– por Michael Barbosa

Joysticks feitos com matéria orgânica, insetos mutantes de duas cabeças e armas que disparam dentes feitas com os ossos desses animais e bio-portas para jogar video-game instaladas através de um buraco na coluna e outras coisas afins. Essa é a toada de eXistenZ, talvez o Cronenberg não fosse nerd suficiente para um sci-fi com a pretensão de dissertar sobre a tênue linha entre realidade e virtual através de games ou, e mais provável, só não estava lá tão inspirado assim ao filmar eXistenZ, seu reencontro com uma ficção científica típica após o aclamado e polêmico Crash – Estranhos prazeres.

A história de uma programadora de jogos ultrarealistas que se vê perseguida por opositores e com sua cabeça a caça e obrigada a adentrar o mundo do seu jogo para não perder cinco anos de trabalho (reparar: conceitos como de back up e cópia de segurança passaram longe) é inegavelmente interessante e bastante visionária para um filme feito numa época que o líder de mercado no mundo dos games era o Playstation One da Sony, nada dos sensores de movimentos e scanners acoplados de hoje em dia.

A certa altura Cronenberg alcança o ponto básico da narrativa e o faz de maneira bem clara: tudo gira em torno de saber se nesse exato momento as personagens estão jogando ou no mundo real, e é com o benefício da dúvida dado ao espectador que se segura o filme até o fim. Assistindo eXistenZ em 2010 acaba por ser bastante inevitável se lembrar de A Origem e a sua invasão de sonhos e de Matrix, também de 1999 e questionamentos análogos, ou até do clássico surrealista de Buñuel, O Discreto Charme da Burguesia, com sua estrutura de sonho dentro de sonho, aqui substituído pelo mundo virtual dos games.

O que faz eXistenZ ser uma tentativa bastante desencontrada de filme com questionamentos existencialistas – como o próprio título sugere – é uma sensação que permeia de que nem o próprio Cronenberg sabia a certo que caminhos estava traçando a cada nova inserção no mundo dos  games e que se sabia a coisa toda ficou lá na mente do artista.

“As reviravoltas no fim me deixaram confuso.”

É provável que a piadinha metalingüística acima seja realmente dos momentos mais espirituosos do filme que no seu desfecho nada explica e de fato apresenta uma enorme sucessão de reviravoltas na trama e inversão de personagens difícilimas de acompanhar. Ninguém é quem parecia ser e não dá para garantir que algo seja o que a sugestão indica.

Escrever sobre eXistenZ é inevitavelmente cair numa enorme sucessão de frases na condicional. De positivo temos que Cronenberg parece confiar em você, espectador, como pouquíssimos realizadores, de triste que talvez não haja material suficiente para questionar e teorizar tanto quanto poderia ser divertido. Depois de digerido pode-se ainda buscar na memória as dicas ao longo da história que sustentam a completa ausência de “mundo real” durante todo o filme, afinal não se indica em momento algum um futuro distante e em um  curto espaço de tempo não surgiriam espécies novas e mutantes, mas de certo essa análise biológica e pragmática de uma obra tão presa ao subjetivismo é de pouca valia, servindo apenas como especulação.

E ao encerrar com “Não, não precisam me matar… Digam-me a verdade, ainda estamos jogando?” se confirma que a esperança de Cronenberg  era de ver seu espectador dando asas à imaginação e transformando seu filme em um quebra-cabeça, sujeito a livres interpretações. Difícil é saber se dessa vez Cronenberg chegou lá. Ainda que se aluda é difícil cravar que o lado de Cronenberg na guerra entre a chata realidade e o escapismo do virtual seja junto aos conservadores, mas ainda que cheio de defeitos, e bastante perdido para um filme do mestre, eXistenZ mostra seu valor na ousadia e no visionarismo temático e no visual escatológico, porém apurado de sempre.

3/5

Ficha técnica: EXistenZ – Canadá, Reino Unido, 1999. Dir: David Cronenberg. Elenco: Jennifer Jason Leigh, Jude Law, Ian Holm, Willem Dafoe, Don McKellar, Callum Keith Rennier, Sarah Polley.

– Luiz Carlos Freitas

Certos diretores muitas vezes nem chegam a ter noção do alcance de algumas de suas obras. Ou será que Frank Darabont imaginaria que o seu primeiro trabalho na direção, uma trama de assassinato e vingança feita por encomenda para a TV, e que nem mesmo chegou a ser lançado DVD, alcançaria o status de cult algum dia? Bem, isso pode até não ser consenso entre o meio cinéfilo como um todo, mas os mais saudosistas irão concordar que, nos bons tempos em que a TV aberta ainda tinha algo a nos oferecer, as inúmeras reprises nas tardes (Cinema em Casa) e noites de Domingo (a finada ‘Sessão das Dez’) no SBT, fizeram de Sepultado Vivo um pequeno clássico para muitos.

O filme tem um argumento bem simples, com uma mulher ambiciosa que envenena o marido com a ajuda do amante (que é médico) para ficar com a sua fortuna. Porém, o veneno não é tão eficaz quanto se espera e o homem tem a “sorte” de despertar após ser dado como morto. Só que isso acontece com ele já dentro do caixão, depois de ter sido enterrado. Como a vadia de sua esposa quis economizar até no velório, o comprou um caixão de madeira estragada, o que acaba facilitando para que ele consiga escapar (na base da porrada).

O roteiro é básico e ‘redondinho’, e se não se preocupa em explicar muita coisa (por exemplo, por que ele não morreu? Por que o veneno – apresentado como extremamente fatal – falhou?), também não deixa pontas soltas. Boa parte da força vem mesmo do trio que encabeça o elenco e é focado na maior parte da projeção, Tim Matheson e Jennifer Jason Leigh, respectivamente marido e esposa, ainda engatando no início de suas carreiras, e William Atherton no papel do filho da mãe sedutor e sem caráter (pela ducentésima vez em sua carreira). Aliás, o personagem dele é de longe o mais interessante. Suas falas e feições carregadas de cinismo rendem alguns dos melhores momentos.

Mas o grande trunfo, sem dúvidas, era o então estreante Frank Darabont. Com alguma experiência no universo do terror, co-roteirizando A Bolha Assassina e A Hora do Pesadelo III, ambos de Chuck Russel, também admitiu ser um grande fã de Alfred Hitchcock e do universo dos filmes de terror “B” da década de 50 (tanto que seu último trabalho, O Nevoeiro, é uma clara homenagem a esse tipo de filme). Sem muitas firulas, ele consegue conduzir o filme de forma segura, com um clima de suspense que é mantido até os últimos minutos,  construindo alguns bons momentos de tensão, como quando ele “desperta” embaixo da terra, cavando com as mãos para sair antes de morrer soterrado, ou o clímax final, onde há o tão esperado acerto de contas na grande “casa-caixão”.

O filme, certo tempo após lançado, ainda teve seu título inexplicavelmente mudado para o extremamente imbecil Morto Mas Nem Tanto, não chegando a ser lançado em DVD, e restando atualmente no máximo algumas fitas VHS nas mãos de colecionadores. Aliás, provavelmente, Sepultado Vivo não mudou a vida de ninguém (como dito, talvez nem mesmo seus realizadores lembrem muito bem dele). Mas, assim como eu, muitos certamente o guardam na memória com um grande apreço e prova definitiva de que houveram, sim, bons tempos aonde a TV aberta ainda poderia ser considerada um sinônimo de diversão de qualidade.

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3/5

Sepultado Vivo / Morto Mas Nem Tanto (Buried Alive) – EUA, 1990 – Direção: Frank Darabont – Elenco: Tim Matheson, Jennifer Jason Leigh, William Atherton, Hoyt Axton, Jay Gerber