por Bernardo Brum

Uma das mais reconhecidas contribuições de Rohmer à nouvelle vague, Minha Noite com Ela faz parte dos Seis Contos Morais dirigidos pelo cineasta, filmes onde o cineasta punha à prova e confrontava pontos de vista antagônicos sobre a moral. O filme em questão discute filosofia e matemática, amor idealizado e sorte, fidelidade e liberaridade, às luzes do matemático/físico/teólogo/filósofo Blaise Pascal.

Jean-Louis, ao mesmo tempo que é engenheiro, um homem dos números, também é um homem religioso e extremamente moralista: o tempo todo, Jean diz não aos outros, quando secretamente morre de desejo. Dilema esse que acaba discutindo com todos os outros personagens do filme.

Apaixonado por outra garota católica que sempre vai à mesma missa que ele, um dia ele encontra Vidal, um amigo de infância, que o leva até a casa do seu affair Maud, mulher divorciada, atéia e liberal. Passa duas noites com ela, a primeira interrompida por uma quase-relação sexual impedida pelos dogmas cristãos de Jean-Louis. Quando sai de lá, vai procurar Françoise, a moça da igreja, a quem tenta se aproximar e seduzir.

Apesar de trazer discussões muito interessantes, Minha Noite com Ela tropeça em alguns momentos – as imagens e palavras de Rohmer ainda não estavam tão alinhadas, o que seria corrigido através do exercício e refinamento constante dos seus temas-fetiche – tanto que, da década de oitenta para frente, o cineasta faria de filmes excelentes a veradeiras obras-primas. Fora o final do filme, são poucos os momentos que os diálogos transformam a imagem, assim como ele conseguiu de forma surpreendente em momentos posteriores. Mas, ainda assim, vale à pena toda a profundidade que o cineasta consegue alcançar com tão pouco, tudo baseado em lugares comuns, com pessoas comuns, mas com uma linguagem com muito a dizer, não à serviço do auto-elogio, mas da discussão dos campos intelectuais e sentimentais da sociedade contemporânea.

3/5

Ficha técnica: Minha Noite com Ela (Ma Nuit Chez Maud) – 1969, França. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Jean-Louis Trintignant , Françoise Fabian , Marie-Christine Barrault , Antoine Vitez , Marie Becker

por Bernardo Brum

Delphine é uma das personagens femininas mais neuróticas de Rohmer. Depois de um noivado mal sucedido e há dois anos  isolada do mundo, quando chega o período de férias de verão (meio do ano, na França),  vê os 30 dias passarem voando. Nesse meio tempo, viaja três vezes, chora várias vezes, foge das amigas e pretendentes, passa um monte de tempo sozinha – em hotéis, na praia litorânea, nas casas de campo.

Ao mesmo tempo, também está cismada com a cor verde, acha que a cor está a seguindo por todos os lugares, e inclusive, um especialista em astrologia disse para ela que este seria seu ano verde. A velha abordagem de religião, superstição e crendice do cineasta que apareceu de várias formas mais discretas e outras mais explícitas (como O Signo do Leão e aqui) culmina quando Delphine e o espectador ouvem falar do Raio Verde, romance escrito por Julio Verne sobre um fenômeno raro que ocorre durante o crepúsculo, quando a última luz solar que veremos será verde devido a um fenômeno de difração.

Delphine corre dos crepúsculos a todo momento, e sempre irrompe em lágrimas sempre que se aproximam dela só por aquele famoso interesse específico. As amigas dizem para ela relaxar, não ser exigente, aceitar o que vier, mas ela só quer aquele com quem se sentira bem.

Não à toa que, com um homem que só aparece nos últimos minutos, mas que é mais simpático, mais gentil e que ouve mais que todos os personagens que o diretor nos apresentou até então, que ela dê a permissão a ele de aceitar ver o seu crepúsculo e ver o Raio Verde junto; só com aquela pessoa específica (não o “príncipe dos sonhos”, ideal romântico, mas aquela que a faz sentir bem) que ela tem , enfim, coragem de enterrar o passado e contemplar o raio de luz. Verde, cor da esperança.

5/5

Ficha técnica: O Raio Verde (Le Rayon Vert) – França, 1986. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Marie Rivière, Amira Chemakhi, Sylvie Richez.

por Bernardo Brum

No seu desenrolar, Conto de Inverno parece ser assim como a estação que lhe dá nome: depois de ter uma relacionamento relâmpago que dá fruto a uma filha, em imagens quase sem diálogos que mostram pouco além de um casal se divertido em uma praia, um píer, transando no quarto e coisas assim, em cores fortes e captando atores com pouca roupa, que Felicie cinco anos depois revela ao espectador, em pleno inverno, que não perdeu o calor: ela é uma mulher volúvel, dividida entre dois homens reais, um cabelereiro de temperamento esquentado e um intelectual, e a lembrança de Charles, o pai de sua filha.

