– por Luiz Carlos Freitas

Brian De Palma é um grande diretor, dos mais subestimados entre os americanos de sua geração, com grandes filmes que, se não desmerecidos e rebaixados (Fogueira das Vaidades, Femme Fatale, Olhos de Serpente), sofrem pelo puro desconhecimento por parte do público em geral, como Irmãs Diabólicas, A Fúria, Trágica Obsessão, Síndrome de Caim e Fantasma do Paraíso. Porém, o inverso também ocorre, e Scarface é o maior representante da superestimação em sua carreira.

Lançado em 1983, logo após o sucesso de Um Tiro na Noite, o filme narra a trajetória de Tony Montana, um imigrante ilegal cubano nos EUA que, de forma meteórica, ascende a líder do tráfico de drogas local. No meio do caminho, confronta-se com grandes traficantes internacionais, sofre algumas tentativas de homicídio, tenta pegar a mulher do chefe e até se envolve em uma trama de assassinato a um diplomata.

Como esse plot bem faz parecer, tudo compreendido entre os longos 170min de projeção de Scarface é exagerado, a começar pela atuação do seu protagonista, Al Pacino, provavelmente no papel mais over de sua carreira, cheio de cacoetes e falas berrantes (além do sotaque forçado) que, de tão caricato, beira o cômico em alguns momentos. E aos que defendem os excessos como “necessários” à construção da imagem ameaçadora do gangster, recomendo Anjos da Cara Suja, de Michael Curtiz. James Cagney coloca Pacino quietinho no canto da parede e ainda nos deixa de calças borradas, e tudo isso sem precisar ficar retorcendo a cara o tempo todo (só eu ou mais alguém lembrou do famigerado Tripa Seca com as caretas do Montana?).

Mas como não encontrar exageros nos filmes do De Palma? O excesso e, principalmente, o modo como subverte isso a seu favor, são algumas de suas marcas registradas (apesar de nem sempre corresponder como deveria). Aqui, pelo menos visualmente, tudo se encaixa perfeitamente. Temos a fotografia de John A. Alonzo (responsável também por Chinatown), carregada de cores berrantes e espalhafatosas, tão bregas quanto personagem e diretor (ainda estou elogiando-o), além das primorosas sequências de ação já características de sua carreira. O tão citado tiroteio final, realmente é brilhante (a panorâmica do corpo boiando na piscina ao final vale o filme), a cena mais referenciada do filme e certamente uma das mais memoráveis do cinema. Há também a perseguição ao carro com a bomba, onde De Palma mostra que sabe brincar com nossos nervos como poucos (e o assassinato no helicóptero – mais um de seus ótimos exercícios de sadismo).

Quanto à crítica, o filme também não se reserva dos extremos, sendo um dos grandes representantes do “ame ou odeie”. À época de lançamento, os veículos especializados cairam matando com a violência contida na obra. Cenas como a da tortura com uma motossera ou de Pacino cheirando uma montanha de cocaína horrorizaram o público, além dos diálogos excessivamente machistas (“Ela passa a metade da vida se vestindo e a outra tirando a roupa!”), comentários racistas (termos como “macaco latino” eram ditos a rodo) e, não bastando isso, ainda uma possível relação incestuosa entre Tony e sua irmã Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio), renderam a De Palma e seu roteirista (Oliver Stone marotão) os títulos de disseminadores da violência, criminalidade, misoginia e alguns outros atributos menos honrosos.

Mas, na mesma proporção em que foi limado, Tony Montana se tornou ícone, arrebatando seguidores por todo o mundo, alçando o filme ao status de cult. A violência descabida e palavreado chulo (até o lançamento de Pulp Fiction e Os Bons Companheiros, esse foi o filme com o maior número de repetições da palavra “fuck”) o colocaram como sinônimo de atitude e personalidade, além, é claro, de virilidade. A frase “Say hello to my little friend!” dita no final ficou eternizada. Muitos o vêem como uma “analogia complexa à busca pela consolidação do Sonho Americano”.

Todavia, Scarface não se mostra digno de nenhuma das duas vertentes, estando tão longe de ser o sinal da chegada do Apocalipse cinematográfico, como pregam os mais moralistas e sensíveis, quanto do posto de obra-prima complexa e revolucionária de seus mais fervorosos fãs. Há crítica social? Sim, sim. Mas explorada de forma bem rasa. De muito se fala (imigração ilegal, drogas, violência, corrupção), mas pouco realmente se diz a respeito. O roteiro de Oliver Stone é competente ao contar a saga do anti-herói, mas não se aprofunda em nenhum dos assuntos que discute, fazendo o célebre “O mundo é seu!” ao final soar vago. À certa altura do longa, tudo parece mais um mero pretexto para Montana coçar o saco, falar palavrões e matar pessoas.

