– por Allan Kardec Pereira

O cinema americano afirmando-se e reescrevendo a história da América. O cinema de Ford trilhando o sentido contrário à História (com “H” maiúsculo no sentido de “história oficial”) e detendo-se na “arraia miúda”. Uma nação que se constrói no Oeste a partir da bravura e união de homens simples, o tipo americano por excelência. Certamente, inspirado em Frederick Jackson Turner, Ford expõe na tela a formação da identidade americana na fronteira, no domínio daquele landscape. 

Há de se notar que a Natureza americana, em toda sua grandeza, entra em cena primeiro do que o homem. É uma tarefa hercúlea e que, por isso, dá um sentido de destino ao verdadeiro americano. O homem em primeiro plano e a história como pano de fundo, como na cena genial em que Ford com sua precisão tipica de um grande artífice (talvez a palavra artista não fosse bem recebida por ele) enquadra dois personagens acertando contas com o passado em uma violenta briga enquanto na profundidade de campo (em 1924 !!!) índios a cavalo chegam atacando a locomotiva.

O Cavalo de Ferro foi um sucesso foi um dos grandes sucessos do cinema mudo e que empregou mais de 6.000 pessoas em sua realização. A temporalidade no filme cumpre o papel de evidenciar não apenas as rápidas transformações, mas, sobretudo, ser uma elegia ao trabalho do americano simples. Ford filma os esquecidos. Moralista, valoriza os valores simples, a retidão, o respeito às tradições, a família. Em Cavalo de Ferro já percebemos seu nítido desprezo por capitalistas egoístas, que literalmente vestidos de preto, são o mal que corroem por dentro a nação americana.

Em Cavalo de Ferro, vemos ainda um Ford que valoriza a civilização e que vê o elemento indígena como o Outro. Ford não lhes dá nem o direito de voz – que em sua carreira foi progressivamente concedendo -, não lhes dá nem complexidade psicológica (em Rastros de Ódio (1956), por exemplo, “Cicatriz”, o chefe indígena interpretado por Henry Brandon, é tão complexo quanto o próprio Ethan Edwards…). Nos seus primeiros faroestes os índios são aquilo que de mais selvagem a natureza possuem. A trilha sonora rapidamente se altera quando eles aparecem, saindo das alegres canções folclóricas que embalam a construção da ferrovia e entrando instrumentos percussivos criando um sentimento de tensão avassalador. Eles atacam feito sombra, cavalgam velozmente e estão sempre à espreita. Empecilhos do progresso, portanto. A selvageria que deve ser afugentada, tal qual a famosa pintura “Progesso Americano” (1872), de John Gast, no qual o filme parece se inspirar.

Acompanhamos a história de Davy Brandon (George O’Brien), que quando criança presenciou o pai ser morto por “sanguinários” cheyennes e já adulto quer realizar o sonho paterno e contribuir para a construção da estrada de ferro Transcontinental, ligando as duas costas da América. Ford tem digressões maravilhosas (ele executa isso com notável destreza em Crepúsculo de uma Raça, de 1964). Frequentemente Davy é posto de lado e o diretor resolve contar as histórias de alguns coadjuvantes em especial enfatizando o lado cômico, mas também explorando a riqueza daquele microcosmo social (que ele vai enfatizar de maneira sem igual em No Tempo das Diligências, de 1939). Uma cena basta e podemos ter uma ideia quase que completa daqueles indivíduos (basta pensar o bartender em Paixão dos Fortes (1946).

Após uma longa e dura travessia (porque o Oeste de Ford é sobretudo movimento), os heróis de Ford não tem lugar naquela sociedade em que ajudou a criar (aqui no sentido realmente literal de construção, mas em outros filmes vai ganhar um sentido de restabelecer a lei, reencontrar o parente desaparecido etc). Davy vai embora, literalmente como mártir (porque, sobretudo, Ford é um poeta católico), o verdadeiro americano, a quem Ford livra do esquecimento.

5/5

Ficha Técnica: The Iron Horse – Estados Unidos, 1924. Direção John Ford. Elenco: George O’Brien, Madge Bellamy, Charles Edward Bull, Jean Arthur, Will Walling.

por Guilherme Bakunin

Shyamalan começou a acompanhar a série animada de Avatar: The Last Airbender por causa da filha, e depois de assistir às duas primeiras temporadas declarou que o universo da animação certamente daria um grande filme. Não em suas mãos, não senhor. O Último Mestre do Ar é um trabalho de bom faro, perspicaz em sua construção de planos e arco central, mas não possui emoção e imersão do espectador na história.

