por Bernardo Brum

Incrivelmente subestimado na extensa filmografia de Bergman, A Hora do Lobo é, certamente, seu filme mais atmosférico. Para contar a história de um pintor em crise tragado pelos próprios demônios e fantasmas até a auto-aniquilação, o sueco fundiu closes, sombras, luzes pontuais e um roteiro que desintegra a própria lógica narrativa e narrativa de imagens tradicionais para compôr uma viagem sem volta ao pior tipo de inferno: aquele que mora dentro da cabeça de cada um de nós.  Como a personagem de  Liv Ullmann, só nos resta sentir a angústia, a tristeza e o mundo transparentes a cada fotograma. Quanto mais densa é a madrugada, mais o lobo da pestilência uiva.

5/5

Ficha técnica: A Hora do Lobo (Vargtimmen) – 1968, Suécia.  Dir.: Ingmar Bergman Elenco: Max Von Sydow, Liv Ullmann, Erland Josephson e Ingrid Thulin

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– Luiz Carlos Freitas

Eu juro que já me esforcei muito para entender alguns detratores do Woody Allen, mas desisti dessa batalha ingrata tem algum tempo. Injustamente acusado de “não variar, indo sempre no mesmo tema e com as mesmas abordagens” por tratar das neuroses do homem “apenas” (aspas óbvias, aliás, se observarmos o quanto que o tema é tão mais amplo do que comumente tratado), por vezes ignoram a versatilidade de um diretor que passeou pelos mais diversificados gêneros cinematográficos como poucos (e a comparação com Stanley Kubrick nesse quesito é indispensável). E se com Hannah e Suas Irmãs ele se mostrou (superficialmente) alternando entre dois gêneros específicos (drama e comédia), sua temática e abordagem colocam a obra mais além do que qualquer sinopse ou rótulo de prateleira de locadora possam limitar.

Centrada na família da personagem-título, Hannah (Mia Farrow), uma atriz de sucesso com um casamento perfeito que sustenta (emocional e até financeiramente) suas irmãs, Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest) – a primeira, uma ex-alcoólatra em recuperação casada com Frederick (Max Von Sydow), homem muito mais velho e extremamente controlador, a segunda, uma atriz fracassada e drogada que só consegue se apaixonar pelos piores tipos possíveis -, acompanhamos uma situação de possível desequilíbrio quando Elliot (Michael Caine) se revela completamente apaixonado por Lee, sua cunhada, iniciando um romance que pode provocar uma ruptura completa entre a família. Paralelamente, vemos o desespero de Mickey (Woody Allen), um renomado roteirista de TV (e ex-marido de Hannah), que diante da possibilidade de estar com uma doença terminal, tenta de todas as formas possíveis “encontrar Deus”.

Visto de modo quase unânime como uma obra-síntese da filmografia do diretor, é provavelmente sua realização cinematográfica mais completa, uma miscelânea perfeita de seus maiores temas habituais, como casamento e amor (assim mesmo, separados), conflitos de gerações, artistas com carreiras fracassadas, autocomiseração, ética e moral, todos representados pelas arestas que saem de e tornam a um ciclo em Hannah, o centro gravitacional daquela família (e, claro, com o jazz presente e a indefectível Manhattan como um cenário-personagem).

Mas Allen também está nesse filme, não nos esqueçamos dele. E seu personagem, mesmo que orbitando paralelamente e quase totalmente alheio aos demais conflitos da trama, é um dos mais importantes dentre todos. Allen faz de Mickey uma versão extrema de seu personagem mais característico (ele mesmo, de certo modo), uma espécie de cruza de Alvy (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), Sandy (Memórias) e Isaac (Manhattan) que, evoluída, repensa toda a sua pretensa autosuficiência. Por um pensamento consigo mesmo, logo após a saída do consultório médico (“Fique calmo! Você está no meio de Nova York, sua área, cercado por pessoas, trânsito e restaurantes! Como pode um dia, do nada desaparecer?”) seguido de uma crise desesperada (“Meu Deus, estou morrendo!”) que o leva à busca urgente por “Deus”, podemos ver nele somente o ponto em comum a todos os personagens da trama: o sentido da vida.

