– por Guilherme Bakunin

Olha, Bazin sabe que eu sou um dos primeiros a se levantar pra falar bem de Hitchcock. Não sou o primeiro, acho o diretor inglês demais pro meu top3, mas eu o amo. Ele sabe como ninguém montar um filme. Contudo, eu tenho a teoria de que por ser tão perfeito, Hitchcock as vezes falhas por não se deixar errar, vai ver por isso Frenesi é tão bom, porque apesar de ser inglês, não parece. Parece, antes, alguma coisa saída da garganta de um guitarrista de uma banda de hard rock qualquer. De Frenesi para Intriga Internacional são mais de dez anos. Aqui, o filme ainda é plenamente quadradão e não poderia deixar de ser, pois Hitchcock não investe em qualquer vanguardismo, mas utiliza das conquistas que ele mesmo recebeu nos últimos anos (estamos em 1959).

Não é pra menos que ao garimparmos pelo google encontramos pouco material pra Intriga Internacional. E quando encontramos, as pessoas geralmente rasgam elogios ao Hitch e dizem “bom suspense, boa ação”. Ora, boa ação está nos filmes do Rambo, o que não é ruim, diz meu testículo esquerdo. Mas porra, Alfred Hitchcock possui seus próprios parâmetros e resguarda suas próprias expectativas. Nem mesmo o velho comenta muito sobre esse filme, a despeito da melhor cena e mais uma que ele fez o favor de registrar pra sempre no cinema. Vocês sabem de qual eu to falando, da cena do deserto, incrível, exótica, terrivelmente apreensiva. Não existe ninguém no mundo que faria uma cena como aquela. Absolutamente ninguém. E isso deve ser reconhecido. Por outro lado, existem dezenas de diretores, diretores gente boa, não muito pretensiosos mas que sacrificam a arte da linguagem cinematográfica em prol de algo tão plebeu quando diversão, que fariam deste um filme mais agradável. Porque é justamente por ser tão pretencioso que Intriga Internacional rui.

A ideia por trás da história é interessante, a questão de nós e Cary Grant nos inserirmos no meio da história sem termos absoluta ideia do que está acontecendo também. A execução? Paia. O tom de comédia, intencional ou não intencionalmente não funciona, e simplesmente não é o apropriado. Cary Grant foi mal dirigido então alguém por favor chama o Hawks urgentemente. Ele dirigindo bêbado é vergonhoso, não só pela forma como decidiu executar aquela ação mas pela forma pragmática como o Hitchcock filmou, corte sobre corte, close-ups e fundo de retroprojeção. Gordo, vai pras ruas, pelo amor de Deus.

Os lados positivos de Intriga Internacional me parecem ser o mcguffin da Guerra Fria (se bem que existem uma imensidão de filmes que falam sobre essa guerra de 1950 a 1989);  o dedo de Hitchcock é afiadíssimo pra direção, não podemos negar. Não existe outro diretor que  executaria a cena no deserto. Um excerto que não leva o filme pra frente na história, mas é um espetáculo sensitivo pelo trabalho do espaço e das formas (percebam como a desolação do deserto só aumenta a tensão na cena, não deixando Grant opção de escapatória nenhuma diante de um avião assassino); a história tem o seu lado bacana, apesar de ser enfadonha. Um homem comum, herói máximo hitchcockiano é jogado para dentro de algo tão maior do que ele poderia imaginar. Aquela coisa de perseguição dentro de trens e taxis, aquela outra coisa de fugir através do monte Rushmore são questões inverossímeis criadas apenas para a apreciação no cinema. Ninguém liga se qualquer uma das cenas é verdade ou não. Mas a adrenalina de quando Grant é injustamente acusado de assassinato enquanto o FBI diz que nada poderá ser feito para salvá-lo, ou a vertigem  no monte são um espetáculo para o corpo do espectador, um grande prazer que Hitch nos fornece em plena uma atividade estática, passiva, como é o cinema.

No balanço final, eu fico com quem considera o filme superestimado. Meio sem tempero e com Cary Grant sendo meio irritante. O lance de dividir um vilão em três é uma jogada inteligente, mas eu não saberia elogiar muito mais além disso. Talvez na década de setenta Hitchcock trabalharia melhor com o material, talvez não. Não considero, portanto, um filme indispensável dentro da vasta filmografia do velho, e acho apenas médio. Certamente o Hitchcock é um dos diretores mais corretos pra se trabalhar em qualquer tipo de filme; certamente ele tem mais de vinte filmes ruins. Mais certo que isso, contudo, é que existem mais ou menos dez obras espalhadas por entre  as décadas que, com a escusa da opinião, sem inquestionavelmente engenhosas, geniais. Quem faz Um Corpo Que Cai ou Janela Indiscreta tem a licença do cine cafe pra não ser perfeito sempre.

2/5

Ficha técnica: Intriga Internacional (North by Northwest) – EUA, 1959. Dir.: Alfred Hitchcock. Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessia Royce Landis, Leo G. Carrol, Josephina Hutchinson, Philip Ober, Martin Landau, Adam Williams, Edward Platt, Robert Ellenstein, Edward Binns.

– por Luiz Carlos Freitas

Se imagine indo ao cinema para ver um filme de terror sobre pessoas sendo possuídas por demônios que saem matando e destruindo tudo por aí. Agora imagine que, no meio do filme, quando a sangria rola solta e você já está quase borrado de medo, as criaturas do filme saem da tela e comecem um massacre onde você está, exatamente assim, sem qualquer explicação lógica. Pois bem, esse é Demons – Filhos das Trevas, de Lamberto Bava (filho do célebre diretor italiano Mario Bava), uma pequena obra-prima do Cinema Fantástico Italiano (e um dos seus melhores e mais bem sucedidos representantes).

