por Bernardo Brum

Praticamente uma síntese do cinema fantástico italiano, Banho de Sangue exibe e consagra cada um dos elementos que fizeram esse tipo de cinema ser tão amado pelos admiradores: as histórias de traição e mistério saídas de romances baratos de banca de jornal, a beleza plástica violenta e enlouquecida, a sexualidade obscena e sacana, a ambiguidade mórbida de cada um dos seus personagens, tudo convergindo em filmes únicos e singulares. Os japoneses até que tentaram, mas cá entre nós: ninguém filmou terror feito a turma da terra da macarronada.

Sem precedentes, em um conto de ganância e assassinato narrado de forma absolutamente raivosa e imprevisível, esta obra – uma das mais influentes de Bava, que futuramente seria referência (e matéria-prima para cópia) de dez entre dez slashers – é deslocada no seu próprio tempo. Sua dose catártica de violência nem um pouco sutil é tudo os que os detratores de brutalidade no cinema mais detestam, e foi justamente assim no início da década de setenta: para aquela época, era absolutamente chocante.

Necessário lembrar, para contexualizar o leitor, que é anterior a Saló, Quadrilha de Sádicos, Holocausto Canibal e tantas obras que extrapolaram o limite de repulsa do espectador. Ainda estava longe de John Carpenter fazer Halloween e, portanto, mais longe ainda dos filmes de matança virarem produtos comerciais de grande expressão. A ousadia de Bava custou financeiramente, é claro – o filme naufragou nos cinemas. Mas como diria a velha sabedoria popular, a justiça tarda, mas não falha.

Grande parte do choque da obra vem do fato de ela ser completamente amoral: absolutamente todos os personagens do filme são cretinos e filhos da puta de marca maior – nem as crianças escapam da metralhadora giratória do italiano. O resultado é um filme sujo e sem freios – uma vez que a matança começa, não adianta torcer por um ou outro: o título original, “reação em cadeia”, já prenuncia o efeito dominó que vem por aí; todos vão cair como moscas (não à toa, a abertura do filme é um travelling ensadecido que acompanha uma mosca invisível até ela morrer e cair dentro de um lago) simplesmente porque abandonaram quaisquer valores éticos em troca de alguns trocados.

Uma década depois, Sexta-Feira 13 imitaria descaradamente as mortes do filme, mas insistiria em criar personagens castas e virginais para dar esperança a quem assistia de que “o bem sempre vence”. Ponto para Bava que, em frenesi sádico, abandonou ele mesmo qualquer compaixão e piedade e fez um filme abertamente transgressor, que sacaneava as expectativas de quem assistia na cara dura – tudo porque o velhinho parecia mais afim era de deslumbrar quem assistia com algumas das set-pieces definitivas dentro do gênero. Todas as composições de quadro são invadidas pelo sangue muito antes da primeira machadada – está nos ângulos de câmera estranhos, na ambientação suja, da fotografia que se utiliza de contrastes abusivos de cor. Os olhos do espectador então, já estão agredidos o suficiente para que comece a verdadeira porrada audiovisual que uma vez que começa, poucas vezes para pra respirar ou raciocinar. É um psicótico matando com a sua câmera – Peeping Tom sem nenhuma leitura semiótica escondida.

Pois Banho de Sangue é pura e simplesmente uma elegia da carnificina, um estupro aos olhos ouvidos, uma maluquice de marca maior. E se tratando de cinema de terror, isso é belíssimo. Se tratando do cinema fantástico italiano, então, é uma obra daquelas pra chamar de definitiva.

4/5

Ficha técnica: Banho de Sangue (Reazione a Catena/A Bay of Blood) – Itália, 1971. Dir.: Mario Bava. Elenco: Luigi Pistilli, Leopoldo Trieste, Claudine Auger, Claudio Camaso, Anna Maria Rosati, Chris Avram

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por Bernardo Brum

Na pele do escritor protagonista Peter Neal e do assassino cuja face só iremos ver na última cena, Argento põe em choque duas forças primordialmente opostas, e talvez justamente por isso, tão facilmente confudidas (a velha história dos dois lados da mesma moeda): a criação e a destruição. Pulsões de sexo e morte são jogadas na cara do espectador o tempo todo por meio de assassinatos encenados com uma obsessão ritualística não vista nem nos filmes anteriores do próprio Dario. Concentrar, de uma vez só, algoz, vítima, diretor e espectador através da câmera: Tenebre é, portanto, o grande exercício de metalinguagem de Dario Argento.