O problema de Avatar começa com Shyamalan fazendo um filme infantil, praticamente traindo a autoridade que havia construído para si até aquele momento (2009-2010). Os filmes do cineasta eram adultos, artísticos no sentido que caracterizavam uma sincera expressão criada na mente de uma pessoa (nos termos de Frank Capra, era exatamente nisso que consiste um “filme de arte”, ou “cinema”). Criar um espetáculo infantil significa interromper esse caminho e trabalhar com linguagens completamente diversas das anteriores. O fator mais decisivo nessa diferença é a atmosfera, que em Último Mestre do Ar é leve, apesar das proporções épicas que o filme tenta atingir, e não consegue (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas por sua vez trabalha muito bem nisso, e citar Labirinto do Fauno é covardia).

Fora da densidade atmosférica, os diálogos tornam-se tolos e sem nenhuma razão, inexpressivos. Se em Fim dos Tempos Mark Whalberg e Zooey Deschanel são desumanizados para ressaltar a verdade de que eles só possuem emoções e sentimentos enquanto casal, compartilhando cada momento, aqui o negócio é apenas sem graça mesmo. A impressão que fica é que os atores não botaram fé no projeto, e leram em voz alta o que lhes foi delegado, sem necessariamente atuar. Sem a força dos atores, sem a força de um universo conciso para quem sabe justificar essa falta, o projeto de Shyamalan rui. O espectador simplesmente não compra a aventura que lhe está sendo contada.

Contudo, o projeto fraco é pontuado por diversos lapsos de criatividade cinematográfica. Os planos sequências são uma aposta arriscada, plasticamente bonitas, mas sem os cortes as lutas perdem emoção. Mas acompanhar Aang pelas lutas em grandes e fluidos planos é um artifício autoral, uma escolha quase filosófica, deixando o espectador a par exatamente dos mesmos elementos do personagem principal. As batalhas do filme são as batalhas do ponto de vista de Aang. Assim, o espectador também adormeceu por cem anos e precisa se adaptar aquele novo mundo, vivendo em guerra em perigo constante. A introdução a esse mundo pode parecer (e de fato é) didática, mas ao contrário de diversas coisas, é efeciente ao propósito do filme.

Portanto, Último Mestre de Ar é a descida mais íngrime na carreira de M. Night Shyamalan, um filme com mais erros que acertos e que certamente não desperta grande paixão. Não chega a ser ruim, a história original, se me perguntarem, também não é tão impressionante assim, preenchida por piadas sem graças a todo instante, algo eliminado corretamente pelo filme, mas definitivamente não reflete as melhores características do cineasta que ainda é uma das mentes mais criativas em atuação nos Estados Unidos.

2/5

Ficha técnica: O Último Mestre do Ar (The Last Airbender) – EUA, 2010. Dir.: M. Night Shyamalan. Elenco:  Noah Ringer, Dev Patel, Nicola Peltz, Jackson Rathbone, Shaun Toub, Aasi Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel, Damon Gupton, Summer Bishil.


por Bernardo Brum

Se em Louca Paixão Paul Verhoeven já havia dissertado sobre os limites (ou a falta dos mesmos) por um outro indivíduo, o épico de guerra Soldado de Laranja é a história da dedicação a um ideal: a de um universitário que passará os auréos anos de sua vida batalhando como infiltrado, mercenário e sabotador disposto a livrar o seu país da lei que ele não queria – o avassalador nazi-facismo que oprimiu várias culturas com suas idéias generalistas e totalitárias.

A abordagem não poderia ser outra vinda de quem cresceu perto de bases e campos de batalha – Eric, o herói de guerra intepretado por Rutger Hauer, é o alter-ego do diretor: preso à velha cultura, servo da rainha e, aparentemente, um verdadeiro caxias, mas também um libertário, inseguro e perdido. São poucos os diretores do mesmo período que, ao retratar um herói de guerra, também se preocupariam em mostrar seu lado mais humano, seu lado sexualizado, sua certa ingenuidade (atentem,  não do  filme, mas sim do personagem, às voltas contra toda uma sociedade impassível e só ao longo do filme tendo dimensão da mesma) e sua única chance de sobrepujar e sobreviver no seu maior norte: o ideal.

