– por Bernardo Brum

Eu quero acordar na cidade que nunca dorme.

Somos recepcionados por Isaac, olhando a cinzenta Nova York em um muito apropriado preto e branco, e acompanhamos histórias sendo escritas, reescritas e jogadas no lixo a todo momento. Afinal, esta é uma cidade que nunca pára. Sempre há pessoas chegando, indo embora, se estabelecendo, arruinando-se, experimentando, chorando, brigando e apaixonando-se novamente. É quase impossível de acompanhar tantos fluxos sem ficar louco, é verdade. E é tão irresistível quanto.

Manhattan faz isso. Nossos corações estão quebrados e nossas mentes estão estimuladas. Isaac namora uma garota de dezessete anos, pula fora do emprego na televisão, se apaixona pela amante do seu melhor amigo, hostiliza e é hostilizado pela ex-exposa que agora é lésbica, e o pior de tudo, não é um exemplo para a posterioridade. Ele mal traga os cigarros que fuma, afinal de contas.

Aqui nunca vamos encontrar, infelizmente ou não, o grande protagonista que Hollwyood erigiu década após década. Quem é o protagonista, afinal? Um homem perdido em seus próprios ideais de dignidade, relacionamento e vida? Que sente arrepios quando ouve críticas negativas ao trabalho de Ingmar Bergman tal qual uma senhora ricaça sente fricotes quando é criticada pela sua cafonice? Ou é Manhattan, desconstruída e desglamourizada tantas vezes, com obras como Operação França, Caminhos Perigosos e Faça a Coisa Certa?

Teria um tragicomediante, frente a esses mestres do drama visceral urbano, seu espaço pra desconstruir Nova York? Pois sim; aqui sentimos de forma tão palpável que estamos sem deus, que talvez não sejamos nada mesmo nesse mundo, mas ora bolas, nós queremos redenção, não queremos?

Gordon Willis agarra nossos olhares e nos faz viajar em meio à tempestade, à lua (eu tive um impulso louco de jogar você na superfície lunar e cometer perversão interestelar…), as exposições, aos bares, restaurantes, charretes, quartos esfumaçados onde ainda há sexo no meio de tanta violência, dinheiro e arranha-céus, aos bancos defronte a pontes – tudo na mais emocionante das composições de quadro, naquele momento da noite em que só as nossas vozes importam, já que somos, provavelmente, apenas sombras apaixonadas observando milênios de cultura humana – milênios ainda não o suficientes para nos impedir de fazer besteiras, trairmos nossos corações, sermos desonestos com nós mesmos. Não nos livra também que somos medíocres vítimas do acaso, e que as mulheres cansam de nós, e que nossos amigos não são sempre leais, e diabos, talvez sejamos uns chauvinistas que não aprenderam a perder.

Mas se não há nada depois da falência múltipla dos órgãos, se somos garotos solitários em um universo ateu, talvez aqui nem tudo seja uma farsa. Talvez possamos fazer algo além de nos redimir para cada falha nossa. Não sabemos tratar bem nossos parceiros, desprezamos aqueles que mostram algum valor, brigamos pelos motivos mais bestas, como se ainda tivéssemos treze anos. Eu acho que nós somos afobados e descrentes demais – em relação a nós mesmos. Queremos ser perfeitos, queremos que tudo dê sempre certo. Mas somos humanos no final das contas, não é?

Vai saber. Woody não se atreve a responder. Nos acena com prédios, fogos de artifício e George Gershwin. Rhapsody In Blue para a Grande Maçã continuar acordada, mais uma vez, acendendo mais um cigarro e tentando com um pouco mais de doçura.

5/5

Ficha técnica: Manhattan – 1979, EUA. Dir.: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Michael Murphy, Karen Ludwig

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– por Guilherme Bakunin

Dói chamar o clássico do Woody Allen de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, mas deixando de lado essas sandices dos responsáveis pelo título brasileiro, é muito difícil esboçar algum comentário que traga uma visão nova do filme, mas mesmo em vão, a gente pode tentar. Alvy Singer é um comediante relativamente famoso de Nova York que recentemente rompeu o NAMORO (onde os tradutores brasileiros viram um noivado na relação dos dois, eu nunca vou saber) com Annie, aquela que ele acredita ser, talvez o grande amor de sua vida.

