por Bernardo Brum

Depois dos elencos estrelares,  do prêmio mais pomposo do mundo cinematográfico, da cultuada comédia O Grande Lebowski, do rebuliço causado a cada filme lançado onde dividem o público entre fãs apaixonados por seu trabalho e críticos ferrenhos pela dramaturgia anacrônica e senso de humor pouco comum de suas obras, pouco se lembra de quem eram os Coen nos anos noventa – promessas de futuras potências, diretores de idéias independentes que poderiam ser autoras e ainda assim terem retorno e público cativo apenas com a força de seus nomes.

Fargo foi o filme que projetou os Coen para o primeiro escalão do cinema americano e fechou o ciclo da sua fase de autores emergentes responsáveis  por grandes obras do circuito alternativo como Barton Fink e Ajuste Final e comédias amalucadas como Arizona Nunca Mais.

Vendido erroneamente como uma comédia de erros, Fargo é bem mais do que isso, bem mais do que apenas as piadas esquisitas dos irmãos diretores. Como já foi dito, Fargo é um policial à luz do dia. Em cores pastéis, plácidas e tranqüilas, onde os diretores jogam torrentes de sangue, carne e podridão humana para compôr um panorama incômodo à primeira vista.

O “noir branco” dos Coen, a investigação de um trambique no meio da neve onde todos falam com um sotaque pouco usual, é o lugar para os diretores sacanearem o estereótipo do cidadão do meio-oeste americano – o indivíduo conformado, medíocre, passivo-agressivo e que tem resistência a mudanças.

A policial grávida, Marge, que faz as vezes de um Sam Spade e Philip Marlowe, terá de descobrir um universo bizarro que ela própria desconhecia. Enfrentará, pela primeira vez, o mundo que o xerife Ed Tom Bell, de Onde os Fracos não tem Vez teve que aprender a encarar. Um mundo sem escrúpulos, onde a violência não tem limite e as vítimas são despachadas e ocultadas de modos bárbaros. O crime, a violência e a selvageria sempre estão um passo à frente.

Esse esforço constante de contraste e confrontação, entre ambientes, personagens e ação fazem de Fargo um filme bruto, agressivo e com uma carga melancólica latente. As lágrimas derramadas pela policial grávida devido aos atos brutais de um assaltante explicam bem isso, num exercício simples de montagem evocando um questionamento óbvio – não é um tanto cruel colocar filhos em um mundo que não os tratará bem nem terá piedade? Que motivação dar a eles?

Típico mal-estar artístico dos anos noventa – do arrastado e pantanoso grunge à violência de estética popular dos diretores indies em ascensão, todos eles compartilhavam um tema em comum, bem além da busca de individualidade e liberdade que acompanhava as gerações anteriores – a questão era o que iriam fazer agora, numa maré de brutalidade e hedonismo trazido pelo clima de “fim do milênio”, do mundo como conhecemos chegando ao seu final para que possa necessariamente surgir outro – e que não sabemos se vai ser para a melhor ou para a pior.

Os indivíduos que os Coen constroem – esses personagens patéticos, desesperados e sem nada melhor para fazer – são uma síntese perfeita do que muitos criticam na sociedade moderna: medo, derrota e incompreensão a cada esquina. Onze anos depois de Fargo, haveria Onde os Fracos não Tem Vez – um filme tão cheio de dúvidas quanto seu predecessor.

Observando o tempo – sejam Hollywood nos anos 30 de Barton Fink, seja o velho Oeste de Bravura Indômita, o interior escravista de E aí meu Irmão, Cadê Você, entre todos os outros clássicos ambientes sobre os quais os diretores adoram lançar seus olhares peculiares – alcançaram um cinema  que toca sempre na mesma nota incômoda e triste, apesar da constante e incrível metamorfose que suas obras estão sempre sofrendo. A violência cresce. As sociedades, aguentam. O homem comum não entende. Os Coen observam o hostil vazio – e dali tiram todas as angústias para transformar em filme. Tanto quanto nós, eles não sabem o que viemos fazer nesse mundo – mas Fargo, como todos os outros, atestam que bem que eles gostariam de saber.