Até o clímax, o filme segue em um desespero contido: o da dúvida, da incerteza, do analfabetismo emocional. Por que, fora aquele que passou menos tempo com ela, nenhum homem parece ser adequado às seus desejos, suas inspirações, seus sonhos e projetos de vida? Esse clímax, pra lá de discreto e baseado em um mero exercício de plano e contraplano, que mostra apenas a protagonista e suas reações mínimas enquanto assiste a peça de Shakespeare homônima ao filme, afetará cada fotograma seguinte: o filme, então, muda definitivamente de tom.

Como em uma peça antiga, Rohmer se dá ao luxo da inverossimilhança, da improbabilidade, do quase impossível que acaba acontecendo, enfim, o deus ex machina. E Felicie tem oportunidade de finalmente de estar realmente feliz pelo menos uma vez. Pelo menos até mudar de idéia, pelo menos durante o verão.

5/5

Ficha técnica: Conto de Inverno (Conte D’hiver) – 1992, França. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Charlotte Véry, Frédéric van den Driessche, Michael Voletti, Hervé Furic, Ava Loraschi, Christiane Desbois.

por Bernardo Brum

Voilá, eis a minha especialidade: encenar a palavra e o seu poder“,  disse Rohmer numa entrevista a um site sobre seu penúltimo filme, Agente Triplo. Esse foi o maior artifício de toda uma carreira. Charlotte e seu Bife é um dos primeiros filmes de Eric Rohmer e um exemplar da sua leva de curtas-metragens, e já demonstrava a naturalidade com que desenhava as palavras no filme, que comandam os seus personagens, desencadeiam neles ações, de forma absolutamente indissolúvel da imagem, por mais que não tenham relação alguma.

Walter acompanha sua amiga Clara à estação, e logo em seguida vai visitar uma amiga sua, Charlotte. Ele quer beijá-la, mas ela apenas faz comida para ele. Durante isso, conversam. No fim do filme há um beijo, ponto alto da narrativa que logo se esvazia ao descobrirmos a falta de sentimento ao redor desse ato físico.

Escritor frustrado que se tornou cineasta, Rohmer foi um daqueles que mostrou, ao lado de Jacques Tati e Robert Bresson, como ouvir era importante no cinema, e como acabamos maravilhados pelos diálogos do seu filme por termos ouvido muito mais atentos que olhos, que vagueiam pela tela preguiçosos quando há ações vagas. Ainda que aqui ele não diga muito e tampouco chegue a algum lugar, já é uma bela demonstração de potencial que seria exercitado incasavelmente ao longo de mais de cinco décadas de cinema.

3/5

Ficha técnica: Charlotte e seu Bife (Présentation ou Charlotte et son Steak) – França, 1960. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Anna Karina, Stéphane Audran, Jean-Luc Godard

  • Download em torrent aqui.

por Bernardo Brum

Pauline na Praia é, facilmente, um dos roteiros mais bem-escritos e acabados por Rohmer.  Assim como O Joelho de Claire, infidelidade e desejo são abordados o tempo todo; mas jamais da mesma forma. Assim, esse é o tipo de obra que parece confirmar que Eric era daquela estirpe de diretores que refinam um certo tipo de obra – a comédia leve sobre a moral das pessoas contemporâneas – incontáveis vezes, e sempre de forma diversificada, fazendo com que cada obra sua tenha um certo frescor de originalidade ao transmitir suas opiniões.

Este é um filme que fala ainda mais sobre a infidelidade dos casais modernos, pessoas movidas ora por curiosidade, ora por desilusão. Tanto o lado feminino, movido pela jovem Pauline e sua prima mais velha, Marion, quanto os homens, como o velho amigo ciumento e invejoso Pierre, o mulherengo Henri e o jovem e inocente windsurfista Sylivan.

A praia no verão fazem às vezes de campo e demais ambientes bucólicos que Rohmer tanto apreciava filmar em sua edição econômica e planos gerais; é lá que tanto o desejo hormonal dos mais jovens quanto o desejo mais maduro afloram em um filme abertamente sensual cheio de pequenos e hilários momentos (o momento que Henri, que acabou de trair a já muitas vezes decepcionadas Marion, aproveita para jogar a culpa em Sylivan e dizer que ele é quem traiu Pauline, é arquitetado de forma tão natural que é difícil imaginar aquele artifício como um fato algo improvável).

Nesse meio tempo, entre uma trepada e outra, entre uma trapalhada e a próxima, e no meio de todos os imprevistos, os personagens discorrem incansavelmente sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que querem, sobre suas expectativas e suas experiências. Tudo sem julgar ou condenar seus personagens pessoas tão defeituosas e incertas sobre a vida que são completamente palpáveis.

