– por Bernardo Brum

A Máscara de Satã, de Mario Bava (1960)

Apesar de já ter seus antecessores – como Riccardo Freda, para quem completou alguns filmes – pode-se dizer que Bava e seu debut como diretor autoral que deu o pontapé para o “boom” dos filmes de horror da Itália. Muitos dos diretores conterrâneos, após a consolidação do estilo, passaram a se tornar “especialistas” e não apenas versáteis realizadores de encomenda, assim como o próprio Bava. O diretor e a atriz Barbara Steele formaram uma das mais consagradas duplas do horror nesta obra que combina o horror gótico expressionista da Hammer e uma antecipação da violência gráfica que tomaria de assalto a década seguinte. O início da violência hiper-estilizada italiana já demonstrava a sua força no preto-e-branco demarcado pelos filtros bruxuleantes de Bava, um verdadeiro artesão da luz, já inigualável à época de sua estréia.

profondo rosso

Prelúdio Para Matar, de Dario Argento (1975)

Após a trilogia dos Animais, Dario Argento  levou ao máximo o que Bava havia iniciado em Seis Mulheres para o Assassino e fez o grande filme do gialli, onde o assassinato é encenado de forma ritualística. Ao colocar o espectador no lugar do assassino, Argento costurou uma obra que nos torna cúmplices da obsessão pelo diretor de encontrar a catarse final da violência através de imagem e som.É uma obra onde assassino e investigador só existem por intermédio de quem assiste. Nós somos os olhos do covarde, que não hesitam em matar mas não querem ser pegos, e também somos os olhos do paranoico, arriscando a própria vida para conhecer algo que preferia não saber. O “profundo vermelho” reflete em suas poças fatais o lado feio de cada um.

StrangeViceOfMrsWardh1

O Estranho Vício da Senhora Wardh, de Sergio Martino (1971)

Martino é a quarta via do cinema italiano após Bava, Argento e Fulci. O caráter mais narrativo de seus filmes não isenta suas obras de um caráter sombrio e alucinatório, onde em histórias de cunho contracultural (encenando o sexo livre, o consumo de drogas, os fetiches, o ocultismo) personagens perdidos e confusos tem o mesmo lado feio e imoral dos seus algozes. Senhora Wardh, interpretada pela musa Edwige Fenech, é o ícone do seu cinema – uma personagem que compartilha uma relação de prazer e dor com seu antagonista. Enquanto desenrola a trama sobre traição e conspiração, somos tragados à espiral de alucinações sadomasoquistas da protagonista, uma jovem burguesa perdida em seu papel social  numa sociedade em plena revolução de costumes. As lentes distorcidas do diretor  apontam para cantos escuros e situações fragmentadas e bizarras que só aumentam a sensação constante de perigo – os filmes de Sergio Martino são em toda a sua perturbação sensorial uma verdadeira bad trip de LSD.

Zombie eyeZombie – A Volta dos Mortos, de Lucio Fulci (1979)

A já clássica cena da porta arrombada sintetiza bem o cinema de Fulci: não estamos mais no terreno das imagens catárticas de Argento. Não há imagem definitiva. Há a imagem, pura e simples. Brutal, agressiva e rústica. A atmosfera de seu filme de zumbi feito para lucrar em cima do frisson em volta do Despertar dos Mortos de Romero trouxe zumbis tropicais de aparência pode e decomposta, com uma violência tão ou mais extrema que o filme do americano. O aspecto empobrecido do filme de Fulci, filmado na pressa e na fúria, só reforça a atmosfera menos fantasiosa que intentava tornar os zumbis mais críveis em toda a sua ameaça muito mais física que sobrenatural. Após esta obra, os filmes do italiano tornariam-se progressivamente mais irracionais e fragmentados, mas neste emblemático filme (que consagrou Fulci como artífice do gore) já há toda uma atenção especial dispensada mais às set-pieces do que propriamente à história em si. Essa sucessão de maneiras de se destruir um corpo humano garantiu um merecido e duradouro culto ao filme.

cannibal holocaustHolocausto Canibal, de Ruggero Deodato (1980)

Deodato, ao fazer o filme pioneiro do falso documentário de terror – no qual décadas mais tarde renderia diversos filhotes como a Bruxa de Blair, [REC], Cloverfield e Atividade Paranormal – também fez um daqueles filmes malditos, muito mais comentados do que vistos. A polêmica que rondou o filme, que fez inclusive Deodato ter que responder legalmente quanto à localização dos atores cujos personagens morriam no filme, rendeu alguns fãs célebres, como Sergio Leone. Em carta enviada a Deodato, o mestre do spaghetti classificou seu filme como uma obra-prima realista que seria, por causa disso, injustamente incompreendida. Relevando o superlativismo de Sergio, dá para entender o que o mesmo quis dizer: abandonados os filtros e refletores, abandonada qualquer temática sobrenatural e exagerando mais do que nunca na violência (providenciada pelos efeitos simples e verossímeis de Aldo Gasparri), tendo direito inclusive à matança snuff on-screen de uma tartaruga, Deodato fez um filme que era tônica dos anos setenta, onde a ideia era explorar o lado bestial da raça humana da forma mais gráfica possível.