4/5

Ficha técnica: Fargo – EUA, 1996. Dir: Joel e Ethan Coen. Elenco: William H. Macy, Frances McDormand, Steve Buscemi, Bruce Campbell, John Carroll Lynch, Peter Stormare, Warren Keith, Gary Houston, Steve Park

por Bernardo Brum

A vingança. A reação mais quente e passional presente em nosso instinto. Agressiva e desvairada,  com um toque de destruição e pestilência que só piora através dos anos, décadas e séculos. Um dos sentimentos que o ser humano mais está familiarizado desde seu início como humanidade, a retribuição já foi tema de inúmeros filmes, nos mais variados graus qualitativos.

Exemplos mil surgem à cabeça, como a mega-estilização de Kill Bill e Bastardos Inglórios, a estranheza crônica de Oldboy ou a força bruta e tosca de um Desejo de Matar. Bravura Indômita, readaptação dos Coen do livro de Charles Portis (a primeira havia sido de Henry Hathaway, com John Wayne no papel central, lá nos idos 1969), é outro que vem a somar nessa longa fileira da justiça com as próprias mãos.

E acrescenta como nunca a essa espécie de “subgênero” com uma maturidade e controle do que se filma só adquiridos depois de anos esculpindo tempo e espaço de uma forma toda particular. Bravura Indômita não tem medo de se longo, de se demorar no desenvolvimento das relações entre seus personagens, de apostar em leit-motivs, de jogar luz em detalhes escabrosos, intercalar a árida imensidão e a carniceira escuridão, e de destilar aquele misto de humor negro e tensão que impera em cada filme dos manos.

É incrível como o faroeste se encaixa desde o primeiro momento dentro das obsessões Coenianas. Bravura Indômita é um filme sobre uma terra sem lei onde vivem pessoas perdidas que nem de longe lembram o sonho americano (o tipo de personagem favorito dos irmãos, como ladrões interioranos de E Aí Meu Irmão, Cadê Você? e os losers viciados em boliche de O Grande Lebowski). É dessa terra que saem o federal alcoólatra Rooster e a menina Hattie, que quer encontrar de qualquer maneira o assassino do seu pai.

É um filme que de maneira nenhuma quer ser um faroeste clássico (até porque é um gênero que está desfalecendo; dá pra contar nos dedos quantos filmes relevantes do gênero foram produzidos desde Os Imperdoáveis). Apesar de haver concessão para os tiroteios que o gênero pede, o filme se constrói basicamente por palavras: discussões, brigas, alianças, separações e conspirações. A violência, quando vem, é ao gosto de seus diretores: bruta, seca e explícita.

Esqueça a adaptação anterior; Bravura Indômita é um filme encaixado nos novos tempos e não só o gênero como o cinema mudaram demais para que se possa traçar uma base decente de comparação. A adaptação dos irmãos é vista sob o prisma dos valores modernos – o mesmo tom derrotado, cinzento e duro de Fargo e Onde Os Fracos Não Tem Vez.

A dicotomia dos Coen é ambígua: se por um lado eles reforçam o tempo todo o contraste entre experiência e inocência encarnados no velho e na garota, também mostram-se os tons de cinza: esse homem tão destemido e impiedoso é um doente, um guerreiro movido por álcool que pouco sabe fazer além de rastrear e matar; a garota teve sua adolescência roubada no momento que lhe tiraram o pai. O Texas Ranger que acompanha os dois não é de forma nenhuma um mediador, e sim, mais outro para reforçar os conflitos: arrogante, espalhafotoso e orgulhoso, pouco disposto a respeitar qualquer um dos dois, seja o velho caolho ou a pirralha pentelha.

