Chegando ao final de mais um especial que, mesmo com todos  os atrasos de cronograma e períodos de inatividade, podemos considerar um período extremamente satisfatório e saudável pro blog, que junto vários posts de screenshots, conseguiu também mais de mil visitas e uma média de 50 pageviews por crítica e cerca de cento e vinte comentários, só comprovando nossa escolha acertada ao escolher esse diretor que realizou tanto obras alternativas quanto clássicos da televisão aberta, sem nunca deixar de lado a inteligência e o exagero que sempre tornaram seus filmes tão pessoais e universais ao mesmo tempo.

Sem perder mais tempo, aqui vão os tops de Bernardo Brum, Luiz Carlos Freitas e Guilherme Bakunin.

– Equipe

Bernardo Brum

1. O Vingador do Futuro – O poder do cinema (de ação, claro) de reinventar o indivíduo, contestar a ordem estabelecida e desobedecer a si mesmo em prol de algo maior. Tudo isso encoberto por um ritmo frenético e um senso de humor pra lá de doentio.

2. Tropas Estelares – Uma das sátiras definitivas ao militarismo, um irônico filme de propaganda cruzado com climão de filme B que mostra o grande poder de fogo das “sacanagens cinematográficas” de Verhoeven.

3. Louca Paixão – Amoralidade, humor negro e escatologia encontram melodrama e breguice. A maioria dos diretores iria se atrapalhar todo com uma mistura dessas, mas na mão do holandês a obra torna-se uma abordagem impactante sobre arte, existência e finitude.

4. Robocop – Um clássico do cinema com todas as letras, merecidamente um dos luminares do gênero ação, envolvendo críticas à publicidade, televisão, polícia e o mundo dos negócios. Alex Murphy pula de alienado à vítima à algoz. Contra uma tecnologia corrupta, Verhoeven usa o fator humano para combater.

5. Soldado de Laranja – Épico de guerra sem grandes frescuras ou moralismos que fizeram o diretor ser visto como um herói em seu próprio país por revelar os absurdos e contradições da Segunda Grande Guerra sem jamais esquecer de construir seu protagonista, que perambula e sobrevive por duas horas e meia numa terra de ambições, frustrações e brutalidade e revela-se, no final das contas, um grande personagem, síntese da fase holandesa do diretor, onde os absurdos cotidianos eram confrontados com o cinema, pura e simplesmente. Filme plenamente consciente de si, de uma forma que quase não se vê mais hoje em dia.
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Guilherme Bakunin

1. Instinto Selvagem – Hitchcock encontra fatalmente Paul Verhoeven num negócio forte, sensual, denso. Cheio de vertentes e antologias, com atuações catárticas que dizem sem dizer e chocam e emocionam através da captura do cineasta.

2. O Quarto Homem – Poderoso, grande.

3. A Espiã – Épico. Revelou não só uma grande atriz mas também o controle preciso do Verhoeven pra contar uma história que não é apenas grande, mas das mais importantes e fundamentais para seu país.

4. O Vingador do Futuro – Legal.

5. Louca Paixão – Romântico, identificável, invejável. Tudo que acontece ali pode facilmente acontecer com qualquer um. Verhoeven reuniu tudo de forma tão romântica, porém, que todos os acontecimentos são produto de uma única mágica: o cinema.
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Luiz Carlos Freitas

1. Louca Paixão – Somos apresentados a um amor demente, exagerado, bizarro e, acima de tudo, auto-destrutivo. Mas, diferente do que a grande maioria faria, Verhoeven não se entrega a julgamentos, não taca pedras; ele mostra essa “louca paixão” como um amor digno tal qualquer outro.

2. O Quarto Homem – Um espetáculo surreal de loucura, demência, confusão, sexo, desejo, morte, fé … Um surto esquizofrênico que reverencia, acima de tudo, o cinema.

3. Robocop – Verhoeven faz uma crítica ferrenha à ‘Sociedade do Espetáculo’ e à tecnologia se sobrepondo ao homem, um dos personagens mais icônicos do cinema e (provavelmente) o filme mais divertido dos 80’s.

4. Instinto Selvagem – Também conhecido como “Alfred Hitchcock perde o cabaço e vira homem” ou “A Maior Cruzada de Pernas do Glorioso Cinema Americano”.

5. Conquista Sangrenta – O período de transição da Idadé Média à Moderna retratado por seus personagens, párias imundos, mentirosos, manipuladores e amorais (mais Paul Verhoeven impossível).

