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– Luiz Carlos Freitas

Em 1978, John Carpenter lançara seu Halloween – A Noite do Terror, obra que, além de dá-lo prestígio internacional, é tido, ao lado de Banho de Sangue, do italiano Mario Bava, como o marco inicial do sub gênero slasher (assassino misterioso que sai matando de forma sádica e brutal – sendo bem resumido, claro). Além de formular postulados que seriam seguidos por dezenas de produções das décadas seguintes (até hoje, inclusive), imortalizou Michael Myers, desde sua concepção, um dos personagens mais marcantes e emblemáticos do cinema.

O filme começa com Myers cometendo seu primeiro crime ainda na infância, sendo enviado para uma instituição de tratamento a criminosos insanos, onde passa toda a vida adulta, até que foge e volta à sua antiga casa na noite do Dia das Bruxas para matar a irmã mais velha e outros desafortunados jovens que encontrou pelo caminho. Ponto. Se Myers tinha algum trauma de infância, alguma forma de abuso que o deixou perturbado, não é mostrado ou, sequer, mencionado. Assim, como um autor em pleno domínio da linguagem, Carpenter opta por deixar claro que, realmente, seu assassino não tinha motivos para aquele ódio. Esse argumento defende a teoria de que Myers seria, então, a representação do mal absoluto. Ele seria a metáfora de uma força maligna que não tinha um objetivo a ser alcançado, a única coisa que, em tese, o faria parar em algum momento. O mal fora personificado em um indivíduo incontrolável.

Ao passo que levava facadas e dezenas de tiros e seguia sempre inabalável, Myers era plena ficção. Contudo, o personagem-metáfora de Carpenter representava uma possibilidade bem real, que era de um desejo assassino sem motivo algum. O filme tinha uma visão do mal como algo natural, uma característica primitiva que poderia aflorar a qualquer momento em qualquer um de nós, qualquer indivíduo ao nosso redor, sendo a conclusão mais assustadora que os crimes em si.

A Carpenter, deve-se todo o mérito por pegar a ideia e delimitá-la sob a representação de um indivíduo, mas ele não criou o conceito. Várias obras já trabalharam a ideia de que as motivações eram meros escopos para que o indivíduo pudesse manifestar um mal pleno. E Amargo Pesadelo nos permite citar, entre nomes como Fritz Lang (a multidão de linchadores em Fúria) e Hitchcock (os psicopatas que mataram apenas para satisfazer o ego em Festim Diabólico), o inglês John Boorman.

Lançado seis anos antes da obra de Carpenter, o filme, baseado no livro homônimo de James Dickey (que também assina o roteiro), conta a história de quatro amigos que decidem mudar seu tradicional já há alguns anos roteiro de férias, substituindo o golf por uma pescaria num rio nas montanhas. Isso porque, em poucas semanas, iniciaria a construção de uma hidrelétrica que provocaria a inundação total da área, acabando com o rio e parte da floresta da região. O passeio representaria um último contato com aquela área selvagem. Entretanto, o que era para ser uma pescaria entre amigos transforma-se num verdadeiro inferno quando estes são atacados por montanheses que os violentam, deixando-os à beira da morte e tendo, ainda, que enfrentar os obstáculos da própria floresta para sobreviver. Vale salientar que, apesar da trama aparentemente simplória, Amargo Pesadelo não é um filme nada fácil. É uma obra de choques, não só pelo seu roteiro, mas da composição de todos os elementos fílmicos utilizados para contar a estória.

Primeiramente, John Boorman, que cinco anos antes estreava com À Queima Roupa, um suspense policial completamente insano, com uma trama violenta, personagens psicóticos (inclusive seu protagonista), edição rápida e com cortes abruptos e, claro, muito violento. Daí, lançou alguns filmes, mas bem mais contido, tendo em Amargo Pesadelo uma forma de exercício de sadismo com personagens e público.

De início, ele nos leva a conhecer o grupo de amigos, homens suburbanos, aparentemente nascidos e criados na cidade grande, estudados e com bons empregos. Isso, junto à boa aparência da dupla principal (Ed e Lewis, respectivamente, Jon Voight e Burt Reynolds, ambos com estirpe de galã) os tornavam automaticamente identificáveis com o público. E esse princípio da identificação é um dos elementos chave para manipular as emoções do espectador, uma vez que o insere na trama, fazendo-se sentir parte do grupo e, como tal, passível de ser uma vítima também. É uma das maneiras mais eficazes de se despertar um medo sincero em quem assiste ao filme.

A narrativa inicia e segue tranqüila, mostrando-os num passeio pela floresta, pescando, tomando cerveja e conversando bobagens. Seguem, também, pacientemente por uma trilha pelas montanhas. Há longos planos com as árvores e a correnteza suave do rio.  Segundo a câmera de Boorman (e é nela que o espectador pode confiar) e a trilha suave, era como se nada pudesse afetá-los ali. Mas sabemos que algo de muito ruim está para acontecer e não podemos fazer nada para impedir, tampouco sabemos quando. Há uma expectativa que logo é quebrada, já que os ataques demoram a acontecer, fazendo com que relaxemos diante da projeção, sendo pegos tão de surpresa quanto eles.

A violência é pungente. Não vemos rios de sangue sendo derramados, mas somos agredidos das mais variadas formas, e o maior exemplo que podemos tomar é de Bobby (Ned Beatty), personagem que é violentado por um dos bandidos, a começar por sua apresentação. Bobby era gordo, meio abobalhado e notadamente o mais frágil dali fisicamente (os demais, se não atléticos, estavam em boa forma). Ele é obrigado a tirar a roupa, ficando só de cueca e, na mira de uma espingarda, humilhar-se aos prantos, ficando de quatro e imitando um porco ao som das risadas de seus algozes. Em seguida, um deles abaixa as calças e o violenta, sempre ostentando um sorriso no rosto. Tudo isso à vista de Ed que, imóvel, assiste à barbaridade sem poder fazer nada. Não coincidentemente o mesmo fora preso por uma cinta de couro no pescoço. Tal como ele, também ficamos sem ar diante de tamanho sadismo.

Nesse momento, Bobby era o espetáculo que nos agredia moral (a integridade sexual sempre fora um grande tabu, ainda mais ao homem), visual (sua figura patética em roupas mínimas e imitando um animal enquanto apanhava) e até auditivamente (por vezes, não era possível diferenciar seu choro e os grunhidos “animais” das risadas do agressor). Agrediu também a audiência da época, que ficou chocada com a brutalidade da cena, que ainda tem forte impacto mesmo atualmente, em tempos onde bilionárias franquias cinematográficas de ação e os próprios jornais nos “anestesiam” para atrocidades desse tipo.

Eis que Lewis aparece e, com uma flechada certeira, mata um dos agressores e espanta o outro, que foge jurando vingança. Mas a morte do algoz faz parte da peça doentia de Boorman, que cessa a trilha sonora e, em longos planos, mostra o homem se contorcendo em dor extrema, com a flecha varada em seu peito, espirrando sangue a cada movimento. Ele caminha alguns passos, se ajoelha, levanta e anda mais até que, à frente, desaba morto sobre um tronco. Uma cena de pouco menos de um minuto que transmite angústia semelhante à do estupro, fazendo-nos entrar em desespero também com o sofrimento do vilão. Esse é o momento chave para uma virada na trama que, por incrível que pareça, mostra que o pior ainda estava por vir.

Eles partem para uma perigosa jornada de volta, onde a floresta, antes inofensiva, agora se mostrava violenta, perigosa, com seus caminhos sinuosos, pedras escorregadias e penhascos gigantescos. A cena em que enfrentam a cascata é das mais excruciantes. E, não bastando os obstáculos naturais, ainda ficamos à mercê da presença do outro assassino que, por ter sido criado naquela floresta, a conhecia melhor que todos, despertando um paranóico senso de onipresença que os segue até o confronto final, retomando ao conceito citado no início desse texto.

Geralmente, quando se trata de um tema que envolve conflitos entre a civilização e a natureza, os ditos civilizados são mostrados como os animais. O conceito de civilização envolve isso, uma vez que o que temos hoje como sociedade foi construído por milênios de guerras e toda uma sorte de atrocidades. Mas a trama nos remete a uma questão ainda mais cabal: por mais que o conceito de civilização esteja ligado a um histórico de selvagerias, esta ainda é um produto do homem e de suas motivações. O homem constituiu a civilização para si e, como tal, o fez à sua imagem e semelhança. Logo, Dickey e Boorman nos constroem uma metáfora onde selvageria, violência e, também, o mal absoluto que John Carpenter trabalharia anos à frente, seriam princípios naturais do homem. Não por acaso, a motivação da fatídica viagem e de suas consequências seria a construção de uma represa: um atentado humano contra a natureza.

Outra cena igualmente icônica (e talvez mais referenciada por não possuir um teor violento) e que representa perfeitamente essa questão é a do “duelo” de banjo. Antes de iniciarem a trilha, eles param para abastecer próximo à casa de um fazendeiro, onde seu filho, um jovem de aparência bizarra, estava tocando banjo na varanda. Drew (Ronny Cox) começa a dedilhar seu violão, notado pelo rapaz que repete acordes semelhantes. Ele prossegue e logo o menino desata a tocar de modo insano, deixando todos embasbacados. Ao término da apresentação, Drew estende a mão para cumprimentá-lo e este se recusa, fechando a cara e, em seguida, dando um sorriso perturbador. Temos aqui o “primitivo” rejeitando o crivo da civilização, como se essa tentativa de aproximação soberba (Drew começou a tocar para impressionar o jovem caipira, jamais presumindo que este pudesse fazer frente a si, muito menos superá-lo) fosse uma ofensa punível com a morte (que fora anunciado pelo fazendeiro que pediu para que desistissem do passeio).

Após escaparem da mata e eliminarem o inimigo restante, eles voltam para casa. Um deles morre e os outros tomam a decisão de jamais comentar sobre o que realmente aconteceu, o que traz conseqüências para todos. Eles enfrentaram o mal e optaram por enterrar isso, por orgulho, talvez, ou mais um medo de que uma investigação pudesse complicá-los, além de, claro, o desejo de esquecer tudo o mais rápido possível. Mas há um cruel revés que é justamente o fato de que as lembranças do confronto com a maldade em seu estado puro jamais sumiriam. Isso fica evidenciado na cena final do filme, que mostra um plano longo e silencioso da superfície retilínea do imenso lago formado pela represa que tomara todo o vale, sepultando para sempre tudo o que acontecera ali, de onde ergue-se lentamente a mão de um cadáver, cortando para um dos sobreviventes despertando de um pesadelo. Somos avisados ali que o que aconteceu com eles, ficara cravado tão fundo em suas memórias quanto os cadáveres ao fundo do lago.

A imensidão azul assumia efeito semelhante ao plano final de Halloween, onde ouvia-se a respiração de Michael Myers à medida que a câmera passava por cada casa da rua, dando a entender que o mal poderia residir em qualquer lugar ao nosso redor. E na obra de Boorman, ainda pior: estava tudo guardado dentro de nós.

5/5

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Ficha técnica:

Amargo Pesadelo (Deliverance) – EUA, 1972 – Diretor: John Boorman – Elenco: Burt Reynolds, Jon Voight, Ned Beatty, Ronny Cox, Bill McKinney, Herbert Coward

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– Luiz Carlos Freitas

Há quem reclame da mudança de estilo do diretor na passagem a este aqui quando comparado com seu antecessor, Tudo Sobre Minha Mãe. Almodóvar estaria, agora, mais contido e sério, quase abolindo o senso de humor escrachado e rasgado. Para alguns, ele decidira fazer filmes mais sérios. À parte de qualquer conceituação rasteira que possa ser imposta, é fato que Almodóvar não mudou em nada o seu cinema. Fale com Ela é, sim, mais contido. Mas ainda é brega, satírico, extremamente sexual e tão cruel quanto excitante. É um filme de amores e doenças, físicas e, muito mais, sentimentais.

A trama desenvolve-se com as histórias de Benigno (Javier Cámara) e Marco (Dario Grandinetti), dois homens que viram amigos num hospital ao se verem acompanhados das mulheres que amam que se encontram em coma, sendo Benigno o enfermeiro que cuida pacientemente de Alice (Leonor Watling), seu amor não correspondido que sofre um acidente de carro, enquanto Marco luta para aceitar a condição de Lydia (Rosario Flores), uma toureira que entra em estado vegetativo após quase morrer ao ser atingida por um animal durante uma apresentação.

Benigno passou vinte anos dedicado a cuidar da mãe louca e doente, tendo, literalmente, formado sua vida em torno disso, virando enfermeiro para poder ser auto suficiente na tarefa. Quando esta morre, ele sente-se vazio, sem rumo. Então, numa tarde em seu quarto, ele vê Alice, que fazia balé no prédio vizinho, de frente à sua janela e começa a persegui-la. Essa fixação doentia (apesar de, em momento algum, parecer algo mais que uma paixão pura de um rapaz inexperiente), que faz com que o mesmo invente um conflito com sua sexualidade para se consultar com o pai dela, um renomado psiquiatra, só para poder ficar mais próximo de seu amor. Essa fixação prolonga-se pelos quatro anos em que passa nos hospital cuidando diariamente dela logo após o acidente que a deixou em coma.

Marco é centrado, com seus objetivos traçados e vida estabelecida, sofre por um grande amor do passado. Ela, uma completa desajustada e viciada em drogas, o deixara há quase uma década, mas ele ainda não havia superado. É quando se vê atraido por Lydia, uma mulher também em rota de auto destruição devido ao fim de um relacionamento. O que muda, aqui, é que Lydia é uma famosa toureira e, ao invés de seringas, ajoelha-se diante de animais ferozes munida apenas de suas capa e lanças.

Em Benigno e Marcos, se dá outra inversão da trama. O primeiro, direciona sua obsessão ao seu grande amor. O segundo, está sempre preso às obsessões de seus amores. Ambos, compartilham de um sentimento que, sim, é amor, sendo igualmente verdadeiro e patológico. Mais uma vez, as inversões da obra de Almodóvar encontrando-se em seus pontos comuns: o amor, enquanto algo tão forte e supremo ao ponto de quebrar todas as convenções já existentes a respeito.

Benigno é, como declarado próximo ao final, um psicopata. Mas, em momento algum, vemos maldade nele. Seus atos, por mais insanos e reprováveis que possam parecer (e, de fato, o são – da vida remissa e sem objetivos ao estupro de uma incapaz), têm um tom  de ternura sempre presente e, devido a ela, lucidez. Sim, pois a ternura aproxima o personagem do expectador que, sem perceber, sente-se passivo de incorrer nos mesmos erros. Afinal, Benigno só amava e o fazia da forma mais bela e pura que o próprio poderia conceber.

Do mesmo modo, poderíamos encontrar nas duas amantes de Marco uma fragilidade imensa evocada por medos com os quais não sabiam lidar, levando a fugas. Ambas queriam mostrar que eram fortes, mas acabaram viciadas (respectivamente, em drogas e em desafiar a morte). Mas o autor nos mostra não tão sutilmente que havia algo por baixo disso. Ambas são retratadas com medo e à mercê da ajuda de Marco (a primeira, em um breve flashback, a segunda na cena em que ela entra em pânico quando encontra uma cobra em sua cozinha).

Essa inversão mantém a ideia de que aquele encontro deveria acontecer. Porque os dois eram opostos que se completavam e, portanto, poderiam trazer um pouco de bem de seus mundos para o outro. Tanto é que a cena inicial reforça essas duas ideias. Ambos coincidem de sentarem lado a lado na mesma apresentação e, ainda mais surpreendente, um lembra do outro (quais as chances de um desconhecido realmente marcar ao ponto de ser lembrado numa ocasião aleatória?). Adiante no discurso, vemos que o fato de Benigno ter se percebido impassível ao choro de Marco e até comentar sobre, mostra que ali já evidenciava que a convivência dos dois resultaria em uma auto reflexão que transformaria suas vidas. E essa ideia é defendida, também, além do discurso, na cena  próximo ao final em que ambos conversam separados por um vidro, com seus reflexos sobrepostos que funde-os em uma só imagem.

Esse encontro nos torna ao conceito do filme, que pode ser visto como uma exploração do amor primitivo acima das outras coisas. Dois lados, quatro pontas. Há um cruzamento dessas duas formas de amor, cada uma com duas óticas em choque e, como citei anteriormente, é a exposição de um amor que supera até convenções morais. É simplesmente o amor de possuir e se realizar, mesmo que custe uma vida inteira dedicada a cuidar de duas pessoas inertes, dando e tomando para si o amor que julgar ser preciso, ou lutar contra um desejo egoísta de largar tudo para o alto e seguir sua vida, como Marco, que se mostra notadamente desconfortável em alguns momentos por ter de ficar cuidando de uma mulher que, ele sabe, jamais tornará a reagir. E se ele não desistiu, foi pelo fascínio despertado pelo inacreditável Benigno, que mostrava ser possível amar, não só um corpo inerte, mas também uma pessoa que nem sabia de sua existência.

Tornando a evocar a questão do estilo do diretor, Fale com Ela tem o sexo como canal  para que conheçamos melhor seus personagens, mesmo que o sexo praticamente não aconteça durante a exibição da obra. Fica sugerido por acontecimentos narrados e, claro, nos momentos de nudez. Uma nudez, aliás, que não é sensual, retratada no corpo inerte de Alice em seu leito no hospital, mas que vem para representar a tensão sexual e o consequente conflito moral que culminaria na virada final da trama. Porque, para Almodóvar, não há como falar de um amor mais forte que as convenções estabelecidas pelo homem (e, portanto, não naturais) sem usar, para tanto, do sexo, certamente das características mais primitivas e instintivas da raça humana.

Como mostra num filme assistido por Benigno, passado a nós paralelamente como um curta mudo de terror/ficção, onde o arrogante protagonista paga um preço alto por sua ganância e, numa experiência fracassada, encolhe, ficando do tamanho de um dedo. Sua condição o castiga por seus erros, tornando-o uma pessoa mais simples e atencioso com sua esposa (a quem, agora, não podia mais satisfazer). Todavia, ao ver a esposa nua, ele contempla a nova situação como uma possibilidade de se perder na própria luxúria (e isso é representado na famosa cena em que ele entra completamente na vagina da mulher), deixando claro que seu “arrependimento” se dera apenas vinculado a uma impossibilidade momentânea e que, sem nada para impedí-lo, seus desejos voltariam.

Relação semelhante se dá com Benigno sobre Alice (inválida e inconsciente, completamente à mercê dele) e Lydia sobre Marco (este, à mercê constante de perder um grande amor por impulsos suicidas que, cruelmente, deveriam ser assistidos por ele junto ao grande público). O que impedia Benigno de abusar de Alicia antes não eram convenções morais ou sociais, mas o receio de ser pego (ele nunca ficara sozinha com ela até então). Já Marco não deixou Lydia morrendo sozinha, não por amá-la plenamente, mas por sentir-se impelido a permanecer pelo exemplo do amigo, pois deixá-la após tão pouco tempo, enquanto Benigno permaneceu por quatro anos sem de nada reclamar, o faria sentir-se covarde, fraco (estigma que ele já carregava por conta do relacionamento anterior). Dessa forma, tínhamos Benigno, um psicopata (suas ações eram controladas por convenções, e não por remorso) ensinando a um dito “normal” como amar.

Essa possível conclusão nos mostra que Fale com Ela é um legítimo Almodóvar, com todos os elementos que o consagraram, mesmo sendo uma obra tão diferente do que já era esperado àquela altura de sua filmografia. E, indo além, podemos tomá-la como algo bem maior que uma mera mudança de estilo, pois aqui o diretor sai do berrante, espalhafatoso e gritado, para uma obra muito mais contida, retornando ao seu tradicional no filme seguinte, Má Educação (mesmo que ainda numa obra pesada, densa e, até, sombria), fazendo de Fale com Ela uma obra quase isolada. E se mostrar contido no estilo chamativo em uma obra onde suas protagonistas, duas mulheres cheias de vida, estão em coma constitui uma ironia que, particularmente, considero algo além da coincidência. Seria Almodóvar reafirmando uma das características do cinema de autor, que é mostrar a linguagem como algo tão ou mais importante que o texto para se contar uma estória. Uma visão interessante, ainda mais para refutar os que dizem que seus filmes são apenas novelões cheios de cores e gritos.

4/5

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Ficha técnica:

Fale com Ela (Hable com Ella) – Espanha, 2002 – Direção: Pedro Almodóvar – Elenco: Javier Cámara, Darío Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Mariola Fuentes, Geraldine Chaplin, Pina Bausch, Malou Airaudo, Caetano Veloso, Roberto Álvarez, Elena Anaya, Lola Dueñas, Adolfo Fernández, Ana Fernández, Chus Lampreave

por Bernardo Brum

Mandar a sutileza para o inferno parece ter sido o lema dos anos 70: se tanto o punk como o heavy metal começavam a ser sedimentados e estabelecidos e revoluções e tensões começavam a crescer de forma cada vez mais violenta, no cinema esse mal estar de hedonismo e violência denunciado em letras de canções como Children of The Grave, do Black Sabbath, não era diferente: se mesmo nos filmes mainstream encontrávamos cabeças de cavalo decepadas (O Poderoso Chefão), prostitutas menores de idade (Taxi Driver) e policiais racistas que atiravam pelas costas (Operação França), o que esperar então dos filmes de orçamento modesto e sem caras conhecidas?

A Vingança de Jeniffer é um dos melhores exemplos que servem para responder ao questionamento acima: é um filme bagaceiro e ruim fundamentado unicamente em cima de suas fortes cenas – mais “fortes” por seu conteúdo, a bem da verdade. Se a maquiagem de hoje consegue ser insuperável, as restrições multiplexes acabam restringindo em muito justamente o que eram mais interessante nesse tipo de cinema – a intersecção entre violência e sexo, o pouco pudor em expor os personagens às situações mais bizarras e humilhantes o possível, e por aí vai. Do que adianta essa onda de refilmagens se, no novo Massacre da Serra Elétrica, Leatherface mutila apenas adolescentes bonitos e atléticos? Onde está o choque do original onde o mesmo serrava um aleijado ao meio?

 Meir Zarchi, inspirado em uma suposta experiência pessoal onde de fato teria ajudado uma vítima de estupro (é bom não acreditar plenamente em um filão de diretores que faziam basicamente qualquer coisa para promover suas obras – inclusive estampar nos cartazes em quantos países a obra foi censurada, entre outros momentos geniais da picaretice humana), fez um filme que, como não é difícil adivinhar, é um fiasco na maioria dos quesitos – a narrativa é preguiçosa, certas atuações são constrangedoras e toda o desenrolar da história é um tanto cômico.

 Mas o filme acaba compensando a assistida pelo momento do estupro e os assassinatos vingativos perpetrados pela protagonista – ainda que alguns momentos tenham envelhecido bastante e hoje não sejam tão realistas assim, são momentos de conteúdo psicologicamente perturbador e encenação razoavelmente “naturalista”. Todo o prólogo e cenas de ligação são lamentáveis e nos fazem imaginar como seria uma experiência estética melhor (mas nem tanto) se Zarchi se inspirasse apenas em catalogar cenas de violência absurda. O próprio parece ter percebido isso na hora da montagem, ao não inserir nenhum tipo de epílogo para o filme, que acaba logo na marca fatal, segundos após o último assassinato ser cometido.

 Obviamente, uma história de “estupro e vingança” como tantas outras, sendo esta talvez a maior referência desse sub-subgênero – ao lado de Aniversário Macabro, de Wes Craven – não pede maiores aprofundamentos ou psicologismos de personagens, mas A Vingança de Jeniffer é tão raso e pouco crível que só resta a brutalidade gráfica, e para alguns nem isso – como para o reconhecido crítico Roger Ebert, que classificou o filme de Zarchi como o pior filme já feito na história do cinema.

 E esse cinema apelativo encontra sua encarnação mais literal em Camille Keaton. Não há como desassociar a sobrinha-neta do gênio do cinema mudo Buster Keaton desse tipo de obra. A garota é pau para toda obra e topa qualquer parada: ficar nua por quase metade do filme, encenar estupros e tortura física, receber maquiagem pesada de ferimentos, andar toda arregaçada e imunda, sem roupa nenhuma por uma floresta e sem medo de protagonizar outros momentos célebres dos filmes de gosto duvidoso, envolvendo atropelamentos com lanchas, enforcamentos, castração… São tantas as maneiras de despedaçar um corpo humano que acaba surgindo um interesse mórbido em saber como Zarchi, que provavelmente não quis se repetir na hora do pega-pra-capar, se desdobrou em criar formas cada vez mais esdrúxulas de se acabar com a vida de alguém. E tudo com Camille sempre à frente, corajosa e incansável. Sem ela, provavelmente não existiria A Vingança de Jeniffer – assim como grande parte dos filmes grindhouse sobre vítimas de abuso que resolvem dar o troco.

 Assim, todo jogado em cima dos ombros de uma garota sem pudor e de um diretor preguiçoso demais para narrativa e empolgado demais em reproduzir um açougue na tela – só que dessa vez, humano – A Vingança de Jeniffer foi um verdadeiro atentado, que tem pouca probabilidade de se repetir nesses tempos mais corretos – é só perceber como o remake, Doce Vingança, mesmo dobrando a violência continuou infinitamente mais multiplex e comercial.

 Com todas as suas doses cavalares de sexismo dos dois lados (as mulheres são retratadas como oferecidas e “sujas”, e os homens como retardados pouco espertos que só pensam em copular o tempo inteiro – é hilário ver como Jeniffer consegue seduzir os homens e eles nunca suspeitam que ela possa estar indignada por ter sido violentada) e violência doentia (a de início pacífica protagonista extermina os homens de forma engenhosa e fria, sem nunca demonstrar receio, medo ou arrependimento), somado com um creme azedo de produção feita nas coxas e pouco elaborada, e com um roteiro quase incoerente, Meir Zarchi fez por merecer seu intento – polêmica pura e simples por parte de conservadores revoltados. É a razão de ser da obra e não adianta exigir nada mais. É um cinema tosco, cruel e rústico, até imbecil em sua grosseria, feitos para públicos muito, muito específicos. E, justamente por isso, um dos grandes clássicos do exploitation.

 2/5

Ficha técnica: A Vingança de Jeniffer (I Spit on Your Grave/Day of the Women) – EUA, 1978. Dir.: Meir Zarchi. Elenco: Camille Keaton, Eron Tabor, Richard Pace, Anthony Nichols,Gunter Kleemann, Alexis Magnotti

last house on the left

– por Bernardo Brum

Quando se distanciou do mundo do cinema e passou a dirigir séries de televisão e peças de teatro,  a desculpa dada por Bergman era que estava horrorizado com a baixeza atual do cinema. Sempre me pergunto se um dos motivos principais foi ter visto o que um certo cineasta americano fez usando a história que o sueco havia criado para o filme A Fonte da Donzela

Pois é, Aniversário Macabro transforma uma clássica história de sofrimento, dor e tristeza em um autêntico exploitation sujo, brutal e doentio. Na cadeira de direção, Wes Caven, um dos mais malucos cineastas do gênero e que, com o passar dos anos, iria progressivamente amolecer e passar a dirigir filmes mais levinhos como a trilogia de terror teen Pânico e o draminha água-com-açúcar Música do Coração, e é claro, criaria o vilão Freddy Krueger e dirigiria o primeiro filme da série do psicopata dos sonhos, A Hora do Pesadelo.

Mas lá pelos idos do começo dos anos 70, o papo era bem diferente. Junto ao produtor Sean S. Cunningham (que, anos mais tarde, criaria a mais rentável cópia de Halloween – A Noite do Terror, Sexta-Feira 13) e egresso da pornografia (como tantos outros cineastas do seu período que passariam a ser mais cohecidos como grandes potências do cinema americano – como Abel Ferrara, só para citar um exemplo), Craven acabou sendo reconhecido como um dos cineastas mais extremos da época. Outros filmes que iria dirigir, como Quadrilha de Sádicos e declarações que ele próprio não aguentava assistir seu debut no cinema de horror só serviram perpetuar a lenda.

A história de Bergman é subvertida logo nos primeiros cinco minutos, aonde a inocente protagonista de seu filme é transformada numa libidinosa moça típica do estereótipo daquele década. Ao invés de ir levar velas para a igreja, ela sai com uma amiga no seu aniversário para ir num show de rock e comprar maconha. Ao invés de encontrar pastores pagãos, ela é estuprada e assassinada por uma gangue clichê de psicopatas lideradas pelo amedrontador Krug Stillo (interpretado pelo ator David Hess, dono de uma expressão de psicótico-demente poucas vezes igualada).

Essas são as premissas básicas para um filme nem um pouco sutil e praticamente sem concessões. Não adianta desviar os olhos da violência para outra coisa, já que aqui, a violência é a mola-mestra da película. Ela que dita a estética suja e doente, a edição meio Peckinpah e a história, que se não é muito original, deixa pra lá a história de vingança, culpa e redenção do filme original e pega os pais da protagonista para revidarem de forma igualmente animalesca.

Aniversário Macabro é um exploitation por excelência, e as próprias aliviadas que o cineasta dá só acabam atrapalhando tudo – tipo a inserção de uma dupla de policiais palermas que passam grande parte do filme em trapalhadas à lá Os Três Patetas enquanto o pau come solto e rolam estupros, desmembramentos , assassinatos  e humilhações mil. Assim como a apresentação dos antagonistas – caricata demais para se levar a sério e óbvia sacanagem do diretor para com o espectador – que acabam deixando o filme, no final das contas,  sem todo o impacto que poderia causar.

Mas mesmo com o pézinho na auto-esculhambação desnecessária, não se deixe enganar – o filme é pauleira pura que compete de igual para igual com qualquer um dos clássicos hiperviolentos da época. O ato final é um dos mais malucos e alucinados que o filão poderia oferecer – inclusive inaugurando o uso de uma motoserra no cinema de horror  antes de Leatheface e Tobe Hooper a popularizarem de forma definitiva.

Histórico-socialmente falando, o filme é um reflexo da sua época – uma época desiludida, onde os Estados Unidos voltavam desiludidos da guerra do Vietnã, o tráfico de heroína subia de forma vertiginosa, ocorriam o escândalo de Watergate, a era hippie chegava ao final com Altamont e os brutais assassinatos da Família Manson e o mundo se via numa época que, a qualquer minuto, poderia acabar nas cinzas de uma fogueira nuclear. Com isso, nem dava para fazer algo mais elaborado – a urgência e o sensacionalismo eram o que ditava os filmes. Com isso tudo, o grito de Craven foi mais do que válido. Tanto que, até hoje, continua sendo impressionante.

3/5

Ficha técnica: Aniversário Macabro (Last House on The Left) – 1972, EUA. Dir.: Wes Craven. Elenco: Sandra Peabody, Lucy Grantham, David Hess.

[Cobertura do Festival do Rio 2009]

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– por Bernardo Brum

Dos diretores contemporâneos que ainda seguem o modelo classicista de cinema, Campanella segue filme após filme em um dos postos de liderança. Foi assim em O Filho da Noiva e Clube da Lua, e é assim de novo em O Segredo dos Seus Olhos, uma quase obra-prima que esbanja personalidade e sentimento por todos os poros e que figura sem muito esforço mental na minha lista de três melhores filmes de 2009 .

Contando a história de Benjamín Esposito – interpretado pelo genial Ricardo Darín, simplesmente um dos melhores atores vivos – aposentado do Tribunal Penal argentino que, ao começar escrever um romance sobre o caso que mais o perturbou nos seus anos ativo – o estupro seguido de assassinato de uma jovem, no qual o criminoso permanecia intocável por atender interesses de setores corruptos da segurança e da política argentina, este talvez seja o filme mais abertamente político já realizado por Campanella, ao deflagrar corrupção, ineficiência, jogos de interesse e proteção legal de infratores da lei. A história que dá o mote só ganha mais força por se passar no início da década de setenta, um dos períodos mais negros da política do país.

Mas, para variar, novamente a história retratada pelo cineasta é muito mais que isso (assim como Clube da Lua é muito mais que a história de um clube falindo). Poucas vezes, em um filme de conteúdo policial, houve espaço para tanto amor, fracasso, tristeza, humor e desespero, tudo ao mesmo tempo, em um turbilhão de força vital, retratado de forma absolutamente segura e com mão de mestre, em uma sequência mais impressionante que a outra – uma das que ficarão para a posterioridade, sem sombra de dúvida, é quando o diretor começa uma tomada áerea de um campo de futebol lotado, vai descendo em um travelling em zenital, filma um gol, mergulha na multidão e encontra os protagonistas, tudo em um plano só, tão impressionante quanto aquele de Eu Sou Cuba.

A não ser por alguns detalhes mínimos, como a arrastada desnecessária que o filme dá em seu final e a administração não tão satisfatória da alternação entre flashback/presente, dá até para perdoar, ao compreender a proposta do diretor e a viagem puramente emocional que ele quer nos proporcionar, no qual ele choca, ousa, faz graça, arranca lágrimas, flerta com outros gêneros e muito mais e solta um filme tão absolutamente seu que já dá para sacar nos cinco primeiros minutos que se trata de um filme de Campanella. Com Ricardo Darín. Com a gente, lá no meio, chorando com o absurdo da vida, rindo com os pequenos prazeres e se emocionando pra cacete.

4/5

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos) – 2009, Argentina/Espanha. Dir.: Juan José Campanella. Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella

Festival do Rio 2008