– por Allan Kardec Pereira

É bem evidente o paralelo entre Copie Conforme e o cinema de Richard Linklater, especialmente com o belo Before Sunrise. Um casal dialóga em quanto caminha por ruas de uma cidade que respira história, ambos são estrangeiros aquele lugar, o diretor também o é, enfim. Entretanto, essa guinada na carreira do respeitado diretor iraniano Abbas Kiarostami tenciona guardar maiores parentescos com outra obra-prima do cinema, a saber, Viaggio in Italia, de Roberto Rossellini.

Cópia Fiel, especialmente como em Viagem à Itália, lança questões maiores que o próprio romance do casal, na medida em que propõe-se pensar acerca da validade de uma cópia de arte “autenticada”, o que pela voz de um dos personagens, vai depender do seu contexto. Assim o sendo, refere-se a pop-art, onde a imagem da Coca-Cola se reinventa e passa a ser vista como arte.

Entretanto, e isso parece ser uma tendência recente no cinema, o filme é dividido em fragmentos. A primeira parte é, então, pura encenação, e a guinada que Kiarostami desenvolve na trama no seu segundo momento revela o quão o objetivo do diretor é criar um jogo onde apenas a ficção comanda, onde a verdade não somente é incerta, como é encenada, é falsa, é uma cópia perfeita de algo.

E é nesse momento, com a trama da mulher que não entende a frieza do marido, a que este argumenta ela que ela insiste em acreditar que o amor entre as pessoas terá sempre a mesma intensidade, mesmo depois de 15 anos de casados, que o filme ganha ainda mais força. Filme de amor por excelência. Amor de embates. E como tudo ali opera no campo da farsa, não sabemos se o marido ama a mulher; se essa é essencialmente ciumenta. Nesse  sentido, o jogo que o diretor opera um processo de “cópia fiel” da realidade presente em diversos momentos do filme por meio dos espelhos, realidade dos filmes de amor, no caso. Filmes onde o tempo é sempre uma constante a atuar na vida das pessoas, onde o tempo que passa  é aquele que acumulou um desentendimento entre as pessoas, ou pior, tempo que pode afastá-las.

5/5

Ficha Técnica: Copie Conforme – França, Irã, Itália, 2010. Dir. Abbas Kiarostami. Elenco: Juliette Binoche, William Shimmel,  Adrian Moore, Jean-Claude Carrière.

por Bernardo Brum

É logo no final da década de cinquenta e início da de sessenta que Mario Bava, já com tardios quarenta e seis anos debutou oficialmente no cinema após toda uma vida trabalhando como diretor de fotografia, diretor “quebra-galho” e  cenógrafo com A Máscara de Satã, filme fundamentado no que de melhor produtoras como a Hammer tinham lançado no terror gótico enraizado no expressionismo alemão e na linguagem visualmente poderosa que o diretor havia aprendido a desenvolver em tempos menos gloriosos.

O cuidado em compôr um preto e branco real, não apenas cinza, resplandece por toda a película. A típica história envolvendo bruxarias, maldições e possessão é arquitetada em uma impactante combinação de recortes de luz e sombra pouco visto até então no cinema mais comercial e de gênero.

A história da maligna princesa Asa, condenada à tortura e a fogueira da Inquisição e que volta duzentos anos mais tarde para assombrar sua descendente e os descendentes de seus executores, é fotografa de maneira assustadora, com a face das suas duas encarnações -ambas vividas por Barbara Steele – iluminada de forma dúbia e misteriosa por Bava. O evidente manqueísmo do roteiro em momento algum é um empecilho para o diretor – é mais uma premissa para ele pensar, de forma muito eficiente, como a linguagem preto-e-branca pode ser expressiva para que uma relação de opostos seja assimilada de forma ainda mais compreensível.

Indo do rosto jovial e luminoso da inocente descendente ao rosto morto-vivo da princesa bruxa, mergulhado nas luzes opacas que enchem seu rosto de expressão brutal e hostil e sem nenhuma suavidade, essa obra de um velho debutante tem uma consciência de mis-én-scene raramente vista e que o mesmo só aprimoraria com o passar dos anos com suas leituras inspiradas em folclore e  literatura fantástica e suas imagens nascidas dos estudos das obras de artes plásticas mais poderosas  e impactantes para, em acesso de pioneirismo feito pensando na resposta do público e não dos especialistas, formatou toda a estética e narrativa do terror moderno – começando pelo seu próprio país, responsável por formar, a partir de sua obra, um dos panoramas mais célebres e consagrados pelo público do cinema de gênero.

Portanto, para todos que querem entender o cinema de terror, A Máscara de Satã, assim como seus sucessores Banho de Sangue, Seis Mulheres Para o Assassino e O Ciclo do Pavor, é uma peça essencial para a sua compreensão – tendo essa categoria de terror baseado em forças sobrenaturais malditas envelhecido ou não para o grande público anestesiado com tripas, serras, ossos e cabeças decepadas, Bava continua tremendamente relevante – até hoje, a maioria só deu prosseguimento às sementes que ele lançou. A inauguração do paradigma da estética italiana única em retratar o mal começou aqui – e continua sendo copiada à exaustão até os dias de hoje.

