por Bernardo Brum

As décadas de serviços prestados ao cinema com alguma das maiores obras-primas dentro dessa forma de expressão artística renderam a Hitchcock uma gama variada de reputações: de um obsessivo diretor, severo com seus atores, um obcecado por mulheres gélidas, até, entre camadas e mais camadas de estereótipos e fofocas, a de mestre do insólito, do absurdo e do improvável.

Para grande parte dos críticos detratores de Hitchcock, essa grande liberdade de fabulação e essa alta presença de inverossimilhança resultavam em filmes que nada tinham a dizer ou que não suscitavam nenhum questionamento.  Um ledo engano considerar que, uma vez que não abordavam nenhum tema de forma explícita, seus filmes poderiam ser prontamente desconsiderados de questões sociais, morais ou existenciais. A ficção não é decalque da realidade; é criada a partir dela. Pode não ser o detalhe mais claro, mas é o que faz toda a diferença do mundo.

No ápice dessas críticas pelas quais Hitchcock tinha verdadeiro escárnio e fazia piadas maldosas sobre seus autores, que o inglês ficou sabendo de um caso em que um homem comum foi tomado por um bandido semelhante a ele – tendo que aguentar julgamento e prisão injustos – abalando toda a sua sua vida e desintegrando sua estrutura familiar. Esse homem evocava o maior medo do mestre do suspense e de grande parte da humanidade: a de ser tomado por um outro alguém, ser perseguido, acusado  e condenado pelo que nunca cometeu. Em síntese, o que motivava tramas hitchcockianas como Intriga Internacional e A Tortura do Silêncio. Um absurdo e tanto para acontecer de verdade – e uma perfeita ironia para aquele reconhecido por dirigir tramas impossíveis, que  não poderia deixar passar. Daí nasceu O Homem Errado, obra nascida da ocasião em que cinema e realidade se cruzaram. Ou melhor, nascida do dia que Deus quis brincar de Hitchcock.

A abertura já denuncia tudo: é um Hitchcock como todos os outros – elaboradíssimo, desafiador, tenso e magnetizante – mas o pequeno detalhe de ter saído diretamente da vida para ser transformado em película torna este um filme único em sua carreira. Envolto pelas sombras da contraluz, utiliza a sua tão conhecida silhueta para dialogar com o espectador: “No passado, eu dei a vocês muitos tipos de filmes de suspense. Mas dessa vez, eu gostaria que vocês vissem um diferente. A diferença reside no fato que essa é uma história real, cada palavra dela. E também contém elementos mais estranhos do que toda a ficção que se foi nos filmes que fiz antes”.

A lapidação intensa de cada obra atinge níveis impressionantes justamente pelo motivo que o diretor nos apresenta: os críticos e detratores são incapazes de aceitar os absurdos do cinema – apressando a definir o que é “possível” e o que é “impossível” ao seu bel-prazer, parecendo não lembrar que a fabulação é um escapismo tão antigo quanto o homem. De Medéia e Édipo Rei a Bastardos Inglórios e O Hospedeiro, é próprio de nossa espécie contar histórias improváveis e/ou impossíveis.  E todas elas tem um fundo de verdade.

É isso que acontece com O Homem Errado, real em cada segundo de sua ficção. Cada turning point do roteiro parece ter saído de uma mente extremamente criativa, mas aconteceu neste mundo, cada um dos fatos. Manny Balestrero foi confundido e preso simplesmente por estar na hora errada no lugar errado. Excluindo-se daí as questões étnicas e sociais (já que o tomado por criminoso é Henry Fonda), qualquer um pode passar pela mesma situação e ter sua vida virada de cabeça para baixo. Apesar de protestante, Hitchcock parece ter compartilhado da lógica cética que vivemos em um universo indiferente  e aleatório e que para ter sucesso ou viver em desgraça basta ter azar.

Simples e seco assim para desenrolar um filme claustrofóbico, onde sombras de medo e dúvida aprisionam Manny Balestrero numa sucessão de eventos cruéis onde a conjunção dos fatores (vítimas nervosas e confusas, polícia querendo mostrar serviço, poucas semelhanças tomadas como fundamentais) tornam-se mais sufocadoras à medida que o filme cresce. Pouco a pouco, vai abandonando a condição de mero suspense e tem sua carga dramática imensamente aumentada; Manny nunca mais conseguirá andar na rua tranquilo agora que sabe que a vida pode imitar a arte num estalar de dedos. Resta apenas respirar fundo e seguir em frente. O último a sair apague a luz.