Antes de tudo, vale citar que alguns dos grandes nomes do cinema italiano à época estavam envolvidos no projeto, desde o roteiro do próprio Bava e Argento (que também produziu o filme) juntamente com Franco Ferrini (Era Uma Vez na América, Síndrome de Stendhal, Terror na Ópera) e Dardano Sacchetti (Zombie – A Volta dos Mortos, Terror nas Trevas, Shock), ao cultuado nos anos 90 Michele Soavi, que além de interpretar dois personagens, dirigiu a segunda parte do longa.

Extremamente bem feito aos padrões da época (gore caprichadíssimo), a obra, antes de tudo, é uma grande brincadeira metalinguística carregada de referências a outros clássicos do horror. Já no começo, vemos uma moça caminhando sozinha por uma rua escura e sendo perseguida por um sujeito ameaçador com uma capa preta (Michele Soavi). Ele à aborda e, ao invés de punhaladas (como já deve ser o esperado pelo expectador), a oferece um par de ingressos para uma sessão especial de reinauguração de um antigo cinema. Chegando lá, somos apresentados aos personagens principais no saguão do cinema, entre eles, uma prostituta que se fere ao colocar no rosto uma máscara de metal que adornava uma estranha escultura da entrada do prédio.

O filme começa e, na cena mais brilhante de Demons, as imagens e acontecimentos do filme exibido a eles vão se alternando e confundindo com o “real” (no caso, o que nós estamos vendo). Um grupo de amigos encontra uma antiga catacumba com o Diário de Nostradamus e uma misteriosa máscara de metal. Um deles (Soavi, em seu segundo personagem no longa) a coloca enquanto o outro lê uma sombria passagem do livro onde fala que “Eles farão dos cemitério as suas catedrais, e das cidades os seus túmulos”. Ao retirar a máscara, o rapaz corta o rosto exatamente como a moça no cinema, que à essa altura já está passando mal e se levanta para ir ao banheiro.

Bem, o que acontece é previsível. Numa cena cheia de sangue, pus e demais nojeiras (todas em close), ela se transforma no primeiro demônio assassino e desata a matar todos que encontra pelo caminho, um a um, até chegar na sala de exibição e iniciar o pânico geral. Uma das vítimas é atacada por trás da tela de exibição e, numa sequência excruciante, a vemos tentar rasgar a tela que a separa da platéia enquanto nesta é exibida uma mulher se escondendo em uma cabana que está sendo rasgada pelo monstro assassino. Seus gritos de socorro se confundem com os da atriz no filme e, ao fim, quando o demônio finalmente consegue invadir o esconderijo da personagem, a moça passa em meio à tela, caindo no chão, liberando o demônio e iniciando o terror.

A metalinguagem se mostra crucial em todo o decurso do filme. Os convidados presos no cinema (misteriosamente, todas as portas e saídas aparecem lacradas) são cada um dos expectadores de seu filme. Ao rasgar a tela e liberar o monstro na platéia, a finalidade do autor (no caso, autores) fica evidente: mostrar quem detem o controle, quem são algozes e vítimas e quem está por trás de tudo. Essa proposta identificada em Demons nem podia ser vista como algo novo. Muito pelo contrário, era uma grande ode ao veio autoral tão característico do Cinema Fantástico Italiano, onde seus realizadores abriam mão de pontos ditos primordiais a um filme (coerência narrativa é sempre o exemplo mais lembrado) em função da construção da atmosfera perfeita, onde contar a história era o de menos, sendo qualquer coisa pretexto para jogar o expectador naquele inferno em tela.

Talvez por isso, o filme não faça a menor questão de nos explicar quem promoveu aquela armadilha e quais suas razões, de onde vieram os demônios e como diabos as saídas do cinema foram lacradas tão rapidamente. A obra, dessa forma, seria um deboche, em uma comparação grosseira (e arriscada, admito), o Janela Indiscreta dos comedores de macarrão, só que em uma homenagem sem o glamour do Hitchcock, em forma de arremedo onde o que vale é a vontade do diretor e, ao expectador, resta apenas sentir medo. Nada de pensar, refletir ou encontrar alguma justificativa para algo. Apenas sentir medo. Só isso. Além, é claro, de se divertir descompromissadamente.

Esse desprendimento é um dos grandes trunfos de Demons. Apesar de ser uma nítida homenagem, a obra se mostra independente de referências,  atingindo assim um público bem maior por poder tanto ser apreciada por um admirador do gênero, quanto por quem procura apenas um bom filme de terror, com muita correria, sangue, violência explícita e diversão. Afinal, não precisa ser profundo conhecedor das teorias cinematográficas para vibrar com um carinha montado numa moto com uma mina gostosinha na garupa, correndo de um lado pro outro dentro de um cinema em chamas decepando braços e cabeças de zumbis-demônios com uma espada samurai (!!!), e tudo isso embalado pelos solos de guitarra nervosos do Accept.

A trilha sonora, aliás, merece menção honrosa. Billy Idol, Motley Crüe,  Rick Springfield, Saxon, Pretty Maids e outros nomes igualmente badalados à época ajudaram o filme a ganhar mais visibilidade ainda (não diminuindo a importância da score de Claudio Simonetti – ex-Goblin e imortalizado, dentre outras, pela trilha do clássico Despertar dos Mortos, de George Romero).

Contudo, ao passo que é um dos maiores filmes do horror italiano e ponto alto da filmografia de Lamberto é, provavelmente, a única coisa realmente boa que ele já fez, se perdendo em meio a giallo‘s vagabundos, como Morirai a Mezzanotte e, mais tarde, chegando ao fundo do poço, dirigindo filmes infantis para a TV. É bem provável que os maiores méritos de Demons sejam mesmo de Argento e Soavi, indiscutivelmente muito mais talentosos que Bava (que parece não ter herdado muita coisa da genialidade do pai).

Talvez, a exceção da medíocridade total em sua filmografia seja a própria “sequência” de Demons, que na verdade não tem nada a ver com esse aqui (apenas pega o argumento da possessão em massa e confinamento e joga em outra situação, substituindo o cinema por um prédio), que é até divertida, apesar de ser bem picareta, mas ainda assim longe de ser tão boa quanto o original. Uma pena, pois potencial criativo aqui é o que não faltava.