Quem é Paul Verhoeven?

por Bernardo Brum

Para a maioria esmagadora da comunidade cinéfila, em todos os meios  – na internet ou nos cineclubes – Paul Verhoeven é comumente conhecido como um dos cineastas “tipo exportação” que proliferam há décadas nos Estados Unidos, responsável por alguns clássicos filmes de ação e bombas de proporções gigantescas – e nada mais. Mas como reza o velho (e clichê) ditado nem sempre pode-se julgar um livro pela capa. O poder de fogo de Verhoeven é, mesmo que relegado a um segundo escalão cinematográfico, de um alcance longo e duradouro, capaz como poucos de cumprir a missão número um do cinema – cristalizar no inconsciente coletivo as imagens em movimento.

Mas deixando a retórica de lado, vamos nos ater aos fatos. Nascido na Holanda em 16 de julho de 1938, filho de um professor e uma chapeleira, Verhoeven curiosamente parecia não ter o cinema como sua primeira opção. Quem conta isso é o seu diploma em Matemática e Física, pela Universidade de Leiden. Sua infância foi um tanto agitada: crescido em uma casa perto de uma base alemã constantemente bombardeada pelos Aliados e, ao mesmo tempo, banhado na escola e nos cinemas da região por filmes informativos e películas americanas que aprendeu a gostar desde a mais tenra idade – como Frankenstein, Guerra dos Mundos e filmes B de detetives. Nesta época, também, teve interesse por desenhar histórias em quadrinhos.

Talvez seja esse background que tenha feito ele desistir de usar profissionalmente sua graduação e investir sua energia e recursos na feitura de filmes. Nessa época, dirigiu alguns curtas-metragens e documentários para a marinha (um deles, inclusive, ganhou um premio francês destinado a filmes militares) e para a televisão e casou-se com Martine Tours, que mais tarde daria a ele duas filhas.

No início da década de 70, finalmente Paul Verhoeven estrelaria em longas-metragens, com o exploitation tornado cult Negócio é Negócio, uma comédia de humor negro sobre duas prostitutas que foi mal recebido pela crítica. Mas iria à forra em 1973, com o sucesso Louca Paixão, que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e, duas décadas depois, foi considerado o melhor filme holandês do século. O filme marcaria o início da parceria do diretor com Rutger Hauer, prosseguida dois anos depois com Os Amantes  de Katie Tippel, que não alcançou o sucesso do anterior.

Mas isso não parecia motivo para parar Verhoeven, que logo emplacou outro sucesso, o épico de segunda guerra Soldado de Laranja, novamente com Hauer. Choveram prêmios e indicações mais uma vez: concorreu para o Globo de ouro e ganhou como melhor filme de língua estrangeira na premiação dos críticos de Los Angeles. Curiosamente, na tal eleição dos filmes mais importantes da Holanda ocorrida na década de 90, Soldado de Laranja ficaria com o segundo lugar, perdendo para o supracitado Louca Paixão.

Nessa época, o cineasta já havia cravado suas marcas de estilo: perversão, nudez frontal, diálogos “sujos”, escatologia e  outros elementos do gênero eram filmados de forma despudorada e direta. É o caso de Sem Controle, seu quarto filme com Rutger Hauer, considerado por muitos na época uma versão bem mais violenta e sexualizada de Os Embalos de Sábado à Noite. O último filme do diretor em sua terra natal seria o horror O Quarto Homem.

Daí então teria início o ápice e também o período mais polêmico (para críticos e para os fãs) da carreira de Verhoeven. Exportado junto com seu ator de estimação (vocês sabem quem) fez o filme de época Conquista Sangrenta, com Jeniffer Jason Leigh (que, mesmo se passando em 1500, não abandona a violência e o sexo que são tão característicos de sua obra!). O ponto de virada, que fez Paul ser lembrado por todos como um cineasta que gira suas obras em torno de pólos como efeitos especiais incrementados, orçamentos altos e violência explícita, viria com a ficção científica policial Robocop, que além de ganhar vários prêmios por efeitos especiais, tornou o seu protagonista um ícone da cultura pop – daqueles que todo mundo já ouviu falar mesmo sem ter visto.

A boa fase continuaria com outra ficção científica, O Vingador do Futuro, com o “terminator” Arnold Schwarzenegger, baseado em um livro do célebre escritor do gênero cyberpunk Philip K. Dick. Outro sucesso de público, crítica e premiações. Depois de dois filmes sci-fi seguidos, decidiu voltar aos tempos de sexualidade, tensão e provocação com o suspense à lá Hitchcock Instinto Selvagem, que novamente abalou as estruturas cinematográficas e populares por apresentar a famosa cena em que, num vestido curtíssimo e sem roupas de baixo, uma Sharon Stone no auge da gostosura dá a cruzada de pernas mais famosa do cinema.

