Por Allan Kardec Pereira

Embora diga ser inspirado em romance de Thierry Jonquet, a estrutura narrativa de La Piel que Habito, novo filme do sempre muito badalado (e igualmente detratado) diretor espanhol Almodóvar, parece fazer um pastiche de “Os Olhos sem Rosto”, uma obra-prima do terror dirigida pelo ótimo Georges Franju em 1960. Entretanto, o tour de force do filme parece ser mesmo a forma como o diretor passeia pelos gêneros cinematográficos usando muito da irreverência que lhe é contumaz. Por mais que um aparente fatalismo impere na obra, Almodóvar parece estar sempre disposto a nos mostrar que, não, aquele não é um filme de terror no estado pleno, mas sim, um filme com sua marca de irreverência, onde o grande vilão que vem do passado é o tal do bizarro “Tigrão”, em uma cena de sexo com comicidade evidente.

Importa saber que, o filme é uma sobrevida de Almodóvar, já que o fraquíssimo e preguiçoso “Abraços Partidos” revelara-se um passo em falso naquele que seria o melhor momento da carreira do diretor. De repente, quando Almodóvar tinha finalmente virado grife-cinema, quando fãs de Caetano e Adriana Calcanhoto viam no cineasta o supra sumo em termos de cinematografia, o diretor tropeça. “A Pele que Habito” revela mais uma vez, a faceta do diretor em articular referências de seus passado cinéfilo aquilo que seria sua marca de estilo. Embora as cores de Almodóvar tão faladas aqui se apresentem bem mais discretas, há o predomínio do requinte quanto aos figurinos, referências debochadas à sexualidade, a belíssima maneira de filmar os corpos nus, as narrativas complexas que vai e volta no tempo, o flerte com o cinema de gênero etc.

Como é corrente nas obras do diretor, desenrolam-se desgraceiras de todos os tipos. Acompanhamos o renomado cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas). O primeiro fato terrível de sua trajetória se dá quado sua esposa morre em um acidente. Anos depois sua doce e assexuada filha é estuprada em uma festa de casamento e depois vai parar em uma clínica psiquiátrica, com uma fobia terrível pela figura masculina. Ao mesmo tempo, ele começa a projetar um tipo de pele sintética, e sua cobaia é uma misteriosa mulher cativa em um cômodo trancado de sua mansão. A única cúmplice de seu projeto megalomaníaco é sua própria mãe, Marilia (Marisa Paredes). Aos poucos, vamos nos dando conta dos mirabolantes planos de Robert.

A grande trama está na potência que o diretor dá ao conceito de identidade, masculina e feminina. Caso especialmente interessante é o de Vicente, o garoto drogado que estrupa a filha de Robert. O cirurgião muda o sexo do rapaz moldando o corpo deste nos moldes do corpo de sua esposa falecida. O desenrolar da trama é uma bela ode à cultura gay, digamos assim. Pois, embora preso por aquela pele que lhe habita, aquela identidade, o ser Vicente ainda permanece. E será justamente na hora do sexo com o seu algoz, Robert, que Vicente conseguirá a rebelião final, conseguirá se livrar do cientista maluco, quando o Frankenstein consegue se vingar do seu criador. Vicente é um travesti que não aceita sua condição, ele enquanto hetero-sexual não aceita aquela pele. Se a realidade mostra que um travesti se incomoda por estar “preso” em um corpo de homem – daí porque busca através de roupas e cirurgias se parecer com aquilo que ele de fato se identifica, o corpo feminino -, Almodóvar desenrola uma das maiores ironias de todo o seu cinema e inverte o processo com Vicente. A cena final com o agora travestido em Vera, Vicente chegando para reencontrar sua mães na loja de roupas delas é belíssima e tão metafórica quanto belíssimo final de seu Tudo sobre mi Madre.

4/5

Ficha-Técnica: A Pele que Habito (La Piel que Habito) – Espanha, 2011. Dir.: Pedro Almodóvar. Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet.

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por Bernardo Brum

Obviamente com o olhar de um estrangeiro, encarnado nas deliciosas peles de Scarlett Johansson e Rebecca Hall, Woody observa Barcelona. Suas exoticidades, contradições, ironias, risadas e lamúrias.  Com isso, observa o mundo também. O velho truque de ser universal sendo regional, usando o estranho familiar, o diferente do qual já ouvimos falar, olhando com distância pessoas  se enrolando em tragicomédias paralelas na colorida e sexualmente pulsante Barcelona.

Ma como o título não faz distinção de separar nem nenhuma das personagens, nem as mesmas da cidade, como se os três fossem indistintos entre si; o homem é fruto do meio, mas o inverso também é válido. São os personagens – as turistas Vicky, a comportada e reprimida, e Cristina, impulsiva e confusa, e os de casa, o casal divorciado Juan Antonio e Maria Elena, que compõem a fauna que transforma Barcelona em um rico mosaico que funde riso, desespero, neuroses e todo esse universo que Woody filma e refilma há quase quarenta anos – e mais uma vez, recria seu universo de forma deliciosamente refrescante – um sabor de novidade irresistível que só mesmo alguém com necessidade de reinvenção artística constante costuma conseguir parir de forma surpreendente – mesmo para quem já conhece sua obra há tempo considerável e que já poderia encarar os novos exemplares de sua extensa e duradoura filmografia com certo cinismo.

Dos mais notáveis aos menos imperceptíveis detalhes, Vicky Cristina Barcelona é um filme diferente de Woody. Mas, ao contrário do que espalharam por aí, não emula Almodóvar; dá para sentir isso assistindo o filme. As pulsões com as quais ambos os cineastas trabalham são diferentes desde a sua base. O cinema kitsch, intenso, exagerado para os dois lados (quando quer ser engraçado, é histérico; quando quer ser trágico, é um dramalhão arrasador) do espanhol quase não encontra voz no americano; o filme é o que se habitou a chamar de “comédia de costumes”.  Vicky Cristina Barcelona é um filme sobre o êxtase.  Rápido como um orgasmo, tortuoso feito um namoro, incomum como as viagens mais loucas que nós fazemos.

Só por ir na contramão do que seus antecessores (Match Point e O Sonho de Casandra) discutiam, Vicky Cristina Barcelona já foi percebido como uma obra pouco usual dentro do estilo de Woody, apesar de que, de fato, não foge ao que o americano sempre quis filmar. Saem os americanos de aparência um tanto comum para o glamour que Hollywood estão acostumados lá da louca e frenética New York – entram personagens com caráter sexual altamente explicitado. Mas também, é como reza o velho estereótipo;  o que se poderia esperar da Espanha, não é?

As inúmeras reviravoltas tornam o roteiro imprevisível – não se sabe o que esperar de personagens tão confusos, em uma cidade onde nenhuma convicção é o que parece ser, onde moças fiéis se rendem aos seus desejos libidinosos, onde garotas impulsivas e liberais podem desistir de condutas pouco usuais por simplesmente enjoar do que já virou rotina. Woody sabe disso, e não tenta elocubrar razões, justificativas ou causas lógicas para cada nova mudança de rumos. Uma das garotas cai logo vítima da cantada descarada de Juan. Maria Elena inicia Cristina na bissexualidade. Cristina, com Juan e Maria, vivem uma vida a três. Cristina enche o saco de tudo – como fez várias outras vezes. Vicky cede ao charme de Juan. Maria surta de vez. Como a Quadrilha de Drummond, ou como qualquer filme de Woody Allen, acrescido de um pouco de paella.

Mas Woody sabe que é inevitável e seu roteiro não esconde; uma hora, as férias acabam. E é hora de voltar para a terra natal. Onde tudo é tão estranho, maluco e bonito feito em Barcelona. O que a gente levou disso tudo? Mais uma das inúmeras hábeis reflexões cinematográficas sobre como o indivíduo, supostamente sofisticado e civilizado, pode ser bizarro, cômico e trágico ao mesmo tempo dentro do mundo do baixinho quatro olhos – um decalque estilizado do nosso. Um dos filmes mais inteligentemente sensuais dos últimos anos – que brinca com nossos desejos ao invés de apenas esfregar, superficialmente, nos nossos sentidos. Sexo, lágrimas, riso e neurose costurados de forma indissolúvel e indefectível. Penélope Cruz e Scarlett Johansson se beijando.

Enfim, vocês conhecem o Woody Allen.

4/5

Ficha técnica: Vicky Cristina Barcelona – EUA/Espanha, 2008. Dir.: Woody Allen. Elenco: Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Kevin Dunn, Chris Messina, Rebecca Hall, Christopher Evan Welch