– por Luiz Carlos Freitas

A realidade surge no espetáculo, e o espetáculo no real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente.”

– Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo

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Após Cidadão Kane, talvez o maior filme a tratar do chamado Quarto Poder e o modo como influencia a sociedade, e grandes obras relativamente recentes a respeito do tema, como Todos os Homens do PresidenteRede de Intrigas, Síndrome da China, O Quarto Poder e vários outros, A Montanha dos Sete Abutres ainda consegue se manter em uma posição de grande destaque, extremamente atual em sua abordagem, mesmo em vias de completar 60 anos de lançado.

No filme, Kirk Douglas vive Charles Tatum, um jornalista fracassado que tentava a sorte como repórter em um pequeno jornal numa cidadezinha do Novo México, após perder dois empregos anteriormente por sua total falta de escrúpulos e desapego à ética profissional. Segundo ele, tudo era válido em nome de uma boa matéria. Um dia, enquanto parava para abastecer seu carro, se depara com um acidente numa antiga mina de carvão aonde um homem havia sido soterrado. Ansioso por uma boa matéria, ele contraria a todos os que alertavam do perigo do local e vai até onde o homem, Leo Minosa (Richard Benedict), estava preso, constatando que este poderia ser facilmente retirado de lá.

Tatum, no entanto, ao invés da desgraça de um homem, vê ali a maior oportunidade de sua vida. Ele fora o primeiro a fazer contato com Leo e era o único que sabia como chegar até ele. A situação estava sob seu controle e, dessa forma, toda a repercussão do caso refletiria diretamente sobre ele. Tendo isso em mente, ele diz que a estrutura da caverna estava seriamente abalada e que qualquer forma de resgate imediato colocaria Leo em grave situação de risco. Em poucas horas, não só a cidade, mas toda a região e, claro, a mídia estavam mobilizadas por causa de Leo. E no meio disso tudo, Tatum, o legítimo portador dos fatos. Ou melhor, “legitimado”.

Dessa forma, se Charles Tatum era, mais que um simples filho da mãe, a representação da falta de ética e princípios em seu meio, seu autoproclamado “faro inigualável para boas notícias” seria um estandarte a esse comportamento mórbido tão comum ao homem ante a situações terríveis como a que Leo se encontrava, exatamente de onde ele tirava sua força e motivação, como o próprio evidencia logo nos primeiros minutos de filme, num breve diálogo com seu jovem assistente assim que se depara com o acidente do mineiro:

“- Isso é uma mina de ouro. Um homem vale mais do que 84. Nunca te ensinaram isso?
– Ensinar-me o quê?
– A curiosidade dos homens. Pegue um jornal e leia sobre 84 ou 284 homens mortos num desastre, ou um milhão, como numa fome na China. Você lê, mas logo esquece, pois isso não fica contigo. Mas com um homem só é diferente. Se quer saber tudo sobre ele, como aconteceu, se está bem. Isso é a curiosidade humana, garoto.”

Contudo, apesar do desenvolvimento da trama se dar em torno da situação trágica em que Leo se encontra, sua desgraça é mero artifício para a construção de uma alegoria perfeita ao que, anos mais tarde, seria também uma das bases defendidas pela Internacional Situacionista, e tema do célebre livro de Guy Debord (talvez seu maior representante) “A Sociedade do Espetáculo”. O trabalho do escritor e  cineasta francês, entre outros pontos, observava a influência da mídia na vida das pessoas, estabelecendo uma certa relação de interdependência também entre o capital e a visão que a sociedade estabelecia da vida, pautando seus valores e conceitos em uma esquemática mercantilista, em que cultura e, de certo, informação, passam a ser “produtos”, e o “espetáculo” o meio recorrente a se “vender” isso.

Não estou colocando que Billy Wilder tenha algo a ver com os acontecimentos que eclodiram na França no famoso “Maio de 68”, apenas estabelecendo um paralelo entre alguns pontos semelhantes às duas obras, uma vez que não só o princípio da “Curiosidade Humana”, como enunciado por Tatum, mas o próprio sentido do “espetáculo” move os acontecimentos de A Montanha dos Sete Abutres, a começar já pelo título original, o “Grande Circo”, este iniciado por Tatum, mas só indo adiante por ter um público sempre ali, assíduo por mais e mais.

Camisas com o nome de Leo, bandeirinhas e até mesmo fotos do mineiro eram vendidas próximo à entrada da mina;  nesse espetáculo promovido por Tatum, o público que assiste e colabora é tão culpado quanto quem o dirige, pois fica evidente que eles precisam  desse espetáculo, que o alarde, o “circo”, tudo é indicativo de que algo realmente importante está acontecendo. A panorâmica da multidão descendo eufórica de um trem, como que indo mesmo a um show ou apresentação circense, é de uma força descomunal, ainda mais por ser facilmente identificada nos dias de hoje, em casos semelhantes (vide as multidões formadas para acompanhar o sequestro da jovem Eloá ou a reconstituição da morte da pequena Isabella Nardoni, só para ficar nos exemplos mais recentes e próximos a nós).