Esta não é uma obra apenas sobre declínio de valores, como grande parte dos faroestes revisionistas fizeram: Rooster passa a ver na chacina o único jeito de se provar o valor para a próxima geração, encarnada em Hattie. É um mergulho a fundo nesse tal sentimento citado no início do texto, onde os diretores esmiuçam como é cansativo, desgastante e quase enlouquecedor se entregar numa caçada sem tréguas atrás de alguém que fez algo contra você.

Pouco une os personagens nisso além dos cem dólares prometidos pela menina: e é agarrando-se nisso que dois derrotados cheios de gana darão o troco em um mundo árido que pouco fez além de tirar entes queridos e apresentar vícios. O bode expiatório é o assassino, Tom Chaney.  Suas roupas negras e a cara manchada por pólvora denunciam: ele é a própria injustiça a ser enfrentada – e, como bem prova o final da obra, nunca totalmente compensada.

Terminando duro e seco, em duas ou três cenas que resumem toda uma vida, a idade não trouxe nenhuma experiência, apenas amargura. O que restou para aquelas pessoas além da vingança? Agora um ser cinzento, Hattie pouco fez além de tudo aquilo. A retribuição pagou uma vida? Compensou outra? Novamente, eles não respondem, novamente eles tiram nosso chão. Tudo o que resta é a lembrança de pólvora e sangue manchando uma vida inexperiente. Vidas marcadas pela violência, em uma terra violenta. E o significado de tudo isso? Novamente, o vazio.

5/5

Ficha técnica: Bravura Indômita (True Grit) – EUA, 2010. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: Matt Damon, Jeff Bridges, Barry Pepper, Josh Brolin, Leon Russom, Paul Rae, Domhnall Gleeson, Hailee Steinfeld, Ed Corbin,Elizabeth Marvel

– por Guilherme Bakunin

É interessante você pegar pegar Gosto de Sangue e Arizona Nunca Mais, colocar os dois frente a frente e depois olhar pra além do horizonte de Joel e Ethan Coen em 1987. Porque são dois filmes extremamente polarizados: Gosto de Sangue, neonoir coeso, extremamente sério (não num sentido tarkovskiano, por exemplo, mas relativo aos próprios Coens) e Arizona Nunca Mais extremamente cômico, até bobo de vez enquanto.

A introdução as personagens é feita rapidamente numa cena de mais ou menos oito minutos, com narração do própro protagonista HI. Nicolas Cage interpreta H. I. McDunnough, um assaltante de segunda categoria que se apaixona e se casa com Ed (Holly Hunter), uma policial local. Depois de algum tempo morando juntos em um trailer, Hi e Ed descobrem que eles não podem ter um filho. Arrasada, Ed bola um plano para sequestrar um dos cinco bebês de Nathan Arizona, um comerciante de móveis local.

Arizona Nunca Mais ainda faz parte dos anos 80 na carreira dos dois diretores, onde seus trabalhos não alternavam entre o dramático e o cômico de forma tão sutil, com uma comédia meio errada, meio rasgada mesmo. Dá pra ver, por exemplo, quando o casal de amigos interpretados por Frances McDormand e Sam McMurray visitam a casa de Hi e Ed que existem umas gags interessantes que ficam bem a margem do verossímil ali, com aquelas crianças terríveis e diabólicas, aquele “peido” escrito na parede, transformando-se num emblema indecifrável, etc. Mas nos diálogos o negócio ainda não fica caricato o bastante. Pra quem não conhece os filmes dos Coen, talvez funcione. Pra mim, não.