Poucos cineastas retrataram tão bem a reflexão e a mudança de costumes ocorrida durante os anos sessenta e setentam e nas décadas seguintes, quando a transição já havia ocorrido, mas essa desconstrução continuou tão forte quanto antes. A câmera, apesar de contemplativa, participa ativamente, a todo momento – os planos quase sempre abertos descontroem fachadas e máscaras, a falta de método de atuação expõe interpretações naturalistas, com muita pouca criação, e a força se concentrava no roteiro – o que é dito importa tanto quanto é visto, ainda que a narrativa de Rohmer fosse afiadissima e muita precisa, o mesmo se pode dizer de cada diálogo.

Com tudo isso, pode-se dizer que a carreira de Eric Rohmer é um dos capitulos mais ricos da cinematografia mundial.  Desconhecido, sim, mas porém não menos essencial que qualquer outro grande cineasta francês. O rei do minimalismo inteligente. E Pauline na Praia é um dos maiores exemplos disso tudo.

4/5

Ficha técnica: Pauline na Praia (Pauline à la Plage) – França, 1983. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Amanda Langlet, Arielle Dombasle, Pascal Greggory, Féodor Atkine, Simon de la Brosse

– por Luiz Carlos Freitas

Eu assisti a um filme do Eric Rohmer uma vez. E foi tão
empolgante quanto ver tinta secando numa parede.”

.
.

A frase é do ator Gene Hackman em uma de suas falas no thriller Um Lance no Escuro, de Arthur Penn, e transmite bem a impressão de boa parte dos que têm um contato superficial (e imaturo, devo dizer) com a obra do diretor francês. O fato é que tal visão não é de todo surpreendente. O cineasta, um dos mais importantes da Nouvelle Vague francesa (e um dos editores da famosa Cahiers du Cinéma), ficou conhecido como um autor minimalista,  a começar por suas temáticas baseadas em acontecimentos dos  mais simples do cotidiano, como infidelidade ou solidão. Com um mínimo de cenários (e elenco idem), tal postura afirmava-se pelo seu uso da técnica, conduzindo tudo do modo mais simples possível, do posicionamento da câmera à edição. Rohmer colocava os atores em cena, eles começavam a falar (e falar, falar, falar …) e ele a filmar.  Ponto.

Porém, diferente do que se prega, os diálogos “intermináveis” (entre aspas para fugir do tom depreciativo) e a opção pela técnica mais  simples de seus filmes não o distancia de seus colegas de movimento artístico. Pelo contrário, os diálogos e passagens, tão afiadas quanto sutis, são responsáveis por uma brilhante [des]construção de seus personagens e motivações, tecendo uma teia condutora entre os acontecimentos concebendo àqueles momentos uma força descomunal em significado. Essas características estabeleceram notada unidade na obra do francês que menteve-se até seu último trabalho, Os Amores de Astrea e Celadon, de 2007. Entretanto, um de seus filmes mais citados (e sua estréia como diretor de renome) foge quase que totalmente disso.

O filme narra a tragicômica jornada de Pierre Wesselrin (Jess Hahn), um vagabundo que recebe a notícia do falecimento de uma tia e que, certo de estar entre os recebedores da herança, começa a gastar por conta, dando uma grande festa onde reúne todos os amigos para celebrar o acontecimento. Porém, após a comemoração vem a notícia de que ele havia sido deserdado e, portanto, não teria direito a receber um centavo sequer. Logo em seguida, é despejado de seu apartamento e, por ser em período de férias, seus amigos estão todos viajando e ele fica sem ter aonde ir, vagando sem rumo pelas ruas como um vagabundo.

Com uma montagem cheia de cortes rápidos, travelling‘s, grandes panorâmicas, um número bem maior de situações e personagens, trilha forte e demorados momentos sem falas, O Signo do Leão é um Rohmer diferente do habitual, mas não menos poderoso ao retratar temas essencialmente humanos, no caso aqui, a degradação do indivíduo. Mas a sua provavelmente maior característica já se fazia presente: a sutileza.

Um filme com essa premissa de tragédia  e um veio cômico tinha tudo para ser arriscado, uma vez que poderia pender ao pastelão ou ao melodrama muito fácil, não fosse a mão segura de seu diretor, que equilibra todos esses elementos de modo preciso. Há o humor, desde a “celebração” da morte da tia, onde ele discursa aos amigos sobre seu ‘dom de leonino’, sua provável predestinação à riqueza e ao sucesso (a ironia do título se mostra desde o começo), passando pelas sua tentativas frustradas de roubar comida nos restaurantes da cidade e culminando no final; mas a tragédia se faz presente em todos os momentos, e a trilha sonora atordoante de Louis Saguer reafirmam isso.