O filme foi um grande fracasso à época de lançamento, o que é completamente compreensível. Em plena década de 50, um filme sem heróis, onde o grande protagonista é um completo canalha e a representante da classe feminina (Jan Sterling, esposa de Leo) é uma víbora que conta os minutos para a morte do marido, por si só já impactaria o suficiente. Mas, ferino como sempre, Wilder vai além, e em tempos em que o Macartismo ainda mostrava sinais de sua força, aponta o dedo na cara da crítica e do público, e acaba saindo por “anti-americano e desrespeitoso”. Pura hipocrisia de um público que não queria admitir o papel que por vezes assumia: o de canalha filho da puta.

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5/5

A Montanha dos Sete Abutres (Ace in The Hole / A Big Carnival) – 1951, EUA – Diretor: Billy Wilder – Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Bob Arthur, Porter Hall, Frank Cade, Richard Benedict, Frank Jaquet


– por Luiz Carlos Freitas

Você é feliz? Mas, antes de responder que sim ou que não, você consegue definir ao certo o que é a felicidade?

Simplesmente Feliz, o último trabalho do aclamado diretor Mike Ligh, trata exatamente disso. Somos apresentados à Poppy, uma professora de primário completamente de bem com a vida, que acredita que ser feliz tem de ser a razão de existir de qualquer um e, portanto, jamais abre mão do largo sorriso no rosto e de um otimismo extremo em qualquer que seja a situação. Temos um exemplo disso logo no começo do filme, quando ela tem sua bicicleta roubada e, ao invés de se irritar e soltar umas três dúzias de palavrões (como a grande maioria das pessoas faria), apenas lamenta por não ter podido “se despedir” dela, e sai caminhando toda sorridente, como se nada tivesse acontecido.

O roubo da bicicleta foi o estímulo que a faltava para começar a fazer aulas de direção e tirar sua carteira de motorista. Ela passa a ter aulas com Scott (Eddie Marsan), um homem nervoso e altamente temperamental que acaba se apaixonando por Poppy. O problema é que seu jeito altamente “feliz”  deixa Scott mais nervoso e irritado à cada novo encontro dos dois, culminando num confrontamento quase trágico entre as diferentes formas de pensar dos dois (o grande clímax final do filme).

Apesar de aparentar ser um trabalho “à parte” na irretocável filmografia de Mike Leigh, Simplesmente Feliz carrega consigo a marca de seu diretor, conhecido por seus dramas pesados e de ritmo lento, focados nas atuações e, principalmente, numa complexa construção de personagens. Não há um clima sufocante como em Agora ou Nunca ou Garotas de Futuro, a angústia de Segredos e Mentiras, tampouco a visão de mundo como uma sarjeta de Nu, mas temos em Poppy a representação perfeita do arqueótipo dos personagens de Leigh: bem além da falta de controle sobre os rumos da própria vida, a incapacidade de escolha sobre o que realmente importa, do que e se precisamos.

Poppy é convicta de que sua vida só será completa se manter-se feliz em todas as ocasiões. Ela tem trinta anos, não casou, não tem filhos, sem uma reserva de dinheiro para emergências (paga as contas e gasta o que sobra com bebida e festas), não pensa no amanhã, apenas no presente. Eese é seu conceito de felicidade, viver o presente e só. Há muitos que pensam da mesma maneira, mas creio que a grande maioria ache isso um verdadeiro absurdo. Mas, voltando ao questionamento do começo deste texto, há como afirmar se isso é certo ou errado, se essa é realmente o meio mais válido de se procurar a felicidade?

Se você espera encontrar a resposta a esse questionamento aqui, bem, esqueça. Mike Leigh  não nos dá uma resposta e esse acaba sendo o grande trunfo de Simplesmente Feliz. Diferente do que se poderia esperar das tradicionais comédias românticas bobas e esquemáticas, o diretor não faz um julgamento de Poppy e sua postura, apenas nos mostra variantes das duas vertentes, desapego e controle, e nos desperta à reflexão por meio de contrapontos, como a irmã controladora de Poppy ou a emblemática figura  do mendigo (o desapego total seria uma insanidade?) sendo o maior deles, talvez, o do neurótico instrutor da auto-escola.

Uma das críticas mais decorrentes ao filme por parte do público foi quanto ao jeito de Poppy, seu otimismo excessivo era mais que insuportável. E se quem já a achava irritante logo no começo, certamente passou a odiá-la após Scott entrar em cena. À cada novo encontro para aulas, sua paciência ante o comportamento dela vai se esgotando mais rápido. Chega a ser torturante acompanhar os diálogos dos dois, o sofrimento dele com as piadinhas e tiradas de Poppy. Em determinado momento, boa parte dos expectadores devem ter se visto projetados na figura de Scott. Até mesmo os que mais simpatizavam com a postura da personagem principal se viram, pelo menos, complacentes com a agonia do professor, que acaba por culminar em seu maior acesso de raiva e, consequentemente, na agressão por meio da qual Scott externaliza tudo aquilo que apenas transparecia.