Pois é, não funciona tanto quando comédia, mas é um puta filme de aventura. Vai trabalhando com esses personagens esquisitos como se não quisesse desenvolver nada, e acaba trabalhando na dinâmica da família, daquela que tá nascendo agora, casal noivo e inexperiente, até que o filme entrega a eles um pouco de maturidade pra resistir ao primeiro problema (a esterilidade da personagem da Holly Hunter) pra continuar em frente e sei lá. Tem a figura do motoqueiro, personagem duplo. O motoqueiro também é o HI. É a parte de HI que ele tem que exterminar de si mesmo. É a vida bandida, ou é a reificação dos problemas do casal, ou é a imaturidade. E vai ver são todas as coisas encarnadas ali naquela ameaça física e extremamente real. Uma ameaça que diz respeito ao casal, sim, mas principalmente ao HI, que como pai daquela nova família, vivendo aquela nova vida, tem que se olhar no espelho e falar “é isso aí, a partir de agora mudou”.

É uma aventura introspectiva, se vocês me entendem. As coisas funcionam no exterior principalmente pra fazer o espectador olhar pro interior daqueles personagens. O roubo de um dos bebês do Arizona, por exemplo, aquela coisa de “uns têm tanto e outros têm tão pouco” é um questionamento filosófico possível, mas porra, chegar e roubar um bebê é eticamente errado. Imaturidade do casal, despreparo desde o começo. E o título original, Criando Arizona (porque no Brasil o filme se chama Arizona Nunca Mais é algo que eu não entendi até hoje) é quase uma ironia. Porque o Nathan Jr. não chega a ser criado, a história se passa em no máximo alguns meses, mas quem cresce mesmo são HI e Ed. É quase como se o bebê, através de todas as experiências que ele proporcionou, tivesse educado o casal.

Terminando o filme tem a sequência do sonho do Nicolas Cage. O povo costuma não gostar, chama de piegas. Eu já falei aqui antes, no texto sobre Um Mundo Perfeito que a gente que gosta um pouco mais de cinema (no sentido de que a gente não vê apenas os filmes que passam no shopping, deixando claro que não existe nenhuma autoindulgência intelectual atuando aqui) costuma torcer o nariz pra quando o melodrama é acentuado demais. Uma má criação, certamente. Alguns filmes, e o Clint Eastwood é perito nisso, trabalham intensamente com o drama, buscando transferir a emoção do personagem ao espectador. Quando não consegue, é pieguice descarada mesmo. Mas quem viu o filme e acompanhou o crescimento –existencial- do HI TEM que se sentir tocado por esse sonho. É inverossímil porque a gente não costuma acreditar no milagre de fertilização em mulheres estéreis, mas é emocionante, é lindo, casal tendo filhos e envelhecendo juntos, criando netinhos e etc. Fofo demais. A sequência final de Arizona Nunca Mais inspirou aquela da A Origem e A Última Noite (de Spike Lee).

3/5

Ficha Técnica: Arizona Nunca Mais (Raising Arizona) – EUA, 1987. Dir. Joel Coen. Elenco: Nicolas Cage, Holly Hunter, John Goodmann, Trey Wilson, William Forsythe, Sam McMurray, Frances McDormand.

-por Guilherme Bakunin

Um dono de um bar no Texas (Ray, interpretado por John Getz) descobre que sua mulher Abby (primeiro papel de Frances McDormand no cinema) está tendo um caso com um de seus empregados, Marty. Angustiado, Ray contrata um detetive caipira para matar sua esposa e seu ex-empregado. Gosto de Sangue é o debut de Joel Coen e, portanto, representa uma espécia de cinema que não é tão característica, através de uma abordagem séria e romântica em um noir (ao contrário de Fargo e O Homem que Não Estava Lá, por exemplo), ainda que seja, digamos, simbolicamente confuso e preciso.

A história segue a linha tradicional dos roteiros de Joel e Ethan Coen onde acontecimentos desencadeiam-se por consequência de pequenas atitudes que se tornam progressivamente mais catastróficas. Engano por engano, ganância por ganância, ninguém em Gosto de Sangue tem certeza do que está acontecendo. E com a meia história que lhes é confiada, os personagens tentam fazer o que podem para se livrarem das frias. Abby, por exemplo, não chega a descobrir se Ray realmente morreu ou não, uma morte que acontece por volta dos 30 minutos de filme e gera consequências até o minuto final.