house 3A Casa com Janelas Sorridentes, de Pupi Avati (1976)

A pérola esqueci de Pupi Avati é um caminho sem volta. Embalado em um ritmo de filme de investigação, o cineasta mostra a contraposição entre campo e cidade, mas invertendo o escopo que era praticado décadas antes, quando o campo era símbolo dos valores morais: aqui, segredos escondidos no tempo revelam uma cidade interiorana hipócrita e doentia, cristã e satânica ao mesmo tempo. A trama envolvendo restauração de imagem acaba trazendo consigo a ideia de acontecimentos e histórias que ninguém gostaria de saber – quanto mais testemunhar. E junto com o restaurador, iremos lentamente desencavar um final perturbador que não conseguimos ignorar com o nosso interesse mórbido. Essa perturbação culpada tão característica dos filmes metalinguísticos italianos encontra uma de sua expressões máximas aqui. Sem jamais deixar de insinuar o horror, A Casa com Janelas Sorridentes é brutalidade à conta-gotas.

Buio_OmegaBuio Omega, de Joe D’Amato (1979)

O apaixonado filme de D’Amato pode não ser o mais controverso da sua imensa filmografia – o posto pertence ao infame Antropophagous – mas com certeza bem que tenta. Se o filme com o gigantesco George Eastman promovia um verdadeiro bacanal da repulsão, o sensacionalista Buio Omega vai direto no campo da necrofilia. Longe de julgar o personagem, o próprio diretor caminha junto com o mesmo, num bizarro cruzamento entre Eros e Tânatos, onde a maioria dos corpos humanos despidos vistos são de cadáveres. A cinematografia simples e tosca é tão pervertida quanto seu protagonista, e é aí que reside a força de Buio Omega, que pode não conter avalanches de sangue, mas que por mostrar seu protagonista não como um vilanesco monstro mas sim como um ensandecido apaixonado ainda é uma cotovelada na boca do estômago ainda nos dias de hoje. Apesar de se gabar por sua violência extrema, ainda não vi nenhum dos “terrores de multiplex” ter coragem de dar close em um mamilo que fosse. Que dirá carbonizado….

nightmare-city2Nightmare City, de Umberto Lenzi (1980)

Poucos cineastas desse ciclo são tão “baixos” quanto Umberto Lenzi. Sem requinte, sem aprofundamento, apenas o interesse de chocar da forma mais sensacionalista possível. Não há um questionamento quanto a quem é o verdadeiro monstro, tampouco uma tentativa de desencavar os cantos mais obscuros da mente: apenas um profundo sentimento de misantropia onde o perigo está à espreita quase o tempo todo. Umberto foi pioneiro nos filmes de canibais, dirigiu um sem número de polizieschi e também adentrou no campo zumbi. Nightmare City possui zumbis que correm e usam armas bem antes de Extermínio ou Madrugada dos Mortos terem sua primeira linha de roteiro escrita e um fatalismo que evita a catarse e se interessa, unicamente, em catalogar uma morte atrás da outra, sempre filmadas da forma mais seca, apelativa e simplória. Não à toa, o cineasta é quase um sinônimo do cinema exploitation.

demons5Demons, de Lamberto Bava (1985)

A geração mais nova desse levante de cineastas já fazia filmes com caráter tardio e, por que não, revisionistas. Filho de Mario Bava, Lamberto fez em Demons um dos filmes de horror mais icônicos dos anos oitenta. Se antes Argento se preocupava em ser metalinguista sem propriamente tocar no assunto, Demons já manda a sutileza ladeira abaixo: a história do filme realmente se passa em um cinema onde o filme de horror salta da tela para a realidade. Uma temática recorrente, o fetiche pela violência de quem assiste é encarnado em um filme claustrofóbico onde, após um rápido início, o sangue é espirrado nos olhos de quem assiste quase o tempo todo, até um improvável heroísmo embalado pelo melhor do heavy metal oitentista. A experiência metalinguística de Lamberto é, no final das contas, um bem-humorado comentário sobre o hábito adquirido no último século de se entreter com imagens em movimento – inclusive da forma mais grotesca e gráfica o possível.

dellamorte dellamorePelo Amor e Pela Morte, de Michele Soavi (1994)

Depois de fazer pontas como figurante e ser assistente de direção de filmes de Lamberto e Argento e fazer um documentário sobre Dario, Soavi lançou-se com O Pássaro Sangrento em 1987. O slasher italiano foi o primeiro de uma série de quatro filmes que fez antes de um longo hiato que só teria fim em 2006. O mais marcante talvez tenha sido essa adaptação livre dos quadrinhos fumetti Dylan Dog, de Tiziano Sclavi. O detetive sobrenatural inglês transformou-se no coveiro Francesco Dellamorte, em um filme simbólico e angustiado. Uma espécie de Caronte cansado e confuso que tem de devolver os mortos aos seus túmulos. Uma metáfora dos anos 90, o filme mostra um protagonista e um mundo apáticos que só saem do seu estado de alienação geral com sexo e violência – para logo em seguida voltar ao tédio. As pitadas generosas de humor negro e surrealismo são o fio condutor de um filme tardio no horror italiano  – e um dos seus últimos – que refletiu a condição de um mundo alienado demais para se esbaldar na orgia sangrenta de décadas passadas. O cinema fantástico italiano, mais uma vez, relacionava libido e rigor mortis para comentar o absurdo do real de forma exagerada e grotesca. O prego de ouro na tampa do caixão.

