– por Guilherme Bakunin

Todos os personagens de O Preço de um Homem parecem existir em uma condição de extrema fragilidade, de forma que, durante o curso do filme (que acontece durante alguns poucos dias), os cinco personagens dificilmente têm algo a perder. James Stewart interpreta Howard Kemp, um homem com feridas do passado que busca entregar a cabeça de Ben Vandergroat (Robert Ryan, numa atuação elogiada que eu particularmente não achei tão impressionante) em troca de cinco mil dólares da recompensa.

Como inúmeros faroestes, O Preço de um Homem coloca seus personagens à disposição de um cenário que se relaciona com suas próprias condições, e os personagens se enfrentam (física ou psicologicamente) de forma a resolver suas questões. O que aparece com força nesse pequeno filme de Mann, no entanto, é que pelos personagens não terem nada a perder, as apostas estão terrivelmente altas.

E como o filme é um faroeste primariamente psicológico, onde o personagem de Robert Ryan usa da astúcia para separar o grupo e conseguir fugir da forca, o suspense torna-se às vezes quase insuportável. Porque apesar de existir certa previsibilidade em rumos específicos da história (como o triângulo amoroso que se forma entre Ben, Howard e Lina Patch, interpretada por Janet Leigh), não se sabe como cada personagem reagirá diante de certas circunstâncias.

E também porque Anthony Mann é um dos melhores diretores da antiga hollywood, existe uma arquitetura de personagens aqui que é impossível não ser esplanada. Mann dirigiu um dos meus filmes preferidos, Two O’clock Courage, cuja ambiguidade moral e sagaz metalinguística tornam impossível de se acreditar que seja datado de 1945. Em Naked Spur, contra a correnteza, não há grandes mitos de heróis e grandes acontecimentos de redenção. Há personagens que buscam lidar com aquela pequena e específica situação de forma a tirar o melhor proveito disso. Por serem personagens marginais, nenhuma regra ou convenção os apela. O que os motiva é o próprio egoísmo e desespero. Embora um pouco disso seja exposto nos diálogos (que são bem cansativos, às vezes), é através dos olhares e da composição que Mann consegue pintar esse quadro intricado e controverso.

Existe, é verdade, uma pequena redenção creditada ao personagem de Stewart, mas os acontecimentos que a precedem e a maneira abrupta com que ocorre me fazem acreditar que ela seja uma saída mais metalinguística e irônica do que algo realmente pensado à sério (assim como o final de Bigger Than Life de Nicholas Ray, por exemplo).

A sequência que precede essa supracitada redenção, aliás, é especialmente espetacular, e dura bem uns dez minutos. É uma sequência de ação silenciosa, cadenciada, onde os nervos de personagens e espectadores certamente permanecem à flor-da-pele, fazendo jus, com certeza, ao que o filme constrói durante sua metragem. Numa reviravolta de eventos, Ben consegue segurar refém a personagem de Janet Leight, e começa a atirar contra os outros três personagens, num terreno ensolarado e paradisíaco à margem de um rio (que me lembrou bastante o final de Pierrot Le Fou, sendo possível uma referência à Mann, que Godard idolatrava). Um a um os personagens são eliminados, não tanto pelo vilão encarnado Ben Vandergroat, mas pelos outros, seja o dinheiro, a ganância ou a obsessão. É um exemplo de mise en scène fantástico, de realmente elevar a ação até o limite, e explodir em êxtase, na certeza de se estar acompanhando algo realmente grandioso que o cinema sempre é capaz de criar.

Existem diretores que não são tão bons, que desenham num traço que esboçam, desmancham e redesenham por cima, na procura de atingir algo que seja límpido, bonito, porém impessoal. O traço de Anthony Mann é livre e direto, faz curvas quando quer, sem nunca tirar o lápis do papel. Não há linhas retas, não há impecabilidade. Todos os seus filmes – dos que vi, pelo menos – possuem defeitos, vícios, imperfeições. Mas isso faz parte do espetáculo, faz parte da catarse. Um bom filme não é impecável, mas geralmente possui o traço característico do seu autor.

Esse traço dificilmente se matura nos dias de hoje, onde há muita liberdade criativa nos circuitos alternativos aos das grandes produções. Na hollywood do sistema de estúdio dos anos 1950, onde as produções eram por demanda, com funções estritas e divididas, como numa fábrica, era mais difícil ainda. Mesmo assim, grandes diretores despontaram de lá, para entrar pra sempre na história. John Ford, Howard Hawks, William Wellman, Raoul Walsh, entre outros. Anthony Mann também foi um deles. É ainda um diretor pouco citado nas conversas, pouco prestigiado nos circuitos. Não há mostras dedicadas a ele, mas há dezenas para Charles Chaplin, por exemplo (cujo talento para comédia física não se sobrepõe ao de Mann para contar toda variedade de histórias). Mas há um esforço crescente por parte da crítica especializada para pagar tributo a esse grande mestre. Mann foi um dos mais exaltados diretores no livro-documentário de Scorsese, “Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano”, e desde então (1995), tem sido cada vez mais revisitado. Pelo bem do cinema, podemos esperar que seu artífice seja não apenas mais aplaudido, como também mais influente.