.

5/5

Demons – Filhos das Trevas (Démoni) – Itália, 1985 – Diretor: Lamberto Bava – Elenco: Urbano Barberini, Natasha Hovey, Karl Zinny, Fiore Argento, Paola Cozzo, Fabiola Toledo, Nicoletta Elmi, Stelio Candelli, Nicole Tessier, Geretta Geretta, Bobby Rhodes, Guido Baldi, Bettina Ciampolini, Sally Day, Jasmine Maimone, Marcello Modugno, Michele Soavi, Lamberto Bava


– por Luiz Carlos Freitas

Há mais de dois séculos, Nietzsche publicava Assim Falou Zaratrusta e, dentre os ensinamentos do personagem título, versava a respeito de um provável posto de evolução da humanidade: o Super-Homem. Segundo ele, e apoiado em Darwin, o homem de hoje em dia seria apenas uma ponte entre o Símio e o Super-Homem, o tipo perfeito que se encontrava bem acima dos humanos normais e, após acurada seleção natural, dominaria o espaço dos demais na Terra. Entre os principais atributos desses indivíduos, está a capacidade de não sentir remorso por suas ações, podendo fazer o que for preciso para realizar algum desejo seu, mesmo que isso signifique usar e destruir outrém. Dentro disso se encaixa, por exemplo, matar um amigo, esconder seu corpo dentro de um baú, usá-lo como mesa e convidar amigos e familiares do falecido para um jantar sobre o seu cadáver. E tudo isso para provar a si mesmo que é um ser superior, desenvolvido intelectualmente o suficiente ao ponto de cometer o crime perfeito.

Mórbido isso, né? Só que, por mais insano que possa parecer, algo bem semelhante já aconteceu. Em 1924, nos EUA, Nathan Leopold e Richard Loeb foram condenados à prisão perpétua por assassinarem um garoto de 14 anos e esconderem seu corpo em uma floresta. Em julgamento, declararam que pretendiam ‘apenas’ cometer o crime perfeito e, dessa forma, firmarem-se superiores aos demais. Claro que, evidentemente, não alcançaram seus objetivos. Contudo, viraram referência e deram asas ao imaginário popular, sendo odiados por muitos, venerados e admirados por outros, inspirando livros, peças de teatro, estudos e obras cinematográficas sobre o caso, como Estranha Compulsão, de 1959, com Orson Welles em um dos papéis principais.

Todavia, apesar de procurar retratar com mais fidelidade o caso, o filme de Richard Fleischer não ocupa o posto de melhor e mais importante obra sobre o ocorrido. Festim Diabólico, dirigida por Alfred Hitchcock uma década antes, é mais um dos tantos trabalhos que fazem jus ao seu título de ‘mestre do suspense’. A trama é a citada no começo do texto, adaptada de uma peça de Patrick Hamilton, por sua vez livremente inspirado no caso. Há uma morte e uma celebração em seguida. Mais que um crime, uma ode ao ego dos dois jovens vilões, o prepotente Brandon (John Dall) e o assustado Philip (Farley Granger). Porém, um dos convidados desse festim é o seu professor Rupert (James Stewart), que desconfia do sumiço do rapaz assassinado e das intenções da dupla que promovera o encontro, passando a observá-los e questioná-los o tempo todo, mostrando ser uma grande ameaça aos seus planos.

Diferente da grande maioria dos filmes do diretor, não há um mistério. Pelo menos, não para nós. Logo no primeiro plano após os créditos, já presenciamos o crime. Sabemos exatamente o que aconteceu, quem são vítima e culpados, e quais os motivos, restando-nos apenas acompanhar o desfecho. Mas não se engane, pois em termos de manipulação da tensão, Hitchcock nunca é tão simples. Levando em conta que há apenas um cenário e um elenco relevante de  três pessoas (além, é claro, do falecido e seu não muito nobre sepulcro), sustentar um clima tenso por quase 90 minutos não é tarefa fácil. Para tanto, o diretor fez uso de breves tomadas alternadas em um único cenário e basicamente o mesmo ângulo de câmera, fazendo com que as cenas pareçam ininterruptas, como se o filme todo fosse um grande plano-sequência, concebendo, além de um ar teatral à obra, a impressão de que tudo ocorre em tempo real e que nós, tal como a câmera que passeia e observa os dois (e o baú), somos também convidados da festa.

A proposta, até certo ponto, lembra bastante Janela Indiscreta e seu voyeurismo como uma analogia ao processo cinematográfico, de quem assiste e seu fascínio que transcende a admiração somente. Talvez aqui as referências não sejam tão direcionadas quanto na obra de 1954, afinal não temos um “O que você quer de mim?” dito ao expectador em close. Contudo, assistimos aos fatos com uma visão tão privilegiada quanto se estivéssemos lá. Somos agentes da situação e, de tal modo, tão limitados quanto.

Isso, definitivamente, é algo que vai muito além de meras duas horas de suspense. Somos jogados em meio ao desespero, ora como o inquisidor que procura descobrir o que de errado está acontecendo e que, na condição de possível próxima vítima, tem de fazê-lo antes que seja tarde demais, ora como o cúmplice prestes a ser desmascarado. E pouco interessa de qual grupo você se vê fazendo parte, pois quando a Sra. Wilson quase destampa o baú, o coração de todos (sem distinção) dispara.

É, Hitchcock não se importa com você. Apenas quer deixá-lo em frangalhos (e – como sempre – consegue).

.