5/5

Ficha técnica: O Homem Errado (The Wrong Man) – EUA, 1956. Dir.: Alfred Hitchcock. Elenco: Anthony Quayle, Henry Fonda, Vera Miles, John Heldabrand,Doreen Lang, Harold J. Stone

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– por Guilherme Bakunin

Uau, é difícil falar desse filme. É um dos trabalhos mais concisos do Lumet, que provou lá pelos meados dos anos setenta que é especialista nesse tipo de situação claustrofóbica em tempo real, e um dos melhores filmes do mundo, já digo o porquê: não me recordo de nenhuma experiência tão bem sucedida no que diz respeito a dicotomia entre homem e filosofia, justamente porque é um filme agradável, superficialmente leve, mas que te convida a explorar os lados mais obscuros de quem realmente somos nós.

Se você chegou até aqui, certamente já sabe que a história se passa durante todo o tempo numa sala de tribunal, onde onze jurados desejam preciptadamente levar um adolescente à cadeira elétrica. As dimensões éticas e morais são inenarráveis, mas o roteiro perpassa por cada uma delas, num estudo social meio pró-América, meio pró-democracia (é, eu sei). Como um guerreiro poeta do ano IV a.C., aquele mesmo que é narrado com façanhas sobrenaturais, Henry Fonda se levanta perante os onze carrascos negligentes e apressados, na esperança de injetar bom senso e misericórdia no julgamento de cada um deles. O que vemos a partir de então é uma jornada que vai explorar os lados mais inflexíveis dos homens, que vai medir até aonde nós, humanos, consiguimos elevar uma mentira ao patamar de uma verdade. No começo do filme, um dos jurados (se não me engano, aquele meio italiano) olha pra trás e vê o garoto  acusado de assassinato. As palavras que seguem o filme parecem nos convencer de que ele não é culpado, mas também testificam que o que os jurados estão julgando, na verdade, é se há provas conclusivas contra ele. A verdade, no final das contas, pouco importa. Mas Godard, por outro lado, diz que o cinema é a verdade em vinte e quadro frames por segundo, e Sydney Lumet parece acreditar nisso. A imagem nesta cena (perdi o fio da meada, mas ainda falo sobre quando o jurado olha pra trás e vê o garoto) parece confirmar a inocência do garoto. Óbvio que alguém que está de frente a frente com a morte temeria, mas não é disso que a imagem do garoto fala. Antes, fala sobre um sistema de segregação social, que reserva oportunidades para quem quase sempre não precisaria delas, que excluí, que incita o ódio, o preconceito, a ordem permanente das coisas, de qualquer coisa. É difícil explicar exatamente o que eu sinto, e o Henry Fonda e Jack Klugman fizeram isso melhor do que eu, mas toda a questão que Lumet coloca nessa cena é que é moralmente inadequado acusar aquela CRIANÇA de assassinato, quando na verdade o próprio sistema cuidou de arranjar as coisas daquela maneira.

Ética à parte, parece redundante falar que somente um criador de filmes (filmaker, um termo que parece não ter a mesma conotação aqui no Brasil) conseguiria arquitetar um suspense tão emocionante dentro de um mesmo ambiente, com condições estritamente reais e passado em tempo quase real. Alguns brasileiros fizeram um filme, para quem não sabe, chamado Quarta B, uma espécie de cópia (sem pejorações) de Doze Homens, transferindo o cenário para uma reunião de um colégio público de São Paulo. É um filme divertido, e até subversivo em muitas questões, mas é óbvio que como cinema, não chega a fazer jus ao filme que o inspirou. Você não consegue ligar uma cãmera e fazer Donze Homens e Uma Sentença (já deixei de falar de Quarta B aqui, que fique claro). Você precisa saber criar um filme. E Lumet soube. O filme foi indicado a três Oscars em 1958, nenhum por atuações, e não venceu nenhum deles. Redundante dizer que merecia. Ao invés disso, a academia premiou A Ponte do Rio Kwaii. A história, que supera quaisquer sistemas, tomou conta de premiar o merecedor. Rio Kwaii é interessante, mas é datado, possui apenas valor histórico. Doze Homens e Uma Sentença, se vocês me permitirem a declaração meio profética, vai sempre ser exibido em qualquer lugar que ouse discutir o direito, a justiça, a verdade, enquanto o homem existir. Um dos dez maiores pra mim.

5/5

Ficha técnica: Doze Homens e Uma Sentença (12 Angry Men) – 1957, EUA. Dir.: Sydney Lumet. Elenco: Edward Binns, Lee J. Cobb, E.G. Marshall, Jack Klugman, Martin Balsam, John Fiedler, Jack Warden, Henry Fonda, Joseph Sweeney, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber, John Savoca.