Essa ignorância seria revisitada em outros filmes, desde uma abordagem cômica rasgada – Queime Depois de Ler – até uma graça mais contida – Onde os Fracos Não Têm Vez. Aqui, é simplesmente um oceano de tragédias transfiguradas na presença do detetive particular Loren, o que de mais onisciênte existe no filme. Não seria ir longe demais comparar Loren ao personagem de Xavier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez. Chigurh e Loren compartilham de uma existencia surreal, funcionando muito mais como elemento simbólico do tema do que como humanos de fato. Loren não dorme, não come, não caga, ele investiga, engana, rouba e mata pessoas, sem nenhum senso de moral (a moral é humana).

No título original, Blood Simple, os Coens fazem referência a um romance chamado Red Haverst de Dashiell Hammett (que, entre outras coisas, escreveu os livros que inspiraram nada menos que Relíquia Macabra e Ajuste Final, este também dos Coens) onde o termo é usado para descrever o estado de terror e suspeita psicológicos em que as pessoas ficam depois de submetidas a situações prolongadas de violência. A desconfiança de Abby de que Marty tenha assassinado Ray, e a certeza de Marty de que Abby cometeu tal assassinato são exemplos de como esse caos mental se instaura no filme de Joel Coen.

Por fim, vale comentar os dez minutos finais de filme, uma explosão de emoções não muito fácil de encontrar. Os elementos que compõe esse desfecho formam, na minha opinião, a quintessência daquilo que se entende por cinema noir. Não falo aqui de femme fatales ou de personagens solitários no pós-guerra (essas característias psico-individuais fazem parte do desenvolvimento de uma história, não necessariamente de uma estética), mas do desencadeiamento da violência através de um uso espetacular de luz e sombra; veja Abby chegando ao seu apartamento: Marty está na sala principal, no escuro, de frente à janela. Abby, com medo (a suspeita do termo blood simple está latente aqui), acende a luz, Marty em seguida apaga. Novamente, Abby acende a luz, com temor mais intenso e segundos depois Marty é assassinado. Abby corre dos tiros e queima a lâmpada extinguindo a luz. Desafiando os signos proto-medievais de representação, a luz se transforma em morte, que se transforma em Loren que repentinamente entra no apartamento da moça e procura assassiná-la. Abby vai ao banheiro, está com o detetive em seu encalço, e através da janela chega ao quarto do lado e consegue imobilizar Loren. O homem então começa a disparar contra a parede. Do outro quarto, Abby está imersa numa escuridão que começa a ser quebrada com os disparos de Loren que deixam rastros permanentes de luz no cômodo. A morte novamente se aproxima. O simbolismo no desfecho é tanto que Abby derrota o detetive, mas sem jamais ver seu rosto. Não uma sequência de perseguição-assassinato natural, tá mais pra como se ela derrotasse uma ideia que surgiu de si mesma (ela acreditava ser o ex-esposo, sedento por se vingar na traição), alguma ameaça incorpórea que represenasse o perigo meio católico (criação dos Coens) de prestação de contas e etc.

4/5

Ficha técnica: Gosto de Sangue (Blood Simple) – EUA, 1984. Dir.: Joel  Coen. Elenco: John Getz, Frances McDormand, Dan Hedaya, M. Emmet Walsh, Samm-Art Williams.

– por Mike Dias

“Quanto mais se olha menos se sabe”, esse é o único fato existente segundo o advogado Freddy Riedenschneider e, realmente, O Homem Que Não Estava Lá parece fazer essa máxima verdadeira a cada novo acontecimento na vida de Ed Crane (Billy Bob Thornton, em uma das melhores atuações da década). Esta é mais uma tragédia dos Irmãos Coen, um daqueles filmes onde uma ideia ruim desencadeia uma enorme série de infortúnios e desgraças, tudo isso tendo no centro da história um sujeito extremamente crível e fácil de acreditar na verossimilhança das suas atitudes por mais absurdos que os acontecimentos ao seu redor possam parecer – e isso pode incluir naves espaciais, matar um sujeito e ser condenado pelo assassinato de outro e coisas afins.