Mas Poppy agora poderia ser considerada vítima de si mesma? Colocá-la como a única culpada por levar Scott à perder o controle, seria legitimar um ato de violência e, de certo, tão injusto quanto afirmar que ele não tinha motivo (ele podia ser uma pessoa perturbada e desequilibrada, mas ela o levou a tal). Dessa forma, e novamente fugindo de uma análise superficial, podemos perceber que Mike Leigh mantém-se firme em seu propósito, ao não nos ditar o que é certo ou errado. Mais forte que isso, nos conduz a uma auto-análise: com quem gostaríamos de nos identificar em tela? De um lado, o racista, homofóbico, violento, impaciente, misógino e alguns outros adjetivos ainda menos admiráveis; do outro, a jovem que apenas queria ser feliz. Pode parecer um posicionamento piegas e nem mesmo tão imparcial, mas ainda assim completamente válido, afinal o cinema de Leigh sempre foi, acima de qualquer mero conceitual, humano. Seus personagens, assim como todos nós, se escondem por trás de suas máscaras. Alguns mentem, outros roubam, uns fogem e há os que tentam pôr fim à própria vida. Poppy ri. É sua máscara, seu subterfúgio. E isso fica evidenciado na cena final.

Assim como o título original, “Happy-Go-Lucky” (expressão equivalente ao nosso “deixa a vida me levar”), ela se vê divagando sobre a vida com uma amiga em um barco num lago. E, ao ser questionada sobre planos futuros e se ver sem perspectiva alguma, se mascara com um sorriso, solta os remos e deixa o bote flutuando a esmo. E essa sua falta de certeza nos remete a um outro conhecido jargão, que diz que “rir de tudo é desespero”. E até pode ser. Mas muito mais desesperador me parece sucumbir à certeza de que a felicidade nos dias de hoje é algo tão impraticável e  negar que, talvez, ser feliz seja mesmo simples assim.

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4/5

Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky) – Inglaterra, 2009 – Diretor: Mike Leigh – Elenco: Sally Hawkins, Elliot Cowan, Alexis Zegerman, Andrea Riseborough, Sinead Matthews, Kate O’Flynn, Sarah Niles, Eddie Marsan, Joseph Kloska, Sylvestra Le Touzel, Anna Reynolds, Nonso Anozie, Trevor Cooper, Karina Fernandez, Philip Arditti

– por Luiz Carlos Freitas

De uma forma ou de outra, o Oscar sempre foi referência no meio cinéfilo, tanto por seus admiradores quanto pelos detratores. Até mesmo aos mais ‘neutros’ (meu caso) fica impossível se manter completamente indiferente quando a discussão envolve as supostas injustiças da Academia. Ao longo de seu quase século de premiação, são várias as queixas (grande maioria referentes à premiação principal), desde grandes filmes que nem sequer foram indicadas, como 2001: Uma Odisséia no Espaço, aos vários casos aonde os tido comumente como melhores não foram agraciados com a estatueta, como Apocalypse Now, Uma Rua Chamada Pecado, Os Bons Companheiros, Touro Indomável, O Exorcista e vários outros, sendo talvez, após a derrota de Cidadão Kane para Como Era Verde o Meu Vale (que, apesar da polêmica feita pelos mais afoitos, nem pode ser considerada uma injustiça), a vitória de Rocky: Um Lutador a mais condenada. O drama dirigido por John G. Avildsen desbancou Taxi Driver, de Martin Scorsese (considerado por boa parte da crítica especializada como um dos maiores filmes americanos já feitos).

Interpretando quase que a si mesmo, Sylvester Stallone vive o personagem-título, um lutador medíocre que deve até as partes íntimas e sobrevive às custas de pequenos serviços braçais e que se vê diante da oportunidade de mudar de vida quando recebe o convite do boxeador Apollo Creed (Carl Weathers) para uma disputa à parte de campeonatos valendo o seu título de Campeão Mundial. Para Apollo, era apenas mais uma jogada de marketing; Para Rocky, a chance de uma vida digna. Bastava apenas manter-se alguns rounds de pé e receber seu pagamento (além, é claro, de ter seu nome divulgado e poder, quem sabe, arranjar um emprego de verdade). Mas esse era um desafio certo de derrota. Assim, Rocky pede a ajuda de seu antigo treinador, Mickey (Burgees Meredith), para ajudá-lo em sua preparação.

O filme foi um sucesso estrondoso, gerando uma franquia com outros cinco longas (que, à exceção do penúltimo, foram igualmente bem sucedidos comercialmente). Contudo, sua vitória na categoria principal naquele ano, ao passo que trouxe notado prestígio à obra (e principalmente a Stallone, que fora lançado definitivamente ao estrelato), bastou para despertar a fúria dos que não concordaram com a decisão da Academia, atraindo até hoje críticas excessivamente negativas, boa parte delas sem nenhuma justificativa que vá além do discurso clichê de “não mereceu o prêmio que ganhou”, entre outras comparações desnecessárias com os demais indicados (além de Taxi Driver, Todos os Homens do Presidente e Rede de Intrigas são tomados constantemente como referência).

