por Bernardo Brum

Mais do que Robocop, Tropas Estelares é a sátira definitiva de Paul Verhoeven sobre a propaganda e seus efeitos (vistos com distanciamento, inacreditáveis e ilógicos) numa sociedade. Novamente, o ambiente é uma distopia típica: uma nação fascista, onde o fato de ser militar ou não separa os “civis” dos “meros cidadãos”, onde o que impera é a lei do mais forte e mais bem-armado, por aí vai.

O espetáculo técnico de Paul Verhoeven muito se assimila a uma cena particular de Bastardos Inglórios, aquela em que Daniel Brühl é mostrado atuando em um filme dentro do filme, uma obra que visava fazer publicidade dos ideais nazistas com um soldado alemão matando, sozinho, um batalhão de soldados dos Aliados. Se lá, Tarantino explicitava o caráter de “filme-propaganda às avessas”, anos antes Verhoeven fez este Tropas Estelares que, na época, valeu ao direto uma série de alcunhas – como defensor de um estado totalitarista, um facista de marca maior, entre outros adjetivos pejorativos – mas que, anos depois, seria entendido como a intenção inicial do diretor: uma paródia de filme de propaganda realizada pelos departamentos de publicidade dos estados que seguem essa forma de política.

O diretor claramente vê a situação como um absurdo e é exatamente nesse tom inacreditável que ele toca o filme – já que o poder do Estado será posto à prova num enredo de filme tipicamente B, já que tal batismo de fogo será enfrentar um batalhão de insetos poderosissímos que querem conquistar e povoar a Terra – e quando eu digo batalhão, é para ser levado no sentido literal da palavra, já que as tropas de infantaria desses alienígenas surgem na casa dos milhões, cobrem o horizonte, rasgam nós, pobres humanos, com um bote, demoram muito para morrer e se reproduzem numa velocidade inacreditável. Uma batalha que desde o início parece perdida só poderá ter a sua volta por cima, é claro, com as ações heróicas dos soldados – uma nação de soldados jovens, bonitos, atléticos e inteligentes.

Ironicamente, a narração em off e o formato publicitário justificam todas as neuroses individuais, erros de estratégia e decisões preconceituosas e desumanas como simples ossos do ofício. O indivíduo perde a importância e o que toma lugar são os triunfos de um Estado exemplar. Os atores que interpretam canastramente e têm um visual estilo Barrados no Baile dão um ar cômico imprenscindível ao ar satírico que impera a película inteira: de fato, é hilário vê-los se preocuparem com sua reputação numa sociedade como aquela para, minutos depois, terem seus cérebros sugados, suas vísceras arrancadas, suas cabeças decepadas e demais formas de se acabar com uma vida humana que tenham saído da cabeça do roteirista e da equipe de feitos especiais.

Mesmo o final, envolto nos louros da vitória e nas honrarias da glória, se despede do espectador com o gosto azedo na língua – por vários minutos, nós sentimos como se assistindo um filme de ação descerebrada de Sylvester Stallone ou Chuck Norris, mas nunca ficamos totalmente confortáveis com isso. Se tudo aquilo pode ser visto como justificável e coerente por alguém, então é imprenscindível que esse agente social chamado artista vá ligar o botão do bom humor e avacalhar os argumentos sanguinários de defensores de posturas radicais. E foi um tiro na mosca: passados 13 anos de seu lançamento, Tropas Estelares ainda consegue incomodar boa parte daqueles que o assistem como a grande gozação que é, no final das contas.

5/5

Ficha técnica: Tropas Estelares (Starship Troopers) – EUA, 1997. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Dina Meyer, Jake Busey, Seth Gilliam, Denise Richards, Clancy Brown, Neil Patrick Harris, Michael Ironside, Casper Van Dien, Dean Norris

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por Bernardo Brum

Se em Louca Paixão Paul Verhoeven já havia dissertado sobre os limites (ou a falta dos mesmos) por um outro indivíduo, o épico de guerra Soldado de Laranja é a história da dedicação a um ideal: a de um universitário que passará os auréos anos de sua vida batalhando como infiltrado, mercenário e sabotador disposto a livrar o seu país da lei que ele não queria – o avassalador nazi-facismo que oprimiu várias culturas com suas idéias generalistas e totalitárias.

A abordagem não poderia ser outra vinda de quem cresceu perto de bases e campos de batalha – Eric, o herói de guerra intepretado por Rutger Hauer, é o alter-ego do diretor: preso à velha cultura, servo da rainha e, aparentemente, um verdadeiro caxias, mas também um libertário, inseguro e perdido. São poucos os diretores do mesmo período que, ao retratar um herói de guerra, também se preocupariam em mostrar seu lado mais humano, seu lado sexualizado, sua certa ingenuidade (atentem,  não do  filme, mas sim do personagem, às voltas contra toda uma sociedade impassível e só ao longo do filme tendo dimensão da mesma) e sua única chance de sobrepujar e sobreviver no seu maior norte: o ideal.

