alice doesn't live here anymore

– por Guilherme Bakunin

Antes que Martin Scorsese pudesse se tornar conhecido pelos filmes megalomaníacos que viria a fazer (e que por algum motivo sempre foram os que menos me interessaram), como Taxi Driver e Touro Indomável, ele era um proeminente cineasta italoamericano, forçando seu caminho em uma nova hollywood. Scorsese não sabia que ele, na companhia de um grande grupo de atores, diretores, produtores e etc, iriam reformular os padrões vigentes num sistema que, à época, parecia bastante consolidado. Mas ele sabia que alguns valores no grande cinema de produção americano estavam diferentes do que costumavam ser, e essa era a sua chance. Chamado ao projeto pela própria Ellen Burstyn, Scorsese tateia, aqui, por territórios desconhecidos, mas imprime suas marcas.

A gente pode reparar na maneira incansável com a qual a câmera do filme se movimenta. A cinética de Scorsese é sempre plasticamente interessante e narrativamente incrível. A gente relembra o movimento de câmera de quando Travis leva a namorada ao cinema pornô, por exemplo, ou dos traveling in-zoom out de Touro Indomável e se entrega a um tipo de experiência cinematográfica pulsante, bastante viva e invasiva.

Essa cinética está presente neste filme, a câmera se move inquietamente o tempo todo, como se refletindo a excitação de Scorsese em estar o mais alto até então (esse foi, como se sabe, seu primeiro filme de estúdio). E mesmo aqui, numa história sobre uma dona de casa que persegue um distante sonho de se tornar cantora, o diretor consegue trabalhar perifericamente com temas mais habituais à sua zona de conforto, como a ironia, a violência e a descrença em convenções sociais.

O filme, agora falando dele, é bastante progressista. É obviamente pró-feminista, todas as melhores personagens, à exceção do filho de Alice, são mulheres fortes e independentes, embora não completamente livres. Alice mesmo é assertiva desde o começo, mas estava presa a um casamento com um homem que a odiava, e por isso se rebaixava a certas atitudes que não eram, digamos, dignificantes. Mas a ambiguidade pulsa no filme para dar profundidade a seus personagens. Em um dos momentos mais próximos ao final, Alice confessa que “meio que gostava” da brutalidade do ex-esposo.

O interessante é que isso não a reduz enquanto personagem feminino (eu, enquanto homem e enquanto um cara bastante liberal, como gosto de me ver, pelo menos não vejo dessa forma). Alice sempre aceitou relativamente bem a verdade de que ela está por sua própria conta o tempo todo. Na infância, ela caminha sozinha e lida com a hostilidade dos pais; no casamento, ela cria o filho praticamente sozinha enquanto lida com o desprezo do marido; depois, ela se entrega completamente ao mundo, em uma aposta alta, e tem que lidar com a rejeição e a indiferença.

Da forma como eu vejo, Alice Não Mora Mais Aqui é um grande romance americano, e sua protagonista é um grandioso herói inserido em um contexto contemporâneo.

Ela é obrigada a passar pelas mais variadas provações e desventuras, e percorre um caminho onde vai de choque contra toda uma intricada cultura americana que existe de maneira caótica, desordenada e hostil. E Alice passa sozinha por essas provações, e permanece sozinha mesmo no final do filme, independente de qualquer romance ou relação.

A wikipédia define um “grande romance americano” como “a mais acurada representação do zeitgeist dos Estados Unidos da América à época de sua escrita”, e Alice Não Vive Mais Aqui se encaixa precisamente nesse requisito. Nos cinemas, é o elo menosprezado entre os filmes de Douglas Sirk e os de Robert Altman. Existe enquanto história de redenção (embora não haja uma redenção de verdade no filme, ou talvez haja, sei lá), mas existe também através do artificie avassalador da hollywood dos anos 1970.

E esse artificie é fundamental para que o filme seja excepcional da maneira que é, com seu realismo áspero embora ao mesmo tempo cativante. Em vista da história, um diretor poderia facilmente fazer certas escolhas que prejudicariam na experiência cinematográfica. Todos aqueles artifícios que, em teoria, aproximam o espectador da experiência (música condizente com o tom do momento dos personagens, closes e aproximações, exposição de conflitos interiores, etc), mas que a medida em que se vê e se conhece mais do cinema, mais a gente se convence que, ao invés de mais aproximar, eles mais afastam, estão aqui superados por Martin Scorsese, que acerta em cheio o tom e faz, tão cedo, um dos melhores filmes da sua carreira.

Voltando à questão do zeitgeist: Alice não mora (ou vive) mais aqui. O poético título já faz referência que, a mulher neste filme, que é como qualquer outra, não ocupa o mesmo espaço de outrora. Ela se mudou, é dona de suas posses, sua postura e sua vida. Existe, na verdade, uma redenção no filme, sim, e é justamente essa. Alice é uma mulher confiante o suficiente pra, logo no começo, ir em frente porque quer, e deixar o passado para trás.

5/5

Ficha técnica: Alice Não Mora Mais Aqui (Alice Doesn’t Live Here Anymore)  –  EUA, 1974. Dir: Martin Scorsese. Elenco: Ellen Burstyn, Harvey Keitel, Jodie Foster, Kris Kristofferson, Diane Ladd, Leila Goldoni, Alfred Lutter, BIlly Green Bush.

– por Michael Barbosa

Isso de expectativa é um problema mesmo; sabe, o filme tem o nosso diretor pedófilo favorito dirigindo, a Winslet, o Waltz e a Foster, tem até o John C. Reilly, aquele, esses cinco ai ainda se juntaram e renderam uma das fotos mais simpáticas e cutes que o cinema já nos proporcionou. Juntamos a isso que a história é algo sobre aqueles quatro dentro de um quarto discutindo e com todas condições para darem o seu máximo. Não dá para não esperar muito, e essa mea culpa toda é porque ao que tudo indica Deus da Carnificina não chega lá, infelizmente.

A história é simples, e mais do que isso é apenas um plano de fundo para o desenvolvimento do argumento: dois garotos brigaram, um arrancou três dentes do outro, os pais dos dois se encontram pra tirar a história a limpo.

O que começara com diplomacia e cordialidade acaba virando cinismo, grosseria, sarcasmo, vômitos e bebedeira. Partindo daí Polanski se propõe a realizar uma espécie de alegoria caricatural da burguesia enquanto grupo antropológico, tentando através de quatro caricaturas (a engajada, o frustrado, o workaholic, a mulher moderna) fazer de Carnage um estudo sobre as máscaras dessa classe. O problema reside não em trabalhar com arquétipos ou no ar de “peça de teatro filmada” que possa ter (uma vez que em outros tantos filmes isso passa longe de prejudicar [um exemplo: 12 Homens e Uma Sentença]) mas no caráter surpreendentemente contido que o filme acaba ganhando. Falta a catarse, já disse Guilherme Bakunin, desse mesmo blog e um debate sobre o filme.

Não evitando comparações inevitáveis Carnage remete à temática de Buñuel em alguns de seus filmes, que se imbuiu da mesma missão: analisar, criticar, ridicularizar e escancarar burgueses ou aristocratas. Em O Anjo Exterminador as personagens não conseguem deixar a sala, ainda que nada físico os impeça, o mesmo parece acontecer aqui, o casal de Winslet e Waltz passa por isso, mas é tudo mais tímido do que no surrealismo do espanhol desse ou de O Discreto Charme… Mesmo que cada um dos quatro tenham seus respectivos momentos para exibir um chilique individual Carnage deixa um gosto amargo por não levar o argumento às últimas consequências.

Ao fim temos ainda os dois moleques que brigaram e deram origem a isso tudo bem de boa conversando no parque enquanto os pais se digladiam, é a crítica à moralidade que eles se impuseram de tentar colocar diplomacia em uma mera briga de crianças, Polanski parece dizer “deixem rolar”.

