por Bernardo Brum

Como bom cineasta adepto do escracho, do exagero e da apelação, Brian De Palma quando adaptou Stephen King realizou um filme de constrastes violentíssimos. Contrastes entre fragilidade e supremacia, sinceridade e mentira, crueldade e medo. Não à toa que o prólogo passe em um banheiro feminino claustrofóbico onde rola uma situação de humilhação típica de bullying por causa da primeira menstruação de Carrie White depois de grandinha e exploda em sangue e labaredas depois de sofrer a maior humilhação da sua vida. Revelar esse detalhe do roteiro não impede de aproveitar o filme: qualquer pessoa, qualquer mesmo, sabe que uma situação daquele tipo só poderia terminar do jeito que terminou – principalmente agora nessa época de clichês reaproveitados.

Brian de Palma é muito inteligente em assumir isso e guiar uma história sem maiores surpresas ou reviravoltas do que se poderia esperar; aí, ao invés de sustos, reina a tensão e a angústia crescente, só reservando uma surpresa estilo “pulo de gato escondido” para o final. É o tipo de coisa que aprendeu com seu mestre Alfred Hitchcock, mas o que o inglês fazia deixando o espectador como voyeur de uma história imprevisível, de Palma deixa o espectador à mercê do clichê e do quanto esse clichê pode ser sustentado pela sua estética abertamente exagerada e despudorada ao explorar situações comuns e manjadas que vertem em situações limítrofes.

Posto isso em poucos minutos, qualquer absurdo do roteiro ou da narrativa estão plenamente justificados pela reciclagem do que era sutilmente manipulador em algo escancaradamente apelativo. Humilhações de ciclos sociais, repressão materna, culpa cristã, justificam poderes telecinéticos. Humilhações frente a um número grande de pessoas que poderiam ser impedidas são transformadas em deliciosa masturbação cinematográfica de câmera lenta utilizada à exaustão. Necessidades de fechar ciclos justificam dois clímaxes filmados de maneira assumidamente canastronas de tão cara-de-pau.

Não é necessário dizer que Carrie, A Estranha abriu as portas de maneira definitiva para Brian De Palma: a maneira Hitchcockiana de filmar histórias sufocantes, combinadas com o uso da estética do cinema italiano fantástico de conjugar enquadramentos, manipulação do tempo e fotografia e iluminação anacrônicas de tão exageradas mostrou ao mundo o grande cineasta que estava por vir, e ainda por cima, nos ensinou mais uma vez que a sabedoria de utilizar recursos dramatúrgicos e de linguagem de forma inovadora justificam as propostas e histórias mais bizarras e doentias e, de quebra, garantiu um filme clássico em todos os quesitos possíveis.

4/5

Ficha técnica: Carrie, A Estranha (Carrie) – EUA, 1976.  Dir :Brian De Palma. Elenco: Sissy Spacek, John Travolta, Nancy Allen, Piper Laurie, Amy Irving, Betty Buckley, P. J. Soles

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– por Bernardo Brum

Uma das maiores bênçãos do mundo, creio eu, é a incapacidade da mente humana em correlacionar todos os seus conhecimentos“.

– H. P. Lovecraft, O Chamado de Cthulhu.

Discutivelmente a maior obra-prima de John Carpenter,  O Enigma de Outro Mundo é um dos fillmes mais aterrorizantes, viscerais e tensos já feitos. Refilmagem de um clássico sci-fi dos anos cinqüenta, O Monstro do Ártico (aliás, uma produção do seu mestre maior Howard Hawks), o diretor integrou o seleto grupo daqueles autores que transformaram uma produção bobinha e quase ingênua, porém muito divertida, em uma obra que, por cada fotograma, se encontram as digitais da sua proposta estética única – paralelo este encontrado em A Mosca, de David Cronenberg, por sua vez uma refilmagem de outro clássico, A Mosca da Cabeça Branca.

Tido como dois auges do cinema gore dos anos oitenta, é interessante notar como toda a violência hipergráfica se aproxima mais do trabalho do canadense que seus trabalhos anteriores, como em Halloween – A Noite do Terror, que mesclava a violência  esteticamente riquíssima de filmes de gênero italianos como Prelúdio Para Matar de Dario Argento e principalmente Banho de Sangue de Mario Bava com o suspense classudo de Psicose, de Alfred Hitchcock. Aqui, como nos filmes de Cronenberg, a ameaça não interessa majoritariamente, apesar dela ser um fator importantíssimo e principal dentro do trabalho. O interesse de Carpenter, desta feita, é ir fundo na mente dos personagens, estudar o efeito de absurdas e enlouquecedoras situações limite em pessoas isoladas no meio do nada e, com isso, arrebentar os nervos do espectador de uma forma calculista e quase sádica.