– Luiz Carlos Freitas

Para fugir ao Nazismo, Fritz Lang teve de emigrar para os EUA, mudando sua vida, seus costumes e, consequentemente, seu cinema. Para alguns, o declínio; para outros, a maturidade criativa. Prefiro não me ater a nenhum dos dois extremos. Seu cinema continuou grande, talvez sem o mesmo impacto e brilhantismo de suas maiores obras Expressionistas, mas ainda assim tão ácido, sarcástico e crítico quanto.

Só Se Vive Uma Vez, seu segundo filme em território yankee, conta a história de Eddie Taylor (Henry Fonda), um ex-membro de gangue que já fora preso três vezes, todas por crimes “menores” e que está saindo em liberdade. Porém, segundo a lei estadual vigente à época, a sua quarta condenação, independente do motivo, representaria um passe imediato para a cadeira  elétrica. Disposto a se reabilitar e levar uma vida honesta, pede ajuda à sua noiva, Joan Graham (Sylvia Sidney), jovem secretária do Defensor Público Stephen Whitney (Barton MacLane), que o arranja um emprego como motorista e tenta mantê-lo a todo custo longe do crime.

Dividido em três atos distintos, acompanhamos a evolução do casal e sua relação de anacronismo progressivo com a sociedade, iniciando com a adaptação, seguindo a rejeição e, finalizando, a total negação do meio. No começo somos apresentados aos personagens principais. O clima é leve, agradável, com direito a algumas tiradas cômicas, como o jogo de baseball na cadeia, e juras de amor trocadas em um jardim, em meio às flores; logo vem o preconceito, os olhares tortos ao ex-presidiário, depois um crime e, por conseguinte, a condenação à morte por uma culpa presumida, culminando na revolta completa contra o meio, com a fuga da prisão e o desfecho trágico (e  bem previsível) do casal.

É notado o esforço de Lang em se adaptar e assimilar esse cinema que o era novo e o quanto isso impacta em sua obra. Ele estava na América e fazendo filmes com e, de certo modo, para americanos. Eram tempos difíceis e o reflexo disso estava em seu anti-herói, mostrado como mais uma vítima da grande Depressão e do sistema que não dá chances, a exemplo do chefe de Eddie, que o demite logo no primeiro dia por um mero atraso de uma hora e meia, além de se mostrar completamente irredutível, fazendo pouco de sua situação, esfregando na cara a condição de “ex-presidiário”, zombando e caçoando dele. Extremamente caricato, na mesma medida temos o padre Dolan (William Gargan), amigo do casal que persiste até o fim para que Eddie preserve sua integridade, chegando a clamar em favor daquele que o desferiu um tiro fatal.

O roteiro, diga-se de passagem, é bem falho. Boa parte da força do longa está mesmo em sua condução. Lang não perde ritmo, talvez ajudado pela curta duração (algo em torno de 80 minutos), que não deixa a correria do roteiro ficar entediante. Os traços remanescentes do Expressionismo se fazem presentes em algumas cenas, como de Eddie em sua ‘gaiola’ aguardando a execução e os guardas na guarita de segurança vistos por baixo, além de todo o clima sombrio e nebuloso do pátio da prisão na hora da fuga, a melhor cena do filme, ao lado da primorosa sequência da explosão das bombas no assalto ao banco.

Esquemático, se estendendo mais do que o necessário em apresentações (como as cenas do casal no jardim, os amigos na cadeia e o apelo insistente – irritante, eu diria – do verdureiro “assaltado” logo no início) e se aprofundando pouco (e rápido) em questões importantes, principalmente no terceiro ato, com a descoberta do crime, o perdão ao assassino e o casal pacífico virando “Bonnie e Clyde” e entrando para a lista dos mais procurados da América em questão de minutos. A ironia do perdão de última hora e a ânsia pela liberdade (que justificam o título do filme) quase passam completamente despercebidas, além, é claro, do tom maniqueísta de “a culpa não é minha, sou vítima do sistema” que permeia a obra.

Esses maniqueísmos lembram muito Frank Capra, cineasta americano queridão à época, com a diferença na sempre presente obscuridade do diretor alemão, mesmo que disfarçada pela ingenuidade aparente de sua dupla de protagonistas. Capra sempre encontrava um ponto em comum entre indivíduo e meio, corrigindo os desajustes, sendo eles do homem que se vê errado e, por meio do amor dos demais, se integra corretamente à sociedade (A Felicidade Não se Compra), ou quando o erro está no sistema, este se adaptando ao ideal de um homem de bom coração que desde o começo insistia em corrigí-lo (A Mulher Faz o Homem).

