por Guilherme Bakunin

O Estranho Sem Nome é uma extensão do trabalho de Sergio Leone. É quase como se Eastwood tivesse se aproveitado do mesmo personagem (o habilidoso e moralmente ambíguo pistoleiro loiro) da trilogia faroeste de Leone para inseri-lo em um contexto mais norte-americano e mitológico. As pinceladas religiosas aqui são intensas, talvez ainda mais acentuadas do que em O Cavaleiro Solitário. Mas há uma diferença bem notável entre esses dois filmes: em O Cavaleiro Solitário, o personagem de Clint é um anjo, em O Estranho Sem Nome, o demônio em pessoa.

Eastwood é vastamente idolatrado por saber utilizar-se de clichês e elementos esgotados, dando-lhes nova roupagem, inserindo-os em diversos contextos (críticos, metalinguísticos). Ele não sente a necessidade, em seu primeiro faroeste, de inserir arcos exatamente novos, mas reconstrói clássicas jornadas heróicas, alterando, significantemente, um ou outro acontecimento. Às avessas, O Estranho Sem Nome é um clássico conto de vingança e redenção, com aquelas pinceladas de vila-superficialmente-pacata-mas-essencialmente-corrupta, mas reconstruído de forma a dar ares sobrenaturais à história. O personagem nômade interpretado pelo próprio Eastwood entra, vestido de preto, no vilarejo Lago, sob os olhares desconfiados dos moradores. Em menos de vinte minutos, ele estupra uma mulher, atira em três homens e é sondado para ser contratado como matador de aluguel pelo xerife. A história segue a passos largos, porque Eastwood está, apesar de utilizar-se de um western, mais interessado em trabalhar com a relação de impacto entre a presença do misterioso cavaleiro negro com os cidadãos do vilarejo, que obviamente resguardam um terrível segredo. Tudo que vai além dessa relação e das fortes cenas de violência (física e psicológica, já que não é possível existir um estupro sem impacto moral no espectador) é tão negligenciado, que a história nem faz questão de esclarecer quem exatamente é o personagem principal. O diabo, o espírito de um antigo morador ou um mero justiceiro. Não faz diferença.

O Estranho Sem Nome na verdade tem uns sérios problemas de estrutura, anda bem devagar e atua no campo de uma certa previsibilidade a respeito das direções em que a história vai tomar (tanto a curto prazo – por exemplo, você sabe que o estranho sem nome vai atirar naqueles três encrenqueiros – como a longo prazo), mas é bom de acompanhar o inevitável processo de completa submissão de uma cidade inteira às miras do revólver de um só forasteiro, que não apenas vinga, mas destrói e humilha completamente. A orquestração para o final apoteótico é tão pós-moderna que faz Bastardos Inglórios parecer filme universitário, por exemplo, poucas vezes o vermelho e o fogo sendo utilizados de maneira tão interessante e enigmática no cinema americano. Definitivamente um dos filmes mais subversivos e amorais de toda a carreira do Eastwood.

Outras observações:

 – Quem está acostumado a ver Eastwood em papéis mais heroicos, como o saudoso Blondie da trilogia do Leone devia certamente dar uma chance pra esse aqui. O estranho sem nome faz Dirty Harry um cara de índole, e é definitivamente parte de toda a mitologia “Clint Eastwood”, revisitada em metalinguagem em filmes como Os Imperdoáveis ou Gran Torino.

 – O Clintão, aliás, deve ter assistido a El Topo (1970), obra-prima do Jodorowski pra compor a cidade-inferno mais pro final do filme. A relação visual, aliás, até do próprio personagem é muito forte.

4/5

Ficha técnica: O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter) – EUA, 1973. Dir: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Verna Bloom, Marianna Hill, Mitch Ryan, Jack Ging, Stefan Gierasch, Ted Hartley, Paul Brinegar, Billy Curtis, Geoffrey Lewis.

Seguem-se os tops e pequenos reviews sobre os melhores filmes da década de acordo com a opinião de cada membro.