A bem da verdade, Rocky é, sim, bem inferior aos seus concorrentes na disputa à estatueta,  mas isso não diminui em nada seus méritos, uma vez que o filme é uma obra independente em seu desenvolvimento, estando relacionado aos outros apenas pela disputa ao mesmo prêmio e, livre de comparativos, cumpre perfeitamente sua proposta. Boa parte da força do filme deve-se ao roteiro (escrito pelo próprio Stallone), bastante simples, porém eficiente ao ponto de gerar uma empatia considerável com o personagem por parte do público. E, talvez, tenha sido essa aproximação a grande responsável pela premiação de Melhor Filme. Mas, antes de tudo, devemos avaliar o contexto histórico à época de lançamento do filme.

Quatro anos antes, explodira o escândalo de Watergate, com o arrombamento da sede do Comitê do Partido Democrata meses antes das eleições. Nas investigações, foi constatado o envolvimento do presidente Nixon que, dois anos após, abandona seu cargo na Casa Branca. Um escândalo que manchou a imagem da América. Nesse mesmo período, os EUA amargavam um grande desastre chamado ‘Vietnã’. O tão famoso ‘Orgulho Americano’ estava aos pedaços. Os estadunidenses sentiam vergonha de seu governo e de sua nacionalidade e nada parecia reverter aquilo. Algo precisava ser feito para dar a ‘injeção de ânimo’ que aquele povo precisava. Além do que, o Oscar nunca foi tomado por avaliar necessariamente a qualidade artística de seus indicados, quem foi ou não o melhor naquele ano, mas muito mais por uma extensa rede de puro lobby. Os votantes da Academia, críticos e profissionais do meio cinematográfico, baseavam suas escolhas no mercado, na receptividade que determinadas obras poderiam vir a ter ou não e os efeitos de ter seu nome relacionado a elas. Assim, antes os demais indicados, que abordavam a sujeira e baixeza da sociedade americana (Todos os Homens do Presidente trata justamente do Caso Watergate), Rocky pareceu ser a escolha mais acertada.

As cenas de treinamento árduo e ostensivo eram mostradas paralelamente a seus dramas pessoais e aos efeitos que aquela disputa tem em sua vida e na de todos ao seu redor. E são essas tramas paralelas que ganham o filme e o apreço do espectador, que via nos personagens imagens de si mesmos. Entre um soco e outro, vemos o desenrolar do romance entre Rocky e a tímida Adrian (Talia Shire), seus conflitos com o amigo Paulie (Burt Young) que, assim como ele, era mais uma vítima da falácia social daquele sistema. Mas o essencial nos remete de volta ao treinamento. Aquele homem simples que treinava com vigor, mesmo estando de estômago vazio, com as mãos ensangüentadas dando socos em uma peça de carne no frigorífico por não ter onde treinar, era um perfeito retrato do cidadão americano de classe baixa àqueles tempos.

Rocky Balboa se mostrava feito com um pouco de cada americano revoltado e envergonhado que, além dos parentes e amigos perdidos em uma guerra tola e dos escândalos do alto escalão do Governo, tinha suas humilhações diárias em uma vida simples que todo o resto da sociedade tentava fazer pequena, tomando-as como ‘causas perdidas’. Sly encarnava um novo tipo de herói, sem os super poderes de um Superman ou o charme e a inteligência de um James Bond: um homem simples, de carne e osso (e que mal sabia falar), que não pretendia sair por aí eliminando bandidos com as próprias mãos ou derrubar toda uma bancada de políticos corruptos, apenas provar a si mesmo e (se possível) aos outros que podia melhorar de vida e proporcionar isso à sua mulher.

Comparações à parte, da direção segura de Avildsen (que, fora esse e Karatê Kid – clássico das reprises na TV aberta -, não fez mais nada que mereça alguma menção) às grandes atuações (Talia Shire, Burt Young e Burgess Meredith estão fantásticos) e a trilha sonora assinada por Bill Conti, sempre lembrada na maioria das apresentações de boxe desde então (e que embala a sequência do treinamento de Rocky e a subida na escadaria da Biblioteca da Filadélfia, uma das cenas mais antológicas do cinema),  Rocky: Um Lutador consegue aliar perfeitamente uma plena eficiência cinematográfico a um grande valor humano. E isso, dentro da Sétima Arte,  é algo que não deveria ser ignorado.

“Não há nada que você não possa fazer. Se o gongo ainda não soou,
então a luta ainda não acabou. Agora vá lá e vença!”

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4/5

Rocky – Um Lutador (Rocky) – 1976, EUA – Direção: John G. Avildsen – Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Jimmy Gambina,  Joe Spinell

– por Luiz Carlos Freitas

Um filme de Brian De Palma aonde o mais comentado é o Tom Cruise … É, definitivamente tem algo muito errado aí.