Para Lang, a esperança apenas não é tão forte ao ponto de operar ajustes, devendo-se, portanto, manter-se em sintonia com o meio, pois uma vez iniciada a descida, o trágico é o único destino, o que chega a ser contraditório com o defendido pelo próprio diretor em outra de suas obras (talvez a mais famosa delas), Metrópolis, aonde a subversão, mesmo acarretando consequências trágicas, levara a uma mudança para a melhor. Mas Lang não destrói a esperança. Ela ainda estava lá, diante dos olhos. A diferença é que não mais como agente de mudança, apenas um reconforto quando não resta mais nada a se fazer nem aonde ir.

Fatalista? Talvez. Mas Lang estava na América agora e tinha de dar a sua visão da nova pátria e, diferente de Capra, ele não acreditava nela.

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3/5

Só se Vive uma Vez (You Only Live Once) – EUA, 1937 – Direção: Fritz Lang – Elenco: Henry Fonda, Sylvia Sidney, Barton MacLane, Jerome Cowan, Margaret Hamilton, William Gargan, Charles ‘Chic’ Sale, Jean Dixon, Guinn ‘Big Boy’ Williams, Warren Hymer

– por Luiz Carlos Freitas

Sempre vi o Western como um gênero bastante dinâmico. Seus maiores representantes tanto eram dotadas de tamanha complexidade, como Rastros de Ódio, do mestre John Ford, um verdadeiro tratado socio e antropológico de uma época, como pura e simples diversão, com tiros, tiros e mais tiros (vide grande parte da filmografia do Giuliano Gema ou do – divertidíssimo – Terence Hill).

Entretanto, já há um bom tempo que não vemos representantes do gênero entre os lançamentos do mês. Foi-se a época em que sua popularidade era alta. Porém, um dos poucos lançados nos últimos anos, Os Indomáveis, de 2007, e sob a tutela de James Mangold, se não tem a profundidade de um filme do Ford (tampouco força suficiente para alavancar novamente o gênero em termos de popularidade), cumpre perfeitamente seu papel do “segundo grupo”.

O filme é uma refilmagem de 3:10 to Yuma, (traduzido aqui como Galante e Sanguinário), de 1957, dirigido por Delmer Daves (que co-roteirizou no mesmo ano o belíssimo Tarde Demais Para Esquecer, com Cary Grant e Deborah Kerr). Essa nova versão, apesar de ter uma trama basicamente igual, não é tão fiél à original (mas isso em momento algum pode ser considerado demérito). Christian Bale é Dan Evans, fazendeiro inválido e cheio de dividas que está a ponto de perder o rancho onde vive com a família. Após uma série de acontecimentos, ele aceita (a troco do dinheiro suficiente para quitar suas dívidas) escoltar Ben Wade (Russel Crowe), perigoso assassino (e líder de uma gangue de saqueadores) até a cidade onde passa o trem das 3:10 para Yuma, cidade onde Wade seria julgado e condenado por seus crimes. Após esse breve resumo (de onde temos noção da origem do título original do filme), vale lembrar que o bando liderado por Wade vai atrás dele para regatá-lo antes que ele embarque rumo a uma provável sentença de morte (estes liderados por Charlie Prince – Ben Foster, interpretando o bandido homossexual – e sádico – que lidera a busca por Wade).

Basicamente é isso. A trama simples, aliada à direção bem convencional e nada pretensiosa de Mangold são o segundo grande trunfo do filme. O maior mérito deve ser dirigido à dupla que encabeça o elenco. Com uma química espantosa, Bale e Crowe são, definitivamente, o brilho do filme. Não imagino outros em seus lugares nessa refilmagem. O carisma dos dois consegue até nos fazer relevar as muitas (e grandes) falhas no roteiro. Aliás, seu roteiro tem buracos de lógica absurdos (nunca vi um “prisioneiro” ter tanta liberdade ao ser escoltado – até armas e um cavalo dão a ele – e isso mesmo após o sujeito ter matado dois dos homens que o escoltavam) e uma construção psicológica dos personagens bastante rasa.

Em contrapartida, somos recompensados com uma direção ágil e que tenta compensar tais limitações. Mangold não deixa o ritmo cair em momento algum, alternando as cenas de ação com diálogos afiados que não deixam que o interesse do espectador se disperse (destaque às falas de Wade, as melhores do filme – seu sarcasmo e cinismo são impagáveis). A parte técnica ganha destaque. Indicado ao Oscar pela trilha sonora (apesar de nada marcante, se faz presente sempre de forma extremamente bem dosada – e grande responsável pelo clímax final) e som, ainda destaco a belíssima fotografia (nada muito além do convencional, mas ainda assim muito agradável de se ver em tempos de foto “digital”) e a direção de arte (os figurinos e resconstituição de época são lindões – o aspecto “sujo” dos “homens do Oeste”, nas roupas e no rosto – unhas marcadas à pólvora – consegue tornar os personagens mais críveis que o próprio roteiro). Isso, é claro, não esquecendo de Ben Foster (o cruel parceiro “afetado” de Wade)  e Henry Fonda, os coadjuvantes que roubam todas as cenas em que aparecem.