Verhoeven continuou nesse universo altamente sexualizado em Showgirls, filme criticado impiedosamente quando foi lançado, recebendo censura máxima e conquistando os  “prêmios” de Pior Filme e Pior Diretor no Framboesa de Ouro. Curiosamente, ao longo dos anos, Showgirls viraria um verdadeiro cult, fazendo um sucesso alucinado no mercado das videolocadoras, arrecadando mais de 100 milhões de dólares com aluguel de fitas VHS e tornando-se um dos vinte filmes mais lucrativos da MGM…

A polêmica continuaria quando Verhoeven retornou ao universo das ficções científicas sangrentas Tropas Estelares, que fazia alusões a uma sociedade militarista e totalitárias no futuro, percebido por alguns como uma crítica sarcástica do diretor aos Estados do mundo, e por outros levado a sério, chegando inclusive a alguns taxarem abertamente o diretor de facista (polêmica semelhante também enfrentada pelo livro homônimo do qual o filme foi adaptado). Em 2001 viria O Homem Sem Sombra, o último filme de Verhoeven em terras americanas, a livre adaptação (no sentido de tomar muitas liberdades criativas em relação a obra original) do clássico livro de H. G. Wells O Homem Invísivel. Apesar das duras críticas ao roteiro, o filme foi elogiado por uma parcela do público pela excelência no uso de efeitos especiais gerados por computação gráfica (sendo inclusive indicado ao Oscar nessa categoria).

Depois de morar 20 anos nos Estados Unidos, Paul Verhoeven retorna com festas e glórias aos Países Baixos e filma uma nova obra em 2006, A Espiã. Dividindo a crítica e abocanhando três prêmios da premiação nacional de cinema da Holanda, o filme foi definido pelo anfitrião da entregra dos prêmios como “o retorno de um herói”. Desde então, apesar de ter anunciado alguns projetos, Verhoeven ainda não dirigiu mais nenhum filme. Mais recentemente, como membro de uma associação de críticos do cristianismo, lançou um livro em 2007 sobre Jesus Cristo que desagradou muitos por suas acusações de corrupção da instituição religiosa e supostas ofensas contra o símbolo maior dessa religião.

Em quarenta anos de cinema, Paul Verhoeven conheceu altos e baixos como nenhum outro. Foi chamado de gênio, incompetente, refinado e escatológico na mesma medida e, lentamente, após grande início de carreira, empurrado por crítica e cinéfilos para o underground do mundo cinematográfico, sendo considerado, hoje em dia, autor de poucos clássicos, filmes primogênitos desconhecidos e obras recentes desprezadas. Mas, como sempre, não para o Cine Café. Por ser forte e direto como poucos cineastas ousam ser, por ter a coragem de entrar na nação mais poderosa do mundo e brincar acidamente com seus costumes, tabus e manias e pela sua autoralidade altamente descarada e maluca, costurando tudo isso com uma linguagem narrativa sempre densa, bem estruturada e ganchuda, ele merece mais do que comentários ocasionais aqui e ali. Direto do subsolo, com todo os litros de sangue, seios de fora e abuso sacana dignos de um bom maldito, com vocês, Paul Verhoeven.

Sem mais delongas, segue abaixo o cronograma do Especial, com o calendário direitinho dos textos que serão publicados.

– Cronograma Especial Paul Verhoeven –

Dia 1: Texto de Abertura, por Ber + Robocop, por LC
Dia 2: O Amante de Keetje Tippel, por Troy + O Homem sem Sombra, por Ber
Dia 3: Sem Controle, por LC + Screenshots: Robocop, por LC
Dia 4: Louca Paixão, por Ber + Negócio é Negócio, por LC
Dia 5: Instinto Selvagem, por Troy + Screenshots: Instinto Selvagem, por Troy
Dia 6: Soldado de Laranja, por Ber + Showgirls, por LC
Dia 7: Tropas Estelares, por Ber + A Espiã, por Troy
Dia 8: O Quarto Homem, por LC + Conquista Sangrenta, por LC
Dia 9: Vingador do Futuro, por Ber + Screenshots: O Vingador do Futuro, por Ber
Dia  10: TOPs

por Cauli Fernandes

Em Hiroshima, há corpos amontoados e carbonizados. Em uma cama de hotel, há corpos amontoados e carbonizados, mas não por fogo ou radiação, e sim por paixão e loucura. Mas não vemos Hiroshima nessas imagens. Não, vemos tudo.