Lançado em 1996, Missão: Impossível, adaptação cinematográfica de uma das mais famosas séries da TV americana, marca a estréia do astro como produtor. Cruise (que desembolsou algo em torno de 70 milhões para viabilizar o projeto) pode se considerar bem satisfeito. A franquia foi um tremendo sucesso de bilheteria (até mesmo o terceiro, que apurou menos que os anteriores, passou longe de deixar prejuízo). Contando com nomes de peso, desde os roteiristas, David Koepp (de O Mundo Perdido: Jurassic Park – e que já havia trabalhado com De Palma em Pagamento Final) e Robert Towne (do irretocável Chinatown, de Roman Polanski), ao elenco, Brian De Palma foi a cereja do bolo. Ou pelo menos deveria ser.

O grande problema de Missão: Impossível é esse choque autor-produtor.  De um lado, Brian De Palma, um cineasta autoral até a veia, mesmo em seus projetos mais comerciais e que, talvez por isso, amargou uma série de fracassos de bilheteria e crítica ao longo de sua carreira. Do outro, Tom Cruise e suas promissórias de quase 70 milhões que não iriam deixá-lo livre para  dar carta branca para o De Palma fazer o que bem entendesse com o projeto. Além do que, um fracasso não representaria apenas um prejuízo momentâneo, mas a longo prazo, uma vez que poderia representar a perda de uma provável franquia de sucesso (já que a série conta com fãs que a veneram há décadas).

Sendo assim, optando por algo mais palatável ao grande público, foi-se construído um roteiro bem mais simples do que se poderia esperar de um mestre como Brian De Palma. Na trama, Cruise vive Ethan Hunt, membro do grupo ‘Missão Impossível’, formado pelos melhores agentes secretos disponíveis ao governo. Durante uma operação secreta, todos são eliminados, um a um, e a culpa cai sobre Ethan, uma vez que ele foi o único a não ser atacado e, pelas condições das mortes, era provável que o assassino fosse alguém que conhecesse a operação por dentro. Daí, ele vai correr sozinho para provar a todos a sua inocência.

Trama bem simples e rasa. Não há uma mínima preocupação em se aprofundar as personagens. Eles simplesmente estão ali para dar seguimento aos fatos, nada além. Se por um lado isso não permite muita empatia com o público, por outro é o cabimento que o diretor (que nunca foi muito de se aprofundar nesse aspecto) precisava para exercitar seu total domínio da técnica. Uma trama de mistério que se desenrola de modo linear e, à partir de determinado ponto, começa a disparar reviravoltas para todos os lados. Traições, mentiras, agentes-duplos (e triplos) e toda uma sorte de surpresas que, próximo ao fim, chegam a beirar o surreal. E no meio disso tudo, além da belíssima fotografia de Stephen H. Burum (parceiro de De Palma desde Dublê de Corpo) e da nova versão por Danny Elfman da clássica trilha do seriado, as famosas set pieces do diretor (a primeira conversa de Ethan e o agente no restaurante, com os enquadramentos em seus rostos de baixo para cima, alternando e se aproximando num jogo de tensão extremo bem semelhante ao do confronto final entre vítima e sequestrador em Síndrome de Caim).

Claro, o filme tem muitos defeitos. Como já citado, o roteiro não nos permite uma maior aproximação das personagens, não há identificação com elas. Diferente da série, onde protagonistas e vilões constam atualmente entre os mais memoráveis da história da televisão americana, Ethan Hunt e companhia são esquecidos logo após o término da projeção. Talvez o único lembrado seja mesmo o protagonista, mas muito mais (óbvio) por causa de seu ator. Lamentável, tanto pelo seriado no qual o filme foi baseado quanto pelo próprio diretor, criador de tantos personagens inesquecíveis, como Tony Montana (Scarface), Carlitos (O Pagamento Final), Malone e Al Capone (Os Intocáveis), a personagem título de Carrie – A Estranha, entre outros.

Mas se as personagens não marcam, as cenas memoráveis são várias, e em cada uma delas De Palma imprime a sua marca. Ethan Hunt pode não ser tão referenciado, mas jamais esqueceremos a famosa cena da invasão ao computador central da agência (que já entrou para o hall das mais memoráveis  de sua filmografia – e do cinema) ou a impressionante sequência de luta final no trem e seu desfecho num túnel. De Palma nos mostra que ainda não seria dessa vez que ele deixaria algo o impedir de estraçalhar os nossos nervos como ele bem sabe fazer (dos mandos e desmandos da produção às leis da física, ele parecia não ligar muito) e que, mesmo com tantos defeitos, Missão: Impossível ainda é um entretenimento de primeira que, infelizmente, carrega a injusta marca de seu diretor: subestimado e incompreendido.

4/5

Ficha técnica: Missão: Impossível (Mission: Impossible) – EUA, 1996 – Diretor: Brian De Palma – Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott-Thomas, Vanessa Redgrave, Dale Dye, Marcel Iures, Ion Caramitru, Ingeborga Dapkunaite, Valentina Yakunina, Marek Vasut, Nathan Osgood

– por Luiz Carlos Freitas

Se imagine indo ao cinema para ver um filme de terror sobre pessoas sendo possuídas por demônios que saem matando e destruindo tudo por aí. Agora imagine que, no meio do filme, quando a sangria rola solta e você já está quase borrado de medo, as criaturas do filme saem da tela e comecem um massacre onde você está, exatamente assim, sem qualquer explicação lógica. Pois bem, esse é Demons – Filhos das Trevas, de Lamberto Bava (filho do célebre diretor italiano Mario Bava), uma pequena obra-prima do Cinema Fantástico Italiano (e um dos seus melhores e mais bem sucedidos representantes).

Antes de tudo, vale citar que alguns dos grandes nomes do cinema italiano à época estavam envolvidos no projeto, desde o roteiro do próprio Bava e Argento (que também produziu o filme) juntamente com Franco Ferrini (Era Uma Vez na América, Síndrome de Stendhal, Terror na Ópera) e Dardano Sacchetti (Zombie – A Volta dos Mortos, Terror nas Trevas, Shock), ao cultuado nos anos 90 Michele Soavi, que além de interpretar dois personagens, dirigiu a segunda parte do longa.

Extremamente bem feito aos padrões da época (gore caprichadíssimo), a obra, antes de tudo, é uma grande brincadeira metalinguística carregada de referências a outros clássicos do horror. Já no começo, vemos uma moça caminhando sozinha por uma rua escura e sendo perseguida por um sujeito ameaçador com uma capa preta (Michele Soavi). Ele à aborda e, ao invés de punhaladas (como já deve ser o esperado pelo expectador), a oferece um par de ingressos para uma sessão especial de reinauguração de um antigo cinema. Chegando lá, somos apresentados aos personagens principais no saguão do cinema, entre eles, uma prostituta que se fere ao colocar no rosto uma máscara de metal que adornava uma estranha escultura da entrada do prédio.

O filme começa e, na cena mais brilhante de Demons, as imagens e acontecimentos do filme exibido a eles vão se alternando e confundindo com o “real” (no caso, o que nós estamos vendo). Um grupo de amigos encontra uma antiga catacumba com o Diário de Nostradamus e uma misteriosa máscara de metal. Um deles (Soavi, em seu segundo personagem no longa) a coloca enquanto o outro lê uma sombria passagem do livro onde fala que “Eles farão dos cemitério as suas catedrais, e das cidades os seus túmulos”. Ao retirar a máscara, o rapaz corta o rosto exatamente como a moça no cinema, que à essa altura já está passando mal e se levanta para ir ao banheiro.

Bem, o que acontece é previsível. Numa cena cheia de sangue, pus e demais nojeiras (todas em close), ela se transforma no primeiro demônio assassino e desata a matar todos que encontra pelo caminho, um a um, até chegar na sala de exibição e iniciar o pânico geral. Uma das vítimas é atacada por trás da tela de exibição e, numa sequência excruciante, a vemos tentar rasgar a tela que a separa da platéia enquanto nesta é exibida uma mulher se escondendo em uma cabana que está sendo rasgada pelo monstro assassino. Seus gritos de socorro se confundem com os da atriz no filme e, ao fim, quando o demônio finalmente consegue invadir o esconderijo da personagem, a moça passa em meio à tela, caindo no chão, liberando o demônio e iniciando o terror.

A metalinguagem se mostra crucial em todo o decurso do filme. Os convidados presos no cinema (misteriosamente, todas as portas e saídas aparecem lacradas) são cada um dos expectadores de seu filme. Ao rasgar a tela e liberar o monstro na platéia, a finalidade do autor (no caso, autores) fica evidente: mostrar quem detem o controle, quem são algozes e vítimas e quem está por trás de tudo. Essa proposta identificada em Demons nem podia ser vista como algo novo. Muito pelo contrário, era uma grande ode ao veio autoral tão característico do Cinema Fantástico Italiano, onde seus realizadores abriam mão de pontos ditos primordiais a um filme (coerência narrativa é sempre o exemplo mais lembrado) em função da construção da atmosfera perfeita, onde contar a história era o de menos, sendo qualquer coisa pretexto para jogar o expectador naquele inferno em tela.

Talvez por isso, o filme não faça a menor questão de nos explicar quem promoveu aquela armadilha e quais suas razões, de onde vieram os demônios e como diabos as saídas do cinema foram lacradas tão rapidamente. A obra, dessa forma, seria um deboche, em uma comparação grosseira (e arriscada, admito), o Janela Indiscreta dos comedores de macarrão, só que em uma homenagem sem o glamour do Hitchcock, em forma de arremedo onde o que vale é a vontade do diretor e, ao expectador, resta apenas sentir medo. Nada de pensar, refletir ou encontrar alguma justificativa para algo. Apenas sentir medo. Só isso. Além, é claro, de se divertir descompromissadamente.

Esse desprendimento é um dos grandes trunfos de Demons. Apesar de ser uma nítida homenagem, a obra se mostra independente de referências,  atingindo assim um público bem maior por poder tanto ser apreciada por um admirador do gênero, quanto por quem procura apenas um bom filme de terror, com muita correria, sangue, violência explícita e diversão. Afinal, não precisa ser profundo conhecedor das teorias cinematográficas para vibrar com um carinha montado numa moto com uma mina gostosinha na garupa, correndo de um lado pro outro dentro de um cinema em chamas decepando braços e cabeças de zumbis-demônios com uma espada samurai (!!!), e tudo isso embalado pelos solos de guitarra nervosos do Accept.