Allen nunca escondeu que Ingmar Bergman (cujas obras abordavam constantemente os temas existencialistas) era um de seus maiores ídolos. Alguns citam o posterior A Outra como sua maior referência ao diretor sueco, mas aqui todas as questões do vazio existencial (que já se mostraram presentes em trabalhos anteriores do próprio Allen, como Interiores) são trabalhadas com maestria digna do referenciado. A construção de personagens, seus conflitos e o desenvolvimento, mesmo os acompanhando por um período de quase dois anos, são perfeitas, não se perdendo em momento algum (e trabalhados com profundo realismo). A atriz fracassada que busca a oportunidade da sua carreira e estabilidade amorosa, a mulher aprisionada a um relacionamento por conveniência que não consegue sua independência financeira e, pior, pode destruir a família ao se envolver com o marido da irmã, o homem indeciso entre a segurança de um casamento morno ou a paixão nos braços da amante, o cético que procura preencher os símbolos vazios de uma fé que não pode ser simplesmente adquirida; todos compartilham do mesmo sentimento de incompletude, da mesma jornada em busca por uma razão, um sentido às suas vidas, até então, vazias.

Mas Allen não decai sobre moralismos, artifícios bobos ou saídas fáceis. Lembrem-se, Hannah e Suas Irmãs é, acima de tudo, a vida real em tela e, como humanos que somos, não nos cabe exigir perfeição. E a isso, Hannah é chamada atenção. Próximo ao final, quando as três irmãs se encontram em um jantar e começam a discutir sobre os problemas de cada uma, Lee e Holly  a questionam justamente por ser tão perfeita, por não se irritar ou reclamar de nada. Ela é a representação da imagem do perfeito, do pleno, do equilíbrio em qualquer situação, por qualquer causa e de qualquer meio (experimentem ler “Hannah” de trás para frente). E o desenrolar dos fatos nos mostra que seja talvez nessa ocasião de falta, de vazio, que se encontre um possível sentido às nossas vidas, fugindo a busca aos conceitos pré-estabelecidos como corretos ou ideais.

Tal como Sartre definiu, a vida nos leva a fazer escolhas e traçar nossos caminhos, mas ela não nos diz qual o caminho certo ou errado, tampouco nos obriga a trilhar por algum desses. Talvez a resposta para uns não valha para outros, e quem buscava por um grande amor possa se ver feliz e completa com um novo trabalho; talvez quem via na amante mais jovem a realização de seus desejos possa reacender a chama do próprio casamento e o amor, tão forte e implacável, simplesmente se apague aos poucos; talvez quem sentia a necessidade da perfeição para se alcançar a realização de sua vida, agora já se permitia ser imperfeita e, principalmente, largar as rédeas para que os demais possam viver suas vidas imperfeitas; talvez quem agora se punia por ter passado uma vida sem acreditar em nada, largando de lado os símbolos que sempre o foram tão vazios quanto um vidro de maionese (e não o deixariam de ser por mera conveniência), possa se permitir continuar não acreditando em nada tão maior que um amor de marido e mulher, de pai e filho.

Ao fim, Allen não nos dá respostas, apenas mais questionamentos que, de um modo extremamente coeso, nos faz compartilhar do sentimento de seus personagens incompletos, mas sem a menor sensação de vazio, de falta de sentido, porque essa ainda acaba sendo a nossa vida. E, afinal, a vida nunca foi mais (talvez, até menos) que o cinema de Woody Allen.

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5/5

Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters) – EUA, 1986 – Direção: Woody Allen – Elenco: Barbara Hershey, Carrie Fisher, Michael Caine, Mia Farrow, Dianne Wiest, Maureen O’Sullivan, Lloyd Nolan, Max von Sydow, Woody Allen, Daniel Stern, Julie Kavner, Joanna Gleason, Bobby Short, Lewis Black, Julia Louis-Dreyfus

after hours reduzido 2

– por Bernardo Brum

Injustamente um dos filmes menos lembrados de Martin Scorsese entre os seus bons, Depois de Horas é nada mais nada menos que uma obra-prima. Se alguém achou que depois de dar a volta por cima de um inferno pessoal regado à fama, grana, drogas e estafa em Touro Indomável o diretor havia arregado, errou feio. A bem da verdade, a década de oitenta pode ser considerada o verdadeiro auge criativo de Scorsese. Nunca mais o diretor que na década de 70 havia despontado com Caminhos Perigosos e Taxi Driver chegaria tão longe após contar  história de Jake La Motta – ciclo este que terminaria em Os Bons Companheiros.