5/5

Festim Diabólico (Rope) – EUA, 1948 – Dir.: Alfred Hitchcock – Elenco: James Stewart, John Dall, Farley Granger, Sir Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan, Joan Chandler, Alfred Hitchcock

– por Luiz Carlos Freitas

Tido por grande parte dos críticos hoje em dia como o “herdeiro” de Hitchcock, Brian De Palma, longe de comparações e aproximações entre os dois, faz jus ao título que carrega. Começou a ser notado nessa “empreitada” em 1973, com Irmãs Diabólicas, seu primeiro thriller de maior reconhecimento, e desde então não parou mais. Em 1976 fez sua versão (livremente adaptada) de Um Corpo que Cai no excelente Trágica Obsessão, chegando à sua maior (e mais descarada) homenagem até então: Vestida Para Matar, em 1980, onde De Palma transporta Psicose para NY e substitui o chuveiro por um elevador.

Entretanto, ainda estava por vir aquela que seria sua definitiva “declaração de amor” ao mestre do suspense. Dublê de Corpo engloba as duas maiores obras-prima do inglês: o já citado Um Corpo que Cai e Janela Indiscreta. E aqui ele vai muito além das meras referências.

No filme, Craig Wasson é Jack Scully, um ator fracassado de filmes B que, após ser demitido, flagra a esposa na cama, com outro. Deprimido (sem mulher e o emprego), vai a testes para um novo filme e lá conhece Sam (Gregg Henry), também ator, que comovido pela situação do “novo amigo” o oferece a oportunidade de se hospedar na casa que ele tomava conta para um colega, uma luxuosa mansão com uma belíssima panorâmica da (nobre) vizinhança.

Sam aponta a Scully o que seria o melhor daquela belíssima vista: uma luneta direcionada à mansão de uma vizinha, a deliciosa Glória Revelle (Deborah Shelton), linda, rica e que inexplicavelmente faz todas as noites, no mesmo horário, um striptease na janela de seu quarto. Coincidentemente, naquele exato momento, ela acabara de começar o seu “show noturno”. À partir dali, Scully se entrega à uma fissura voyeur que em pouquíssimo tempo rompe a linha entre a admiração e a obsessão.

Após observar o espetáculo da noite seguinte, ele percebe que não é o único a observar a bela vizinha e, desconfiando das [más] intenções do outro indivíduo que a cerca, passa a seguí-la, iniciando uma investigação por contra própria a fim de descobrir o que aquele homem misterioso que admirava Gloria do jardim de sua casa queria.

Não precisa ser um gênio para descobrir as referências a Janela Indiscreta (e também que isso não vai acabar muito bem para nosso protagonista). Após uma breve investigação (com um desfecho bem trágico – e até mesmo inesperado, diga-se de passagem), a trama dá uma guinada completa, em uma reviravolta que leva Scully a adentrar na indústria da pornografia, buscando em Holly Body (Melanie Griffith, no auge de sua beleza) as respostas a toda aquela situação e encontrar quem estava por trás daquela armação toda.

O grande mérito do filme é sair da homenagem pura e simples a Hitchcock e, por meio desses dois clássicos, se transformar em uma verdadeira salada de referências, não só ao diretor inglês, mas ao cinema como um todo, seus estereótipos e “dogmas”.

Ao mesmo tempo em que De Palma mantinha em Scully a essência de Jeff (personagem de James Stewart em Janela Indiscreta), carregando as características básicas dos heróis Hitchcockianos, com sua simplicidade e certa inocência, o que o tornava completamente suscetível às tramas dos vilões (fazendo uso, inclusive, de sua mania de perseguição) e de Scottie (personagem de Jimmy, em Um Corpo que Cai), que se deixa seduzir pelos encantos de uma bela e misteriosa mulher, Gloria (e um trauma que desencadeia sua fobia) – elementos estes definitivos para entendermos como os acontecimentos se desencadearam e o rumo trágico que tudo tomou.

Ele faz de Scully uma junção desses dois personagens, em alguns momentos, às avessas, fazendo do protagonista [também] uma verdadeira desconstrução do arqueótipo do herói que eclodia à sua época: um ator de filmes B (grandiosidade do cinema? Não mesmo!) desempregado, enganado pela mulher (nem mesmo tinha onde morar – além de traído, é expulso de casa – que nem era dele, mas de sua ex), além de ser claustrofóbico, o que acabava atrapalhando-o em seu trabalho (logo nos primeiros minutos do longa ele perde o papel principal de um filme no qual trabalhava por ter tido uma crise ao filmar uma cena em que precisava ficar preso num caixão).

Essa desconstrução parte de dois pontos relativos às obras em que o filme se baseia. Enquanto, em Um Corpo que Cai, os medos de Scottie afloravam nas alturas, os de Scully vinham “de baixo”. Um dos maiores clímax de Um Corpo que Cai (a primeira crise de vertigem de Scottie), logo no início do filme, em Dublê de Corpo é transferido ao final, e o alto de um prédio é substituído por um buraco (uma cova para ser mais específico). É o ápice da canalhice (sim, isso foi um elogio) do De Palma. O glamour da Hollywood da década de 50 (tida por muitos como a “Era de Ouro” do cinema) é substituído por um buraco que se transformava num imenso precipício (o que ouve-se falar da década de 80 para o cinema, mesmo?).

Ademais, poderia dedicar parágrafos e mais parágrafos só para elogiar a parte técnica, mas isso serviria somente para cair em redundâncias. Todos os filmes do De Palma após Irmãs Diabólicas têm um aspecto técnico invejável, mesmo nos mais fracos (a fotografia e os travellings iniciais de Dália Negra são um deleite – já o filme como um todo, é melhor nem comentar). Sem falar na sua grande habilidade para dirigir cenas de tensão com forte impacto no espectador. Não há um filme do De Palma que não tenha pelo menos uma cena de ação de prender a atenção e nos fazer suar (como as fantásticas sequências do assassinato e de sua revelação mostrada por vários ângulos diferentes em Olhos de Serpente).