O fim dos anos quarenta, os ternos, a fumaça e os cigarros onipresentes, o preto e branco, o estilo mulher fatal de algumas e a falsa inocência de outras, as paranóias… Não há dúvidas, são os Coen revisitando o universo do film noir, só que agora de maneira muito mais profunda do que em Gosto de Sangue e tantos outros filmes da dupla, que já flertavam com o gênero. Realmente impressiona ver como se valendo de uma de capacidade técnica quase incomparável eles conseguem transformar virtuosismo em algo prático a serviço de um grande filme.

Ed Crane é o tal homem que não estava lá do título, um sujeito absolutamente prosaico, ordinário, comum e irrelevante até sobre uma óptica pessoal, um barbeiro que em um belo dia ouve uma proposta sobre lavagem à seco e, afim de conseguir dez mil dólares para começar o negócio, chantageia o chefe da esposa que ele desconfia de o trair. Esse é o seu primeiro erro, o pontapé do que viria a culminar em uns dois assassinatos, um suicídio, uma condenação à cadeira elétrica, um acidente de carro, uma viúva beirando com a insanidade (ou não), um bom sujeito entregue ao álcool e um advogado um pouco mais rico. É um legítimo arquétipo daquilo que os Coen fazem de melhor: narrar a tragédia, seja na releitura da clássica tragédia grega de Homero em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? ou em toda contemporaneidade de Queime Depois de Ler.

Um turbilhão de acontecimentos e pancadas na nuca é o que vemos Ed sofrer, o drama do sujeito que recebeu desgraças em troca de finalmente ousar, tentar um novo negócio, tentar fazer o bem à uma garota que ele apostava no talento. Tentando e tentando ele só se ferrou, mas o tempo todo mostrou certa reciprocidade com o jogo destino, sempre na busca de se recompor ao seu modo. Sim, há algo de muito melancólico e pessimista aqui, no discurso desanimador e principalmente na figura de Ed, que mesmo sendo um homem de meio século atrás não se tornou nada anacrônico. Como Riedenschneider disse em seu discurso de defesa, condená-lo seria condenar o homem moderno na sua mais pura representação e os Coen colocam assim em dúvida – para variar – a sociedade americana e questionam até que ponto Ed teve o direito de viver o sonho americano, a busca pelo usufruto do capitalismo e da felicidade, a liberdade. Preceitos tão defendidos pela Nação foram aqui pouco a pouco lhes tomados, pelo acaso, por extraterrestres ou pela lei. Mais até do que com Onde os Fracos Não Têm Vez, é com isso daqui que os Coen definitivamente escrevem seus nomes na história do cinema.

5/5

Ficha Técnica: O Homem Que Não Estava Lá (The Man Who Wasn’t There) – 2001, EUA. Dir: Joel e Ethan Coen. Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, Michael Badalucco, Ethan Coen, Joel Coen, Roger Deakins, James Gandolfini

por Bernardo Brum

Aqui os Coen delineavam pela primeira vez seus filmes mais sérios e dramáticos. A mão pesada na hora de estilizar com alta precisão uma história crua, violenta e angustiante faz de Ajuste Final, merecidamente, um dos grandes filmes de gânsgter da sua época, junto a Pulp Fiction, Os Bons Companheiros, O Rei de Nova York, O Pagamento Final e tantos outros. E como todos sabemos, em grande parte de seus filmes sérios também podemos encontrar um senso de humor negro despejado por aqui e por ali que, somado aos seus personagens bizarros, leva o cinema dos irmãos a algo além de um recorte da realidade, mas sim a um imaginário pessoal, uma percepção própria de determinada realidade.