À medida que o filme avança, vemos a jornada do protagonista retratada pelo ambiente ao seu redor. Muros, postes, calçadas e praças vão ficando escuros, sujos; rachaduras aparecem e indivíduos dos mais insensíveis pioram ainda mais sua sensação de desolação. Como se a paisagem da cidade fosse um quadro pintado pela alma de Pierre, que vai se mostrando mais baixa e vil à medida em que ele desce em sua escala social. Ou seria o inverso? Não seria Pierre um reflexo de toda a sujeira do meio aonde vivia? O nível de baixeza é tamanho em certa altura do filme que fica impossível dissociar causa e causador.

Ao final da projeção, a conclusão  um tanto ‘apressada’ e demasiada complacente com seu protagonista vagabundo pode decepcionar um pouco, mas seu brilhante desenvolvimento não deixa que o interesse do espectador se perca. É um grande  filme que fica ainda maior se lembrarmos que estamos diante do início da carreira de um dos grandes (e mais subestimados) gênios que o cinema já viu.
.
PS.: Atentem a uma pequena participação não-creditada do cineasta Jean-Luc Godard na cena da festa de Pierre, logo no começo, como o sujeito esquisitão que fica manipulando a vitrola.

.
4/5

O Signo do Leão (Le Signe du Lion) 1959, França – Dir.: Eric Rohmer – Elenco: Jess Hahn, Michèle Girardon, Van Doude, Paul Bisciglia, Gilbert Edard, Christian Alers, Paul Crauchet, Jill Olivier, Sophie Perrault, Stéphane Audran, Jean Le Poulain, Jean-Marie Arnoux, Gaby Blondé, Daniel Crohem, Jean Domarchi

por Bernardo Brum

Revolucionário discreto, Rohmer nem parecia fazer parte da mesma onda do alucinado e sarcástico Godard e do dramaticamente intimista Truffaut. Seus filmes intentavam desnudar a alma humana através de, essencialmente, diálogos analíticos, movimentos de câmera e de atores discretos, fotografia naturalista. Tal delicadeza e sutileza para tratar dos temas que eram do seu interesse jamais devem ser confundidos com alguma espécie de pudor, mas sim extrair variados estímulos  a partir de uma abordagem quase cotidiana.

É através de Jerome, interpretado por Jean-Claude Brialy, que O Joelho de Claire abordará através da usual forma de abordagem de Rohmer o desejo, a infidelidade e as pequenas hipocrisias da classe alta. Diplomata prestes a casar, Jerome encontra em suas férias Aurora, amiga de longa data e escritora. Ela se hospedou na casa de uma senhora que tem duas filhas, Laura e Claire. Logo a intelectual estimula o amigo a aproveitar os últimos dias de  solteiro com Laura, que demonstra-se atraída pelo tiozão. Eles começam um caso, um tanto ingênuo, baseado em conversas, andar de mão dada e olhar a natureza juntos, que logo reflete no desejo de Jerome pela irmã – bem mais sensual, que não se interessa por ele ou por homens mais velhos e também um tanto mais emocional. Para a diversão da escritora, o diplomata passa a descrever passo a passo a quantas anda o processo de sedução da lolitinha e o seu desejo meio louco de acariciar uma parte da anatomia: o seu joelho.

É sob esse conflito simples que o resto do filme se desenrolará em tom levemente cômico – já que o diretor não se permite a muita exposição ou excesso. A narrativa tipicamente character-driven, onde através dos longos diálogos com a amiga ficaremos sabendo todas as impressões do personagem a respeito do caso, repercurtem o filme inteiro, tornando closes inocentes quase obscenos: quando Claire fica nervosa e triste, o contato da mão consoladora de Jerome com o joelho parece quase como um assédio sexual. O contato de um dedo com essa parte do corpo vira uma roçada dissimulada. Se Claire sobe na escada e Jerome olha a sua junta, o prazer proibido aparece mais uma vez.

Para grande parte do público, Rohmer pode até passar despercebido; contudo o seu estilo peculiar, quase silencioso, de através da compreensão da montagem empreender rios de desejo carnal e desconstuir os pequenos erros, pecados e imperfeições de todos nós, deixou um legado enorme: daquele que se utilizou do cinema de autor não para apenas diferenciar-se dos demais, mas para entrar em contato com o espectador e falar de dramas e ironias em comum.

4/5

Ficha técnica: O Joelho de Claire (Le Genou de Claire) – 1970, França. Dir.: Eric Rohmer. Elenco: Jean-Claude Brialy, Aurora Cornu, Béatrice Romand, Laurence de Monaghan, Michèle Montel, Gérard Falconetti, Fabrice Luchini