– por Michael Barbosa

O ponto de partido é verídico; uma dupla de gêmeos ginecologistas encontrado no apartamento em que moravam sob estranhas circunstâncias. O que Cronenberg se propõe a fazer, então, é traçar o caminho que levou os dois irmãos àquele fim e, partindo disso, entregar um exercício de suspense psicológico de primeira e explorar discussões valiosíssimas, que vão da individualidade à ética médica.

Os irmãos Mantle (ambos brilhantemente interpretados pro Jeremy Irons) são os dois lados de uma mesmo personalidade, as duas metades de um médico ginecologista. Beverly – que tem “nome de mulher” – é o mais doce, tem postura indefesa, pueril e ingênua; é dependente do irmão de forma pública, visível. É, por sua postura, o que tem contato mais próxima com as paciente da clínica. Elliot é o falastrão, o esperto, malicioso, conquistador; é dependente do irmão, mas de forma velada, num jeito que passa batido à primeira vista. Eles dividem tudo, e em um companheirismo bem doentio, até as mulheres, Elliot, que é mais sociável sempre dá o primeiro combate. Bev na clínica e Elliot nas convenções e palestras, tudo vai bem no estranho mundo perfeito dos dois até terem a vida cruzada por uma atriz de cinema, Claire Niveau, que desperta o interesse de ambos inicialmente por ter um útero “trifurcado” (sic) e acaba, em seguida, por despertar uma paixão inédita em Beverly.

Crona mostra, assim, como poder ser fácil quebrar um teto de vidro. Pois Niveau com seus questionamento e remédios desmonta a torre criada por esses dois e o que vem em seguida é a demonstração de que não existem dois personagens ali em tela, mas, de novo, duas metade de um só indivíduo, espirutalmente e intelctualmente uno, como deixa claro a metáfora do sonho de Bev onde ele e o irmão são gêmeos siameses, os Mantle passam a viver, num clima claustofóbico, o desmoronamento do que parecia perfeito até então e a partir disso Croneneberg desenvolve um exercício de suspense dos mais interessantes, entre sonhos e crises de abstinência a paranóia toma conta do ser de Bev e quando menos esperamos de Elliot também, dois em um.

Mas Dead Ringers é, também, espaço para Cronenberg explorar um dos temas mais comuns seu cinema, um lugar comum que ele visitou durante toda a carreira: o corpo humano. Já no seu ainda incipiente Crimes do Futuro o diretor mostrava todo seu interesse pelo tema ao se valer de um fiapo narrativo para contar a história de órgãos mutantes no corpo humano e estudiosos do pé. Mas não foi só, as coisas voltariam a passar por essas bandas em Enraivecida na Fúria do Sexo e A Mosca. O Corpo humano, a mente humana e mutações, pois bem, estão todos aqui em Dead Ringers, em meio a história dos irmãos há também espaço para questionar a própria medicina; o que é visionarismo e vanguarda e o que é insanidade? O debate é aberto e assim deixado, para que o espectador se responsabilize pelo julgamento.

A sensação, no fim das contas, quando finalmente podemos relaxar ao final do filme, é de ter visto um expoente total do cinema cronenberguiano, é a tensão constante, a construção e desconstrução de personagens, a direção de atores inspirada; é o sci-fi tendo seu encontro com o terror ao redor do corpo humano, as imagens poderosas que relutam a sair da nossa mente, é quando vimos um tumor que liga irmão gêmeos ser – ali na tela, sem desviar a câmera – arrancado com a boca que não restam dúvidas das proporções do cinema de David Cronenberg.

4/5

Ficha técnica: Gêmeos – Mórbida Semelhança (Dead Ringers) – EUA/Canadá, 1988. Dir.: David Cronenberg. Elenco: Jeremy Irons, Geneviève Bujold, Heidi von Palleske, Shirley Douglas, Stephen Lack, David Cronenberg, Barbara Gordon

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por Bernardo Brum

A obsessão é um tema caro aos cineastas, principalmente no cinema moderno. Exemplos não faltam de longa ou recente data não faltam: Barry Lyndon, Fitzcarraldo, Blackout e Crash – Estranhos Prazeres, por mais diferentes que sejam, falam todos do mesmo tema – o homem atrás de uma causa impossível de alcançar. No cinema contemporâneo, poucos representam esse campo melhor que Paul Thomas Anderson, autor dos grandes Sangue Negro e Boogie Nights. Mas desde O Lutador,  Darren Aronofsky mostrou que podia muito bem ser uma nova potência tratando do assunto, após felizmente escapar do folhetim didático de Réquiem Para um Sonho e do hermetismo forçado de A Fonte da Vida. Cisne Negro é o resultado disso.

Filme-irmão de sua obra predecessora, o filme narra história de uma bailarina escolhida para ser a atriz principal na clássica peça O Lago dos Cisnes. Isso logo desemboca em uma espiral de obsessão para conseguir interpretar  dois papéis –  o benévolo e ingênuo Cisne Branco e o traçoeiro Cisne Negro. É a partir desse jogo de duplos que o filme é estabelecido: a reprimida Nina vai pouco a pouco abraçando tudo que a criação materna superprotetora a privou;  todos os seus instintos negados ao longo de seus quase trinta anos de vida dedicados exclusivamente ao balé progressivamente vêm à tona.

O surgimento de uma rival extrovertida e desinibida que encarna tudo o que Nina não é torna-se simbólico – a inveja, a competição e a paranóia fazem despertar nela a transgressão que ela deveria ter enfrentado pelo menos quinze anos antes. Ela não pode ser perfeita através da disciplina – sua vida dedicada exclusivamente à dança não a torna hábil para interpretar aquilo que sua “arquiinimiga” é. Ela não é o Cisne Negro, nem nunca viu nenhum lampejo dele – não transa, não bebe, é polida e educada, não desobedece nenhuma norma. Para descarregar suas frustrações, fere o próprio corpo repetidamente – arrancando nacos de carne dos dedos, arranhando as costas com suas longas unhas, entre outras formas de automutilação. A vontade de abrir as asas e voar e a culpa por ousar abandonar o ninho fazem a protagonista carregar um fardo insustentável.

Peso estralhaçador que deslanchará em uma série de alucinações repentinas e assustadoras  – feitas em uma computação gráfica simples, eficiente, provando que nas mãos certas esse é um recurso narrativo a mais -envolvendo o surgimento de penas, patas e asas que libertam o que o professor de Nina sempre atiçou desde que a escolheu para a peça – a mulher que a menina sempre estrangulou e manteve em cativeiro. Aronofsky, como muitos outros, descobriu o cinema como um jogo de espelhos a serem confrontados. Caso contrário, nada está em risco, caso contrário, “sem dor, sem ganho” – é só confrontando o lado feio que preferimos esconder, jogando luz sobre ele, que nossa natureza é revelada. Na luz do palco, essa experiência dolorosa e assustadora de autoconhecimento aniquilará todo o “eu” que Nina construiu até então. Toda as suas cadeias de associações cairão por terra.

Porque afinal, estamos no terreno das obsessões pelo qual Aronofsky se interessa, e a subida da dedicada artista ao palco se revelará um dos clímaxes assustadores com momentos de contração tensa e relaxo asfixiante em u ritmo cada vez mais insuportável. Para isso, o tempo-espaço cinematográfico é manipulado habilmente – o camarim branco e intocável vira uma câmara dos horrores pestilenta, escura e cheio de sangue pelos cantos; os corredores são um freakshow bizarro; o palco, por mais imenso que seja, é claustrofóbico – tudo o que vemos são planos fechadíssimos dos movimentos ora puros e perfeitos ora fatais e maliciosos da dançarina – tudo isso  para que fique claro pouco a pouco que a grande arte só é alcançada através do sacrifício. E Nina está plenamente disposta a isso.