4/5

Ficha técnica: A Máscara de Satã (La Maschera del Demonio) – 1960, Itália. Dir.: Mario Bava. Elenco: Arturo Dominici, Barbara Steele, John Richardson, Andrea Checchi, Ivo Garrani, Enrico Olivieri

por Bernardo Brum

Assistindo filmes como esse que fica difícil de entender como Abel Ferrara não é reconhecido, pelo menos em escala bem maior, como um dos principais realizadores dos últimos anos. A história altamente estilizada sobre a dura realidade dos imigrantes nos EUA através da história de amor entre um adolescente italiano e uma garota chinesa que tem de sobreviver à intensa guerra entre as gangues étnicas que dominam os bairros pobres reaproveita parte do conceito da clássica tragédia Romeu e Julieta de William Shakespeare e mostrar que as histórias de amor impossível ainda  ocorrem. Entre Shakespeare e Ferrara, mesmo com todas as mudanças socio-culturais, ainda há a intolerância, o preconceito e o ódio.

A história simples de Ferrara, porém, não é inocente. Seu poder se dá justamente pelo minimalismo do roteiro, construindo os personagens como representações de párias entre os párias; e pela estilização do underground e da marginália à base de figurinos, trilha sonora própria à época e pelas luzes delineando as curvas dos becos escuros e montando, ao mesmo tempo, um campo de batalha entre afeto e ódio, perda e esperança e um palco onde guerreiros urbanos testam sua virilidade em lutas coreografadas como um balé violento.

Mas longe de representações que acabaram por se tornar datadas desse meio, como Warriors – Os Selvagens da Noite e seu desfile de uniformes e fantasias, a parábola de Ferrara sobre a violência que traga todas as emoções humanas e as deixa estateladas no chão em um emaranhado de sangue, vísceras e lágrimas ainda é intensa mais de vinte anos depois. Mesmo com os figurinos, interiores e músicas ainda seguindo aquela estética oitentista que já se tornou involuntariamente engraçada nos dias de hoje, Inimigos Pelo Destino é um filme muito denso e muito trágico, que com sua câmera exagerada, livre e sem floreios (inclusive com alguns dos travellings mais incríveis já vistos) enfoca, para variar, o assunto preferido de Ferrara: o nosso lado feio e condenável, que por alguma razão misteriosa é o que damos ouvidos. A pulsão de vida é sempre rejeitada com facilidade impressionante.

Esse masoquismo e atração pelo erro, vício e decadência é tratado com a propriedade que só Ferrara saberia tratar, em sua forma mais simples e talvez por isso mesmo tão poderosa: não há quem fique indiferente a esta história ao mesmo tempo tão compreensível e tão complexa, que pouco precisa de diálogos, acontecimentos ou reviravoltas para chegar nas camadas além do óbvio. Sem rodeios e com culhões de sobra, em sua primeira grande obra-prima, que precederia toda uma leva que o homem lançaria depois desconstruindo esse “lado negro” numa das filmografias mais impecáveis já vistas.

5/5

Ficha técnica: Inimigos Pelo Destino (China Girl) – EUA, 1987. Dir.: Abel Ferrara. Elenco: James Russo, David Caruso, Russell Wong, Richard Panebianco,Sari Chang, Joey Chin

por Bernardo Brum

Apesar de nos anos oitenta levar o que já tinha feito em Prelúdio Para Matar e Suspiria a outros níveis tão ou mais intensos quanto com as obras Tenebre e Terror na Ópera, foi nesta década, também, que o italiano Dario Argento pariu duas de suas obras mais polêmicas entre seus admiradores: Mansão do Inferno e Phenomena.

Dois dos filmes que muitos dos seus mais tolerantes admiradores já meteram o malho por Argento exagerar ainda mais no que suas obras mais fantasiosas até então tinham de sobra: a absoluta falta de coerência e lógica; o fato dos personagens que entram em cena terem tanta importância quanto uma guimba de cigarro ou pé de mesa; a mega-estilização quadro a quadro de cada seqüência.

Phenomena, filme de extremos, é quase todo assim: é belíssimo de se assistir, mas uma tarefa hercúlea  de ser acompanhado racionalmente. Não há encadeamento nem desenvolvimento. É uma narrativa feita exclusivamente para mostrar corpos sendo despedaçados, indivíduos assustados andando por corredores psicodélicos e rock do mais alto tocando – e nada de Goblin, Morricone ou Keith Emerson aqui. Argento meteu logo na trilha sonora Iron Maiden e Motörhead, duas bandas que, se não assustam, pelo menos ajudam a deixar o filme mais divertido, involuntariamente ou não – e mais badass também.