O interesse vem obviamente do fato de Dario filmar e problematizar a metalinguística do assassinato. E  o diretor utilaiza-se justamente de nosso interesse para, por mais de uma vez, nos levar da culpa ao êxtase – e vice-versa. Para tanto, sacrifica a sua principal busca – o simples whodunit, solucionado através de uma reconstituição de imagem, para então, no clímax do filme obter a imagem mais poderosa de todas – para chegar ao mesmo caminho. O roteiro de Tenebre é tão importante quanto a estilização de Argento, fazendo o refinamento constante de temas em comum dar um passo além. Uma atitude inteligente: você poderia achar que não havia mais para onde crescer depois de Prelúdio Para Matar e Suspiria, mas Argento insistiu em criar uma terceira via.

É isso que faz Tenebre ser um filme concentrado não no mistério do whodunit, mas no desenrolar dos fatos, onde o protagonista não tem a mínima curiosidade e não faz as vezes de detetive. Apenas atua como testemunha, suspeito, culpado, espectador. Aquele que investiga o mistério não é mais a figura principal – está em pé de igualdade com várias outras.. As partes envolvidas vão encarar um autêntico jogo de gato e rato – ou uma sinuca de bico, como preferir. Cada vez mais envolvido nos crimes que antes só existiam no plano das suas idéias, em forma de livros, Peter Neal tenta investigar quem suja sua reputação e ameaça sua vida por conta própria o que, é claro, só poderiam resultar em mortes. Mortes estas com doses extras de brutalidade; Argento não teve nenhuma sutileza e lançou mão de um hipergrafismo intenso até para quem já teve a proeza de filmar algumas das sequências mais impressionantes e/ou angustiantes do cinema fantástico italiano.

A forma que o realizador quis estreitar as relações entre criador, criatura e receptor configura algum dos momentos mais inacreditáveis do cinema – onde Dario, ao utilizar uma câmera subjetiva à espreita que passa a se movimentar com a liberdade de uma objetiva, dissipa quaisquer fronteiras técnicas e dramatúrgicas – o espectador é quem está matando, e a câmera que persegue duas mulheres é um grande ciborgue, onde a impulsão e o desejo se misturam ao meio. Nem terceira nem primeira pessoa. Um assassino-câmera.

Esse assassino inacessível e onipresente aparece e desaparece com rapidez incrível. Suspeitos caem feito moscas. Muitas vezes o roteiro dá muitas pistas sobre um determinado sujeito que irá morrer alguns minutos depois. E isso leva ao clímax do filme, onde a herança maldita é assumida – Peter deixa de contemplar os crimes que escreveu para cometê-los, fazendo-se ativo, transgredindo a posição de espectador e fazendo às vezes de autor.

É a chave para fazermos o mesmo: em dez minutos, irá ocorrer uma matança generalizada e completamente ensandecida – mais uma vez, há de se relaxar e gozar: nós pedimos por isso. O que não contamos é com uma força da natureza, o azar. Mais um assassino em potencial. Que desperta no minuto final do filme para destruir o criador, restando apenas a espectadora – que pasmem, mata por engano. Fecha-se, então, todo esse bestial conceito de Argento – se o espectador sobreviveu à criação e à destruição, ele é o grande culpado, o grande responsável. Que se chegou aqui, gostou disso, não adianta negar. A violência é inerente a cada um de nós, no final das contas. Resta apenas gritar de desespero, em um dos finais mais escabrosos e mesmerizantes do cinema em geral.

Uma estilização plástica e bruta para dissolver qualquer barreira entre prazer e dor, entre volúpia e sangue. Uma obra profundamente conceitual que analisou, antes de muita gente, o fascínio humano pela violência incontornável. Assim é o mundo retratado por Dario Argento. Assim é o mundo que ele compartilha com o espectador nessa obra. Lâmina, câmera e carne: eis Tenebre.

5/5

Ficha técnica: Tenebre (Tenebre) – 1982, Itália. Dir.: Dario Argento. Elenco: John Saxon, Daria Nicolodi, Ania Pieroni, Anthony Franciosa, Christian Borromeo, Mirella D’Angelo, Veronica Lario, Eva Robin’s

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– por Luiz Carlos Freitas

Sem textinho elogioso de introdução ao post de hoje. Ainda estou tendo espasmos dos orgasmos múltiplos que tive ao rever o filme (pela enésima vez) e selecionar as cenas para o post.