Guilherme Bakunin

1. Embriagado de amor

O conto de redenção e superação de Paul Thomas Anderson dedicado aos talentos do subestimado Adam Sandler resultou no trabalho mais autoral de Anderson – certamente o mais livre e mais ousado. As luzes super expostas e os ruídos acentuam nosso desconforto e expressionisticamente nos conduz diretamente para o centro do seu personagem, que começa como uma personificação da tristeza mas que a duros golpes conquista a harmonia na sua vida, sob a forma de um órgão e da Emily Watson.

2. Sinais

M. Night Shyamalan foi responsável por muitos grandes filmes de suspense na última década, mas Sinais provavelmente é o maior deles. Os níveis de identificação são aqui maiores, pois o diretor realmente insere o espectador no cotidiano daquela família que, juntamente com o mundo, vai superar o apocalipse da perda.

3. Kill Bill

Kill Bill é o infilmável; um delírio de proporções épicas que paga tributo a tudo que de mais criativo e libertador o cinema de baixo orçamento em diversas partes do mundo produziu. É a vitória definitiva da arte sobre os interesses mercadológicos no cinema. Foi em si um sucesso de público, porque Quentin Tarantino sabe que não existem limites para o que o público pode absover quando em contato com uma história realmente bem contada. Tarantino disse que Kill Bill serviria para explorar os limites de seu talento. De acordo com o que vimos, esse talento parece ser inesgotável.

4. O homem que não estava lá

Assim como os três filmes acima, O homem que não estava lá é uma história sobre a redenção. A rendeção de um homem de personalidade suprimida pelo sistema, pelo cotidiano, por extra-terrestres, por todas as coisas. É a voz daqueles que não possuem nada pra falar. É a ode de Joel e Ethan Coen ao homem comum.

5. Amantes

Uma drama romântico sufocante sobre a catarse do desamor na vida de um personagem, Leonard que, abandonado pela noiva, torna-se depressivo suicidade e se envolve em duas relações amorosas, uma com Sandra, a mulher ideal que possui o gosto da família e a outra com Michelle, uma mulher empolgante que transporta Leonard para universos até então desconhecidos. Michelle abandona Leonard, e ele se casa com Sandra, num dos finais felizes mais tristes do cinema.

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Bernardo Brum

1. Sangue Negro

Ambição. Ganância. Dinheiro. Fé. Tudo isso está no  anacrônico épico de três horas de Paul Thomas Anderson, um monstro sem comparações no cinema atual. Erguido à base de atuações paradoxalmente histéricas e introspectivas, música estranha, uma fotografia que combina a escuridão do petróleo e da mente dos seus personagens com o deserto escaldante de seus espíritos, essa é uma saga simbólica, um Huston atravessado com Altman, sobre a própria história dos Estados Unidos no último século e sobre os indivíduos desesperados que viveram nesse tempo. Obra-prima irretocável, corajosa e maldita, com os elementos dramatúrgicos e estéticos combinados numa das narrativas  mais impactantes já surgidas.

2. Bastardos Inglórios

Filme-fábula de Tarantino, um hilário filme de propaganda anti-nazista que apesar do título que remete ao Assalto ao Trem Blindado de Castellari, foi feito nos moldes do spaghetti western de Sergio Leone. Aqui o cinema mentiroso do diretor alcança seus níveis mais cara-de-pau, fazendo um filme a partir de um acontecimento real para alterar completamente seus cursos. Segundo Fellini, para o cinema tudo vira natureza-morta. Para Tarantino, inclusive a história. E ele ainda cria um dos melhores clímaxes dos últimos trinta anos…

3.  Oldboy

Pois vejam só. Ao contrário do que muitos críticos falavam , o grande Oldboy provou que sim, violência hipergráfica e referências culturais populares podem ser combinadas com grande sofisticação e psicologização intensa. Filme que se utiliza das mais variadas linguagens – da câmera da mão ao videogame, da música erudita ao pop – para compôr uma epopéia brutal e multifacetada, orgulhosamente anacrônica em relação ao resto do cinema feito hoje em dia. Um dos poucos filmes que merecem o adjetivo “visceral”.

4. O Hospedeiro

Se você tem algo para dizer para o mundo e ninguém tá muito afim de escutar, faça um contrabando: utilize de um gênero para falar desses problemas. Foi o que Bong Joon-Ho fez, utilizando os filmes de monstros gigantes para discutir como o homem está solitário e desesperado mesmo vivendo em multidão. Trágico, cômico, exagerado, histérico e intenso do início ao fim.

