nesse filme. Já que é pra falar bem, tem uma boa trilha, o final é bem legal e Christine sufocando a garota dentro do carro extremamente iluminado é uma cena pra guardar na memória.
Cauli Fernandes
  1. A Bruma Assassina – Porque é um simples nevoeiro sendo usado como peça eficiente de suspense, matando e encarcerando pessoas. E dando muito medo.
  2. Christine – O Carro Assassino – Tem um carro assassino e um garoto que enlouquece por ele. Pode parecer tosco, mas as mortes são em alto estilo e a trilha sonora eleva tudo ao quadrado.
  3. À Beira da Loucura – Piração metalinguistica contando a busca de um escritor que some. No meio disso, demônios nojentos e donzelas se contorcendo, prenunciando um apocalipse.
  4. Halloween – A Noite do Terror – Precursor de vários outros assassinos em série que existem por aí. Além do mais, filme inteligentíssimo sobre o mal e a pervesidade, e como somos moldados por eles.
  5. Eles Vivem – Crítica política somada à extraterrestres cidadãos. Bem nonsense, mas cheio de conteúdo.
Lucas Duarte
  1. À Beira da Loucura
  2. A Bruma Assassina
  3. O Enigma do Outro Mundo
  4. Halloween – A Noite do Terror
  5. Eles Vivem
Luiz Carlos Freitas
  1. O Enigma do Outro Mundo – A obra máxima do Carpenter. Um dos filmes mais tensos, aterradores e viscerais já feitos, onde o diretor reúne alguns dos elementos mais fortes de sua filmografia e os trabalha de forma mais seca, direta: um pequeno grupo de indivíduos isolados enfrentando uma força aniquiladora (e de origem desconhecida) de proporções catástróficas a nível mundial; a prevalência do instinto de sobrevivência a qualquer “princípio” ou código de honra (há uma ameça? Fodam-se os amigos! Somos animais e faremos o possível para sobreviver – um “kick out” nessa visão romantizada do herói). Isso tudo aliado ao ápice do hiper-grafismo em sua obra (e não preciso falar do que esse doente construiu em termos de “atmosfera” tendo uma base assolada por uma tempestade de neve no meio do nada, né?).
  2. Halloween – A Noite do Terror – Carpenter nos apresenta ao assassino mais cruel e aterrador do cinema. Ele não tem nenhum trauma de infância, não está interessado em vingança ou dinheiro, não faz piadinhas com suas tripas ou te espera dormir para matar. Ele simplesmente mata. Assim, fácil desse jeito. Ele é uma força que, não sabe-se demoníaca ou psicótica, não tem motivações ou algo que o faça parar. Apenas o mal eterno e absoluto. Myers é o filme, protagonista ou não. E tal qual o final do filme nos deixa bem claro, ele representa o mal: está em todos os lugares, em cada sombra, atrás de cada porta, moita ou armário. O assassino supremo. O slasher definitivo.
  3. Eles Vivem – Anarquismo, subversão, insurgência, transgressão … Por que não dizer simplesmente “John Carpenter”? O diretor sempre carregou um notado vigor em desconstruir todas as instituições e princípios de valores que regem nossa sociedade. Para ele, a sociedade é suja, todos à nossa exceção são sujos e para conseguirmos nos manter “limpos”, irônicamente, devemos nos igualar à sujeira, descer a seu nível. E Eles Vivem é seu trabalho mais anarquista, subversivo, insurgente e transgressor. Ele arregaça a mídia, os pilares do poder, do estado, da família e do caralho a quatro, e fazendo uso para tanto de uma “invasão alienígena” (!?!?!). Só duas coisas são mais fodas que isso: ele consegue nos tornar aquela situação toda extremamente crível (e o faz de um modo divertido pra caralho).
  4. A Bruma Assassina – A obra é como Os Pássaros de Hitchcock: ele pega uma cidade costeira qualquer, e a vira de cabeça pra baixo para desmontar todo o seu passado, seus costumes, tradições com fantasmas, névoa, olhos vermelhos brilhantes e uma crítica impiedosa, mais uma vez, ao seu país, erguido na base do sangue, ódio, medo e preconceito. E só para variar, o filme é outro exercício genial de estilo!
  5. Príncipe das Sombras – Uma das maiores “saladas” de sua filmografia. Temos zumbis, física quântica, possessão demoníaca, tecnologia de ponta e até viagem no tempo. Tudo para tratar (outra salada) da relação de inter-dependência entre fé e ceticismo, ética e transgressão e, mais uma vez, o bem e o mal (ambos absolutos). Tudo isso com uma das melhores construções de atmosfera e algumas das cenas mais assustadoras de sua carreira, além de um final que entra fácil na lista dos mais aterradores do cinema.

Bernardo Brum

  1. O Enigma do Outro Mundo – Simplesmente por fazer o que só grandes filmes conseguem: elevar o que era pra ser apenas “de gênero” à obra-prima.
  2. Eles Vivem – Por remar na maré contrária do cinema político intelectual e transformar a coisa toda em revolta roots, com direito à dedo do meio sendo erguido orgulhosamente para toda a podridão americana.
  3. À Beira da Loucura – Só confirma o que todo mundo já suspeita: John Carpenter é, sem sombra de dúvida, a essência do cinema norte-americano de terror. E aqui ele constrói uma das atmosferas mais sombrias e sinistras já feitas sem titubear.
  4. Halloween – A Noite do Terror – Faço minhas palavras as do LC: É o assassino supremo e o slasher definitivo. O filme simplesmente abriu um capítulo novo no cinema de gênero americano.
  5. A Bruma AssassinaSuspiria + Os Pássaros + Gelo seco + John Carpenter, resultado, filmão.

halloween 10

– por Bernardo Brum

Com A Noite dos Mortos Vivos, no fim da década de sessenta, finalmente era instaurado o cinema americano contemporâneo de terror, tendo como antecessores o mestre do suspense Hitchcock e obras como Os Pássaros, H. G. Lewis e seu fracote porém pioneiro Banquete de Sangue e Mario Bava e seu Banho de Sangue vindos lá da terra da pizza. A nova forma de assustar o espectador abandonava os grandes e sinistros castelos mal-assombrados, cheios de aranhas, ratos e morcegos, perdidos em algum canto longínquo do mundo. Pelo contrário, o filme de Romero instalou de vez a tendência do terror urbano, sangrento e insano. Nada a ver com o tinhoso ou forças sobrenaturais: os assassinos, agora, batiam à nossa porta.

Com a consolidação do cinema exploitation, então, o terror chegou à raias inimagináveis. Foi o reinado de cineastas feito Wes Craven, com Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos, e Tobe Hooper, com seu Massacre da Serra Elétrica.  E Romero ainda iria continuar destilando crítica social através de filmes como O Exército do Extermínio e Despertar dos Mortos. Nada, contudo, preparou o mundo para aquele já distante ano de 1978, onde com o suspense de um Hitchcock, a violência estética de Dario Argento, os interiores tensos de Hawks e um punhado de obsessões próprias que John Carpenter, egresso de Assalto à 13ª DP e o telefilme Alguém Me Vigia, entrou pros anais da história do gênero com Halloween – A Noite do Terror.

Com um enredo absurdamente simples – um garoto, Michael Myers, que mata toda família é posto pelo resto da vida em um sanatório e, quando quinze anos depois, foge de lá e volta para a sua cidade  natal, escolhendo aleatoriamente um grupo de adolescentes – entre elas, a entediada babá Laurie Strode (uma ainda deliciosa Jamie Lee Curtis) – é contada por Carpenter com mão de mestre e revelava então para o mundo o talento de um autêntico autor de cinema, com uma consciência assustadora de até onde seu domínio estético-narrativo poderia chegar – só não mais assustadora que o resultado alcançado.

Só pela sequência inicial, toda feita em câmera subjetiva, que em cinco minutos explica tudo o que o espectador precisa saber sobre Myers e que continuações e refilmagens se enrolam cada vez mais pra explicar, Carpenter pega o conceito do espectador assassino tão genialmente utilizado por Dario Argento em sua obra-prima Prelúdio Para Matar, e logo de começo já cria um vínculo angustiante entre o espectador e o maníaco. Maníaco esse, tratado a todo momento, como algo que não pode ser parado – o “Bicho Papão” para as crianças, o “Mal Absoluto” para os adultos – que não passa apenas de uma dissimulação dos mais velhos para esconder o fato que estão tão assustados quanto alguém de cinco anos.

E não é possível parar Myers, em momento algum, simplesmente porque não se sabe nada sobre ele além do básico. Quais seriam suas motivações? Como ele percebe a realidade? Por que um grupo qualquer de garotas? Nunca se saberá. Nem o psicólogo, Dr. Loomis, faz a mínima idéia, mesmo após quinze anos tentando. As autoridades se negam a crer que exista, via de fato, alguém tão louco feito Michael. Adolescentes, imersos em seu mundo de sexo, vícios e fanfarronice, encaram o fato com desdém. E só as crianças, com seu medo de monstros do armário e bicho-papão, que são capazes de desconfiar que algo esteja errado, e que seja realidade. E só quando parece ser tarde demais, porém.

É isso que coloca Michael Myers sempre à frente de qualquer um. Apesar da loucura homicida, é esperto feito uma raposa. Myers se esconde, se camufla, age sorrateiramente o tempo inteiro, e só ataca, então, quando o espaço em questão é apertado demais para conseguir fugir. Carpenter, o assassino e o espectador estão um passo à frente, se aproveitam das sombras, pulam de lá, enforcam, degolam e estripam e então desaparecem na penumbra novamente. Mais oculto que Norman Bates – ele não se disfarça de dono de hotel, ele é considerado inexistente por viver sempre nas sombras, mais assustador que Leatherface e Jason Vorhees – ele é o pesadelo encarnado, pare para respirar, tropece ou se distraia perto de um lugar escuro e eis que ele surge, vá saber de onde, com um facão de açougueiro e irá embora mais uma vez – para prosseguir com seu rastro de matança.

“Era o bicho-papão?”, pergunta a adolescente Laurie reduzida a uma percepção de mundo infantil logo após todas as explicações possíveis serem dissipadas pelo medo, logo após o doutor feito por Donald Pleasance aparentemente abater Michael. Ele, falando pelo espectador tão abalado por buscar contexto, verossimilhança, razão ou diabo que seja, confirma, “de fato, era sim”. E quando vão olhar pela janela de onde Myers caiu após levar uma saraiva de tiros, surpresa. Não há ninguém mais lá. Se tratando do bicho-papão, não dava para esperar mais nada.

5/5

Ficha Técnica: Halloween – A Noite do Terror (Halloween) – 1978, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Donald Pleasance, Jamie Lee Curtis, Nancy Kyes, P.J. Soles, Kyle Richards

– por Guilherme Bakunin

Desde os anos 50, cineastas têm trabalhado para atingir a apoteose no que diz respeito a criação de atmosfera dentro de um filme. Muitos ousaram durante as décadas, transgrediram e estudaram o tema e suas implicações, entre os quais se destacam Mario Bava, Roman Polanski, Lucio Fulci e muitos outros. Os trabalhos desses cineastas possibilitaram que, nos anos 90, John Carpenter criasse À Beira da Loucura, um terror atmosférico-psicológico, trabalhado com extrema dedicação e que rapidamente se tornou para muitos, o maior filme desse cineasta.

John Trant é levado para um sanatório, aos próprios gritos de ‘não sou louco’. Algumas horas depois naquele dia, um doutor, na busca pela explicação de Trent, questina o porque dele estar ali. É então que o filme começa e que podemos acompanhar, através do olhar de alguém que está supostamente louco, a imersão deste mesmo alguém à loucura.

A história pouco a pouco cede ao horror absoluto, não só porque trabalha num universo estritamente particular, criado e elaborado por De Luca (escritor) e Carpenter, mas principalmente porque põe em cheque a existência, dilacera todos os fundamentos do real, e faz com que ambos, personagem e espectador, decaiam no abismo do desconhecido, do intocável. É através da abstração do medo que Carpenter trabalha com a atmosfera dentro do seu filme, pois, ainda que poucas cenas se abram com crueza no horror escatológico de suas criaturas e criações (humanos transformados, por exemplo), é muito mais na edição, nas luzes, nos cenários, na sugestão e no som que reside o terror dentro da obra.

É provavelmente por esse motivo que À Beira da Loucura é o que é. Não cabe aqui a compreensão – pelo menos convencional, das coisas -, nem as palavras. O filme deve ser assistido e sentido. É abstrato, é experimental, é genial. Metalinguagem com absoluta falta de lógica, existência suspeite, nada é realmente o que parece e nada é o que não é. Todo mundo está na boca da loucura, criatura colossal e nociva, e cederemos a ela, por pelo menos curtíssimos noventa minutos.

Como é impossível fugir dos superlativismos da êxtase, À Beira da Loucura é o melhor trabalho de John Carpenter, o melhor horror dos anos 90 e com certeza um dos trabalhos mais bem realizados daquela década. Uma perfeita e irretocável não-adaptação-inspirada em Stephen King.

5/5

Ficha Técnica: À Beira da Loucura (In The Mouth Of Madness) – 1994, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Sam Neill, Julie Carmen, David Warner, Jürgen Prochnow

– por Luiz Carlos Freitas

John Carpenter é um dos mais legítimos representantes do “Cinema de Autor”. Sua obra, mesmo quando mais falha, ainda apresenta um notado vigor em desconstruir as instituições que regem nossa sociedade. Da forma mais impensada possível, seja com demônios, alienígenas, assassinos mascarados ou até mesmo com uma “fumaça” (!??!), ele consegue despedaçar e estapear a cara de nossas convenções e valores (e sempre aliando isso ao mais puro entretenimento e apuro estético).

Sua obra, de tão poderosa, nos torna críveis todas as situações apresentadas em tela e, se não nos convence, nos deixa bem mais próximos de seus ideais quase sempre anarquistas que muitos outros ditos “cineastas políticos”: o bem e o mal estão mais próximos e dependentes do que geralmente se pode supor.

Em Vampiros, lançado em 1998, logo após Fuga de Los Angeles (igualmente rico em conteúdo – porém, um fracasso completo nos demais aspectos), James Woods é Jack Crow, o líder de um grupo de caçadores de vampiros que atua em sigilo a mando da Igreja Católica. Uma noite, após eliminarem um grupo de vampiros escondidos em um “ninho” (como são chamados os esconderijos onde os monstros se escondem da luz durante o dia), resolvem se reunir com algumas prostitutas em um motel para comemorar o feito e são massacrados de imediato pelo líder vampiro, a quem mais tarde descobrirão se tratar de Jan Valek (Tomas Ian Griffith – lembram dele como o inescrupuloso dono da academia de luta em Karate Kid  III?) o primeiro vampiro de que se tem notícia (o mais poderoso de todos – e, ironicamente, um ex-padre), restando apenas Crow, seu parceiro Anthony Montoya (Daniel Baldwin) e Katrina (Sheryl Lee), uma prostituta que é mordida por Valek e é levada por eles por esta adquirir laços telepáticos com o vampiro que podem facilitar sua localização. O plano  do vilão: encontrar a “Cruz Negra” que,  segundo a lenda, o conceberia o poder de caminhar à luz do sol (o que faltava pra tornar a raça vampira completamente invencível).

A partir daí, Carpenter arregaça com um dos maiores (e mais maculados) pilares dessas ditas convenções: a Igreja. Tá, ok, esse nem é o foco principal do filme, mas é o ponto central de uma das reviravoltas mais escrotas da trama próximo ao final (mesmo que relativamente previsível). Já no começo, vemos um padre pertencente ao grupo de caçadores fumando enquanto assiste ao massacre dos chupa-sangue e, logo após, bebendo e “se divertindo” com as prostitutas no motel pouco antes da chacina.

Este é substituído por Adam Guiteau (Tim Guinee), jovem padre completamente envolto por seus princípios e pela fé (acima de tudo), outro personagem importante nessa proposta, uma vez que do meio para o fim, questiona todas aquelas verdades em que acreditou até então. Esse auto-questionamento é outra constante na filmografia do Carpenter, a de que nada ao nosso redor está completamente puro, e que adotar medidas mais drásticas que o levem a transcender a barreira da proximidade do campo do “mal” ao ponto de tornar-se uma ferramenta dele, é mais que uma escolha, é uma necessidade.

Assim como McReady com uma granada pronto para explodir seus companheiros (e a si próprio) em O Enigma do Outro Mundo, John Nada disparando a esmo dentro de um banco lotado contra os alienígenas sem se preocupar em quantos “humanos” poderia atingir em Eles Vivem ou o padre Loomis que aprisiona a jovem Susan no Inferno (e não é eufemismo) para salvar a humanidade em Príncipe das Sombras, Adam empunha armas com sem receios e mata com total tranqüilidade e, ainda mais, ajuda a derrubar essas convenções (um exemplo dessa mudança está num diálogo não menos que genial envolvendo “assassinatos” e “ereções”).

Do ponto de vista do protagonista, podemos identificar grande influência do Western, outra característica da obra do diretor, seguidor declarado de Howard Hawks. Crow segue solitário, averso aos valores tradicionais, mas firmemente apoiado em seu “código” de moral (chega a pôr em risco tudo pelo qual lutou em consideração a um amigo) ao mesmo tempo que carrega um altruísmo enorme consigo (o “Vamos, padre, meu saco está em brasa!” proferido próximo ao final exemplifica bem isso).

Há de se reconhecer também o mérito de Griffith, que apesar de suas falas quase totalmente monossilábicas, possui notada imponência e, ajudado, claro, pela equipe de maquiagem liderada por Enid Arias, empresta uma força visceral ao demônio Valek. Além disso, há uma desconstrução (Carpenter adora isso) da imagem do vampirismo no cinema, onde os ares romantizados descritos por Anne Rice e Bram Stoker dão lugar à perversão e sede de sangue, a mais pura e animalesca necessidade de morte.

Entretanto, o filme tem problemas com o ritmo (ou melhor, falta dele). A fotografia, apesar de nada excepcional, é lindona e o gore é bem feito. Mas nada próximo aos grandes trabalhos do diretor (apesar de termos direito a uma câmera subjetiva em dado momento – modesta, mas suficiente para fazer os mais “tietes” vibrarem). O clímax final é bem morno e, não fossem as expressões realmente assustadoras de Griffith e o carisma de um James Woods cínico em cena como o Kurt Russel jamais conseguiu, os bocejos seriam inevitáveis.

Mas nada que comprometa o todo. Tudo bem, não tem nem de longe o mesmo charme dos grandes clássicos do diretor e, realmente, chega a ser um tanto quanto “esquecível” após o término. Mas ainda é um filme do John Carpenter. Então não espere por menos que diversão e um pouco de reflexão (mesmo que rasteira) por 90 minutos.

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3/5

Vampiros de John Carpenter (John Carpenter’s Vampires), 1998, EUA – Dir.: John  Carpenter – Elenco: James Woods, Daniel Baldwin, Sheryl Lee, Thomas Ian Griffith, Maximilian Schell, Tim Guinee, Mark Boone Junior, Gregory Sierra, Cary-Hiroyuki Tagawa, Thomas Rosales, Henry Kingi, David Rowden, Clarke Coleman, Mark Sivertsen, John Furlong