– por Guilherme Bakunin

O cineasta inglês Terence Davies notabilizou-se por expor friamente a Inglaterra no pós-guerra, preenchida por personagens  que pouco falam e pouco se movem, como se tivessem retraídos de todos os lados por forças imensuravelmente intensas o bastante a ponto de extrair toda a naturalidade dessas pessoas. De forma robótica, os ingleses de Terence Davies interagem hostilmente entre si, revelando um reflexo de amargura da vida após a segunda-guerra.

Mas antes do interesse em retratar a Inglaterra, há inerentemente o interesse em retratar-se. De maneira quase expurgatória, Davies retorna à sua infância e visita seus traumas, seus problemas não resolvidos e suas descobertas.

Em Crianças (1976), Robert Tucker apanha dos colegas, visita o médico, assiste à aula, desperta sexualmente (homossexualmente, inclusive), vai para a casa, vê o pai doente, deseja sua morte, canoniza sua mãe, perde o pai. Robert vive cercado por um ambiente hostil e constantemente ameaçador e não parece encontrar oportunidades para se expressar, exceto no seu íntimo. Para fazer a conexão entre esse recalque na infância e a incidência desses golpes de repressão em um indivíduo “completamente formado”, Davies intercala a ação com pequenas passagens de Robert já adulto, com uma sutil interpretação de Robin Hooper, dando-lhe o ar de quem está à beira de um surto psicótico. A ação mais substancial que Robert adulto faz é sentar-se ao sofá e encarar o nada, passivamente.

Em Madonna e Criança (1980), Robert é um homem de meia-idade que ainda mora com a mãe e vive a debater-se entre uma vida de religião e sua busca por intimidade. Os personagens de Davies agora estão em ambientes mais obscuros que hostis, e há ainda menos relação entre pessoas do que em Crianças. Toda atitude genuína parece se desenrolar à espreita, inclusive a relação com a mãe, que é doce, forte e sincera, ocorrendo somente em interiores. Mas mesmo o relacionamento com a sua madonna pode refletir o que Robert realmente é: um homossexual consumido pela culpa católica, com a eloquência de uma criança na hora de expressar as suas vontades, seus desejos, suas aspirações. Ao final, há um enterro. Não da sua mãe já bastante idosa, mas o seu próprio. É o enterro da sua humanidade, da sua identidade. É a castração de quem realmente Robert é, suprimindo este ser por um outro, fabricado para atuar como objeto de vitrine para uma sociedade indistinta que julga apenas o que existe de mais superficial e aparente.

Em Morte e Transfiguração (1983), Robert Tucker é um velho moribundo que revisita suas memórias, das mais remotas às mais recentes, como se estivesse à procura de algum significado, algum sentido. É a mais curta das três histórias, e a que possui mais contemplação. Todos os objetos de flashback são frutos da memória de Robert, numa incessante expressão de incompreensão e de dúvida. Prestes a morrer, em seu último fôlego, sozinho, aterrorizado, debilitado e infeliz, Robert parece ver alguma coisa que lhe dá resposta para as silenciosas indagações. Não é uma resposta muito clara, mas é um lampejo de iluminação que dá forte sugestão que o segredo para a felicidade e satisfação pessoal nunca encontrados por Robert Tucker seria seguir seus desejos e experimentar a liberdade do auto-conhecimento.

Os três curtas que compõe essa trilogia existencial e extremamente pessoal de Terece Davies são narrados sob silêncios e músicas igualmente emblemáticos, que falam a respeito de algo que existe nos personagens, mas eles são incapazes de dizer. São imensamente pesados e delicados, e melancolicamente certeiros ao lidarem com culpa, arrependimento, sexualidade e memória. Um trabalho de expressão tocante, a respeito de um cineasta perfeitamente comprometido com a preservação da sua verdade e pessoalidade.

4/5

Ficha Técnica: The Terence Davies Trilogy – Reino Unido, 1983. Dir: Terence Davies. Elenco: Phillip Mawdsley, Nick Stringer, Val Lilley, Robin Hooper, Elizabeth Estensen, Malcom Hughes.

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– por Cauli Fernandes

O filme é tentativas variadas de solidificar e funcionar o suspense por meio de seriadas expressões graves do elenco. Um atrás do outro, os rostos dos atores se mostram ora em choque, ora horrorizados, ora reflexivos, ora absolutamente nada.

Mas vamos à história, antes de avacalhar com ela: em uma tarde ensolarada e alegre de uma cidadezinha dos EUA, uma “sombra” (ou algo assim) desce sobre o município, fazendo desmaiar toda a população (a imagem de todos caídos no chão, sem razão alguma, é um bom susto). Dali a nove meses se verá o resultado desse bizarro dia: crianças paranormais estranhamente parecidas uma com a outra, que nada têm a ver com suas mães, mas que parecem ter vindo do mesmo desconhecido pai.

Pelo menos, a equipe de filmagem sua a camisa para tornar o filme digno, mas nada parece ajudar: a fotografia e a direção de arte estão simplesmente feias, o cabelereiro estava de porre (as crianças parecem lâmpadas fluorescentes) e os efeitos especiais horrendos. E, bem, tem Kirstie Alley e suas caras de má, Christopher Reeve se esforçando, mas não conseguindo muita coisa; Mark Hamill provocando vergonha alheia ao não fazer jus ao seu passado de glória.

E no meio disso tudo está Carpenter, fazendo das tripas coração. O que ele tenta contar? O que ele tenta tirar no meio de tanta coisa ruim? Vejamos: em um lugar feliz, bonito e cheio de gente branca enjoada , chegam crianças com dotes sobrenaturais e com uma indiferença absurda à raça humana. Eles matam e não dão a mínima; querem simplesmente dominar nossa raça e o mundo.

Mas e os humanos nessa história? Tentam domar os inimigos. Os pequenos são postos em sala de aula, para que eles aprendam “humanidade”; quem somos nós para ensinar algo a alguém, principalmente sobre ser humano e bom? Uma multidão é convocada para matá-los, com facas e fogo; o padre tenta atirar na cabeça de um deles, friamente, provavelmente para salvar o “rebanho do Senhor”. Eles querem nos matar e nós queremos matá-los.

Desse jeito, quem está certo? Há tentativas de uma convivência pacífica, mas os pseudo-alienígenas não querem papo; oras, não ouvir o próximo e ser egoísta são duas características mais nossas. Durante o andamento das eras, dezenas de povos já lutaram e morreram contra outras por pedaços de terra. Nada de muito diferente que as crianças estão fazendo.

Esse é A Cidade dos Amaldiçoados, de John Carpenter. Pode parecer bom, mas eu disse: tem a cara de má da Kirstie Alley.

2/5
A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned) – 1995, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Kirstie Alley, Christopher Reeve, Mark Hamill, Linda Kozlowski.