O ideal, é claro, irá custar caro: amigos, mulheres e demais relações de afeto serão trituradas sem dó por traições, torturas e assassinatos. Ao mesmo tempo que parece ser um câncer e destruir toda uma vida, é esta esperança, este símbolo que representa para ele que o mundo ainda poderá ser um lugar melhor, que lhe dá um motivo para continuar. Essa ambiguidade afasta o filme de qualquer saída fácil ou maniqueísmo de “nós contra eles”: todos temos ideais, todos estamos a caminhos de uma corrupção sob a qual podemos nos submeter ou não e todo qualquer indivíduo é vítima das circunstâncias do coletivo. Regra número um de Verhoeven, que perdura até os seus filmes recentes: “o inferno são os outros”.

Ao final do filme, Erik lembra, nostalgicamente, dos seus áureos anos, antes de toda a violência da Segunda Grande Guerra assumir seu lugar na ordem das coisas de forma violenta, e quanto de seus companheiros não tiveram a mesma sorte que ele. Mas isso não importa mais. O ideal prevaleceu e perdeu o sentido. E agora, tudo que ele pode fazer é pensar no futuro. Que apesar de tudo, tem a possibilidade de trazer melhores dias para se viver, longe daquele insensato mundo.

4/5

Ficha técnica: Soldado de Laranja (Soldaat Van Oranje) – Holanda, Bélgica. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Jeroen Krabbé, Edward Fox, Derek de Lint, Susan Penhaligon, Lex van Delden

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– por Guilherme Bakunin

Ao tocar no campo de trigo ao voltar para o seu lar depois do combate, ainda vestido de soldado, Maximus, com uma interpretação brilhante de Russel Crowe, encarna muito bem a postura de um homem de Roma. Nasceu como agricultor, é soldado e político. O toque na planta denuncia muito mais do que uma composição visual bacana, mas sintetiza a função do civil romano, sua cultura, sua vida, através de corretos, quando necessários, registros históricos. É importante ter em mente que essa obra-prima de Ridley Scott não é a documentação de um fato histórico e não pode, jamais, ser criticado por isso. Antes, porém, é um trabalho inteligente e preciso sobre um momento, composto por décadas ou séculos, do império mais poderoso que já existiu.

Maximus é um nobre e dedicado soldado do império, leal ao imperador Marco Aurélio. Durante um combate onde Maximus, como general, procura impedir a invasão dos bárbaros germânicos, ele toma ciência do fato que o imperador, já velho, quer entregá-lo o trono. Commodus impede, matando seu pai, Marco Aurélio, assumindo o trono. Enquanto isso, Maximus é ferido, se perde de seu exército, torna-se escravo e depois gladiador, e começa a disputar batalhas ferozes até chegar na capital, no Coliseu.

Grande parte da beleza do filme está aí. Maximus é um cidadão de destaque para Roma, saiu do campo, ascendeu como soldado, decaiu, transformou-se, pelo destino, como se uma força maior exercesse algum controle sobre sua vida, escravo, e depois gladiador. Da plateia, saltou para o circo, passeando por diversas camadas políticas e sociais, representa várias classes, elementos. Podemos começar a ver o filme principalmente sobre essa ótica: não um mera história ambientada na antiguidade, com atos nobres e heroicos, mas um retrato humano de uma humanidade ativa, poderosa, que conquistou meio mundo e deixou marcas para sempre na história. Somos mais romanos do que desejaríamos. Nosso direito, nossos dogmas, nossas convenções, nossa arquitetura e nosso pequeno universo derivam diretamente daquele império e é, provavelmente, isso que Scott tenha desejado mostrar, afinal, mesmo o poster do filme já evoca a continuidade interrupta: ‘o que fazemos em vida ecoa por toda a eternidade’, um caráter notável principalmente se pararmos para pensar que era exatamente esse o aspecto que girava o mundo durante o período do crepúsculo do império: o povo romano levantavam monumentos, esculpiam retratos e erguiam sepulcros, acreditando que através dessas coisas, jamais estariam completamente mortos.

Seus memoriais trabalham muito menos com a índole da pessoa – algo que se tem certo destaque em funerais atuais – e muito mais com suas obras. É por esse motivo que a honra adquire uma importância muito mais fundamental da vida daquelas pessoas, e é aí que encontramos a motivação que engatilha a história de vingança de Maximus. O resgate da honra, o acerto de contas consigo mesmo, o culto aos antepassados e à família, as conspirações, as neo-filosofias, os jogos de poder, a mente megalomaníaca… Roma está retratada em Gladiador, não sob a ótica de um documento fiel, mas na elaboração ficcional de um épico. A retratística não é perfeita, o filme possui pequenos ou grandes erros (vai depender de quem assiste), mas a mensagem é clara.

5/5

Gladiador (Gladiator) – 2000, EUA. Dir.: Ridley Scott. Elenco: Russew Crowe, Joaquim Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounsou.