– por Luiz Carlos Freitas

Há mais de dois séculos, Nietzsche publicava Assim Falou Zaratrusta e, dentre os ensinamentos do personagem título, versava a respeito de um provável posto de evolução da humanidade: o Super-Homem. Segundo ele, e apoiado em Darwin, o homem de hoje em dia seria apenas uma ponte entre o Símio e o Super-Homem, o tipo perfeito que se encontrava bem acima dos humanos normais e, após acurada seleção natural, dominaria o espaço dos demais na Terra. Entre os principais atributos desses indivíduos, está a capacidade de não sentir remorso por suas ações, podendo fazer o que for preciso para realizar algum desejo seu, mesmo que isso signifique usar e destruir outrém. Dentro disso se encaixa, por exemplo, matar um amigo, esconder seu corpo dentro de um baú, usá-lo como mesa e convidar amigos e familiares do falecido para um jantar sobre o seu cadáver. E tudo isso para provar a si mesmo que é um ser superior, desenvolvido intelectualmente o suficiente ao ponto de cometer o crime perfeito.

Mórbido isso, né? Só que, por mais insano que possa parecer, algo bem semelhante já aconteceu. Em 1924, nos EUA, Nathan Leopold e Richard Loeb foram condenados à prisão perpétua por assassinarem um garoto de 14 anos e esconderem seu corpo em uma floresta. Em julgamento, declararam que pretendiam ‘apenas’ cometer o crime perfeito e, dessa forma, firmarem-se superiores aos demais. Claro que, evidentemente, não alcançaram seus objetivos. Contudo, viraram referência e deram asas ao imaginário popular, sendo odiados por muitos, venerados e admirados por outros, inspirando livros, peças de teatro, estudos e obras cinematográficas sobre o caso, como Estranha Compulsão, de 1959, com Orson Welles em um dos papéis principais.

Todavia, apesar de procurar retratar com mais fidelidade o caso, o filme de Richard Fleischer não ocupa o posto de melhor e mais importante obra sobre o ocorrido. Festim Diabólico, dirigida por Alfred Hitchcock uma década antes, é mais um dos tantos trabalhos que fazem jus ao seu título de ‘mestre do suspense’. A trama é a citada no começo do texto, adaptada de uma peça de Patrick Hamilton, por sua vez livremente inspirado no caso. Há uma morte e uma celebração em seguida. Mais que um crime, uma ode ao ego dos dois jovens vilões, o prepotente Brandon (John Dall) e o assustado Philip (Farley Granger). Porém, um dos convidados desse festim é o seu professor Rupert (James Stewart), que desconfia do sumiço do rapaz assassinado e das intenções da dupla que promovera o encontro, passando a observá-los e questioná-los o tempo todo, mostrando ser uma grande ameaça aos seus planos.

Diferente da grande maioria dos filmes do diretor, não há um mistério. Pelo menos, não para nós. Logo no primeiro plano após os créditos, já presenciamos o crime. Sabemos exatamente o que aconteceu, quem são vítima e culpados, e quais os motivos, restando-nos apenas acompanhar o desfecho. Mas não se engane, pois em termos de manipulação da tensão, Hitchcock nunca é tão simples. Levando em conta que há apenas um cenário e um elenco relevante de  três pessoas (além, é claro, do falecido e seu não muito nobre sepulcro), sustentar um clima tenso por quase 90 minutos não é tarefa fácil. Para tanto, o diretor fez uso de breves tomadas alternadas em um único cenário e basicamente o mesmo ângulo de câmera, fazendo com que as cenas pareçam ininterruptas, como se o filme todo fosse um grande plano-sequência, concebendo, além de um ar teatral à obra, a impressão de que tudo ocorre em tempo real e que nós, tal como a câmera que passeia e observa os dois (e o baú), somos também convidados da festa.

A proposta, até certo ponto, lembra bastante Janela Indiscreta e seu voyeurismo como uma analogia ao processo cinematográfico, de quem assiste e seu fascínio que transcende a admiração somente. Talvez aqui as referências não sejam tão direcionadas quanto na obra de 1954, afinal não temos um “O que você quer de mim?” dito ao expectador em close. Contudo, assistimos aos fatos com uma visão tão privilegiada quanto se estivéssemos lá. Somos agentes da situação e, de tal modo, tão limitados quanto.

Isso, definitivamente, é algo que vai muito além de meras duas horas de suspense. Somos jogados em meio ao desespero, ora como o inquisidor que procura descobrir o que de errado está acontecendo e que, na condição de possível próxima vítima, tem de fazê-lo antes que seja tarde demais, ora como o cúmplice prestes a ser desmascarado. E pouco interessa de qual grupo você se vê fazendo parte, pois quando a Sra. Wilson quase destampa o baú, o coração de todos (sem distinção) dispara.

É, Hitchcock não se importa com você. Apenas quer deixá-lo em frangalhos (e – como sempre – consegue).