Assim como Randy The Ram em O Lutador, a protagonista é inadequada a qualquer lugar. Onde quer que pise, estará no lugar errado. Ela não é mais uma menina, mas também não é uma mulher. É uma amálgama bizarra de puritanismo e libido em seus dois extremos. Nenhum círculo social a aceitará de volta – e só resta o balé, tudo o que ela sempre conheceu em sua infeliz existência. Mas por ela, tudo bem. Ela falhou como ser humano, mas foi a grande artista em seu meio em muito tempo. Resta o suicídio – como no final do anterior, nunca se sabe se simbólico ou real – mas definitivo, libertador e a única resposta que a sua mente atormentada pôde encontrar.

5/5

Ficha técnica: Cisne Negro (Black Swan) – EUA, 2010. Dir.: Darren Aronofsky. Elenco: Winona Ryder, Natalie Portman, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Mila Kunis, Ksenia Solo

por Bernardo Brum

Assistindo filmes como esse que fica difícil de entender como Abel Ferrara não é reconhecido, pelo menos em escala bem maior, como um dos principais realizadores dos últimos anos. A história altamente estilizada sobre a dura realidade dos imigrantes nos EUA através da história de amor entre um adolescente italiano e uma garota chinesa que tem de sobreviver à intensa guerra entre as gangues étnicas que dominam os bairros pobres reaproveita parte do conceito da clássica tragédia Romeu e Julieta de William Shakespeare e mostrar que as histórias de amor impossível ainda  ocorrem. Entre Shakespeare e Ferrara, mesmo com todas as mudanças socio-culturais, ainda há a intolerância, o preconceito e o ódio.

A história simples de Ferrara, porém, não é inocente. Seu poder se dá justamente pelo minimalismo do roteiro, construindo os personagens como representações de párias entre os párias; e pela estilização do underground e da marginália à base de figurinos, trilha sonora própria à época e pelas luzes delineando as curvas dos becos escuros e montando, ao mesmo tempo, um campo de batalha entre afeto e ódio, perda e esperança e um palco onde guerreiros urbanos testam sua virilidade em lutas coreografadas como um balé violento.

Mas longe de representações que acabaram por se tornar datadas desse meio, como Warriors – Os Selvagens da Noite e seu desfile de uniformes e fantasias, a parábola de Ferrara sobre a violência que traga todas as emoções humanas e as deixa estateladas no chão em um emaranhado de sangue, vísceras e lágrimas ainda é intensa mais de vinte anos depois. Mesmo com os figurinos, interiores e músicas ainda seguindo aquela estética oitentista que já se tornou involuntariamente engraçada nos dias de hoje, Inimigos Pelo Destino é um filme muito denso e muito trágico, que com sua câmera exagerada, livre e sem floreios (inclusive com alguns dos travellings mais incríveis já vistos) enfoca, para variar, o assunto preferido de Ferrara: o nosso lado feio e condenável, que por alguma razão misteriosa é o que damos ouvidos. A pulsão de vida é sempre rejeitada com facilidade impressionante.

Esse masoquismo e atração pelo erro, vício e decadência é tratado com a propriedade que só Ferrara saberia tratar, em sua forma mais simples e talvez por isso mesmo tão poderosa: não há quem fique indiferente a esta história ao mesmo tempo tão compreensível e tão complexa, que pouco precisa de diálogos, acontecimentos ou reviravoltas para chegar nas camadas além do óbvio. Sem rodeios e com culhões de sobra, em sua primeira grande obra-prima, que precederia toda uma leva que o homem lançaria depois desconstruindo esse “lado negro” numa das filmografias mais impecáveis já vistas.

5/5

Ficha técnica: Inimigos Pelo Destino (China Girl) – EUA, 1987. Dir.: Abel Ferrara. Elenco: James Russo, David Caruso, Russell Wong, Richard Panebianco,Sari Chang, Joey Chin

por Bernardo Brum

De início, Minhas Mães e Meu Pai parece, além de mais uma comédia indie (com direito a trilha sonora rebuscada e referências pop), um pretexto para que suas principais atrizes, as reconhecidas e premiadas Julianne Moore e Annette Benning atuem livres e desimpedidas em um filme despretensioso, feito com pouco orçamento, poucas locações e uma história resolvida, basicamente, na base dos diálogos. Mas, entre as piadinhas inspiradas, o filme cresce dramaticamente e o que a desconhecida Lisa Cholodenko (que não filmava há seis anos) nos oferece é um filme, obviamente, menor e pouco ambicioso, mas nem por isso menos sensível ou honesto.

A história de duas mães lésbicas, Jules e Nic (Moore e Benning, respectivamente) que acabam entrando em crise no casamento quando seus jovens filhos querem conhecer Paul,  o doador de esperma – seu pai biológico – encarnado na figura de um galante boa vida por Mark Ruffalo, que acaba por seduzir uma das mães, é contada de forma direta e simples, na lata. Joni e Laser, os filhos, uma CDF introspectiva e um atleta que só anda em más companhias mal sabem as risadas e as lágrimas que os esperam quando conhecem Paul.

O elenco é afiado feito uma faca – são só seis personagens e uns três ou quatro coadjuvantes que, juntos, não somam mais do que quinze minutos em tela – apoiados por uma direção segura que, discutindo uma família moderna e pouco tradicional e todos os problemas que envolvem juventude, como sexualidade, uso de drogas, o primeiro porre, a primeira paixão, a transição entre a infância e a vida adulta, entre escola e faculdade, enfim, nunca de forma preconceituosa. É uma família como qualquer outra, e o tom geral do roteiro transmite isso – pode ser uma família pouco ortodoxa, mas ainda é uma família como qualquer outra, com seus problemas, sofrendo da falta de diálogo, suas preocupações com os filhos, e assim vai.

Objetivo e direto em suas intenções, com alguns diálogos hilários (principalmente vindo de Paul – Ruffalo compôs um sem noção excelente) e arcos dramáticos muito bem resolvidos, Minhas Mães e Meu Pai é um filme gostoso de se assistir. Daqueles que passam bem estar mesmo tendo lá seus momentos dramáticos. Tem suas falhas, é claro, mas o resultado no geral é tão agradável que é difícil condenar o filme por não desenvolver mais ali ou aqui. E afinal de contas, um filme em que os protagonistas cantam Joni Mitchell na mesa de jantar não poderia ser ruim.

4/5

Ficha técnica: Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right) – EUA, 2010. Dir.: Lisa Cholodenko. Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Josh Hutcherson, Yaya DaCosta, Mia Wasikowska, Kunal Sharma, Rebecca Lawrence, Amy Grabow, Eddie Hassell, Joseph Stephens Jr., Joaquín Garrido


inception-paris

– por Michael Barbosa

Se em Amnésia Nolan entregou um dos filmes mais complexos dos últimos tempos – com direito a narrativa fragmentada – e nos seus dois Batman’s, especialmente em O Cavaleiro Das Trevas, fez um thriller empolgante e intelectualmente desafiador o que se poderia esperar para A Origem era um mix das qualidades de seus dois grandes filmes anteriores e, evidentemente, um pouco de amadurecimento para superar os defeitos destes, como a condução que por algumas vezes perdia a mão e caia no enfadonho – Amnésia – ou então alguns exageros não tão divertidos de O Cavaleiro das Trevas. Quando entrei na sala do cinema para enfim assistir Inception era a hora de acreditar (ou não) no hype.

A primeira coisa que se percebe é que embora emaranhe infinitos acontecimentos com níveis diferentes e afins, remetendo naturalmente à complexidade de outrora aqui ele soa bem mais elucidativo do que eu seus últimos filmes, isto pode trazer ao espectador já apresentado ao seu trabalho duas sensações antagônicas: de que isto é fruto do amadurecimento artístico de Nolan que agora nem sub e tampouco superestima a nossa inteligência e capacidade de dedução. Ou algo mais do tipo “tudo bem, te damos essa dinheirama toda, mas dessa vez as pessoas vão ter que entender o filme”. Prefiro um meio termo, embora o roteiro transforme Ariadne (Ellen Page) quase que em uma muleta dedicada a passar o filme todo fazendo perguntas e tendo insights Nolan consegue ainda assim deixar muita dualidade e algumas várias incógnitas que mesmo quando qualquer resposta pareça mera especulação continua interessante e, sim, estimulante.

A trama em si, embora seja original na medida do possível, não traz grandes novidades, e desde o começo fica claro que é, inegavelmente, um thriller seguro sobre espionagem industrial com o plus de roubar-se as ideias ainda nos sonhos, o que evidentemente deixa tudo bem mais legal e interessante. A novidade vem quando um milionário solicita a Cobb (Di Caprio), especialista nesse serviço sujo, acusado do assassinato da esposa, e por isso afastado dos filhos, pelo processo inverso, no lugar de roubar, inserir uma idéia e daí em diante temos uma empolgante odisséia homérica no mundo dos sonhos.

Visualmente é arrebatador, apoiado por um orçamento estrondoso Nolan desenvolve um admirável exercício estilístico, com uma grande variedade de belos panos de fundo para as cenas. Como quando Paris é explodida, e aí está outra virtude, gozando da liberdade dada pela lógica interna da obra dá-se para algumas vezes ao longo da obra “brincar” de explodir cidades, dobrar ruas e desafiar as leis da física, pela brincadeira em si e por ser de algum didatismo necessário para entender certar nuances propostas pela trama e que se tonarão indispensável para tentar “compreender” o desfecho.

Há de se dizer também que mais uma vez Nolan demonstra excelente direção de atores, Di Caprio – que vem em grande fase, sabendo escolher projetos e emplacando grandes filmes – está excelente como o protagonista Cobb e, curiosamente, está em uma personagem que irrefutavelmente nos remete a seu último papel, Teddy Daniels de Ilha do Medo, estamos novamente na frente de um homem com uma história de amor mal-acabada que o encalça e afeta seu trabalho e seu autocontrole, de toda forma para por aí as semelhanças. O elenco de coadjuvantes é composto por uma série de bons atores, a começar por Ellen Page que vem se firmando como uma atriz competente, passando por Joseph Gordon-Levitt, que se destacou em 500 Dias Com Ela (e comenta-se – ou brinca-se, talvez – que pela semelhança física será o substituto do falecido Heath Ledger no papel de Coringa). Ainda temos Cotillard, Caine, Tom Hardy… Todos bem, mostrando que a junção de direção competente e boa escolha de atores podem dar um belo upgrade.

[ULTRA-MEGA SPOILERS NO PARÁGRAFO DERRADEIRO]

Enfim, Nolan parece bastante orgulhoso de seu cinema complexo, bem feito e absurdamente pretensioso – e não deveria ser por menos. No desfecho da trama aquele velho infalível truque de responder menos do que se perguntou e dar margem às infinitas interpretações e teorias malucas (ou não) de fãs que evidentemente vão extrapolar um pouco na imaginação (é provável pelo menos). O drama aqui é saber até que ponto o aparente final feliz é real, e pára instaurar dúvida o diretor se vale de várias pequenas peças soltas ao longo da história – como o conceito todo bem explicadinho do totem – e usa e abusa de diálogos e cenas pra lá de duais para que o óbvio soe dúbio e ambíguo. Efetivamente se torna impossível cravar e comprovar se aquilo – Cobb retornando ao avião e se reencontrando com os filhos – fora real, se foi fruto de sua imaginação quando perdido no limbo (outro conceito maroto solto pouco antes) ou se, vai saber, foi tudo um sonho ou se então… De fato temos que, independente disso ou daquilo, deixar claro que a experiência de ver Inception – especialmente na tela grande – é agradável e empolgante por si só. Hollywood talvez esteja de frente para, guardadas devidas proporções, seu maior sonho de cineasta desde Spielberg, Nolan parece ser realmente capaz de agradar cinéfilos e críticos e também levar milhões e milhões às salas de cinema, pois é.

4/5

Ficha técnica: A Origem (Inception) – EUA, 2010. Dir.: Christopher Nolan. Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe e Michael Caine.

–  por Luiz Carlos Freitas

É quase impossível falar de Fritz Lang e não citar a sua saída da Alemanha para escapar das garras do Nazismo. Largando todo um legado cinematográfico impecável (Metrópolis, M – O Vampiro de Dusseldorf, A Morte Cansada) e até mesmo a esposa, teve uma breve estada na França (onde fez Coração Vadio) e, logo em seguida, firmou-se de vez nos EUA. Essa mudança é muito atacada por alguns críticos, e os que ousam defender, sempre tocam no ponto da influência do cinema americano na obra posterior de Lang. Mas, vejam só, não teria sido mesmo o inverso?

O diretor alemão, que logo após instalado na nova terra, dedicou um bom tempo a estudar o cinema de lá, conhecer autores e suas obras, iniciou seu trabalho justamente com filmes que se propunham a analisar essa relação entre os americanos e o resto do mundo (como pode ser visto em Só se Vive Uma Vez e Fúria, ambos relatando hostilidades sofridas devido à natural não aceitação dos americanos a quem vem de fora), teve uma passagem pelo western (Os Conquistadores) e, então, aquele que é talvez o mais referenciado como genuinamente americano dos gêneros (após o western, claro), o film noir.

Antes de tudo, deve-se dizer que Um Retrato de Mulher é mais que apenas um representante do estilo, mas um dos primeiros exemplares e que, ao lado de obras como Laura (Otto Preminger) Sombra de Uma Dúvida (Alfred Hitchcock), O Falcão Maltês (John Huston) e Pacto de Sangue (Billy Wilder – outro que se instalara na América para fugir do nazismo), é tido como um dos mais importantes para a definição do estilo. A trama é a síntese do film noir clássico, girando em torno de um crime, uma femme fatale, personagens de caráter duvidoso e questionamentos de moral ambígua, além de toda a caracterização soturna dos cenários (a denominação é francesa e significa “Filme Preto”).

Lembremos, claro, que o que foi feito no período clássico do noir não era de modo “consciente”. Havia uma corrente, mas não se tinha noção de que se estava definitivamente criando um estilo, e isso separa os film noir dos neo-noir, obras revisionistas que pretendiam recriar um filme como legítimo (Chinatown), referenciá-lo (Blade Runner) ou até mesmo desconstruí-lo (O Homem que Não Estava Lá). O que pode se afirmar, então, é que Lang imprimia aqui sua marca de cineasta expressionista. Apesar de alguns teóricos, como Steven Neale, classificarem a obra exatamente como um “noir não-expressionista”, fica difícil não notar ecos de M – O Vampiro de Dusseldorf ou Os Espiões na obra. Esquinas em meio à neblina, longas e vazias avenidas e becos envoltos pelas sombras fazendo as vezes de inquisidores dos personagens que carregam consigo alguma culpa, ou as barras de uma cerca de ferro entre a câmera e o casal que discute o medo de ter o crime descoberto pela polícia, revelando um estado mental de prisão.

Coincidência ou não, a trama de Um Retrato de Mulher, além de sintetizar quase todos os elementos já citados de um legítimo film noir, pode ser vista como uma alegoria ao que seria definido posteriormente pelos críticos e teóricos, que é a relação entre os sexos no desenvolvimento da situação. Logo no começo, o professor Wanley (Edward G. Robinson), conversa com alguns amigos sobre as limitações trazidas pela idade (ele já passara dos 40 anos) e o receio de buscar aventuras sexuais com mulheres mais jovens, sendo essa conversa iniciada partindo de sua admiração por uma jovem modelo de um quadro que ele vira numa vitrine pouco tempo antes. Vários pontos são colocados, entre eles o fato de que certas situações poderiam tomar um rumo trágico e inconcebível ante ao tido por normal e contornável. E é partindo desse ponto que, ao conhecer a jovem modelo do retrato (Joan Bennett), um crime acontece e, ao tentar ocultar as provas, sua vida vira do avesso, com a perseguição da polícia e de um vigarista que os chantageia (e leva o casal de meras vítimas do acaso a cabeças de um segundo assassinato – dessa vez premeditado).

É dessa premissa que Lang constrói seu espetáculo e nos leva a uma viagem sobre o que mais tarde seria conceituado como um dos padrões temáticos dos film noir, com uma impressionante e realmente imprevisível virada final que nos remete às palavras de Florence Jacobowitz, que coloca o noir como “um gênero onde a masculinidade compulsória é apresentada como um pesadelo”. Fica impossível não reconhecer o grande gênio que foi Fritz Lang e que, consciente disso ou não, mais uma vez fazia o cinema se tornar ainda maior.

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4/5

Um Retrato de Mulher (The Woman in The Window) – EUA, 1945 – Direção: Fritz Lang – Elenco: Edward G. Robinson, Joan Bennett, Raymond Massey, Edmund Breon, Dan Duryea, Thomas E. Jackson, Dorothy Peterson, Arthur Loft, Frank Dawson, Iris Adrian, Brandon Beach, Robert Blake, Paul Bradley, Don Brodie, Carol Cameron

clintotorino

– por Michael Barbosa

Preconceituoso, conservador, de direita, tradicionalista. Há certo estereótipo que rege sobre a figura do americano, especialmente do veterano de guerra, e que talvez venha se esvaecendo nas últimas décadas, e em Gran Torino Clint Eastwood presta sua sutil e sagaz homenagem exatamente a este sujeito, e como faz isso com maestria!

Walt Kowalski acabou de perder a mulher e parece que com isso perdeu também as rédeas, não precisa mais agradar, não precisa mais ir à Igreja, nem ser politizado. Agora é apenas um velho cabeça dura, certo do que o fim da vida lhe guardou, e não parece muito empolgado com isso. Seu bairro foi tomado por “chinas”, “chicanos” e “pretos”, mas como americano convicto que é – o que contrasta com o fato dele ser polaco – ele não abandona o gueto e não abre mão dos seus preceitos. Contudo o que se revela logo é que se existe nesse homem algo maior que seus preconceitos é seu senso de justiça que logo se aflora quando vê três negros atacando sua vizinha hmong (povo oriundo da Ásia oriental como se faz questão de esclarecer no filme). Dalí em diante o que veremos é uma jornada de auto-descobrimento depois dos sessenta e a sobrevida de um velho.

Clint chega ao seu último trabalho tanto atrás quanto a frente das câmeras e demonstra uma maturidade artística e vitalidade que corroboram para o mito do cinema americano e classicista que ele se tornou. Gran Torino se faz grande nas pequenas coisas, no modo como se constrói personagens reais e em que podemos acreditar mesmo com tantos estereótipos e lugares comuns (o que se pararmos pra pensar faz o mais perfeito sentido dentro da proposta de contar a história de um sujeito ordinário e tão anacrônico quanto Walt Kowalski).

Talvez, é bem verdade, a mudança de personalidade e atitudinal de Walt soe rápida e abrupta demais, mas, caramba, às vezes na vida do homem é assim que as coisas acontecem. Acontecimentos se sucedem, conceitos e verdades absolutas mudam como em um piscar de olhos e nos provam que somos a tal “metamorfose ambulante” que disse Raul certa vez. Walt é assim, no fundo um sujeito bom, só que ele mesmo não sabia disso.

E é incrível ver que até naquilo que poderia parecer um defeito à primeira vista, olhando com mais atenção é um acerto. O elenco de coadjuvantes que se não exerce atuações magistrais – ainda que corretas – foi todo composto por legítimos e críveis representantes de suas culturas, são hmongs de verdade que interpretam os hmongs da tela. Com os trejeitos, o sotaque, o jeito de ser e agir. E pode ser que isso valha mais, bem mais, que grandes atuações em um filme tão sensível e honesto como esse.

E ao fim Walt tem a sua redenção definitiva e final. E morre consciente de que morreu por aqueles que lhe salvaram a existência nos acréscimos do segundo tempo, não foi um sacrifício, foi um “Muito Obrigado” ao som da linda canção homônima na voz do próprios Clint. Que artista! E se em Os Imperdoáveis Eastwood resgatou um gênero inteiro e fez o western final, aqui ele é um tanto quanto mais minucioso e específico e nos presenteia com a tragicomédia definitiva sobre toda uma geração de americanos, seus medos, preconceitos, anseios e, sim, suas virtudes.

5/5

Ficha Técnica: Gran Torino (Idem) – EUA, 2008. Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her, Christopher Carley.