pela Equipe Cine Cafe

Chegamos ao fim do especial. Foram, acho, nove dias de resenhas unicamente voltadas à análise dos filmes de M. Night Shyamalan, procurando decifrar não apenas o que está na superfície e no subtexto de seus filmes, mas também todas as relações contextuais que constituem o hype e o ódio do seu cinema. O obrigado da equipe a todos que acompanharam, comentaram e curtiram, e fiquem com a certeza que terão mais especiais logo mais.

Pra finalizar, tops da cada membro da equipe. Quem quiser é bem vindo a deixar o seu.

(mais…)

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ou aqui: Fim dos Tempos – por Bernardo Brum [4/5]

– por Guilherme Bakunin

Praticamente todos os textos por aí que falam sobre Fim dos Tempos vêm acompanhados de um tom passivo-agressivo em relação ao filme (falando, obviamente, das críticas que são favoráveis). São elogios cheio de ressalvas, que costumam definir o filme como um terror b, onde todas as coisas que não se enquadram exatamente nesse raio (do terror b), são dispensadas. Sob essa visão, não existiriam muitas coisas mais b’s do que Os Pássaros, onde uma trupe de pássaros mais recortados devastam uma cidade inteira. Mas as coisas não são exatamente assim.

Certamente inspirado em filmes b, mas sem deixar de lado a estética de seu diretor, Fim dos Tempos explora em graus um pouco mais sutis (relativos ao padrões do Shyamalan, que como eu disse no texto de Sinais, não são sutis) os mesmos temas de fé, natureza, medo, e o palco agora é toda a costa leste dos Estados Unidos que é atacada por algum tipo de toxina que faz com que as pessoas atentem contra a própria vida. Isso já denota algo inusitado: a toxina, que supostamente emana da natureza (flora), não apenas acaba com a vida humana, mas a extingue com masoquismo, crueldade, fazendo com que os homens encontrem formas criativas de se matarem. Nesse sentido, é quase um filme de vingança; e é interessante observar a maneira com a qual Shyamalan filme as plantas no filme, sempre acuando os personagens, como se fossem bestas à espreita, prontas para um ataque a qualquer instante.

Mas aí entram em cena Elliot (Whalberg) e Alma (Deschanel), no cúmulo de suas inexpressividades. O diretor parece ter uma complacência com personagens que não se expressam: Malcolm de Sexto Sentido, Joseph de Corpo Fechado ou Graham de Sinais, Lucius de A Vila. De alguma forma é não-inspirado dizer que são más atuações. A tendência perpassa por toda a carreira de Shyamalan e parece dizer que os personagens inexpressivos são os que essencialmente levam a história sempre para frente, por motivações que são muitas vezes misteriosas (já que a inexpressividade envolve certo mistério, já que não é claro o que se passa realmente na cabeça dos personagens), em contraponto com outros que realmente dizem muito do que pensam. Mas aqui temos Fim dos Tempos, onde o casal principal não conversa e também não se expressa, estando como entrave de sua própria relação.

Que Fim dos Tempos é, em parte, sobre um casal em crise matrimonial, todo mundo já está cansado de saber. E todo mundo meio que já admitiu que os diálogos são bem escusos e desconfortáveis. Mas existem mundos em choque aqui que valem a pena serem destrinchados. O primeiro e mais claro é a natureza x homem, onde o primeiro se rebela contra o segundo, numa ordem de caos que faz despertar a misantropia nas pessoas. Em certo momento do filme, Alma diz algo como “independentemente do que estiver acontecendo, é melhor ficarmos longe de pessoas agora”. Em meio ao caos, os homens se afastam e, pouco a pouco, Elliot e Alma são obrigados a se isolarem do resto do mundo e confrontarem o que há de errado com eles mesmos (mais sobre isso logo mais). É uma noção de enclausuramento bastante similar a de Sinais, exceto que Shyamalan consegue criá-la, em Fim dos Tempos, em amplos e abertos espaços. Pra quem pode.

Outro aspecto dicotômico é a relação entre racionalidade x o desconhecido. Não é exatamente fé, pois não há esse tipo de contorno no filme. É mais essa questão de aceitar que o mistério existe na vida e que nem todos os acontecimentos possuem ordem ou razão. É algo que Elliot sabe ser verdade (vida a cena introdutória na sala de aula), mas que ao longo do caminho, perde, procurando racionalizar demasiadamente em cima da situação em que eles estão, à procura de salvação, ocasionando momentos de forte significado, como a emblemática cena em que os personagens correm do vento. É interessante pegar essa cena um pouco mais, pra observar como a sobrenaturalidade do Shyamalan está pulsante em Fim dos Tempos, onde ele abstrai o e reconstrói o perigo, de forma a tornar o mero ar uma arma letal. Novamente, é pra quem pode.

Finalmente, existe a colisão entre o cinema e a estrutura do filme – enfim, a metalinguagem. Criticando o filme por situações absurdas e diálogos escrotos, o público falha em notar que a estrutura de Fim dos Tempos é bem alucinada. É um suspense catástrofe romântico meio road movie de terror: a cada cena, a necessidade dos personagens mudam para que eles se enquadrem a nova ordem estrutural de gênero que Shyamalan tenta imprimir. Existe o central park, depois o embarque na estação, depois a lanchonete, depois a estrada, depois o campo e depois a casa da senhora zumbi. É desconstrução após reformulação e vice e versa e assim por diante, para que o cineasta tenha a possibilidade de explorar todos os potenciais dos gêneros que ele resolveu se inspirar.

O resultado é Fim dos Tempos, que chega bem próximo de ser um tratado sobre a criação do medo numa história, na mesma linha de Os Pássaros (que também é catástrofe, e que depois foi filme de vanguarda). Apesar do público ter se expelido de admirar o filme, sabemos que grande parte disso envolve o nome de Shyamalan, que tem sido irrevogavelmente relacionado a trabalhos considerados de mau gosto, pelos mais diversos motivos, criando um hype que dificilmente corresponde a realidade (seus filmes são bons, e são autorais e originais além de serem de fácil digestão).

Mas toda a estruturação do perigo toma, no final, a forma de um mcguffin que existe para resolver o conflito matrimonial de Alma e Elliot. Não é exatamente um mcguffin, já que, na minha opinião, esse conflito é colocado em vários momentos do filme em espera, para que M. Night brinque com o suspense e o terror, mas é algo que existe em segundo plano, de qualquer forma. O auge da catástrofe letal de origem desconhecida é também o auge da distância entre os dois. Se durante todo o filme Shyamalan raramente coloca Alma e Elliot no mesmo quadro, nesses últimos momentos muito menos: eles estão a vários metros de distância um do outro, justamente quando a ameaça atinge seus níveis de maior intensidade. Diante desse panorama, os dois conversam e se abrem. “Qual era a cor do amor?”, pergunta Alma. “Eu não me lembro.”, responde Elliot. mas depois os dois se lembram e, no meio da ventania, um corre na direção do outro, até se encontrarem e se reconciliarem bem no meio disso tudo. Se o diálogo é o maior problema do filme, tudo bem: aqui eles não falam, e nem precisam. E também não voltam a conversar durante o resto da metragem (existe um epílogo que existe pra explicar mais ou menos a origem das toxinas, dispensável na minha opinião). Como a visceralidade de um tiro de escopeta na cabeça, a sintonia entre o casal é clara demais para ter a necessidade de demais explicações.

4/5

Ficha técnica: Fim dos Tempos (The Happening) – EUA, 2008. Elenco: Zooey Deschanel, John Leguizamo, Mark Wahlberg, Alison Folland, Brian O’Halloran, Spencer Breslin, Alan Ruck, Betty Buckley, Robert Bailey Jr., Ashlyn Sanchez, M. Night Shyamalan, Jeremy Strong.

– Equipe Cine Cafe

Arrogante e prepotente, o diretor M. Night Shyamalan demonstra em entrevistas uma grande preocupação com sua popularidade e o retorno financeiro dos filmes que dirige. Curiosamente, a cada novo trabalho, seus filmes são abertamente anti-populares, na noção que desconstrói os formatos clássicos de storytelling, trazendo abordagens que, de tão originais e dialéticas, acabam por afastar o grande público.