A estrutura de Annie Hall é fantástica. O filme não possui nenhuma ordem cronológica. Na verdade, é uma história passional, contada diretamente ao espectador por Alvy, onde ele simplesmente narra momentos aparentemente aleatórios, mas significativos, que num conjunto, formam a tese para o argumento final do filme (mesmo sem spoilers, dá pra falar: nós precisamos dos ovos). Até aqui, foram duas transgressões de Woody Allen: cenas desconexas cronologicamente sem o apoio de um narrador e a quebra da quarta ‘dimensão’ no cinema (a saber, o filme não dialoga com quem o assiste).

A narrativa de Alvy Singer busca uma resposta para a angústia vivida pelo personagem. Ele e Annie se amavam, eram felizes e formavam um casal inicialmente irretocável. Por que, então, eles terminaram? Repensando seus momentos, Allen põe em evidência a fragilidade nas relações entre as pessoas. Somos ligados uns aos outros por nós frouxos, que desatam com a simples turbulência. Somos “tubarões nadando até a morte”. Annie e Alvy terminam devido pequenas diferenças, que se acumulam e arrebentam a conexão existente entre eles. Mas se os relacionamentos são tão frágeis, como fazê-los durar? Em cenas duras, Allen -parece- defender a ideia de que a própria ignorância e superficialidade das pessoas são responsáveis pela manutenção de uma vida menos conturbada nesse aspecto. Ao ‘entrevistar’ um casal feliz no meio da rua, Alvy pergunta qual o segredo da felicidade de ambos, no que eles respondem “Eu sou vazia e superficial e não tenho nada de interessante a dizer”, “E eu sou a mesma coisa”. Essa é, por definição, uma forma de enxergar o filme.

Mas é claro que podemos arriscar de culpar as grandes neuroses de Alvy Singer e a grande relutância de Annie Hall como os fatores responsáveis pela queda do casal. Duas pessoas que estavam juntas e sentiam a necessidade de permanecerem assim, mostram-se idioticamente incapazes de concessões e agarram-se a seus próprios mundos, sem darem espaço ao outro para adentar neles. Talvez, esse seja um comportamento visto com crítica pelos olhos do Allen roteirista ou talvez esse seja um dos objetos de estudo na psicologia do filme, mas o certo mesmo é que existem outros casais em Nova York. Pessoas passeiam pelas ruas da cidade cinzenta o dia todo, os amigos de Annie e Alvy estão juntos e céus, há casais aparentemente felizes até mesmo em Los Angeles, CA. Talvez, o certo mesmo é que não haja segredo, e que a fórmula para uma vida feliz seja relativa, individual e subjetiva.

Annie Hall foi surpreendente e merecidamente premiado com quatro Oscars em 1978, dentre eles os de melhor direção e roteiro. Foi um ano em que o Academy Awards demonstrou enorme bom gosto e coragem, ao premiar um filme verdadeiramente transgressor, autoral, carregado não apenas com uma experiência pessoal-sensorial arrebatadora (pra mim, o filme é perigosamente identificável) mas também com mensagens (sim!) fortes e fracas, escrachadas e ocultas, que fazem do filme ser tão apreciado por qualquer tipo de pessoa, esteja ela ciente das pequenas revoluções ali retratadas ou não. Roteiro genial, submerso em diálogos rápidos e referências incontáveis, dono de um grande começo (“Annie e eu terminamos e eu ainda não consegui tirar isso da minha cabeça”) e de um grande final (“Nós precisamos dos ovos”), Annie Hall é pra mim, irredutivelmente um dos dez grandes filmes que eu já assisti.

5/5

Ficha Técnica: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall) – 1977, EUA. Dir: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Christopher Walken, Janet Margolin, Helen Ludlam.