like someone in love

– por Guilherme Bakunin

Este, Um Alguém Apaixonado e seu penúltimo filme, Cópia Fiel, de 2010; em ambos, o diretor iraniano parece extremamente preocupado em contar histórias que são, na verdade, a respeito de outra coisa, para então desestruturar suas narrativas de forma a tornar as histórias a respeito daquilo que se imaginava no começo mesmo. Em Cópia Fiel, Juliette Binoche e William Shimell assumem os papéis de dois estranhos que se transformam em marido e mulher e depois em estranhos novamente. Em Um Alguém Apaixonado, Kiarostami está em Tóquio e seus personagens são uma estudante que se prostitui para financiar seus estudos, seu namorado que desconfia deste fato e um senhor que contrata os serviços da estudante.

Através de suas motivações, os personagens do filme encarnam personas que, provavelmente, não são suas próprias, e Kiarostami é um diretor tão ousado e sutil, que isso ocorre como se não ocorresse. Akiko, a estudante, se atormenta em razão do seu segredo, porque não considera digno exercer a prostituição (e por vergonha não se encontra com a avó) e, por razão de seu exercício, é obrigada a trair diversas vezes a confiança do namorado. Porém, quando ela chega a casa de Takashi (o senhor), ela busca ativamente o sexo, enquanto o velho, por algum motivo, reluta.

Esse é provavelmente a primeira repersonificação no filme, que será continuada por outras ocasiões (Takashi encarna um avô, Noriaki encarna um homem educado e agradável, etc). É um conflito de autoidentidades que está latente tanto aqui quanto em Cópia Fiel, que são dois trabalhos de extremo caráter global, multilíngue. Kiarostami é, agora exilado, um homem sem pátria, e seus personagens refletem de uma maneira bem particular essa situação.

É também através dessa questão de globo (e de fronteira), que Um Alguém Apaixonado exerce sua mais arrebatante qualidade. Um filme autoral de diretor iraniano, com recursos majoritariamente franceses, completamente filmado no Japão: obviamente existem grandes transposições fronteiriças aqui, como se o filme rasgasse todas elas para assimilar algum tipo de território que é mais extenso e universal.

Portanto as delimitações espaciais são completamente desestruturadas na narrativa e, como mágica, temos enquanto resultado um filme de 2 horas com percurso de 24 horas e praticamente em tempo real. O espaço também é questionado através da direção, que aproxima e distancia os seus personagens, e os espaços que ele ocupam, de acordo com a serventia narrativa. Kiarostami parece ignorar definitivamente a ideia de elipse (bom, há claramente uma elipse de tempo no filme, que ocorre após Akiko dormir e antes de ela e Takashi estarem no carro, à caminho de Tóquio, na manhã seguinte), já que à exceção da que acabou de ser citada, não existe nenhum outro corte que faça a menor sugestão de passagem de tempo.

O que exatamente significa o fato de que o filme questione e manipule o tempo e o espaço; ou o que significa o fato de que os personagens mentem o tempo todo, e jamais parecem ser o que realmente são (ou são tudo aquilo que parecem ser); ou o que significaria o final abrupto e pastelão, que não concluí a história, tampouco diz alguma coisa a mais a respeito dela, eu não saberia dizer. Eu saberia, no entanto, sugerir, adivinhar, projetar.

Todo questionamento visa, primordialmente, a reflexão. E as deformações que Kiarostami provoca em Um Alguém Apaixonado certamente me atingem dessa maneira. Elas são, de certa forma, ainda mais pungentes que àquelas de Cópia Fiel (que é um filme mais legal de se ver, eu acho), e revelam que o diretor está em escalada, numa exploração constante a respeito das temáticas de não apenas o seu cinema, mas a respeito do cinema e da narrativa em si.

3/5

Ficha técnica: Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love) – 2012, França/Japão. Dir.: Abbas Kiarostami. Elenco: Rin Takanashi, Denden, Tadashi Okuno, Ryo Kase.

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– por Guilherme Bakunin

Nós já vimos essa repercussão antes: Aterrorizada, de John Carpenter, O Aviador, de Martins Scorsese, Giallo, de Dario Argento, Fim dos Tempos, de Shyamalan ou Missão: Marte, de Brian de Palma sofrem nas mãos de uma má receptividade e as pessoas parecem cada vez mais convencidas a não procurarem avaliar um filme como um todo, julgando apenas as supostas falhas no desenvolvimento da história.