Se ele já havia feito o tremendamente cáustico O Rei da Comédia e ainda faria um dos retratos mais humanos (e, por que não, controversos) de Jesus em A Última Tentação de Cristo, Depois de Horas figura facilmente entre os meus cinco favoritos de Martin. Sem compromisso com fama, com prêmio, em dar a volta por cima, ou em se firmar como realizador,  a única coisa que Scorsese parecia querer ao contar a história de um yuppie que tem a pior noite da sua vida (argumento tão simples mas que dá vazão à uma verdadeira avalanche criativa) era extravasar todas as suas idéias e seu tesão pelo cinema. O resultado não poderia ser diferente: o espectador é literalmente preso, então, a um dos maiores pesadelos do cinema, sem volta, mergulhado em um clima de loucura sem precedentes na carreira do diretor. Cada mílimetro de película transpira puro surrealismo urbanista, mal estar da modernidade, e a sensação de perigo vem justamente de estarmos mergulhados na cidade mais cosmopolita, onde literalmente tudo existe, ao mesmo tempo.

A selvageria metropolitana que o diretor já filmou tantas vezes aqui só serve de pretexto não para isolar quem assiste no meio do nada enlouquecedor – como acontece em O Iluminado, A Hora do Lobo e O Ciclo do Pavor – mas no meio de tudo, onde uma vez preso no meio daquele lugar, pronto, não há mais volta. O vórtice já nos tragou com a desculpa mais tola – viramos cúmplice do paspalho que só queria dar uma metidinha – e então, estamos vítimas do humor negro, da ironia e da irrealidade Scorseseana.

Absolutamente qualquer coisa vira palco para Scorsese criar uma atmosfera do que não existe, mas que dado a proximidade, bem que poderia – a casa de uma artista plástica tem iluminações e enquadramentos assustadores demais para um filme vendido como comédia, os moradores excêntricos de um prédio logo se transfiguram numa legião do inferno saída de um poço de lava escaldante, os clássicos maconheiros Cheech and Chong dirigindo uma caminhonete cheia de coisas roubadas parecerem, na verdade, saídos da mitologia grega – como Caronte e seu barquinho que leva as almas penadas ao mundo inferior. E toda vez que eles aparecem, tudo só tende a ficar pior. Vamos para uma boate punk-gótica-new wave cheia de suas surubas sonora-etílica-sexuais é fotografada como o inferno de Dante – e durante alguns segundos nessa boate iremos testemunhar Scorsese de figurante segurando um holofote, olhando para o espectador de modo enigmático e logo em seguida o cegando com a luz, como se denunciando que estar em New York fosse estar condenado à paixão e ódio, à violenta ironia, solidão e multidão, e assim vamos nós. Tudo está sujeito a um dos mais geniais desajustes esquizofrênicos do cinema.

E logo após termos experimentados de tudo – um surto de sangue, sadomosaquismo, cortes moicanos, gritaria, artes plásticas, desobediência civil, invasão de domicílio, correria, água, torneiras, queimadura, mortes, overdoses, pichações, pessoas excêntricas, provando que de fato, “depois do expediente” tudo é válido, tudo pode acontecer e, de fato, talvez aconteça mesmo, que o barquinho de Caronte, ou melhor, a caminhonete fuleira dos maconheiros vem buscar o literalmente petrificado protagnista pela última vez, e devolvê-lo ao inferno cotidiano, ou melhor, o purgatório das almas perdidas – ou seria dos espíritos entediados da Nova York careta e trabalhadora? E acabamos então, tão insones e embasbacados quanto o protagonista de Griffin Dune.

Um verdadeiro monumento cinematográfico de Scorsese, quase desconhecido por alguma sacanagem um tanto inexplicável. Jamais ele teria coragem novamente de dissolver realidade e esquizofrenia no mesmo copo e nos forçar garganta abaixo. Se ele queria provar porque raios faz cinema, conseguiu. Aqui que ele declara, num filme que é puro e clássico exemplo de cinema pelo cinema: largue dessa rotina de merda e vá assistir um filme. Simples, perturbador e belo assim.

5/5

Ficha técnica: Depois de Horas (After Hours) – 1985, EUA. Dir.: Martin Scorsese. Elenco: Griffin Dune, Rosana Arquette, Teri Garr, John Heard, Cheech Marin, Tommy Chong, Will Patton.