A trilha sonora, aliás, merece menção honrosa. Billy Idol, Motley Crüe,  Rick Springfield, Saxon, Pretty Maids e outros nomes igualmente badalados à época ajudaram o filme a ganhar mais visibilidade ainda (não diminuindo a importância da score de Claudio Simonetti – ex-Goblin e imortalizado, dentre outras, pela trilha do clássico Despertar dos Mortos, de George Romero).

Contudo, ao passo que é um dos maiores filmes do horror italiano e ponto alto da filmografia de Lamberto é, provavelmente, a única coisa realmente boa que ele já fez, se perdendo em meio a giallo‘s vagabundos, como Morirai a Mezzanotte e, mais tarde, chegando ao fundo do poço, dirigindo filmes infantis para a TV. É bem provável que os maiores méritos de Demons sejam mesmo de Argento e Soavi, indiscutivelmente muito mais talentosos que Bava (que parece não ter herdado muita coisa da genialidade do pai).

Talvez, a exceção da medíocridade total em sua filmografia seja a própria “sequência” de Demons, que na verdade não tem nada a ver com esse aqui (apenas pega o argumento da possessão em massa e confinamento e joga em outra situação, substituindo o cinema por um prédio), que é até divertida, apesar de ser bem picareta, mas ainda assim longe de ser tão boa quanto o original. Uma pena, pois potencial criativo aqui é o que não faltava.

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5/5

Demons – Filhos das Trevas (Démoni) – Itália, 1985 – Diretor: Lamberto Bava – Elenco: Urbano Barberini, Natasha Hovey, Karl Zinny, Fiore Argento, Paola Cozzo, Fabiola Toledo, Nicoletta Elmi, Stelio Candelli, Nicole Tessier, Geretta Geretta, Bobby Rhodes, Guido Baldi, Bettina Ciampolini, Sally Day, Jasmine Maimone, Marcello Modugno, Michele Soavi, Lamberto Bava


– Luiz Carlos Freitas

Para fugir ao Nazismo, Fritz Lang teve de emigrar para os EUA, mudando sua vida, seus costumes e, consequentemente, seu cinema. Para alguns, o declínio; para outros, a maturidade criativa. Prefiro não me ater a nenhum dos dois extremos. Seu cinema continuou grande, talvez sem o mesmo impacto e brilhantismo de suas maiores obras Expressionistas, mas ainda assim tão ácido, sarcástico e crítico quanto.

Só Se Vive Uma Vez, seu segundo filme em território yankee, conta a história de Eddie Taylor (Henry Fonda), um ex-membro de gangue que já fora preso três vezes, todas por crimes “menores” e que está saindo em liberdade. Porém, segundo a lei estadual vigente à época, a sua quarta condenação, independente do motivo, representaria um passe imediato para a cadeira  elétrica. Disposto a se reabilitar e levar uma vida honesta, pede ajuda à sua noiva, Joan Graham (Sylvia Sidney), jovem secretária do Defensor Público Stephen Whitney (Barton MacLane), que o arranja um emprego como motorista e tenta mantê-lo a todo custo longe do crime.

Dividido em três atos distintos, acompanhamos a evolução do casal e sua relação de anacronismo progressivo com a sociedade, iniciando com a adaptação, seguindo a rejeição e, finalizando, a total negação do meio. No começo somos apresentados aos personagens principais. O clima é leve, agradável, com direito a algumas tiradas cômicas, como o jogo de baseball na cadeia, e juras de amor trocadas em um jardim, em meio às flores; logo vem o preconceito, os olhares tortos ao ex-presidiário, depois um crime e, por conseguinte, a condenação à morte por uma culpa presumida, culminando na revolta completa contra o meio, com a fuga da prisão e o desfecho trágico (e  bem previsível) do casal.

É notado o esforço de Lang em se adaptar e assimilar esse cinema que o era novo e o quanto isso impacta em sua obra. Ele estava na América e fazendo filmes com e, de certo modo, para americanos. Eram tempos difíceis e o reflexo disso estava em seu anti-herói, mostrado como mais uma vítima da grande Depressão e do sistema que não dá chances, a exemplo do chefe de Eddie, que o demite logo no primeiro dia por um mero atraso de uma hora e meia, além de se mostrar completamente irredutível, fazendo pouco de sua situação, esfregando na cara a condição de “ex-presidiário”, zombando e caçoando dele. Extremamente caricato, na mesma medida temos o padre Dolan (William Gargan), amigo do casal que persiste até o fim para que Eddie preserve sua integridade, chegando a clamar em favor daquele que o desferiu um tiro fatal.

O roteiro, diga-se de passagem, é bem falho. Boa parte da força do longa está mesmo em sua condução. Lang não perde ritmo, talvez ajudado pela curta duração (algo em torno de 80 minutos), que não deixa a correria do roteiro ficar entediante. Os traços remanescentes do Expressionismo se fazem presentes em algumas cenas, como de Eddie em sua ‘gaiola’ aguardando a execução e os guardas na guarita de segurança vistos por baixo, além de todo o clima sombrio e nebuloso do pátio da prisão na hora da fuga, a melhor cena do filme, ao lado da primorosa sequência da explosão das bombas no assalto ao banco.