5/5

Ficha técnica: O Preço de um Homem (The Naked Spur) – 1953, EUA. Dir.: Anthony Mann. Elenco: James Stewart, Janet Leight, Robert Ryan, Ralph Meeker, Millard Mitchell.

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– por Allan Kardec Pereira

Os americanos adoram uma lição de moral familiar. Isso é um elemento forte nas narrativas hollywoodianas, desde o cinema clássico. Sempre a relação conflituosa entre pais e filhos. Na maioria das vezes a harmonia familiar que se fortalece diante das adversidades. Qualquer referência a um cenário econômico e político nada animador, nunca é mera coincidência. Isso vem desde, sei lá, Capra?

The Descendants, novo filme de Alexander Payne, que venceu o Globo desse ano, é mais um filme que nessa América pós-11 de Setembro, reforça esse filão moralista barato. Tal como “Amor sem Escalas”, Clooney interpreta um “homem sensibilizado”, distante do herói imbatível, que parece carregar todo esse mal estar da atual classe média americana, todas essas dúvidas. Dialoga, portanto, com o o estilo de filmes que o Oscar adora premiar. Atuações espalhafatosas com choros, gritos, esculhambações familiares, tudo bem ao gosto de “Crash – No Limite”. No fundo, uma mensagem rasteira de otimismo pregando a união familiar em tempos de crise – no caso do filme, Clooney interpreta um rico proprietário de terras do Havaí, chamado Matt King, que está com sua mulher em estado terminal e saí em busca do amante da mesma ao lado das filhas, buscando se aproximar destas.

O problema, contudo, não reside nem no moralismo. O azar de “Os Descendentes” é ele ser um legítimo filme ruim, muito ruim. Tanto no que concerne às atuações (as premiações americanas sempre tentam me desmentir, mas fazer o que?), como também com a trilha sonora intrusa, quanto nas segundas intenções do filme: afinal, nas entrelinhas, o filme parece ter sido encomendado pelo ministério do Turismo tentando divulgar as belíssimas praias do Havaí, afinal, divulgar as belezas naturais de casa é um bom caminho em tempos de crise. Muitas cenas são de uma falta de necessidade tão grande, que parecem servir apenas pra dar um passeio pelo lugar.

É um filmeco, enfim. Depois da catarse, tem aquele final bonitinho e pra cima que o público americano adora. Tem a valorização de preceitos morais, como o apego à suas propriedades (em detrimento da especulação imobiliária, a mensagem foi claríssima), a união familiar. Geralmente isso resulta em filmes ruins, nesse caso, o resultado me parece ser ainda pior, já que o filme parece ser “arrastado” demais pra o padrão fácil do grande público, tem horas que parece até aqueles filmes do Sundance que crescem durante a temporada de premiação e acabam abocanhando alguma coisa (quiçá algumas atuações, roteiro etc), mas não. A forma como Payne trabalha seu filme não acrescenta nada de interessante ao cinema atual. É um cinema fácil, um filme rasteiro, sem muitas possibilidades, sem vôos maiores. Um tipo frequente no cinema americano, e isso é que é o pior.

2/5

Ficha Técnica: Os Descendentes (The Descendants) Estados Unidos, 2011. Direção: Alexander Payne. Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Mattew Lillard, Judy Greer.

– por Luiz Carlos Freitas

Brian De Palma é um grande diretor, dos mais subestimados entre os americanos de sua geração, com grandes filmes que, se não desmerecidos e rebaixados (Fogueira das Vaidades, Femme Fatale, Olhos de Serpente), sofrem pelo puro desconhecimento por parte do público em geral, como Irmãs Diabólicas, A Fúria, Trágica Obsessão, Síndrome de Caim e Fantasma do Paraíso. Porém, o inverso também ocorre, e Scarface é o maior representante da superestimação em sua carreira.

Lançado em 1983, logo após o sucesso de Um Tiro na Noite, o filme narra a trajetória de Tony Montana, um imigrante ilegal cubano nos EUA que, de forma meteórica, ascende a líder do tráfico de drogas local. No meio do caminho, confronta-se com grandes traficantes internacionais, sofre algumas tentativas de homicídio, tenta pegar a mulher do chefe e até se envolve em uma trama de assassinato a um diplomata.