5. Todo Mundo Quase Morto

Esqueça aquelas besteiradas de zumbis maratonistas. A verdadeira revolução do subgênero veio com essa genial comédia inglesa que após anos de filmes insípidos retornou ao ponto principal dos mortos-vivos de Romero: que o ser humano por si próprio já é um zumbi condicionado – e basta um empurrão (ou um vírus!) para começar a comer carne humana. Tenso e hilário ao mesmo tempo, a obra-prima de Wright é corrosiva e ácida até último segundo, e com certeza sua mistura de crítica social com piadas nonsense sobre vinis, maconha, rap e cerveja ainda será de grande impacto por muito tempo ainda.

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Allan Kardec Pereira

1 – Encontros e Desencontros

Interessante estudo da solidão em meio à uma reluzente metrópole, nesse filme de Sofia Coppola há de tudo para quem se identifica com algum dos personagens. A construção paciente dos nossos dois protagonistas acaba por nos levar a um dos mais belos desfechos do cinema recente. Lindo e sensível.

2 – Paranoid Park

Van Sant entra no mundo daqueles skatista e parece importar apenas em observá-los, sem julgamentos morais. Esse baita filme é uma semi-versão de Crime e Castigo, onde veremos um personagem definhar psicologicamente. Tudo isso através do interessante domínio de linguagem e experimentalismo de Van Sant, que aqui alcança o brilhantismo em sua carreira.

3 – Na Cidade de Sylvia

Retoma algumas das idéias básicas do cinema dos Lumière, do valor da observação, só que, mais ainda, amplia o poder da imagem de nos enganar. Lindo filme. Um homem obsecado com uma imagem do passado que teima em enganá-lo no presente.

4 – Miami Vice

Na selva de pedras incandescentes da Miami noturna, Mann filma homens que amam, desesperados em seu trabalho. Daquelas luzes, debaixo ou acima dela alimentam seu trabalho. Miami Vice é um pilar do cinema contemporâneo. A paixão impossível e efêmera,pela qual nosso herói lutou, vai embora no final. Linda, sempre que vai no final está deslumbrante, pois não mais será vista por quem a perde. Um filme humano. Uma obra-prima.

5 – Império dos Sonhos

O mais interessante de Lynch, mais até que Mulholand Drive, pois joga o espectador a compartilhar a aura de sonho desde o começo. Há um fascínio pela figura feminina e sua representatividade, tal como os recentes Tarantinos. Porém, essa porcaria de formato digital vagabundo que o diretor teima em querer usar a partir desse filme é um passo atrás na carreira.

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Mike Dias

1 – Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Talvez Michel Gondry tenha uma mão mais nervosa que o necessário e talvez Brilho Eterno… seja menos bem montado do que poderia, mas a despeito de alguns deslizes é dos roteiros mais inspirados que eu já vi, Winslet e Carrey é dos mais incomuns e sensacionais casais que se tem notícia e isto aqui é uma brilhante mistura de um romance clássico do casal atípico, suas idas e vindas e desencontros com uma pra lá de inventiva máscara de sci-fi.

2 – Oldboy

Seja pelas geniais brincadeiras estéticas (cena de luta com um martelo à lá Street Fighter, oi), pelas reviravoltas orgásticas do roteiro ou pelo simples fato de ser uma das maiores histórias de vingaça já vistas, Oldboy é lindo. Absolutamente bem conduzindo é um desfile de cenas marcantes e inesquecíveis.

3 – O Homem Que Não Estava Lá

Mais um filme dos Irmão Coen que consegue a proeza de mutuamente dissertar sobre uma quantidade realmente grande de medos, neuroses e anseios de um homem geralmente tão ou mais ordinário quanto eu e você. Jogar ets e tragédias no meio de tudo isso é apenas um plus no universo já não fácil daquele sujeito. Tecnicamente irretocável, da ambientação primorosa à fotografia preta e branca, das mais impressionantes da década.