Uma base militar americana na Antártida, certo dia, intercepta um cão branco correndo de dois soldados estrangeiros que o caça ensadecidamente. O cão logo é posto no canil junto com os outros animais sem que os oficiais entendam o que diabos era aquilo. Pouco a pouco, irão ter contato com uma descoberta terrível: aquele cachorro aparentemente normal, na verdade, é uma forma de vida alienígena, que ao menor contato com outro ser vivo é capaz de dominá-lo, assimilá-lo e substituí-lo por uma réplica perfeita. A partir daí, os doze homens isolados em meio à neve, incluindo aí o protagonista R. J. MacReady (o ator-fetiche de Carpenter, Kurt Russell, que atuou em cinco filme sob a sua batuta), irão enfrentar toda sorte de perseguição  e brutalidades imagináveis.

Diretor plenamente consciente do seu domínio narrativo, John Carpenter pouco explica além do essencial sobre o alienígena – e o pouco que ele informa já é o suficiente para instaurar uma sensação de inferno poucas vezes igualadas na história do cinema. São apenas homens comuns, que receberam treinamento militar, tendo que esgotar o pouco resquício de sanidade que ainda lhes resta para enfrentar uma ameaça bizarra, inaceitável e desconhecida. Pouco a pouco, tal linha de raciocínio lógica logo vai pro ralo, quando as fraquezas humanas são a amardilha perfeita para ceifar suas vidas. Não é à toa que, com essa exploração de “pessoas comuns e simplórias contra algo muito maior e ameaçador” faça valer o comentário um pouco maldoso, porém nem um pouco infundado, de que o filme da vida de Carpenter, inspiração para 90% da sua carreira, seria Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, filme que um xerife, um álcoolatra, um velho manco e resmungão e um jovem afobado são a única guarda contra uma gangue de pistoleiros assassinos.

E aí que chegamos em outro ponto fundamental de todos os filmes de John Carpenter, herdados do seu mestre Hawks: os interiores. Quase nada se passa em tomadas externas, e todo pega pra capar é exposto de forma apertada, labírintica, tortuosa e claustrofóbica pelo diretor. À medida que a ameaça cresce, os lugares para onde se possa correr e rezar pela vida são cada vez menores. Mas bem longe da comicidade que por vezes surge no seu amado faroeste, Carpenter concentra tudo em uma tensa e por vezes insuportável espera pela violência. Como nos contos do supracitado Lovecraft, a “causa”, o “por que” e o “como” são os menos importantes, e por vezes tornam-se até esquecíveis. Tudo o que os personagens sabem, e que o espectador também sabe, é que estão aterrorizados, emocionalmente em frangalhos e que a qualquer momento podem ter sua carne despeçada.

E tal terror construído por Carpenter mostra-se algo tão alienígena à mente humana que lá pelo meio do filme, as tais fraquezas da própria, que na maioria das vezes quebra se é sujeitada a pressão psicológica extrema, vira um jogo de acusação, ameaça, perseguição, suicídio e paranóia. Tudo pode acontecer, e nos momentos que nada acontece, onde poderia ocorrer algum tipo de, digamos, alívio emocional, são apenas mais angustiantes.

Talvez uma das cenas mais desesperadoras que se tem notícia, a cena do teste de sangue, chega a ser tão ou mais apavorante que o desfecho do filme. Esse é o verdadeiro clímax, onde todos não passam de um amontoado de tecidos e fluidos corporais a serem examinados um a um e, quando descobertos, combatidos até a morte, sabe-se lá de quem. Nesse momento não faz mais diferença as etnias, a nacionalidade, o número de informações possuídas pelo cérebro, nada. O que importa é apenas a carne, e o que está sendo feito dela.

Relegado por anos ao segundo escalão cinematográfico, O Enigma de Outro Mundo, na verdade, é cinema do mais alto nível e que muitas produções contemporâneas pouco podem fazer frente. Ao contrário de Steven Spielberg, que com seus E.T. e Contatos Imediatos de Terceiro Grau (entre outras produções que se envolvia), o filme de Carpenter era o divórcio da raça humana com tudo que fosse diferente – tema a ser repetido por Carpenter futuramente, como por exemplo em Eles Vivem. Aqui, a loucura, a xenofobia e, como não podia deixar de ser, o medo, são tão grandes e próximos que chegam a ser palpáveis. E poucas e parcas vezes, depois deste filme, o cinema de gênero iria tão longe outra vez.

5/5

O Enigma do Outro Mundo (The Thing) – 1982, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Kurt Russell, Wilford Brimley, T.K. Carter, David Clennon, Keith David, Richard A. Dysart, Charles Hallahan, Peter Maloney, Richard Masur, Donald Moffat, Joel Polis, Thomas G. Waites