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5/5

Festim Diabólico (Rope) – EUA, 1948 – Dir.: Alfred Hitchcock – Elenco: James Stewart, John Dall, Farley Granger, Sir Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan, Joan Chandler, Alfred Hitchcock

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– por Luiz Carlos Freitas

De Palma sempre foi um cineasta de vanguarda. E apesar de notada irregularidade em sua filmografia, todos os seus filmes (até mesmo os piores) têm algum mérito, mostras de sua inventividade. Em Irmãs Diabólicas, seu primeiro filme de reconhecimento mundial, ele já dava mostras do grande cineasta que viria a ser futuramente. O filme tem um argumento bem simples, começando com um assassinato e convergindo rapidamente para uma trama mais sombria e “doente” (característica de quase tudo que o De Palma lançou na década de 70), envolvendo investigações e psicoses.

Danielle Breton (Margot Kidder) envolve-se com Phillip Woode (Lisle Wilson) e, após um jantar conturbado, com direito à briga com seu ex-marido, Emil Breton (William Finley), leva-o até sua casa onde passam a noite juntos. Na manhã seguinte, após discutir com uma mulher misteriosa (a qual descobrimos ser Dominique, sua irmã gêmea) enquanto Phillip ainda dormia, e ter uma misteriosa crise por falta de seus remédios, ela o esfaqueia brutalmente até a morte (numa cena realmente assustadora).

Entretanto, Grace Collier (Jennifer Salt), sua vizinha, assiste de tudo pela janela da frente e chama a polícia, que vai ao local mas acaba não encontrando nada, uma vez que os Emil aparece e limpa o local, tirando todas as evidências e escondendo o corpo antes que os investigadores cheguem. Grace, revoltada (e após ser chamada de “louca” pelos policiais) resolve partir pra uma investigação por conta própria.

A premissa é até interessante, no entanto seu desenvolvimento pelo roteiro deixa a desejar. A entrada efetiva de Grace na trama, com sua investigação por conta própria, faz o ritmo cair um pouco, mas nada relevante. Em suas investigações sabemos mais sobre a origem de Danielle e Dominique, além de entendermos a participação de alguns personagens importantes na trama. Suas investigações a levam (literalmente) ao inferno.

A bem da verdade, o roteiro é o que há de menos importante aqui. Com um bom argumento, porém mal trabalhado, sem os aprofundamentos de algumas questões, e até mesmo alguns furos, o grande trunfo de Sisters é ver o De Palma começando a demonstrar sua habilidade no domínio da tensão em cena, criando atmosferas de puro pavor. Fazendo uso do split screen, técnica onde a tela é “dividida” ao meio, temos o pedido de socorro da vítima após o esfaqueamento por dois pontos de vista, de Danielle, dentro do quarto, e de Grace, de sua janela, permanecendo enquanto Danielle e Emil limpam a cena do crime e Grace liga para a polícia e segue ao apartamento dos dois.

A cena é breve, pouco mais de quatro minutos, mas o suficiente para nos fazer tremer na cadeira. E são nesses poucos minutos que percebemos que o talento do De Palma para construir e brincar com situações de tensão extrema é algo realmente nato. O “pesadelo” próximo ao final é realmente assustador, sem dúvida alguma o melhor momento do filme, e figura entre os mais brilhantes de sua carreira (o desfecho na “maca” é também, fácil , um dos seus mais doentios). Além disso, pouco antes do crime, há uma brilhante edição que alterna Phillip comprando um bolo para sua nova “amada” e Danielle ao chão, em um colapso nervoso. O contraste fica ainda maior com a grande trilha de Bernard Herrmann (genialíssima, por sinal – remete bastante às trilhas dos grandes clássicos de horror da década de 50).

Outro mérito do filme é sua curta duração. Com menos de uma hora e meia, as limitações do roteiro não se fazem muito evidentes. O tempo é apenas o suficiente para permanecermos envolvidos nos acontecimentos e, completamente tensos, contando os minutos até a revelação final, que se não é das mais originais e “inesperadas”, funciona perfeitamente bem (e ainda nos guarda uma pequena “surpresa” carregada do humor negro característico desse seu início de carreira).

Destaque também às sempre presentes referências a Hitchcock, desde Danielle sentada no sofá onde o cadáver está escondido enquanto os policiais revistam sua casa (alguém lembrou do baú de Phillip e Brandon em Festim Diabólico?), passando por Janela Indiscreta (Grace e seus binóculos enquanto seu detetive revira a casa do Breton), além da mais direta e evidente de todas: Psicose (que fica bem mais clara quando temos completa certeza de quem é o assassino). À exceção de Festim Diabólico, os outros dois seriam revisitados posteriormente na filmografia do diretor (e de forma muito mais elaborada), respectivamente em Dublê de Corpo (1984) e Vestida Para Matar (1980).

Mesmo com seus defeitos, Sisters é um bom filme. Não fica entre os melhores do diretor, mas certamente é um fantástico início de carreira (que nem era tão “início” assim, já que ele havia feito outros quatro filmes antes desse) e, aliás, início de uma grande e, mesmo com tantos altos e baixos que estariam por vir, brilhante carreira.

3/5

Irmãs Diabólicas (Sisters) – 1973, EUA – Dir.: Brian De Palma – Elenco: Margot Kidder, Jennifer Salt, Charles Durning, Bill Finley, Lisle Wilson, Barnard Hughes, Mary Davenport, Dolph Sweet, Cathy Berry, Olympia Dukakis, Bob Melvin, Burt Richards, Sealo.