Anúncios

– por Bernardo Brum

Dentro todos os insanos luminares do exploitation– Takashi Miike, Ruggero Deodato, Jesús Franco, Umberto Lenzi, John Waters, entre outros – está, em um dos primeiros lugares, Joe D’amato. Uma de suas obras mais famosas, Buio Omega figura inquestionavelmente no rol das obras mais infames, odiadas, criticadas e detonadas pelos espectadores e críticos em geral. O mesmo parece não se incomodar muito com a fama, fazendo até questão de alimenta-la, já que é dono de outras obras igualmente comentadas como o terror canibal de Antropophagous e o sensacionalismo sobre o tema dos “snuff movies” de Emmanuelle in America.

Uma obra com encadeamento dramático porco, atores inexpressivos e uma maratona incansável de situações incoerentes; assim é Buio Omega, filme resultado de quando algum indivíduo realmente perturbado tem acesso a uma câmera. Você está no terreno do exploitation; esqueça das convenções cinematográficas normais; a regra aqui é sexo e violência – e no caso do filme do italiano, do que existe entre os dois. Buio Omega é uma ode à necrofilia, com um taxidermista perturbado que empalha a própria namorada falecida para poder tê-la ao seu lado para sempre.

Claro, a necrofilia fica no plano das idéias, da pura sugestão; não se trata de tesão por um defunto, mas sim de amor por um. E ódio pelos vivos – que só aparecem para serem mortos, torturados, estraçalhados, derretidos e cremados no final das contas. Só o cadáver da amada é poupado – só é violado pelos bisturis que irão retirar seus órgãos depois que a morte por doença chega. É incrível a falta de vergonha do cineasta ao invadir não só a nudez da sua personagem falecida, mas até o seu íntimo, exibindo os órgãos internos do cadáver de forma quase didática.

Tal limite entre tesão e agressão é cruzado o tempo todo – vítimas são despidas para serem estraçalhadas e então derretidas, ou são queimadas até as cinzas enquanto a câmera se ocupa de filmar partes íntimas chamuscadas. Cru e direto, simples e tosco, sem estilização específica alguma de filtros e lentes, investindo em um realismo brutal que invade os corpos dos personagens sem vergonha alguma.Quase como um álbum de splatter metal, onde técnica jamais sobrepuja a sensação geral de angústia, nojo e repulsa. A atmosfera com fedor de corpo humano é uma assinatura estilística repetida incessantemente por D’amato; nesse caso não foi diferente.

Com um fiapo de intriga, Buio Omega não passa de um grande açougue humano. Não é como as leituras que podem ser extraídas de canibalismo e vilões interioranos em O Massacre da Serra Elétrica; D’amato filma a loucura e a parafilia sem maiores reflexões por trás. É o sentimento de trangressão de um artista anticonvencional por vocação.

Nos quesitos tradicionais, é até difícil considerar Buio Omega um bom filme de verdade. Afinal, foi feito na cara, na gana e na coragem. Um homem que, em 30 anos de carreira dirigiu quase duzentos filmes, e produziu uma quantidade imensa de porcaria, com certeza não tinha a maior paciência do mundo para elaborar um discurso extremamente considerado e pensado – mas é aí que reside o ponto da questão: não é uma obra para se avaliar méritos narrativos ou dramatúrgicos. É a clássica proposta narrativa onde o que importa é a mimese, de nos levar a lugares onde nunca fomos antes – nesse caso, a um lugar onde tudo é feio, cruel e sujo. D’amato irá nos levar a um universo que não é apenas uma impressão da nossa realidade – é quase uma caricatura malvada do real.

D’amato um cineasta do choque, da impressão, profundamente sensorial, profundamente pervertido. No final das contas, ele faz seu ofício com tanta paixão que é até difícil não se impressionar com a intensidade de instintos feios e reprimidos que ele joga na tela de forma gratuita. Exploitation por excelência; o tabu deve ser encenado unicamente se for atraente de se assistir – mesmo que de forma culpada. No final, não há nada que não seja sublimado pelo clima geral de maluquice e podreira. Cinema para quem acredita que filmes de verdade não devem ter absolutamente nenhuma censura. Onde muitos tentam levar a luz, D’amato escurece. Onde normalmente há a retomada de consciência por parte dos protagonistas, há apenas mais torrentes de grafismo intrometido na câmera amoral do italiano.

Pouco preocupado com o discurso, transmissão de valores ou coisas assim, D’amato foi lá registrar suas taras mais perversas em película – e assim nascia um cinema que ainda que muitas vezes esquemático e muitas vezes nem isso, tinha uma paixão doentia pelo ofício que não tinha paralelos. Um poder de atração às partes e instintos baixos que, décadas depois, ainda é impactante – para o bem ou para o mal.

3,5/5