Aqui, há o que ele sabe fazer de melhor em termos de “peripécias” com a câmera, edição e uso de trilha (mais um ótimo trabalho de seu parceiro de longa data, Pino Donaggio). Os planos da perseguição no shopping e seu desfecho na praia (a cena do beijo em que a câmera faz circulares em volta dos dois é uma cópia explícita e cara de pau do beijo em Um Corpo que Cai – sim, novamente afirmo que fiz um elogio) constituem um dos melhores momentos de toda a sua carreira, perdendo apenas para o tiroteio nas escadarias da estação de trem em Os Intocáveis (1987) e toda a sequência do acidente – e de sua reconstituição – em Um Tiro na Noite (1981).

A trama, como já foi dito, apesar de assumidamente “cafona”, não deixa a desejar em momento algum, tendo tanto um desenvolvimento de fácil assimilação a quem procura apenas um bom filme de suspense como elementos e sacadas metalinguísticas para deleite dos cinéfilos mais afoitos. E impressionante como, mesmo tendo uma solução bem simples, a revelação não se faz completamente evidente até os momentos finais (e olhe que logo no meio do filme as respostas já nos são jogadas praticamente “na cara” – vide o trocadilho genial com o nome da personagem da Griffith).

Infelizmente, da mesma forma que Vestida Para Matar (outra obra-prima inconteste), e boa parte de seus trabalhos, Dublê de Corpo foi duramente massacrado pela crítica à época do lançamento e seu reconhecimento só veio bem mais tarde do que deveria (e, mesmo assim, ainda não à altura). Além das retaliações às cenas de alto teor sexual (que nem chegam perto do que o De Palma realmente pretendia – reza a lenda que ele queria lançar uma versão “X-Rated”, com uma famosa atriz pornô americana interpretando a Holly Body) criticaram a violência em alguns momentos (lembram da motosserra em Scarface? Bem, agora é a vez de uma enorme furadeira). Porém, o mais revoltante foi baterem tanto na tecla do filme ser “plágio de um cineasta mais famoso”. É, definitivamente a ‘crítica’ não entendeu o filme.

De sua filmografia, meus preferidos ainda são os já citados Os Intocáveis e Um Tiro na Noite (estes alternando o topo à cada vez que os revejo). Entretanto, chega a ser um completo desrespeito não reconhecer a grandiosidade deste aqui. Desrespeito não só com esse grande diretor (sim, o De Palma é um dos que podemos chamar de brilhante sem receios, mesmo com tantas “escorregadas” em sua filmografia), mas com todo o cinema que esta obra-prima procura homenagear do seu primeiro ao último frame.

5/5

Dublê de Corpo (Body Double) – 1984, EUA – Dir.: Brian De Palma – Elenco: Craig Wasson, Melaine Griffith, Greg Henry, Deborah Shelton.

– ou aqui: Dublê de Corpo (Brian De Palma, 1984) – Guilherme Bakunin [5/5]

no-country-for-old-men-wallpaper-2-1024preview

– por Luiz Carlos Freitas

.
Premiações de ‘Melhor Filme’ tanto podem ser o empurrão à fama como ao abismo para uma obra. Exemplos não faltam, indo da mega-produção Titanic, de James Cameron (verdadeiro sucesso à época, mais pela penca de Oscar’s arrebatados que por sua qualidade em si) ao mais recente O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan (as especulações acerca do Oscar póstumo de Heat Ledger contribuíram para que o longa encabeçasse numa velocidade sem precedentes a lista das maiores bilheterias da história). Todavia, o efeito inverso tem tanta ou mais força ainda.

Lançado em 2007, Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Ethan e Joel Coen, sofreu bastante com a fama adquirida à época de seu lançamento, levando multidões a saírem decepcionadas dos cinemas após verem que não se tratava de um “novo suspense de um assassino cruel em uma caçada humana cheia de sequências eletrizantes de ação”. Entretanto, essa definição não se mostra nem um pouco incoerente. O grande problema à luz da maior parte do público é o modo como isso é apresentado. Temos aqui talvez o maior representante da já característica quebra das convenções cinematográficas sempre presente no cinema dos Coen, tão perigosa ante esse público acostumado às formulas de fácil assimilação quanto corajosa.

A trama [aparentemente] é sobre Llewelyn Moss (Josh Brolin), um ex-combatente do Vietnã que, numa tarde de caça no deserto, depara-se com um cenário de morte, aparentemente uma chacina promovida por traficantes mexicanos. Em meio aos corpos, encontra uma bolsa com alguns milhões de dólares e, sem pensar muito, foge do local com ela, passando a ser perseguido por Anton Chigurh (Javier Bardem), assassino extremamente frio e cruel contratado pelos traficantes para recuperar o dinheiro. Em seu encalço está o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones – personagem que também narra os acontecimentos do filme) e Carson Wells, um segundo assassino contratado para encontrar Llewlyn e Anton e garantir o retorno do dinheiro (uma vez que Chigurh poderia não ser tão confiável).

O “aparentemente” acima, além de uma observação mais que pertinente quando se trata de uma obra dos Coen (as tramas de seus filmes geralmente são pouco mais que um pretexto para desenvolver e [des]construir seus personagens), já serve também para refutar o principal argumento de 97,12% dos detratores da obra: não, esse não é um filme sobre um cara de cabelo engraçado correndo atrás de uma mala.

Aliás, a tal mala é o que o mestre Hitchcock chamaria de McGuffin, um determinado elemento dentro da trama (objeto, indivíduo ou acontecimento) que tem, à primeira vista, grande importância dentro da obra, mas que serve apenas para desencadear uma série de acontecimentos maiores que tragam à tona a verdadeira ‘mensagem’ do filme. Dizer que o filme é sobre a caçada a uma valise é o mesmo que afirmar que Janela Indiscreta é sobre um assassinato na vizinhança, O Poderoso Chefão conta a história de uns carcamanos mafiosos, Blade Runner fala sobre robôs assassinos revoltados ou que A Mosca é sobre um cientista que vira um monstro.