Conjugar verbos nesse texto é errado. Incutir noções tempo em palavras é ato falho ao discorrer sobre um filme que mescla de forma tão sublime o passado, presente e futuro; em um mesmo momento, vive-se aquilo que foi, o que vemos e o que presumimos e, por conseqüência, o peso de um personagem que sente tudo isso só pode ser colossal.

Mas não vemos Hiroshima. Quem não teve a família dizimada por uma bomba estrangeira e irrelevante não sente a dor de Hiroshima. Amigos viraram pó atômico. É única a angústia de observar virar fantasma o lugar que constituí toda a infância. Olha lá a pele em carne viva, metal e homem retorcido, tem mandíbula na latrina.

Não, vemos Hiroshima. A quilômetros de distância, debaixo de campos burgueses, o coração de uma menina francesa virou Hiroshima. Antes, o soldado alemão agonizava no chão, morrendo e se tornando lembrança. Antes, ele e ela pertenciam ao céu, ao carbono e suor que o outro exalava, a grama debaixo do corpo. Depois, o soldado alemão agonizava no chão, morrendo e se tornando lembrança; ela se abraça nele, um último toque, por favor. Depois, ela é jogada no porão para raspar pedras e gritar sem ninguém na sala de visitas ouvir, por favor, que falta de educação.

Mesmo com tanto sentimento, política e história também se permeiam pelo filme, o que o torna um organismo vivo. Por desenvolver tantos temas relevantes com desenvoltura e inteligência, a película injetou um vigor vital na história do cinema. Em 1959, 14 anos após a bomba atômica, Resnais usou essa ferida aberta para construir uma narrativa inovadora utilizando ferramentas tão diferentes: imagens de documentário, câmeras subjetivas, diálogos repetidos com cadência poética, metalinguagem. Isso resulta em uma unidade pensante, que empurrou o cinema para o status de arte capaz de se afirmar e de se discutir. Além de abrir as portas (junto com Acossado, de Godard, que também promove uma mudança na linguagem) para uma das fases mais ricas e líricas do cinema: a Nouvelle Vague.

Mas somos capazes de ver Hiroshima? Não, não somos. Mesmo estando no hospital, na Praça da Paz, no museu, mesmo tendo visto os chumaços de cabelo. Quem viu Hiroshima virou lenda mal contada.

5/5

Ficha Técnica: Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, Mon Amour) – França, 1959. Dir.: Alain Resnais. Elenco: Emmanuelle Riva e Eiji Okada

– por Luiz Carlos Freitas

Meu filme é um far-west sobre o III Mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros. Fiz um filme-soma; (…) Do documentário, a sinceridade (Rossellini); do policial, a violência (Fuller); da comédia, o ritmo anárquico (Sennett, Keaton); do western, a simplificação brutal dos conflitos (Mann). (…) Porque o que eu queira mesmo era fazer um filme mágico e cafajeste cujos personagens fossem sublimes e boçais, onde a estupidez – acima de tudo – revelasse as leis secretas da alma e do corpo subdesenvolvido. (…) Meus personagens são, todos eles, inutilmente boçais – aliás como 80% do cinema brasileiro; desde a estupidez trágica do Corisco à bobagem de Boca de Ouro, passando por Zé do Caixão e pelos párias de Barravento.

– Rogério Sganzerla (Manifesto Sganzerla!)
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É, Rogério Sganzerla era mesmo um boçal. Fez aquela que seria sua maior obra-prima apenas aos 22 anos (sim, esse tipo de informação me faz sentir um inútil à essa altura da vida, mas enfim, prossigamos) e, provavelmente o nosso mais forte ‘produto’ cinematográfico, além de ser um marco divisor do cinema nacional.

Levemente inspirado na história real de João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, que, além de outros delitos, estuprou cerca de 50 mulheres na década de 60, a trama é o que menos importa aqui. Sganzerla faz um cinema totalmente descompromissado com a construção tradicional da narrativa e a consensual coerência; uma grande teia de referências e críticas, onde sociedade e cinema são mastigados e cuspidos na tela com um virtuosismo absurdo (paradoxal, até) que fazem de O Bandido da Luz Vermelha, definitivamente, um dos maiores representantes do dito ‘Cinema Transgressor’.