Nada contra, mas esse subaproveitamento do tema soa bem decepcionante para um encontro de grandes nomes do cinema que prometia tanto, ainda mais se compararmos com o clássico original de 1932, Scarface – A Vergonha de uma Nação, dirigido por Howard Hawks, esse sim uma verdadeira obra-prima (apesar dos dois filmes não terem muita coisa em comum).

Claro, para o bem ou para o mal, Scarface mudou a vida e o modo de ver cinema de muita gente. Para mim, infelizmente, ficou no meio do caminho.
.

3/5

Scarface (Idem) – EUA, 1983 – Dir.: Brian De Palma – Elenco: Al Pacino, Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Miriam Colon, F. Murray Abraham, Paul Shenar, Harris Yulin, Ángel Salazar, Arnaldo Santana, Pepe Serna, Michael P. Moran, Al Israel, Dennis Holahan

Anúncios

we own the night 2

– por Bernardo Brum

Começando com uma cena de sexo (repare: a deusa Eva Mendes desnuda nos primeiros cinco segundos) e terminando numa maré de incerteza e frustração, bastaram duas horas de projeção – e nenhum complemento extra, talvez, apenas assistir Amantes – para ter uma desconfiança – James Gray é, definitivamente, um nome promissor.

Em Os Donos da Noite, Gray mostra um domínio pra lá de eficiente do modelo clássico, para assim, contar a história de uma dolorosa e indesejada – porém, também necessária redenção – fica claro desde o primeiro momento que Bobby Green não quer seguir a carreira policial do pai e do irmão, quer apenas seu clube e sua namorada, e tudo isso desmorona simplesmente porque não pode mais andar na corda bamba de se inteirar com o submundo que seu estilo de vida e sua boate/casa de jogos representa e ao mesmo tempo ter a vista grossa da lei simplesmente pela questão da família.

Família esta que está presente a cada frame da obra. A todo momento, ela clama por ajuda, entra em discussão, explode, se desintegra e tenta, a todo momento, agarrar-se aos unicos laços, garantidos no período de sua formação, que talvez, e apenas talvez, consiga mantê-la de pé contra um mundo de crimes que não respeita nenhuma convenção.

Utilizando a jornada clássica do herói de forma totalmente anti-glamourizada, e que só parece existir, de fato, para que haja uma desconstrução de um protagonista que em momento algum quer embarcar nisso, mesmo depois de ver-se obrigado por alguma moral restante dentro de seu espírito “livre” a passar-se por traficante ou fazer parte de uma corporação, James Gray traça um curioso paradigma. Aqui, a corrupção da essência, a falência moral do personagem de Joaquin Phoenix se forma a partir do momento que ele têm de cooperar com um sistema que não acredita, não quer, não apóia. Só o sangue que o mantém preso a esse sistema, e implacavelmente, acaba tragando-o sem cerimônia. Tudo é dolorosamente pessoal – a perda do progenitor, por exemplo, não é vista de fora. O diretor e a câmera nunca saem do carro. Assim como Bobby, assistimos o mundo desmoronar de fora para dentro – e minar nossas esperanças. Esse tom extremamente pessoal guia o filme inteiro, por mais impiedoso e por mais que a alma, em algum momento, grite por algum distanciamento de toda aquela maluquice.

É curioso ver que, mesmo impregnando-se desse modelo antigo, assim como faz Clint Eastwood (certamente, uma das grandes influências do diretor), James Gray se utiliza disso apenas para jogar a todo momento com as expectativas do espectador em relação ao personagem e as expectativas do próprio protagonista, para assim, fazer uma história clássica, sim – mas sutilmente invertida e frustrante. O rei das festas, drogas e jogatinas agora está enfiado num uniforme de protetor da lei. Está de volta para casa, de volta para a família. Não resta dúvida que ele ainda ama o lugar de onde ele saiu. Então, por que tanto desconforto estampado no rosto?

4/5

Ficha técnica: Os Donos Da Noite (We Own The Night) – 2007, EUA. Dir.: James Gray. Elenco: Joaquin Phoenix, Eva Mendes, Robert Duvall, Mark Wahlberg

king of new york 3

– por Bernardo Brum

Abel Ferrara, filme após filme, fez do céu e do inferno forças que ditas opositoras, são assustadoramente próximas, conectadas e dependentes uma da outra. Do dilema do personagem de Harvey Keitel em Vício Frenético ao clímax com a serial killer surda-muda vestida de freira em Sedução e Vingança, entre tantos outros momentos de sua filmografia, Ferrara costurou um mundo onde a sociedade, para continuar a existir, é progressivamente contaminada por uma pestilência inevitável, uma corrupção irresístivel e uma tendência para a destruição impressionante.