4 – A Viagem de Chihiro

O Walt Disney de olhos puxados e da nossa época, Miyazaki, entrega aqui uma das histórias de fantasia finais, a fábula definitiva, uma enxurrada de sensíveis metáforas que vão desde poluição até o amor pelos entes queridos e o poder deste. Quase que como sua versão de Alice no País das Maravilhas é brilhante e de um valor imensurável.

5 – Gran Torino

Eastwood ataca novamente, classicista e dramatizado como de costume, porém sensível como em poucas vezes. Uma homenagem às qualidades e defeitos do tão conhecido americano veterano de guerra conservador. Com trilha própria e desfecho filosófico e reflexivo é um expoente único daquele cinema proposto por Clint.

 

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Cauli Fernandes e Luiz Carlos Prestes não puderam postar pois estavam juntos fazendo amor.

clintotorino

– por Michael Barbosa

Preconceituoso, conservador, de direita, tradicionalista. Há certo estereótipo que rege sobre a figura do americano, especialmente do veterano de guerra, e que talvez venha se esvaecendo nas últimas décadas, e em Gran Torino Clint Eastwood presta sua sutil e sagaz homenagem exatamente a este sujeito, e como faz isso com maestria!

Walt Kowalski acabou de perder a mulher e parece que com isso perdeu também as rédeas, não precisa mais agradar, não precisa mais ir à Igreja, nem ser politizado. Agora é apenas um velho cabeça dura, certo do que o fim da vida lhe guardou, e não parece muito empolgado com isso. Seu bairro foi tomado por “chinas”, “chicanos” e “pretos”, mas como americano convicto que é – o que contrasta com o fato dele ser polaco – ele não abandona o gueto e não abre mão dos seus preceitos. Contudo o que se revela logo é que se existe nesse homem algo maior que seus preconceitos é seu senso de justiça que logo se aflora quando vê três negros atacando sua vizinha hmong (povo oriundo da Ásia oriental como se faz questão de esclarecer no filme). Dalí em diante o que veremos é uma jornada de auto-descobrimento depois dos sessenta e a sobrevida de um velho.

Clint chega ao seu último trabalho tanto atrás quanto a frente das câmeras e demonstra uma maturidade artística e vitalidade que corroboram para o mito do cinema americano e classicista que ele se tornou. Gran Torino se faz grande nas pequenas coisas, no modo como se constrói personagens reais e em que podemos acreditar mesmo com tantos estereótipos e lugares comuns (o que se pararmos pra pensar faz o mais perfeito sentido dentro da proposta de contar a história de um sujeito ordinário e tão anacrônico quanto Walt Kowalski).

Talvez, é bem verdade, a mudança de personalidade e atitudinal de Walt soe rápida e abrupta demais, mas, caramba, às vezes na vida do homem é assim que as coisas acontecem. Acontecimentos se sucedem, conceitos e verdades absolutas mudam como em um piscar de olhos e nos provam que somos a tal “metamorfose ambulante” que disse Raul certa vez. Walt é assim, no fundo um sujeito bom, só que ele mesmo não sabia disso.

E é incrível ver que até naquilo que poderia parecer um defeito à primeira vista, olhando com mais atenção é um acerto. O elenco de coadjuvantes que se não exerce atuações magistrais – ainda que corretas – foi todo composto por legítimos e críveis representantes de suas culturas, são hmongs de verdade que interpretam os hmongs da tela. Com os trejeitos, o sotaque, o jeito de ser e agir. E pode ser que isso valha mais, bem mais, que grandes atuações em um filme tão sensível e honesto como esse.

E ao fim Walt tem a sua redenção definitiva e final. E morre consciente de que morreu por aqueles que lhe salvaram a existência nos acréscimos do segundo tempo, não foi um sacrifício, foi um “Muito Obrigado” ao som da linda canção homônima na voz do próprios Clint. Que artista! E se em Os Imperdoáveis Eastwood resgatou um gênero inteiro e fez o western final, aqui ele é um tanto quanto mais minucioso e específico e nos presenteia com a tragicomédia definitiva sobre toda uma geração de americanos, seus medos, preconceitos, anseios e, sim, suas virtudes.

5/5

Ficha Técnica: Gran Torino (Idem) – EUA, 2008. Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her, Christopher Carley.