Do ponto da cinematografia, o Bandido redefine praticamente todos os moldes estéticos e de narrativa até então, nos guiando por recortes de um jornal sensacionalista e uma narração radiofônica. É, provavelmente, a mais original e inovadora já feita, não tendo sido igualada ou sequer imitada até hoje. Sai também a verossimilhança aparente da linearidade e da cronologia medida à régua e entra a criatividade radical e sem arreios da marginalidade. É um novo tipo de cinema que larga a beleza da crítica do lirismo e a substitui pelo deboche. É (como o próprio Bandido define) “o avacalho”. Esse Bandido (vivido por Paulo Villaça) pode ser visto como o Poeta de Terra em Transe subvertido à sua crítica: ele já não tem mais esperanças, não acredita em salvação ou redenção do seu povo e de sua sociedade. O Bandido é o ‘fim’, um personagem que já desistiu há tempos.  Aliás, não só ao personagem do filme do Glauber Rocha, mas a todo o Cinema Novo.

Esse tipo de cinema (Novo) partia à conscientização, ao caráter social de “abrir os olhos”. Era um tipo de cinema que estava se tornando o cinema ‘oficial’, que falava ao público e se fazia entender até onde possível, mantinha a proximidade para alcançar ao máximo de segmentos. Sganzerla quebra isso e contradiz até mesmo seu próprio conceito de cinema, uma vez que o ‘marginal’ não se aplicava ao pé da letra: sua linguagem era dirigida direta e nitidamente a um público bem mais culto. Era um cinema aparentemente ralé, sujo e boçal, cujo ‘herói’ era justamente um bandido que reclamava de dor de barriga enquanto cagava no mato, mas com uma carga intelectual de valor e peso incomensuráveis e que necessitava ser ouvido e sentido exatamente como era. Ele queria passar a mensagem, mas não estava disposto a ser flexível para que todos a assimilassem. E sorte de quem pudesse entender, azar de quem não o acompanhasse.

Nisso, a metalinguagem tem um papel fundamental. O cinema do Bandido quebra as limitações do Cinema Novo, abandonando seus temas habituais, como a fome, seca, miséria e classes, todos a nível de Brasil, mas com um pezinho nas fórmulas do cinema de fora, e parte rumo ao mundo, à cultura, política, liberdade (e libertinagem), à quebra de purismos, já com os olhos ao que seria feito daqui. O que antes era uma exposição de idéias, agora é um confrontamento de situação-possibilidades, tudo por meio do cinema. E este cinema, para Sganzerla, era mais que ‘panfleto’: uma rede intrincada e complexa de arte, classes sociais, política, vida.

O ideológico é brilhantemente construído pelo autor, que conseguiu impressionar em seu tempo e, após mais de 40 anos, ainda manter-se extremamente atual. A exemplo do personagem do corrupto, vivido por Pagano Sobrinho, representando a quebra de valores no meio político, que hoje já é lugar comum em meio a tantos casos explícitos de escândalos e corrupção, à época, pós-golpe de 64 e repressão, soou incompreensível à maioria e, aos que conseguiram captar a mensagem, deixou um sentimento não menos que aterrador. A narrativa de Sganzerla se mostrou à frente de seu tempo falando justamente de coisas do seu tempo.

E se a opção da narrativa no começo evoca Welles, o final é uma ponte a Godard e seu O Demônio das Onze Horas. Sganzerla usou o francês, que representava o que havia de transgressor em seu tempo, para mostrar seu toque de autor e o que ele queria transgredir. E sai o fim deliberado de um burguês em busca de libertação e entra a morte acidental e debochada de um bandido num lixão. E o mesmo fim ao delegado, que morre sem conhecer o rosto de quem tanto procurava e gritando “Mamãããee!” (não dá, Sganzerla avacalha e não respeita nada e ninguém – nem mesmo seu próprio Bandido sai imune). É a reflexão existencialista do francês que ainda via uma esperança sendo confrontada com a representação política por meio do Bandido que corroborava o sentimento de ‘fim de mundo’, de falta de saída em meio ao caos da periferia.

E, sim, Sganzerla faz do Bandido mais político até que o Belmondo pintado com as cores da bandeira da França: há o fim num lixão, e um fim embalado pelo samba (isso, o mesmo samba que nos faz esquecer por alguns dias de Carnaval de nossos problemas – pão e circo). Aliás, essa revisão da obra de Godard é também seu grito como cineasta. O ‘Pierrot’ do Godard explode em meio a um cenário idílico, belo; nosso bandido se eletrocuta com restos de fios e em meio ao lixo. Ali é o realizador sufocado pelas limitações de fazer cinema no Terceiro Mundo, sempre à margem dos gringos e dependente de suas sobras, tal qual sua Janete Jane (Helena Ignez), musa à altura de Anna Karina, mas tão marginal quanto seu arremedo de nome (meio periferia, meio gringa). Mais uma vez entra a metalinguagem, a prática do cinema e do social pelo cinema e por meio de.

Hoje, mesmo após quatro décadas de seu lançamento, o filme continua tão poderoso e vivo em seu conteúdo que ainda não dá para citar de modo objetivo todos os motivos do cinema do Bandido ter sido o marco divisor que o foi, no máximo arranhar a casca dessa bomba de sátiras. Mas, como ‘arranhar’ somente não combina com O Bandido da Luz Vermelha, só o que acaba nos restando mesmo é curvar e reverenciar esse filho da puta chamado Rogério Sganzerla, que só queria fazer um filme avacalhando boçais como ele, mas que acabou revolucionando o cinema.

Filho da puta.

5/5

O Bandido da Luz Vermelha (Idem) – Brasil, 1968 – Dir.: Rogério Sganzerla. Elenco: Paulo Villaça, Helena Ignez, Pagano Sobrinho, Luiz Linhares, Hélio Aguiar, Sonia Braga.

– por Murilo C. Ceccone

Pegue a situação da Alemanha recém saída da 1ª Guerra Mundial, some ao movimento artístico expressionista, adicione a algumas experiências bizarras vivenciadas por dois roteiristas, uma pequena colaboração de Fritz Lang, a direção inovadora de Robert Wiene, e você terá como resultado um obra seminal e extremamente influente até os dias atuais.

A história é contada por Francis (Friedrich Feher) durante uma conversa com um estranho. Através de flashbacks é mostrada a chegada do misterioso Dr. Caligari (Werner Krauss) em uma feira de aberrações no vilarejo de Hostenwall. O hipnotizador apresenta o sonâmbulo Cesare (Conrad Veidt, o Major Strasser de Casablanca), supostamente adormecido há 23 anos, o qual comete assassinatos durante a noite a mando do seu mestre. O final revela uma surpresa, um twist bem elaborado, talvez o primeiro na história do cinema. Discordo da opinião de que o final ameniza ou desmonta a crítica construída durante o filme à manipulação do povo por um governo autoritário. A crítica permanece lá, e o final casa perfeitamente com a idéia de um mundo visto pelos olhos de um louco, a exteriorização dessa loucura e a deformação da realidade.

Utilizando cenários distorcidos (feitos de madeira e sombras pintadas), ângulos estranhos, formas desproporcionais, maquiagem e atuações exageradas, Caligari é o filme inaugural do cinema expressionista alemão dos anos 20, e serviu de base para Nosferatu e outros filmes dessa corrente. Pioneiro no uso da estética, o filme preocupa-se sobretudo com o visual (cada cena poderia ser transformada em um belo quadro, tal qual O Grito de Edvard Munch), em vez de focar somente na ação, mas nunca descuida da narrativa, extremamente complexa (existe até um flashback dentro do flashback).

Um dos primeiros filmes do gênero terror, pode-se dizer que Caligari também influenciou Drácula e Frankenstein nos anos 30, o estilo visual de diretores como Tim Burton, e se você ficou impressionado com David Lynch e seu Cidade dos Sonhos, ou o subestimado A Passagem, ótimo exercício de estilo do diretor Marc Forster, saiba que a premissa já havia sido utilizada 80 anos antes.

Filme obrigatório para os amantes do cinema e para quem se interessa pela sua história, O Gabinete do Dr. Caligari é uma obra-prima inovadora e que, mesmo com quase um século de existência, não envelheceu em nada, e continua a impressionar por sua qualidade.

5/5

Ficha Técnica: O Gabinete do Dr. Caligari (Das Kabinett des Doktor Caligari) – 1920, Alemanha. Dir.: Robert Wiene. Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover, Hans Heinrich von Twardowski, Rudolf Lettinger.

Depois de 10 dias, 20 textos publicados, mais de 1200 visitas, mais de 100 comentários, chegamos ao final do Especial Carpenter. E para encerrar com chave de ouro, vamos de Top. Cada integrante da Equipe (com exceção do Murilo, que não participou do Especial), teve de escolher os 5 melhores filmes do diretor. Não é tarefa fácil selecionar cinco dentre os muitos filmes excelentes do cara, mas tentamos. E  sintam-se à vontade para se juntar a nós e postarem seus tops nos Comentários também. Aquele abraço.