Como esse plot bem faz parecer, tudo compreendido entre os longos 170min de projeção de Scarface é exagerado, a começar pela atuação do seu protagonista, Al Pacino, provavelmente no papel mais over de sua carreira, cheio de cacoetes e falas berrantes (além do sotaque forçado) que, de tão caricato, beira o cômico em alguns momentos. E aos que defendem os excessos como “necessários” à construção da imagem ameaçadora do gangster, recomendo Anjos da Cara Suja, de Michael Curtiz. James Cagney coloca Pacino quietinho no canto da parede e ainda nos deixa de calças borradas, e tudo isso sem precisar ficar retorcendo a cara o tempo todo (só eu ou mais alguém lembrou do famigerado Tripa Seca com as caretas do Montana?).

Mas como não encontrar exageros nos filmes do De Palma? O excesso e, principalmente, o modo como subverte isso a seu favor, são algumas de suas marcas registradas (apesar de nem sempre corresponder como deveria). Aqui, pelo menos visualmente, tudo se encaixa perfeitamente. Temos a fotografia de John A. Alonzo (responsável também por Chinatown), carregada de cores berrantes e espalhafatosas, tão bregas quanto personagem e diretor (ainda estou elogiando-o), além das primorosas sequências de ação já características de sua carreira. O tão citado tiroteio final, realmente é brilhante (a panorâmica do corpo boiando na piscina ao final vale o filme), a cena mais referenciada do filme e certamente uma das mais memoráveis do cinema. Há também a perseguição ao carro com a bomba, onde De Palma mostra que sabe brincar com nossos nervos como poucos (e o assassinato no helicóptero – mais um de seus ótimos exercícios de sadismo).

Quanto à crítica, o filme também não se reserva dos extremos, sendo um dos grandes representantes do “ame ou odeie”. À época de lançamento, os veículos especializados cairam matando com a violência contida na obra. Cenas como a da tortura com uma motossera ou de Pacino cheirando uma montanha de cocaína horrorizaram o público, além dos diálogos excessivamente machistas (“Ela passa a metade da vida se vestindo e a outra tirando a roupa!”), comentários racistas (termos como “macaco latino” eram ditos a rodo) e, não bastando isso, ainda uma possível relação incestuosa entre Tony e sua irmã Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio), renderam a De Palma e seu roteirista (Oliver Stone marotão) os títulos de disseminadores da violência, criminalidade, misoginia e alguns outros atributos menos honrosos.

Mas, na mesma proporção em que foi limado, Tony Montana se tornou ícone, arrebatando seguidores por todo o mundo, alçando o filme ao status de cult. A violência descabida e palavreado chulo (até o lançamento de Pulp Fiction e Os Bons Companheiros, esse foi o filme com o maior número de repetições da palavra “fuck”) o colocaram como sinônimo de atitude e personalidade, além, é claro, de virilidade. A frase “Say hello to my little friend!” dita no final ficou eternizada. Muitos o vêem como uma “analogia complexa à busca pela consolidação do Sonho Americano”.

Todavia, Scarface não se mostra digno de nenhuma das duas vertentes, estando tão longe de ser o sinal da chegada do Apocalipse cinematográfico, como pregam os mais moralistas e sensíveis, quanto do posto de obra-prima complexa e revolucionária de seus mais fervorosos fãs. Há crítica social? Sim, sim. Mas explorada de forma bem rasa. De muito se fala (imigração ilegal, drogas, violência, corrupção), mas pouco realmente se diz a respeito. O roteiro de Oliver Stone é competente ao contar a saga do anti-herói, mas não se aprofunda em nenhum dos assuntos que discute, fazendo o célebre “O mundo é seu!” ao final soar vago. À certa altura do longa, tudo parece mais um mero pretexto para Montana coçar o saco, falar palavrões e matar pessoas.

Nada contra, mas esse subaproveitamento do tema soa bem decepcionante para um encontro de grandes nomes do cinema que prometia tanto, ainda mais se compararmos com o clássico original de 1932, Scarface – A Vergonha de uma Nação, dirigido por Howard Hawks, esse sim uma verdadeira obra-prima (apesar dos dois filmes não terem muita coisa em comum).

Claro, para o bem ou para o mal, Scarface mudou a vida e o modo de ver cinema de muita gente. Para mim, infelizmente, ficou no meio do caminho.
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3/5

Scarface (Idem) – EUA, 1983 – Dir.: Brian De Palma – Elenco: Al Pacino, Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Miriam Colon, F. Murray Abraham, Paul Shenar, Harris Yulin, Ángel Salazar, Arnaldo Santana, Pepe Serna, Michael P. Moran, Al Israel, Dennis Holahan