Hitchcock nos levou, a partir de um possível assassinato no prédio da frente, à mais perfeita viagem metalingüística já filmada sobre a força do fascínio do cinema em nossas vidas; Coppola construiu uma das mais completas análises das relações de poder na sociedade; Ridley Scott nos brindou com um sci-fi referencial sobre fé e religião; Cronenberg fez, por meio da escatologia, uma brilhante relação entre o avanço da tecnologia e a regressão dos valores humanos. Aqui, Joel e Ethan Coen tornam esse objeto primordial para o desenrolar dos fatos e, ao mesmo tempo, o fazem quase completamente irrelevante perto do que realmente eclode após seu desaparecimento. Seu papel era dar início a uma onda de violência e brutalidade que, assim como a enorme sombra negra que cobre o deserto logo na primeira cena do filme, inevitavelmente se apodera de nosso mundo pelos motivos mais variados e (numa conclusão assustadora) cada vez mais insignificantes. A famigerada mala é tão irrelevante que o entendimento dos fatos não seria alterado mesmo que dentro dela tivesse Césio 137 ao invés do dinheiro (ou mesmo se ela não tivesse seu conteúdo revelado).

Após essa breve análise, pode-se perceber que esse não é um filme tão ‘fácil’ como boa parte do público esperava. E não só pela mala, mas também pela construção dos personagens, todos carregados de uma simbologia tão complexa quanto próxima de nosso entendimento.

Começando pelo assassino Anton Chigurh, largamente ridicularizado por seu visual esdrúxulo, é fácil um dos personagens mais viscerais do cinema, tanto pela interpretação do Bardem (indiscutivelmente a melhor de sua carreira – até agora) quanto por seu ar emblemático. Ao mesmo tempo em que mata sem maiores remorsos (atentem à estranha arma de ar-comprimido que ele carrega durante o filme – usada normalmente para abater animais, mostra o quanto a vida de um homem vale tanto quanto a de uma vaca), possui um questionável código de honra regido por um jogar de moeda. Tem as expressões de um demônio em contraste com seu estranho corte Chanel. É cruel em essência, mas carrega inconscientemente certa ‘doçura’ (a pronúncia de Chigurh é quase idêntica a de ‘sugar’). Isso tudo o distancia da imagem de um assassino comum, dificultando a cada nova aparição uma possibilidade de identificação com um ser real, tornando-o mítico, até.

Porém, mesmo sendo o personagem de maior destaque dentro do filme, não se destaca tão largamente ante os demais. Tanto Josh Brolin quanto Woody Harrelson merecem a referência (mesmo esse último não tendo tanto tempo em cena quanto os demais). Até Tommy Lee Jones, que aparece bem pouco, merece destaque, haja visto a importância de seu personagens (de todos, aliás – mas isso será citado mais adiante).

As glórias maiores nem devem ser direcionadas às interpretações (por melhores que sejam), mas ao conjunto como um todo. A interação entre os demais personagens e os elementos cinematográficos concede à obra ainda mais força. Os Coen imprimem aqui seu maior exercício de direção até então, firmando-se definitivamente entre os maiores gênios de qualquer esfera cinematográfica. Fica difícil saber o que é mais poderoso numa análise individual (sem cair novamente em elogios a já citada construção de personagens).

A mise-en-scène é espetacular. Incrível como eles conseguem aliar a riqueza de conteúdo a um forte apelo visual e, dadas algumas atmosferas, sensorial. Da fotografia aos elementos em cena (a própria arma de ar do Chigurh parece ter vida própria – as sombras ou recantos de paredes nunca tiveram tanta importância antes em nenhum de seus filmes). A ausência de trilha nem chega a ser sentida, uma vez que até a respiração ofegante dos personagens são mais que suficientes para embalar as cenas (vide a perseguição no deserto ou nas ruas da cidade). Eles fogem dos preceitos do estilo, mas fazem uso dos mesmos com maestria quando necessário, provando que possuem total domínio dos elementos cinematográficos e escapando da subversão pela subversão simplesmente, evidenciando mais ainda seu compromisso com o cinema.

Mas voltemos à trama. Não ao que está ali, explicitado em qualquer sinopse do filme, mas no que há de verdadeiramente representativo, que está por trás de tudo e realmente motivou às ações e omissões dos envolvidos. O que diabos essa correria toda quer dizer afinal? Várias são as interpretações sobre, e apegar-se apenas a uma delas pode ser um erro. O fato é que há uma grande dose de violência transpirada por cada frame. Não a violência física explícita, muito além: assim como Anton carrega certa doçura em seu nome, os demais trazem consigo a brutalidade de uma degradação moral tão crescente quanto inconsciente. Temos vilões, mas não verdadeiros heróis, e isso graças ao meio em que tudo ocorre.

Indo mais além, os quatro personagens principais representam mais que classes ou posturas sociais. Alegoricamente seriam os quatro elementos principais da existência da humanidade: Chigurh seria a morte, implacável e que sempre segue seu curso, independente de quem esteja em seu caminho (nem mesmo uma mulher grávida tem seu perdão), não podendo ser detida por contra-propostas ou argumentos, apenas por um lance de sorte (a moeda que oferece as mesmas chances de viver ou não); Llewlyn é seu maior (e eterno) oponente, a vida, e sua odisséia após adquirir a mala seria o início de nossa jornada de fuga que inicia com o nascimento (ele começa a preparar sua fuga logo que pega a maleta, mesmo sem saber se alguém iria atrás dele – seriam os anos da inocência em que ainda não sabemos do destino inevitável a todos?).

Wells representa a redenção ou, numa concepção que todos nós conhecemos bem, a religião, que entra na trama para apresentar a Llewlyn uma forma de salvação por meio da renúncia, quando diz que ele poderia escapar de seu algoz se desfazendo do dinheiro (não por acaso ele entra em cena quase na metade do filme ou, no caso, da ‘jornada’ de Llewlyn – valores religiosos são adquiridos com o tempo, não se nascem com eles). Ele também mostra que, apesar de certo conforto, ela ainda não pode impedir o decurso da morte (o diálogo desesperado entre ele e Chigurh – um dos tantos pontos altos do filme – evidencia isso).

Por último (e talvez o mais importante), o xerife Ed Tom, a voz da justiça e, tal qual, em maior parte do tempo, faz as vezes de narrador e espectador, transitando em paralelo a tudo que acontece, tentando dar sua visão imparcial e, como esperado de si, mediar. E seria ele bem a representação do título do filme que, originalmente traduzido, seria de uma terra ‘onde os velhos não têm vez’. Ele representa a necessidade da renovação dessa justiça, a inevitável inversão dos valores. O mundo deveria evoluir de acordo com o que se tem por ‘justo’, não o inverso (como ficara cada vez mais evidente), onde os conceitos do que é justo deveriam se adaptar à sociedade (mesmo que esta esteja cada vez mais podre e corrompida).

Bem, à parte do virtuosismo da direção dos Coen e das interpretações do elenco principal, estes acima de qualquer crítica, essas foram minhas modestas impressões sobre a obra e seus significados. No fim há um pessimismo enraizado que se manifesta mesmo nas situações de acalento (como no diálogo de Llewlyn com a sogra: “Não se preocupe, tudo vai ficar bem!”“Como vai ficar bem? Eu tenho câncer!”) e que acabam, ao término dos quase 130 minutos de projeção, convergindo e ratificando seu título original: cada vez mais o mundo se corrompe e se você quiser continuar nele, tem de se corromper também.

Pode soar excessivamente pragmático e, realmente, o é. Evoluímos tanto e nos distanciamos dos animais para, no final, acabarmos regredindo ao ponto de sermos abatidos com tanto desdém quanto a uma vaca, e se você for um dos ‘fracos’, não irá muito além de um mero espectador e terá de se contentar com a justiça ‘dos velhos’ somente em sonhos como os de Ed Tom no final do filme, mesmo sabendo que, assim como o velho xerife, toda e qualquer forma de esperança irá findar em um “… e aí eu acordei!”.

.
PS.: Ainda assim, todos têm o direito de gostar ou não. Mas, por favor, que venham com um argumento que  não seja “é só um filme sobre um cara de cabelo fálico correndo atrás de uma mala!”.  É o mínimo de respeito que essa obra-prima merece.

.
5/5

Ficha técnica: Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men) 2007, EUA – Dir.: Joel e Ethan Coen – Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Stephen Root, Kelly Macdonald, Garret Dillahunt, Tess Harper, Barry Corbin, Beth Grant, Gene Jones.

Alguém me Vigia

– por Guilherme Bakunin

Em 1978, John Carpenter dirigiu uma das suas obras mais aclamadas, Halloween – A Noite do Terror. O que nem todos sabem é que o cineasta tem, no mesmo ano, um filme perdido. Escrito originalmente para o cinema mas feito para a televisão por motivos que ninguém até hoje sabe ao certo, Alguém Me Vigia é uma obra-prima. Em absolutamente nada fica devendo algo pra qualquer outro bom filme do gênero e qualquer outro bom filme do diretor.

Ao receber uma ligação de um perseguidor, Elizabeth, em desespero, se joga da janela do apartamento 4320 e comete suicídio. Algum tempo depois, Leigh Michaels, em fuga de Nova York devido a um amor não correspondido, compra o mesmo apartamento. Começa, pouco a pouco, uma perseguição psicológica que leva Leigh à beira da loucura e que irá explorar vertentes idealizadas por Hawks e Hitchcock, num suspense que é caótico e bastante psicológico.

Uma das belezas do filme está em sua base, sua construção. Não em relação aos plots mas aos personagens que fazem parte dele. É impossível não lembrar do Hitch, quando vemos em um filme personagens tridimensionais, com sentimentos e ‘issues’, que as vezes não são bem explorados mesmo, não por preguiça de quem escreve ou dirige, mas porque a vida não nos permite isso, até porque, a história é sempre contada de um ponto de vista particular da protagonista. Esta, inclusive, tem um desenvolvimento impressionante. Saiu de Nova York por uma decepção amorosa, tenta a vida em Los Angeles como mulher forte, madura e independente que é e encontra uma outra paixão, que de certa forma vai apoiá-la no mar de tortura – sempre psicológica – que está à sua espera. Durante boa parte do filme Leigh fala sozinha; está só, numa cidade estranha, em luta constante contra um psicopata e, além de tudo, foge de seus fantasmas individuais. Ainda sim, mantêm-se obstanada durante boa parte do ‘acontecimento’. Um desenvolvimento de personagem notável e muito bem realizado.

É claro que é um filme tecnicamente delimitado, por ser um trabalho da televisão. Mas quem está por trás das câmeras é John Carpenter, mente criativa. Ao invés de pirotecnia e ação, Carpenter cria um ambiente, uma atmosfera, trabalha com suspense ascendente, sem jamais deixar o ritmo cair, mesmo quando envereda pelos caminhos que dão sustância à persona de seus personagens.

É notável também perceber que o filme possui dois pontos de pico, ambos copiados de Janela Indiscreta. Não se trata de uma crítica, mas de uma observação. Tomando como base a maior e uma das mais influentes obra-primas de Hitchcock, cria um trabalho parecido, mas autoral. O primeiro pico, ocorre via telescópio no 4320, o segundo, no mesmo apartamento, numa cena caótica, megalomaníaca, remete a Um Corpo que Cai, a Psicose, a Os Pássaros e ao caralho a quatro, simplesmente porque é um clímax que todo o filme de suspense deve ter e que poucos – como vários do mestre gorducho – conseguem ter. O final é magnífico, o desenvolvimento é inteligente e o início é empolgante, créditos criativíssimos que delimitam e apresentam perfeitamente o campo de ação.

Alguém Me Vigia firmou-se, pela sua qualidade e mesmo sendo um trabalho para a televisão, pra mim, como o filme mais fantástico de John Carpenter, que é, por sua vez, um cineasta autoral, criativo e independente do mercado, que se destaca, com toda certeza, em todos os cenários de gêneros que representa. A versatilidade do mestre é evidente, o talento pode ser visto em seu trabalho que não é passageiro, mas que se entende por quase quatro décadas de cinema fino, leve e divertido.

5/5

Ficha Técnica: Alguém Me Vigia (Someone’s Watching Me!) – 1978, Estados Unidos. Dir: John Carpenter. Elenco: Lauren Hutton, David Birney, Adrienne Barbeau, Charles Cyphers

1212121212212

– por Luiz Carlos Freitas

De Palma sempre foi um cineasta de vanguarda. E apesar de notada irregularidade em sua filmografia, todos os seus filmes (até mesmo os piores) têm algum mérito, mostras de sua inventividade. Em Irmãs Diabólicas, seu primeiro filme de reconhecimento mundial, ele já dava mostras do grande cineasta que viria a ser futuramente. O filme tem um argumento bem simples, começando com um assassinato e convergindo rapidamente para uma trama mais sombria e “doente” (característica de quase tudo que o De Palma lançou na década de 70), envolvendo investigações e psicoses.

Danielle Breton (Margot Kidder) envolve-se com Phillip Woode (Lisle Wilson) e, após um jantar conturbado, com direito à briga com seu ex-marido, Emil Breton (William Finley), leva-o até sua casa onde passam a noite juntos. Na manhã seguinte, após discutir com uma mulher misteriosa (a qual descobrimos ser Dominique, sua irmã gêmea) enquanto Phillip ainda dormia, e ter uma misteriosa crise por falta de seus remédios, ela o esfaqueia brutalmente até a morte (numa cena realmente assustadora).

Entretanto, Grace Collier (Jennifer Salt), sua vizinha, assiste de tudo pela janela da frente e chama a polícia, que vai ao local mas acaba não encontrando nada, uma vez que os Emil aparece e limpa o local, tirando todas as evidências e escondendo o corpo antes que os investigadores cheguem. Grace, revoltada (e após ser chamada de “louca” pelos policiais) resolve partir pra uma investigação por conta própria.

A premissa é até interessante, no entanto seu desenvolvimento pelo roteiro deixa a desejar. A entrada efetiva de Grace na trama, com sua investigação por conta própria, faz o ritmo cair um pouco, mas nada relevante. Em suas investigações sabemos mais sobre a origem de Danielle e Dominique, além de entendermos a participação de alguns personagens importantes na trama. Suas investigações a levam (literalmente) ao inferno.

A bem da verdade, o roteiro é o que há de menos importante aqui. Com um bom argumento, porém mal trabalhado, sem os aprofundamentos de algumas questões, e até mesmo alguns furos, o grande trunfo de Sisters é ver o De Palma começando a demonstrar sua habilidade no domínio da tensão em cena, criando atmosferas de puro pavor. Fazendo uso do split screen, técnica onde a tela é “dividida” ao meio, temos o pedido de socorro da vítima após o esfaqueamento por dois pontos de vista, de Danielle, dentro do quarto, e de Grace, de sua janela, permanecendo enquanto Danielle e Emil limpam a cena do crime e Grace liga para a polícia e segue ao apartamento dos dois.

A cena é breve, pouco mais de quatro minutos, mas o suficiente para nos fazer tremer na cadeira. E são nesses poucos minutos que percebemos que o talento do De Palma para construir e brincar com situações de tensão extrema é algo realmente nato. O “pesadelo” próximo ao final é realmente assustador, sem dúvida alguma o melhor momento do filme, e figura entre os mais brilhantes de sua carreira (o desfecho na “maca” é também, fácil , um dos seus mais doentios). Além disso, pouco antes do crime, há uma brilhante edição que alterna Phillip comprando um bolo para sua nova “amada” e Danielle ao chão, em um colapso nervoso. O contraste fica ainda maior com a grande trilha de Bernard Herrmann (genialíssima, por sinal – remete bastante às trilhas dos grandes clássicos de horror da década de 50).

Outro mérito do filme é sua curta duração. Com menos de uma hora e meia, as limitações do roteiro não se fazem muito evidentes. O tempo é apenas o suficiente para permanecermos envolvidos nos acontecimentos e, completamente tensos, contando os minutos até a revelação final, que se não é das mais originais e “inesperadas”, funciona perfeitamente bem (e ainda nos guarda uma pequena “surpresa” carregada do humor negro característico desse seu início de carreira).

Destaque também às sempre presentes referências a Hitchcock, desde Danielle sentada no sofá onde o cadáver está escondido enquanto os policiais revistam sua casa (alguém lembrou do baú de Phillip e Brandon em Festim Diabólico?), passando por Janela Indiscreta (Grace e seus binóculos enquanto seu detetive revira a casa do Breton), além da mais direta e evidente de todas: Psicose (que fica bem mais clara quando temos completa certeza de quem é o assassino). À exceção de Festim Diabólico, os outros dois seriam revisitados posteriormente na filmografia do diretor (e de forma muito mais elaborada), respectivamente em Dublê de Corpo (1984) e Vestida Para Matar (1980).

Mesmo com seus defeitos, Sisters é um bom filme. Não fica entre os melhores do diretor, mas certamente é um fantástico início de carreira (que nem era tão “início” assim, já que ele havia feito outros quatro filmes antes desse) e, aliás, início de uma grande e, mesmo com tantos altos e baixos que estariam por vir, brilhante carreira.

3/5

Irmãs Diabólicas (Sisters) – 1973, EUA – Dir.: Brian De Palma – Elenco: Margot Kidder, Jennifer Salt, Charles Durning, Bill Finley, Lisle Wilson, Barnard Hughes, Mary Davenport, Dolph Sweet, Cathy Berry, Olympia Dukakis, Bob Melvin, Burt Richards, Sealo.