– Equipe

Guilherme Bakunin

  1. À Beira da Loucura – A apoteose do horror; Lynch e Bava provavelmente estão com inveja até hoje.
  2. Alguém Me Vigia – O suspense pra tv que deixa aquele Encurralado do Spielberg completamente embaraçado. Hitchcock não poderia trabalhar melhor nesse que é seu filme, só que dirigido com muita propriedade pelo Carpenter
  3. Eles Vivem – ETs dominando a terra com mensagens subliminares, me recuso a fazer qualquer comentário
  4. Assalto à 13ª DP – Los Angeles com zumbis modernos, que ao invés de garras e dentes atacam com revólveres mesmo.
  5. Christine – O Carro Assassino – A falta de bagagem me obriga a colocá-lo nesse top, mas pouco realmente se salva nesse filme. Já que é pra falar bem, tem uma boa trilha, o final é bem legal e Christine sufocando a garota dentro do carro extremamente iluminado é uma cena pra guardar na memória.
Cauli Fernandes
  1. A Bruma Assassina – Porque é um simples nevoeiro sendo usado como peça eficiente de suspense, matando e encarcerando pessoas. E dando muito medo.
  2. Christine – O Carro Assassino – Tem um carro assassino e um garoto que enlouquece por ele. Pode parecer tosco, mas as mortes são em alto estilo e a trilha sonora eleva tudo ao quadrado.
  3. À Beira da Loucura – Piração metalinguistica contando a busca de um escritor que some. No meio disso, demônios nojentos e donzelas se contorcendo, prenunciando um apocalipse.
  4. Halloween – A Noite do Terror – Precursor de vários outros assassinos em série que existem por aí. Além do mais, filme inteligentíssimo sobre o mal e a pervesidade, e como somos moldados por eles.
  5. Eles Vivem – Crítica política somada à extraterrestres cidadãos. Bem nonsense, mas cheio de conteúdo.
Lucas Duarte
  1. À Beira da Loucura
  2. A Bruma Assassina
  3. O Enigma do Outro Mundo
  4. Halloween – A Noite do Terror
  5. Eles Vivem
Luiz Carlos Freitas
  1. O Enigma do Outro Mundo – A obra máxima do Carpenter. Um dos filmes mais tensos, aterradores e viscerais já feitos, onde o diretor reúne alguns dos elementos mais fortes de sua filmografia e os trabalha de forma mais seca, direta: um pequeno grupo de indivíduos isolados enfrentando uma força aniquiladora (e de origem desconhecida) de proporções catástróficas a nível mundial; a prevalência do instinto de sobrevivência a qualquer “princípio” ou código de honra (há uma ameça? Fodam-se os amigos! Somos animais e faremos o possível para sobreviver – um “kick out” nessa visão romantizada do herói). Isso tudo aliado ao ápice do hiper-grafismo em sua obra (e não preciso falar do que esse doente construiu em termos de “atmosfera” tendo uma base assolada por uma tempestade de neve no meio do nada, né?).
  2. Halloween – A Noite do Terror – Carpenter nos apresenta ao assassino mais cruel e aterrador do cinema. Ele não tem nenhum trauma de infância, não está interessado em vingança ou dinheiro, não faz piadinhas com suas tripas ou te espera dormir para matar. Ele simplesmente mata. Assim, fácil desse jeito. Ele é uma força que, não sabe-se demoníaca ou psicótica, não tem motivações ou algo que o faça parar. Apenas o mal eterno e absoluto. Myers é o filme, protagonista ou não. E tal qual o final do filme nos deixa bem claro, ele representa o mal: está em todos os lugares, em cada sombra, atrás de cada porta, moita ou armário. O assassino supremo. O slasher definitivo.
  3. Eles Vivem – Anarquismo, subversão, insurgência, transgressão … Por que não dizer simplesmente “John Carpenter”? O diretor sempre carregou um notado vigor em desconstruir todas as instituições e princípios de valores que regem nossa sociedade. Para ele, a sociedade é suja, todos à nossa exceção são sujos e para conseguirmos nos manter “limpos”, irônicamente, devemos nos igualar à sujeira, descer a seu nível. E Eles Vivem é seu trabalho mais anarquista, subversivo, insurgente e transgressor. Ele arregaça a mídia, os pilares do poder, do estado, da família e do caralho a quatro, e fazendo uso para tanto de uma “invasão alienígena” (!?!?!). Só duas coisas são mais fodas que isso: ele consegue nos tornar aquela situação toda extremamente crível (e o faz de um modo divertido pra caralho).
  4. A Bruma Assassina – A obra é como Os Pássaros de Hitchcock: ele pega uma cidade costeira qualquer, e a vira de cabeça pra baixo para desmontar todo o seu passado, seus costumes, tradições com fantasmas, névoa, olhos vermelhos brilhantes e uma crítica impiedosa, mais uma vez, ao seu país, erguido na base do sangue, ódio, medo e preconceito. E só para variar, o filme é outro exercício genial de estilo!
  5. Príncipe das Sombras – Uma das maiores “saladas” de sua filmografia. Temos zumbis, física quântica, possessão demoníaca, tecnologia de ponta e até viagem no tempo. Tudo para tratar (outra salada) da relação de inter-dependência entre fé e ceticismo, ética e transgressão e, mais uma vez, o bem e o mal (ambos absolutos). Tudo isso com uma das melhores construções de atmosfera e algumas das cenas mais assustadoras de sua carreira, além de um final que entra fácil na lista dos mais aterradores do cinema.