Em O Rei de Nova York, a primeira de suas grandes obras-primas que iria realizar ao longo dos anos noventa, ele conta a história de Frank White, um chefão da cocaína de Nova York que, após anos encarcerado, se vê em liberdade de novo para mais uma vez reconstruir seu império, ajudado por sua gangue de traficantes negros.  Ao mesmo tempo que negocia e/ou combate outras gangues étnicas, também vê em seu encalço um grupo de policiais que desejam desesperadamente prender Frank e seus cúmplices.

Só pelo início, Ferrara já denuncia o que vem pela frente: cercado tanto da escória social quanto da alta cúpula da sociedade, White parece ser ideal para a profissão que escolheu: ao mesmo tempo, é refinado, implacável, charmoso e brutal – o que faz com que as pesoas nos postos mais altos da sociedade facilmente se sujeitem a ele, obriga outras gangues a se ajoelharem com sua mão de ferro, recruta bandidos não filiados, desperta desejo nas mulheres e a todo momento faz a polícia se sentir desafiada.

Toda a aura de mito urbano construído em cima de Frank – fazendo dele um nome muito mais citado do que visto – é construído de forma absolutamente genial pelo diretor, desde a dança que reintegra o gângster a sua gangue, o que lembra em muito uma dança tribal, ainda que estejam cantando hip hop até os travellings de luz, sombras, corredores e vidros que fazem o personagem de Walken, com seu penteado revolto, palidez e figura imponente parecer uma espécie de Nosferatu reconfigurado, que faz de Nova York sua Transilvânia, mas que ao contrário da figura que lhe deu origem, não é uma criatura amaldiçoada por tudo e por todos, ainda que seja o pária. O mais poderoso dos párias, mas o desajustado em todos os lugares que frequenta. Inclusive, o clássico de Murnau é citado explicitamente onde uma tentativa de negociação ocorre num cinema particular onde uma gangue asiática assiste filmes do expressionista alemão.

A estilização feita da violência é outro ponto impressionante a se destacar. De cada momento violento, o diretor faz disto um ponto chave de mudança do roteiro e arranca uma imagem impressionante atrás da outra. O tratamento que Ferrara dá a cada uma delas é preciso demais – desde a execução de um informante delator, que tem uns plongées e contra-plongées aterrorizantes até sua sequência mais famosa, onde em uma boate barra pesada toda iluminada de azul começam a surgir faíscas brancas que provocam um esporro sonoro tremendo. Dessa imensa tela azul que não se deixa enxergar mais nada além dos contornos, Ferrara vai rompendo com luzes que prenunciam morte, destruição e degradação – a paz pervertida do azul é corrompida pela luz das balas sendo disparadas, o interior da boate é rompido pelas infinitas ruas da Grande Maçã, o mormaço é substituído pela perseguição, a chuva rompe, começam as batidas e culminam nas mortes do mais leal dos traficantes e do mais dedicado policial.

Nessa cena, uma das maiores sínteses do cinema de Abel, podemos encontrar pela sua estética de raro domínio de compreensão e distorção de espaço o mesmo que vamos ouvir quando Walken invade o quarto de um dos únicos cabeças da operação que saiu vivo. “Você acha que me matando em algum clube noturno vai impedir o que leva alguém a se drogar?”, pergunta ele. “Eu não sou seu problema. Eu sou apenas um homem de negócios”. Após esse último discurso, vai embora. Numa perseguição de clima mais pesado ainda, o último momento de filme leva todos para o buraco. Policiais, civis e bandidos caem. Até o rei de Nova York, que faz o trânsito parar, o saudando sem saber. Sem marcha fúnebre, sangrando as tripas fora, sem o tapete vermelho, sem mulher, Frank White dá seu último suspiro encerrando uma das sequências mais sufocantes do cinema.

Objetivo, estilizado, metafórico e realista, Abel faz tudo chover na cara do espectador ao mesmo tempo, uma tempestade de paradoxos a nível de cartarse. Sem concessões ou freios, foi erguido um monumento cinematográfico de poderio inenarrável – uma das mais impressionantes orgias de imagem, luz, sombra, som, música e ruído da história.

5/5

O Rei de Nova York (King of New York) – 1990, Estados Unidos.  Dir.: Abel Ferrara. Elenco: Christopher Walken, David Caruso, Wesley Snipes, Steve Buscemi, Laurence Fishburne, Vanessa Angel, Erica Gimpel