Admiradores de longa data vão perceber que aqui se repetem uma série de obsessões do europeu doidão além das mortes hipergráficas e maravilhosamente exageradas: as infâncias traumáticas, os animais (aqui, são os insetos ganhando espaço), a paranormalidade, seres bizarros, deformados e/ou etéreos. Tudo em Phenomena faz questão de abandonar qualquer parâmetro possível de de identificação com a realidade; é, antes, um mundo descortinado por Argento; muito provavelmente, uma tentativa de recriar uma impressão de Idade das Trevas aos olhos dos crédulos; maldições, lua cheia, sombras impenetráveis e o abandono de qualquer ciência ou racionalidade de qualquer tipo. Phenomena é da ordem do imaginário, do folclore e das superstições em pleno mundo moderno.

Esse terror gótico/medieval com o qual Argento consegue reconfigurar o mundo que vê é sempre único, singular, sem igual. E como é o caso aqui, nem sempre fácil de acompanhar. Muitas vezes, o filme chega ao cúmulo do sem pé nem cabeça. O ritmo é todo desconjuntado; e curiosamente aí que reside um dos grandes charmes do filme. A impressão que Dario tenha dados uns tecos ou tido alguma experiência lisérgica antes de começar a colocar o filme no papel é nítida em várias passagens; e no final das contas, a história é facilmente esquecível. Mas as imagens, ah, que imagens; entre os momentos que nada parece acontecer e que o roteiro parou, há pequenas jóias que, independentes, mostram sua força em pura catarse de imagens e sons; da trilha sonora perturbada e da fotografia que manda o dedo do meio para qualquer tipo de realismo; da maquiagem e dos efeitos especiais escabrosos (em um bom sentido) que sempre nos fazem desviar os olhos, ranger os dentes ou assistir na empolgação carne sendo rasgada, perfurada, triturada, mastigada…

Phenomena é basicamente isso: um fruto de um diretor que trabalha febrilmente em seu ofício, que solta pelos poros sequências ritualísticas de assassinato ao invés de gotas de suor.  Que transforma cães guias em feras assassinas, água em fogo, espectador em assassino; tudo para fazer você cagar na calça.

3/5

Fica técnica: Phenomena – Itália, 1985. Dir.: Dario Argento. Elenco: Jennifer Connelly, Fiore Argento, Patrick Bauchau, Donald Pleasence, Daria Nicolodi, Dalila Di Lazzaro, Federica Mastroianni

por Bernardo Brum

Terror na Ópera é o tratado cinematográfico definitivo sobre o azar. Sobre as coisas dando errado, seja por predestinação ou por probabilidade. Pode ser a longo prazo, planejado, pode ser no impulso. Dario Argento sempre teve uma atração irresistível de filmar tipos errados e sentimentos que fogem à moral dita civilizada. Azar dos homens ou azar da divina providência, vai saber, o fato é que a violência, as obsessões e psicopatias estragaram qualquer idealismo e desejo altruísta.

Não à toa que o filme se passa durante a encenação da ópera Macbeth, famosa por trazer azar para quem a encena, que tem a sua cantora principal substituída por uma iniciante, vítima da obsessão de um assassino que, durante a maior parte do tempo, parece não ter muito a ver com a história (Dario Argento e suas constantes redefinições do whodunit). E não à toa que o filme começa com planos detalhe e supercloses em um corvo, pássaro identificado como mau agouro nas artes desde o poema homônimo ao pássaro de Edgar Allan Poe.

Como alguém com plena consciência do seu ofício e até onde pode chegar para manipular o espectador (mesmo que certas vezes os filmes sejam tocados num ritmo quase irracional de tão frenético), Argento aqui é genial ao se utilizar do conceito repetição, do leit-motiv normalmente utilizado em comédias, só que aqui de forma macabra, amarrando a protagonista a cada encontro, prendendo seus lábios com fita adesiva e colando agulhas embaixo dos seus olhos. A protagonista é nada mais que o próprio espectador, amordaçado à cadeira, estupefato em silêncio, que não se atreve a piscar enquanto o diretor, na figura do assassino, procura nos providenciar a morte perfeita, o prazer que nos é proibido, como uma obra de Shakespeare subvertida, e então vá embora para nos deixar atordoados.

É essa câmera constantentemente ativa e participativa do cinema de Dario Argento (não apenas pelo conceito de “subjetiva assassina”) que é tão eficiente; assim como De Palma, sua câmera despreza qualquer noção de olho  e passa por lugares impossíveis ou improváveis, dá atenção, através da decupagem, a detalhes que nenhum outro diretor daria na hora de filmar um assassinato ou filmar um clímax improvável (e olha que Terror na Ópera tem ao menos três deles) e usá-la, em conjunto com o roteiro, para jogar com nossas expectativas o tempo todo até desaguar em um final que contraria tudo que foi filmado até então de maneira irônica pela abordagem cafona ao se fazer e bela e poética, jogando a atenção mais uma vez em animais e mais uma vez no azar. Mais uma vez, sabe-se lá o que ele quis dizer – estamos todos sujeitos a isso, tanto às probabilidades ruins quanto aos impulsos primários? – mas sabemos que, independente disso, eis que ele nos sacaneou de novo.

5/5

Ficha técnica: Terror na Ópera (Opera) – Itália , 1987. Dir.: Dario Argento. Elenco: Urbano Barberini, Daria Nicolodi, Cristina Marsillach, Coralina Cataldi Tassoni, Antonella Vitale