Também não ajuda a má-vontade com a qual suas obras são recebidas pela crítica especializada. Como explicar a ojeriza que Dama da Água tem apenas 24% de aprovação no rottentomatoes (13%, se levarmos em consideração apenas a crítica especializada)? Ou os 43% de aprovação pela sua obra-prima A Vila? Que o público de shopping não esteja disposto a imergir em ideias que envolvem a experiência cinematográfica já é esperado, mas que a crítica resolva simplesmente dar as costas para as questões que seus filmes levantam em nome da má-expectativa é algo que ninguém poderia exatamente prever.

O resultado disso é que ao longo de dez anos, Shyamalan passou do mais promissor dos cineastas, a um dos alvos mais fáceis de Hollywood. É um posicionamento cômodo dizer que seus filmes são “esquisitos”, “disfuncionais” ou “artificiais”, quando na verdade o indiano parece ser um encontro do cinema moderno com o jeito de contar histórias mais clássico. Uma espécie de Tarkovsky spielberguiano (guardadas às devidas proporções), onde desenvolve temas como fé, espiritualidade em meio à situações absurdas, kafkianas e um jeito de contar histórias mais familiar, mas nem por isso com recursos narrativos óbvios e infantilóides.

Mais precisamente, o cinema de Shyamalan parece existir exclusivamente a partir da colisão de mundos que são opostos, e seus filmes pretendem lidar com essa recém-adquirida dicotomia. O ocidental e o oriental em Praying With Anger. O mundo dos mortos com o dos vivos em O Sexto Sentido (e em menor grau – Olhos Abertos). O supernatural e o natural em Corpo Fechado. O terrestre e o extra-terrestre em Sinais. O conhecido e o desconhecido em A Vila. O mundo aquático e o mundo dos homens em A Dama da Água. E a própria natureza versus humanidade em Fim dos Tempos.

Trabalhar com esse tipo de proporção geralmente significa explorar vastos territórios e cobrir grandes acontecimentos. Não aqui. Trabalhando sempre em metonímia,  os acontecimentos grandiosos são tratados com intimidade e pessoalidade: um grupo reduzido de pessoas, através de suas auto-expressões, são suficientes para darem o panorama que Shyamalan precisa. Sinais e Dama ná Água ocorrem praticamente entre quatro paredes, A Vila é praticamente provinciano (apenas em O Último Mestre de Ar que o diretor alça proporções épicas, e provavelmente não é coincidência que, justamente lá, ele falhe), o Sexto Sentido coexiste através da relação de apenas três personagens.

Dotados de um caráter estoico, a inexpressividade dos filmes de Shyamalan existem como símbolo das fraquezas de seus personagens. Além do conflito dicotômico entre dois mundos, seus personagens parecem travar constantemente uma luta contra a auto-repressão, e apenas no final são libertos, podendo ser exatamente aquilo que realmente são.

Por isso, para compreender as “péssimas atuações” de Fim dos Tempos, por exemplo, é imprescindível que se compreenda que este é, em parte, um filme de amor. A incapacidade do público geral em querer enxergar os filmes como um todo, ao invés de características isoladas, parece ser o grande entrave que se tem entre o sucesso crítico de M. Night Shyamalan. Embora ele seja constantemente resguardado como um autor, os preconceitos realmente parecem ter um peso substancial na análise do trabalho do diretor. Nosso especial tem a ambição de corroborar com esse olhar, compartilhado por poucos e ignorado por muitos dos que amam cinema.

– Cronograma do Especial Shyamalan – 

Dia 1: Texto de abertura, pela Equipe + Olhos Abertos, por Bakunin
Dia 2: O Sexto Sentido, por Bakunin
Dia 3: Corpo Fechado, por Visnadi
Dia 4: Sinais, por Bakunin
Dia 5: A Vila, por Visnadi
Dia 6: A Dama na Água, por Visnadi
Dia 7: Fim dos Tempos, por Bernardo + Fim dos Tempos, por Bakunin
Dia 8: O Último Mestre do Ar, por Bakunin + Demônio, por Visnadi
Dia 9: Tops