E de Palma sabe que Missão: Marte tem muitas. Especialmente porque o diretor lida com um roteiro ofensivamente medíocre, com uma coletânea impressionante de diálogos ruins, situações supervisitadas e elementos narrativos de pouco substanciais. Uma discussão de longa data entre quem conversa sobre cinema é até onde um cineasta pode ir com um roteiro ruim, mas a questão aqui não é exatamente essa. Além de um roteiro terrível, pesa sobre os ombros de de Palma um orçamento de 90 milhões de dólares, o que inevitavelmente diminui a autonomia, como qualquer um pode imaginar.

A câmera do diretor é então colocada à gravidade zero, parecendo captar as imagens dos personagens sem interesse em ouvi-los. Flui por entre as conversas, pessoas, objetos e locações numa curiosidade puramente plástica. Essa é a essência de Missão: Marte – ou ao menos a faceta que mais vale à pena conferir: se em 2001, Kubrick orquestrou o balé espacial através da movimentação sutil dos quase-estáticos movimentos de câmera, trilha sonora e objetos, de Palma orquestra o seu a partir  do imperturbável fluxo da steadycam – tudo que a câmera do de Palma captura, das paisagens terrestres às marcianas, está a dispor desse fluir.

A estética adotada pelo diretor confere ao filme a visualidade mais ‘depalmiana’ de todos os seus trabalhos anteriores (Femme Fatale, de dois anos depois, parece elevar sua câmera até a última potência), apesar de servir à história mais estranha aos trabalhos do diretor. Todos os tripulantes, da primeira e da segunda viagem, são retratos como heróis embutidos de bravura, honestidade e talento.

Com personalidades tão incríveis, nenhum conflito pode surgir a partir daí. O único inimigo é o universo. A imensidão negra do espaço é um antagonista não-hesitante, segue e ameaça os personagens a todo instante, apenas à espera de que o menor dos erros de comando da engenhoca espacial seja o erro fatal. A imersão da câmera de ‘de Palma’ eleva o suspense em níveis agoniantes, de forma que nem mesmo os tripulantes das espaço-naves parecem cientes da iminência do perigo que os persegue. É o espectador consciente de todas as coisas, responsável, sozinho, de dar poder ao filme que assiste.

Numa das sequências mais paralisantes do filme, quatro astronautas saltam da nave em seus uniformes especiais e estão, sozinhos e quase desprotegidos, diante da imensidão não apenas de Marte, mas do universo. A pulsão da relação especial e temporal, principalmente nessa, mas também em outras sequências é invejável – existe um autor no controle dessas sequências, e não a maquinaria do CGI.

O terror à flor-da-pele em Missão: Marte é apenas seu melhor aspecto; não é, de modo algum, o seu valor essencial. De Palma parece interessado em esculpir  algo de grandioso a respeito da força humana responsável pera superação. Não é por acaso que todos os personagens deste filme são heroicos. Transgredir a dor, aceitar as limitações e prosseguir. Em Missão: Marte, a partir da abdicação da fuga, a humanidade surge. É a tomada de responsabilidade e o seguir em frente. Seus personagens nunca olham para trás e não tremeluzem diante da decisão. O sacrifício do personagem de Tim Robbins, a última decisão do personagem de Gary Sinise. Nos filmes de ‘de Palma’, sempre há alguém que tenta impedir um assassinato, mas não consegue. Nos mundos que de Palma constrói, a falta de sintonia entre as pessoas está junto ao sangue, à psicose, à morte.  Seus personagens tiveram que fugir desse mundo para encontrar essa sintonia. No vácuo do universo, milhões de quilômetros longe da terra, é onde seus homens e mulheres estão mais próximos uns dos outros – e de si mesmos. E eles sempre chegam a tempo.

3/5

Ficha técnica: Missão: Marte (Mission to Mars) – EUA, 2000). Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Tim Robbins, Gary Sinise, Don Cheadle, Connie Nielsen, Jerry O’Connell, Peter Outerbridge, Kevan Smith, Jill Teed, Elise Neal.