A maioria dos filmes de gângster contam histórias de ascensão e decadência. Pessoas entrando para o mundo do crime, trocando tiros, caindo em emboscadas, executando crimes, encontrando a redenção e/ou a desgraça ao final. Ajuste Final não. É um filme que gira em torno de manobras estratégicas audaciosas, de sorte e de malandragem, de reavaliação dos parâmetros. Quem ascende e quem cai chega ao seu destino sem muitos alardes e simbolismos. Tom Reagan come o pão que o diabo amassou e age  com a sagacidade venenosa de uma cobra; um anti-herói completo que faz a conexão com o espectador do que é estar naquele mundo cercado de contrabando, pistolas, enforcamentos, estranhas coincidências, sexo, alcoolismo e dezenas de outros elementos da década de 30 que compõem um panorama assustador. Aqueles que pregam que a violência só cresceu de forma assustadora nas últimas décadas, precisa ver urgentemente essa violência encoberta e glamourizada. Há muito tempo, já vivíamos em um mundo-cão selvagem e impiedoso onde o calculismo e o  acaso têm de ser os principais equipamentos que um homem de sucesso pode levar consigo.

A passividade e covardia de Tom, assim como  seus esquemas renovados constantemente, suas alianças forjadas e destruídas e seu caráter ambíguo e misterioso, quase impenetrável, durante todo o filme. Um cara que tem a sorte de ter amigos em todo lugar que podem sempre dar uma mãozinha – e também o cérebro para determinar o próximo movimento. A cidade é o grande jogo de xadrez de Reagan, e Millers Crossing é seu principal ataque, seu determinante de xeque-mate. Sempre que ele passa por lá, não apenas um novo evento essencial da trama acontece, mas ele tira uma carta da manga para chocar aliados, adversários e espectadores. Mais de uma vez achamos que seus sentimentos por este ou aquele podem atrapalhar no sucesso do que seja lá o que ele quer atirando por todos lados, mas não só o roteiro pragmático está com ele; nós também estamos. Um esquema que não pode dar errado, senão somos arrancados à fórceps daquele mundo. Um mundo do qual não podemos sair até os Coen completarem seu discurso tragicômico sobre o vazio sem sentido da existência e a violência e a crueldade inerentes ao ser humano.

No final, a violência e crueldade que Tom por várias vezes contempla e é vítima, é também a sua carta da manga definitiva – aquela que esperou o filme toda para ser usada para pôr fim em um mar de várias reviravoltas por minuto e que transforma a situação em um mata-mata generalizado e tudo que ele tem a fazer, depois de deixar seus inúmeros adversários se estribucharem uns contra os outros, é chutar rasteiro no canto do gol. E sair dessa de uma vez depois de provar mais uma vez sua lealdade, sua competência, seja lá o que for, mas também a frieza e capacidade estratégica. Que ganhou várias batalhas de uma vez só.

Tanto direção quanto roteiro são tão distantes quanto seu protagonistas. Indiferentes e apáticos, mas ainda assim, carregados e densos. Não se comovem com nada e apenas continuam avançando. Surpreendente que, mesmo  em meio a tanta estilização, os diretores não façam questão alguma de tomar algum partido – a não ser o da desconstrução do glamour, da análise da violência explícita, do humor cruel mas ainda assim funcional em seu papel analítico.