O ideal, é claro, irá custar caro: amigos, mulheres e demais relações de afeto serão trituradas sem dó por traições, torturas e assassinatos. Ao mesmo tempo que parece ser um câncer e destruir toda uma vida, é esta esperança, este símbolo que representa para ele que o mundo ainda poderá ser um lugar melhor, que lhe dá um motivo para continuar. Essa ambiguidade afasta o filme de qualquer saída fácil ou maniqueísmo de “nós contra eles”: todos temos ideais, todos estamos a caminhos de uma corrupção sob a qual podemos nos submeter ou não e todo qualquer indivíduo é vítima das circunstâncias do coletivo. Regra número um de Verhoeven, que perdura até os seus filmes recentes: “o inferno são os outros”.

Ao final do filme, Erik lembra, nostalgicamente, dos seus áureos anos, antes de toda a violência da Segunda Grande Guerra assumir seu lugar na ordem das coisas de forma violenta, e quanto de seus companheiros não tiveram a mesma sorte que ele. Mas isso não importa mais. O ideal prevaleceu e perdeu o sentido. E agora, tudo que ele pode fazer é pensar no futuro. Que apesar de tudo, tem a possibilidade de trazer melhores dias para se viver, longe daquele insensato mundo.

4/5

Ficha técnica: Soldado de Laranja (Soldaat Van Oranje) – Holanda, Bélgica. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Jeroen Krabbé, Edward Fox, Derek de Lint, Susan Penhaligon, Lex van Delden

por Bernardo Brum

Comparando os quinze minutos iniciais com os quinze minutos finas de Louca Paixão, chegamos a uma certeza: que Paul Verhoeven é um completo demente quando liga uma câmera. Mas um demente apaixonado pelo ofício. Os quinze primeiros minutos são amorais, escandalosos, sádicos e fazem da exposição corporal uma arma para contextualizar o choque. Por outro lado, seu encerramento é impiedoso, melodramático e catártico na mesma medida.

O terreno aqui é o das paixões. E Rutger Hauer, interpretando um escultor obcecado por sexo que passa seus dias em uma mistura desenfreada de mulheres e arte, é cria e criador desse ambiente. Sua rotina inclui esculpir figuras bizarras, humilhar mulheres de bunda flácida, seios caídos e pêlos pubianos frondosos. Mesmo com esse comportamento bastante desregrado, também é um homem neurótico, capaz de perder a vontade de trepar pelos mínimos e mais estúpidos detalhes.

O filme prossegue nessa ciranda bêbada em todo seu desenvolvimento, mesmo depois de sermos apresentados à grande paixão do protagonista, Olga. O filme vai da alegria à amargura, da paixão ao resentimento, do humor negro à dramaticidade over com uma naturalidade impressionante. Apesar de ser comumente visto como um romance, guarda cenas que o público alvo deste gênero pouco estará acostumado a ver – como humilhações dolorosas, momentos escatológicos (alguns deles inclusive envolvendo fezes, vermes e o que mais de bizarro a mente do diretor conseguisse conceber) – mas é transcendendo esse bom gosto que Verhoeven consegue ser mais piegas do que nunca, num bom sentido: um casal que se ama a qualquer custo é apaixonado da boca até o ânus do companheiro. E claro, ao que dá para perceber, ao longo do filme, o casal de protagonistas se auto-destrói de tanto trepar – e demoram meses e anos para inclusive tomarem consciência disso.

E quando isso é constatado no filme, bang – eis que o filme é deformado brutalmente, as roupas aparecem, a escatologia quase some, aquele romance irrefreável do início torna-se escondido por meio de gestos, um assunto que ao que parece só dava um toque de humor negro à trama torna-se um arco dramático quase depressivo orquestrado com uma insanidade e frieza de um completo maluco. Iniciado depois de uma separação, esse ciclo do filme não poupa ninguém, e não sabemos qual personagem o diretor quis punir (a mulher promíscua ou o homem ciumento e rancoroso?)

Em quase duas horas de filme, Verhoeven invade não apenas o psicológico, mas também o físico dos seus personagens – suas resistências ao nojo, suas reações corporais, a degradação de suas formas são testadas ao limite e quem sobra é obrigado a jogar os restos de quem sobrou num triturador de caminhão de lixo (filmado, como aprecia Verhoeven, de forma muito próxima, muito exposta, muito direta). Longe de levantar questões fáceis, o diretor joga no ar o tempo todo perguntas, inclusive no final. O que resta de uma paixão tão maluca? Culpa? Lembrança? Ou apenas sucata, de onde viemos e um dia retornaremos?

4/5

Ficha técnica: Louca Paixão (Turks Fruit) – 1973, EUA. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Dolf de Vries, Monique van de Ven, Tonny Huurdeman, Wim van den Brink, Hans Boskamp