Esquemático, se estendendo mais do que o necessário em apresentações (como as cenas do casal no jardim, os amigos na cadeia e o apelo insistente – irritante, eu diria – do verdureiro “assaltado” logo no início) e se aprofundando pouco (e rápido) em questões importantes, principalmente no terceiro ato, com a descoberta do crime, o perdão ao assassino e o casal pacífico virando “Bonnie e Clyde” e entrando para a lista dos mais procurados da América em questão de minutos. A ironia do perdão de última hora e a ânsia pela liberdade (que justificam o título do filme) quase passam completamente despercebidas, além, é claro, do tom maniqueísta de “a culpa não é minha, sou vítima do sistema” que permeia a obra.

Esses maniqueísmos lembram muito Frank Capra, cineasta americano queridão à época, com a diferença na sempre presente obscuridade do diretor alemão, mesmo que disfarçada pela ingenuidade aparente de sua dupla de protagonistas. Capra sempre encontrava um ponto em comum entre indivíduo e meio, corrigindo os desajustes, sendo eles do homem que se vê errado e, por meio do amor dos demais, se integra corretamente à sociedade (A Felicidade Não se Compra), ou quando o erro está no sistema, este se adaptando ao ideal de um homem de bom coração que desde o começo insistia em corrigí-lo (A Mulher Faz o Homem).

Para Lang, a esperança apenas não é tão forte ao ponto de operar ajustes, devendo-se, portanto, manter-se em sintonia com o meio, pois uma vez iniciada a descida, o trágico é o único destino, o que chega a ser contraditório com o defendido pelo próprio diretor em outra de suas obras (talvez a mais famosa delas), Metrópolis, aonde a subversão, mesmo acarretando consequências trágicas, levara a uma mudança para a melhor. Mas Lang não destrói a esperança. Ela ainda estava lá, diante dos olhos. A diferença é que não mais como agente de mudança, apenas um reconforto quando não resta mais nada a se fazer nem aonde ir.

Fatalista? Talvez. Mas Lang estava na América agora e tinha de dar a sua visão da nova pátria e, diferente de Capra, ele não acreditava nela.

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3/5

Só se Vive uma Vez (You Only Live Once) – EUA, 1937 – Direção: Fritz Lang – Elenco: Henry Fonda, Sylvia Sidney, Barton MacLane, Jerome Cowan, Margaret Hamilton, William Gargan, Charles ‘Chic’ Sale, Jean Dixon, Guinn ‘Big Boy’ Williams, Warren Hymer

– Luiz Carlos Freitas

Da confusão, do romantismo e da inadequação, Fraçois Truffaut concebeu o seu Antoine Doinel. Aparecendo pela primeira vez em Os Incompreendidos, Jean-Pierre Léaud deu vida ao personagem em mais outros quatro filmes do diretor, Amor aos 20 Anos, Beijos Proibidos, Domicílio Conjugal e tendo seu desfecho em Amor em Fuga. Cada um deles retratando uma fase diferente da vida de Doinel.

Sua segunda aparição se deu em 1962, com Antoine e Colette. O curta-metragem que levava seu nome era um dos segmentos de Amor aos 20 Anos, obra em conjunto de alguns jovens diretores promissores, como Andrzej Wajda e Marcel Ophüls, com pequenas estórias de paixões entre jovens e outros conflitos. Aqui, Antoine já está crescido, mora sozinho e trabalha em uma gravadora. Sua paixão pela música o apresenta à jovem Colette (Marie-France Pisier), por quem de imediato se vê apaixonado.

Tal qual o próprio Truffaut, que crescera sem um seio familiar amoroso, a jornada de Doinel, além de uma representação do diretor, e mais ainda que uma história de amor juvenil, é o anacronismo de toda uma fase em tela. Em pouco mais de 30 minutos, descobrimos a paixão, aprendemos a persistência, paciência, lidamos com a recusa, sentimos a dor e, mesmo contrapostos, seguimos em frente. Os anseios dessa fase da vida retratados de modo simples, direto, sincero e, claro, romântico.

Dolorido, mas cheio de amor, assim como a belíssima canção final de Georges Delerue, o cinema e a vida de Truffaut.

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“Eles fazem amor para os quatro ventos
Todas as crianças do mundo
Alcançando a vida para provê-la
Como uma maçã vermelha
O primeiro beijo os enche de tristeza

Mantenha meu coração em suas mãos
Poderá acabar em dor ou prazer
Isso é o que acontece com as crianças

De dois em dois
Eles seguem seu caminho
Celebrando o ‘Amor aos Vinte’.”

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5/5

Antoine e Colette (Antoine et Colette) – 1962, França – Dir.: François Truffaut – Elenco: Jean-Pierre Léaud, Marie-France Pisier, Jean-François Adam, Patrick Auffay, François Darbon, Pierre Schaeffer, Rosy Varte