Dentro sempre da ideia de que é tudo um número caricato as atuações são como tem que ser, Winslet faz uma dondoca bêbada patética, Waltz um sarcástico incurável, a Foster vai irritar-nos o filme inteiro com aquele moralismo todo e eles passam isso. Polanski se mostra naturalmente confortável com o trabalho de mise em scène num apartamento e faz do fato do filme se passar todo ali dentro algo pouco cansativo, a duração ínfima ajuda, o filme tem seus momentos de brilho, mais graças aos atores do que do texto, mas é isso dai, os créditos sobem você fica pensando se já era para acabar mesmo e refletindo sobre o que faltou para Deus da Carnificina ser tudo que poderia.

3/5

Ficha Ténica: Deus da Carnificina (Carnage) –  França, Alemanha, Polônia, Espanha, 2011. Dir: Roman Polanski. Elenco: Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz, John C. Reilly.

por Bernardo Brum

Woody é como todo bom mágico: todo mundo acha que ele sempre faz a mesma obra indefinidamente ao longo de toda a sua carreira, mas sempre encontra algum meio de parecer totalmente novo aos nossos olhos.  É assim mais uma vez com Neblinas e Sombras, filme que mesmo sendo uma homenagem ao expressionismo alemão, não foge ao estilo Allen de produção: ótica ateísta, personagens complexos e complicados, humor afiado e sempre com aquela velha pontinha de desconforto…

Assim, não se trata de mera cópia ou homenagem vazia em si, mas apenas um terno novo na vasta coleção do realizador. Assim como já vestiu o manto de Bergman em Interiores ou se cobriu de Fellini em Memórias e jamais pareceu derivativo, com Woody, o expressionismo alemão renasce como uma comédia de de personagens, e não de ação.

Em uma história que envolve a busca por um assassino, o humor é negro, seco, cruel. Não há matadores atrapalhados, investigadores imbecis, nem gags visuais. Pelo contrário; apesar de ainda ser ainda possuir um texto afiado e hilário, é um dos filmes mais opressivos de Woody. O riso nervoso vem das próprias enrascadas em que indivíduos perdidos em seus próprios problemas têm de lidar com um criminoso, provavelmente louco, à solta nas ruas.

Em outros filmes, todos esqueceriam seus próprios problemas para caçar ou fugir da figura que parece onipresente em todos os cantos. Mas o universo de Woody é outro. Entram aqui a engolidora de espadas sentimental, o palhaço cheio de dilemas, o escrituário covarde e puxa-saco que desfilam pelo cenário de época de Santo Loquasto enegrecido pela fotografia personalíssima e sombria de Carlo Di Palma.  Tudo isso deixa o filme a um passo do puro desespero: normalmente, problemas pessoais e situações de perseguição vêm em filmes separados. Juntos, nos dá a idéia de como somos vulneráveis e frágeis. Como sobreviver naquela noite fatídica?

A neblina do título engole e cospe para a câmera piadas sexuais,  questionamentos existenciais e relacionamentos complicados; nunca se sabe com o que iremos nos deparar quando virarmos a esquina: uma nova paixão, um novo grilo na cabeça, uma lâmina reluzente. É nesse turbilhão de vida com sua carga forte de entropia presente que o diretor brinca de prestidigitador e mostra ao seu espectador o seu cinema-mentira: é engano e encanto o tempo todo.

De tão complicado que se tornou, o filme só poderia acabar mesmo em um passe de mágica. Afinal, este é o mundo dos 24 quadros por segundo e só mesmo Woody para depois de enforcar quem assiste por dezenas de minutos seguidos com dilemas claustrofóbicos e situações de puro pânico e ainda lançar um humor jocoso por cima, completar a cereja do bolo com aquele típico final ambíguo e puramente cinematográfico que só ele saberia criar. Esperança e pessimismo ao mesmo tempo, indissolúveis.  Certa vez, Groucho Marx disse que o judeu neurótico do Bronx era o comediante mais original e engraçado de nosso século. Diante de um filme como esses, quem sou eu para discordar do bigodudo?

4/5

Ficha técnica: Neblina e Sombras (Shadows and Fog) – EUA, 1991. Dir.: Woody Allen. Elenco:  Kathy Bates, David Ogden Stiers, John Cusack, John C. Reilly,Woody Allen, John Malkovich, Lily Tomlin, Madonna, Mia Farrow, Jodie Foster, Donald Pleasence, Michael Kirby