Este é o discurso dos Coen, sua construção de uma realidade possível através de sua narrativa absurda e impossível de deter, afiada como uma faca, rasgando qualquer preceito  e recorrendo quase a certo hermetismo para mostrar o de sempre: pessoas matam e morrem por nada. Talvez por dinheiro, talvez por não terem nada melhor para fazer. Onde momentos que condensam toda uma vida são materializados em chapéus voando caindo lentamente no chão. Apesar da ambientação nos anos trinta, também valia naquele início de década de noventa, e também serve agora, vinte anos depois. Onde, para ficar vivo por algumas horas, precisaremos de um bom plano e uma boa pontaria. Boa sorte pra quem fica…

5/5

Ficha técnica: Ajuste Final (Miller’s Crossing) – 1990, EUA. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: Frances McDormand, John Turturro, Steve Buscemi, Gabriel Byrne, Jon Polito, Albert Finney, Marcia Gay Harden, J.E. Freeman,Michael Jeter, Michael Badalucco

– por Guilherme Bakunin

Why the fuck did they go to the russians? Ora, eles foram aos russos porque estavam perdidos, num mundo que já não é mais o mesmo e que já nem tantas coisas acontecem mais. Enquanto todo o planeta cria filmes que remetem a acontecimentos passados ou que se focam dentro de personagens, distanciando o cinema completamente do meio, como fazer um filme que reflete os nossos tempos e que possua um valor histórico imensurável? Bom, você vai fazer Queime Depois de Ler.

Dezenas de personagens que estão vivendo um momento qualquer e sem muita importância de suas vidas, e que começam ter suas histórias narradas para nós, espectadores. Essas pessoas são falsas e conspiratórias, sempre procurando uma brecha para dar um chute em alguém e favorecer-se a partir disso. Uma mulher tem um amante e seu marido se demite da CIA shit. A partir daí tudo é paranoia e nada de fato acontece.

Durante a trama quase todos morrem e sagrados matrimônios vão para o espaço, enquanto Joel e Ethan Coen filmam através de de carros, galhos de árvores, com o que parece ser uma máquina fotográfica. Existe alguém espionando George Clooney. CIA? FBI?  Tuchman Marsh cia de advocacia ltda? Quando a consciência pesa, o mundo inteiro está contra você e até um vibrador possui um objetivo maligno.  Suas atitudes demonstram seu estado de espírito e George Clooney, que está traindo a mulher com no mínimo três outras mulheres, está atormentado, atira em  pessoas depois de vinte anos e foge para a Venezuela. Malkovich foi traído pela mulher e pelo trabalho e, sem saída, enlouquece.  McDormand chegou até onde podia com o corpo que tem e faz de tudo para conseguir uma imagem nova. Reflexo das aspirações e dos valores sagrados americanos, consolidados mais ou manos à época da Guerra Fria e que inexoravelmente ajudou a criar os americanos como eles são hoje.

Claro que a análise do filme não precisa ser tão rígida. Queime Depois de Ler é engraçado, dá pra rir muito fácil. O que não dá pra fazer, porém, é ignorar que o filme foi dirigido pelos irmãos Coen e quem os conhece sabe que eles não vão para o campo de batalha à toa. Todos os trabalhos dos cineastas brincam, remontam e estudam determinados aspectos dos Estados Unidos ou da sociedade americana (sendo que o cinema americano é um dos temas mais recorrentes) e portanto, com esse filme essa história não seria diferente. Claramente brincam com a obsolência das grandes corporações governamentais e de forma inusitada narram os reflexos que toda a confusão e falta de rumo, depois de mais de cem anos de guerras e anestesiação, que engoliram os filhos da América. Dois grandes chefões da CIA se questionam o que poderia ter acontecido e o espectador menos atento vai achar que nós estamos personificados neles. Na verdade, somos Jack Nicholson em Chinatown, perdidos, mas cientes. Estamos cientes porque Joel e Ethan Coen nos mostraram que Clooney preparava algo ultra secreto e que no final das contas era uma cadeira de sexo. Com isso em mente, saiamos de nossas casas e encaremos as nossas vidas, cientes de que todas as coisas que acontecem acontecem provavelmente por ócio.

5/5

Ficha técnica: Queime Depois de Ler (Burn After Reading) – 2008, EUA, Inglaterra, França. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, Elizabeth Marvel, David Rasche, JK Simmons.