Sem muitos arrodeios, seguimos até o final, na dita estação, o ponto alto do filme, que ainda nos reserva alguns bons momentos de tensão, com um breve embate psicológico entre Dan e Wade (novamente, ótimos diálogos), uma consideravel surpresa e um impensável tiroteio entre um homem e toda uma cidade, que se não tem nem uma nesga da “poesia” do clássico tiroteio final de Meu Ódio Será Sua Herança, obra-prima de Sam Peckipah, ainda consegue prender a atenção de quem assiste (podendo até mesmo consumir algumas unhas roídas).

Não há muito mais a falar, a não ser citar o título adotado aqui, Os Indomáveis, mais um pro “Hall das Traduções Porcas” (esse pessoal deve se esforçar muito pra pensar em títulos tão ridículos – não acredito que tenham feito isso realmente acreditando que seria a melhor escolha). O filme tem vários problemas, mais relativos ao seu roteiro e os já citados buracos de lógica. Entretanto, ainda vejo méritos em suas limitações, pois uma vez que não desenvolve os personagens, também não procura aprofundar-se mais do que seu texto permite.

O que importa mesmo é que são quase duas horas de um monte de tiros, diálogos inteligentes, boa carga de tensão e mais outro monte de tiros, que vão fazer os adoradores do gênero (como eu) exclamarem alguns [muitos] palavrões na frente da TV e sentirem aquela saudade dos tempos em que os bons “bangue-bangue” ainda eram presentes nas listas de recém-chegados nas locadoras.

Mas quem é que precisa da sessão de “lançamentos”, mesmo?

4/5

Ficha técnica: Os Indomáveis (3:10 to Yuma) – 2007, EUA. Dir.: James Mangold. Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Logan Lerman, Dallas Roberts, Ben Foster, Peter Fonda, Vinessa Shaw, Alan Tudyk, Luce Rains, Gretchen Mol, Lennie Loftin, Rio Alexander, Johnny Whitworth, Shawn Howell, Pat Ricotti

oxbow

-por Murilo C. Ceccone

É impossível fazer uma lista de melhores filmes de todos os tempos. O máximo que se pode fazer é uma lista com os melhores filme que você já viu até o presente momento, pois cada vez que entramos em contato com uma obra-prima como Consciências Mortas, pensamos “como eu não vi esse filme antes?”. Foi exatamente essa a minha reação ao término dos 75 minutos de filme.

Consciências Mortas pode ser considerado uma espécie de faroeste psicológico, na mesma linha de Matar ou Morrer , em que a tensão crescente e o clima são mais importantes que cenas de tiroteio. O filme tem início com dois homens (Henry Fonda e Harry Morgan) que, ao passarem por uma cidade, ouvem a notícia de que um fazendeiro foi assassinado e teve seu gado roubado. Parte da população, na ausência do xerife, decide sair à caça dos assassinos para fazer justiça com as próprias mãos.

O filme explora várias questões morais, denunciando a espetacularização da violência, a sede de sangue (disfarçada de sede de justiça), pena de morte, linchamento, direito à defesa, etc. Wellman reúne um elenco perfeito, arranca ótimas atuações, sem excessão, de Henry Fonda a Anthony Quinn, com destaque para Dana Andrews. A bela fotografia de Arthur C. Miller (3 vezes vencedor do Oscar) aliada à direção de arte que mantém a maior parte da ação em um espaço reduzido (vide 12 Homens e Uma Sentença), ao contrário das vastas paisagens típicas do gênero Western (vide Sergio Leone e John Ford), são fundamentais na construção do clima necessário para que o filme funcione.

Uma jóia rara, pouco conhecida, e que merece ser descoberta e apreciada, Consciências Mortas passa a figurar em lugar de destaque na minha lista preferencial.

5/5

Ficha Técnica: Consciências Mortas (The Ox-Bow Incident) – 1943, EUA. Dir. William A. Wellman. Elenco: Henry Fonda, Dana Andrews, Mary Beth Hughes, Anthony Quinn, William Eythe, Harry Morgan, Jane Darwell, Matt Briggs, Harry Davenport, Frank Conroy, Marc Lawrence, Paul Hurst