Bernardo Brum

  1. O Enigma do Outro Mundo – Simplesmente por fazer o que só grandes filmes conseguem: elevar o que era pra ser apenas “de gênero” à obra-prima.
  2. Eles Vivem – Por remar na maré contrária do cinema político intelectual e transformar a coisa toda em revolta roots, com direito à dedo do meio sendo erguido orgulhosamente para toda a podridão americana.
  3. À Beira da Loucura – Só confirma o que todo mundo já suspeita: John Carpenter é, sem sombra de dúvida, a essência do cinema norte-americano de terror. E aqui ele constrói uma das atmosferas mais sombrias e sinistras já feitas sem titubear.
  4. Halloween – A Noite do Terror – Faço minhas palavras as do LC: É o assassino supremo e o slasher definitivo. O filme simplesmente abriu um capítulo novo no cinema de gênero americano.
  5. A Bruma AssassinaSuspiria + Os Pássaros + Gelo seco + John Carpenter, resultado, filmão.

– por Cauli Fernandes

Numa hora está lá, outra hora não está: é a névoa. Mas, nas mãos de John Carpenter, vira A Bruma Assassina e um terror psicológico angustiante.

Mais do que nos embasbacar com a direção primorosa de um pedaço de ar, é delicioso ver como Carpenter une divinamente os personagens. Em princípio, ninguém se conhece: Elizabeth (Jamie L. Curtis, quando era bonita) é uma viajante que vem de um lugar e vai para outro – isso não importa muito – e pega carona com Nick Castle, um homem que trabalha no mar – o trabalho também não importa muito. Há a senhora Kathy Williams (Leigh, mãe na vida real de Curtis), a pessoa que está organizando as festividades dos 100 anos de Antonio Bay, pacata cidade litorânea onde está toda essa gente; esta vai atrás do Padre Malone para abençoar o aniversário, só que ele acaba de descobrir algo horrível sobre o passado de Antonio Bay, algo que tem a ver com leprosos, ouro e esse aniversário. E também tem Stevie Wayne (Barbeau, uma atriz gata pra caramba que nunca vi em outro filme), alguém totalmente à parte do resto. Ela é radialista e tem um filho (um vínculo diferenciado e forte com um próximo). Do alto de um farol, Stevie solta sua voz pela noite, noticiando a população do que ocorre e fazendo o playlist da cidade. Ela é a primeira a ver a bruma e a desconfiar de que algo ocorre nela; a personagem é feita como um preparatório de paranóia: por ela passará primeiro os sentimentos de medo e apreensão, para depois eles se duplicarem pelo outros indivíduos.

E Carpenter trata de jogar tudo isso numa panela e provocar o horror. São arrepiantes os quadros da névoa surgindo no horizonte; ela tem um aspecto leitoso e brilha, escorrega por frestas e sai se envolvendo por onde passa. Além do mais, é por causa dela que os personagens se encontram, no final, numa cena que parece produto de um roteiro canastra (mas não é, claro).

Interessante também ver que ninguém mais na cidade se mobiliza; o pânico parece mais artigo dessas míseras seis pessoas do que de uma população. Se olharmos por um lado, todos aparentam estar tendo um surto esquizofrênico em conjunto. Oras, zumbis batendo à porta em busca de riquezas perdidas são mais comuns em delírios, não é mesmo? Não se pode excluir a hipótese de sonho.

Mas não se pode discordar do “poder da notícia”. Como discutir com a tradicional e sexy voz de Stevie no rádio, quando a vemos gritando para que alguém ajude seu filho? Se alguém teme ao nosso lado, temos a probabilidade de temer mais ainda, mesmo que a situação não seja de tanto medo (até nisso disputamos com os outros, em “quantidade de pânico”).

E porque os leprosos voltam? Não é para ensinar os vivos a não comer carne vermelha e usar camisinha, não é para dizer que devemos ser simpáticos com qualquer um, mas por que estão em busca de algo que é seu, de alguma posse vil e terrena? Se até os mortos só pensam em si mesmos, então realmente não estamos salvos.

5/5

A Bruma Assassina (The Fog) – 1980, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Adrienne Barbeau, Jamie Lee Curtis, Janet Leigh, Hal Holbrook, Tom Atkins