Cliquem nas imagens para ver em tamanho original (sério, FAÇAM ISSO) e qualquer coisa, to aqui do lado, fumando um cigarrinho e recuperando minhas forças, só me chamar nos comentários.

Crítica

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5/5

Suspiria (Idem) – 1977, Itália/Alemanha. Dir.: Dario Argento. Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi, Susanna Javicoli, Eva Axén, Rudolf Schundler, Udo Kier, Alida Valli, Joan Bennett.














































































– por Guilherme Bakunin

Em Terror nas trevas, Lucio Fulci delega para si uma das características mais marcantes de Mario Bava: o filme se concentra em torno da idéia da criação de uma atmosfera única e surreal de horror.

Sob esta lógica, tudo no filme pode fazer sentido. Não é como se a lógica narrativa fosse descartada em razão desse objetivo – a criação de uma atmosfera diferenciada -, mas este requer para si um sentido próprio. É por esse motivo que parece não haver linha do tempo nem espaço físico no filme. Corpos aparecem e reaparecem em lugares, tempos e circunstâncias diferentes, apenas para fazer fluir a narrativa, aumentando o terror na mente de quem assiste, e ainda de ressaltar o ponto ‘discutido’ por Fulci (mais uma vez, a atmosfera). Terror nas trevas é um pesadelo coletivo, e os espectadores compartilham deste sonho orquestrado pelo diretor, juntamente com os personagens.

O filme começa em 1927, onde um pintor é brutalmente torturado e assassinado (mas não antes de dizer que o hotel no qual se encontra é uma das entradas para o inferno) por o que parecem ser aldeões revoltados. Trata-se de uma cena forte, logo no inicio, que deixa claro a forma impiedosa como todas as personagens serão tratadas ao longo do filme. Após a morte desse misterioso pintor, a narrativa dá um salto de 50 anos no tempo e começa a acompanhar aquilo que seria os momentos finais de Liza – o que mais próximo podemos chamar de protagonista. Liza herdou o já citado hotel amaldiçoado de um tio que, para quem assiste ao filme, é anônimo. A história não dá rodeios: em menos de dois minutos, assustado com uma visão macabra de dentro do hotel, um pintor cai de uma plataforma e bate a cabeça. A partir desse instante, outros personagens nos são rapidamente apresentados para jamais serem devidamente desenvolvidos. Isso porque eles são meras peças que Fulci utiliza para glamourizar o gore, manipular a narrativa e criar um espetáculo para os sentidos. Não se trata de um filme que precisa ser detalhadamente entendido, pois é simplesmente baseado numa realidade alternativa ao próprio universo ‘normal’ da história (uma cidade no interior dos Estados Unidos) para adquirir significados próprios, que nem sempre podem ser traduzidos em palavras. É, de fato, um pesadelo.

Lançado em 1981, Terror nas Trevas não foi uma obra inovadora em nenhum aspecto, mas foi provavelmente o melhor filme do gênero e intenções utilizadas. Possui um trabalho autoral de Fulci na direção, que condensa a história em puro horror e objetividade, garante atuações aceitáveis e na dose certa para cumprir o objetivo de chocar, e trabalha de maneira inicialmente contida na criação ambiental para depois explodir com a as manifestações e eventos nos vinte minutos finais. Pode não ser o melhor trabalho de Fulci, mas com certeza tem força suficiente para figurar no topo de sua filmografia e consequentemente, entre os mais bem realizados filmes do cinema de terror italiano.

– ou aqui: Terror nas Trevas (Lucio Fulci, 1981) – Bernardo Brum [5/5]

5/5

Ficha técnica: Terror nas Trevas (E tu vivrai nel terrore – L’aldilà) – Itália, 1981. Dir.: Lucio Fulci. Elenco: Catriona MacColl, David Warbeck, Cinzia Monreale, Antoine Saint-John, Veronica Lazar, Anthony Flees, Giovanni De Nava, Al Cliver, Michele Mirabella, Gianpaolo Saccarola, Maria Pia Marsala, Laura De Marchi.

– por Luiz Carlos Freitas

Se imagine indo ao cinema para ver um filme de terror sobre pessoas sendo possuídas por demônios que saem matando e destruindo tudo por aí. Agora imagine que, no meio do filme, quando a sangria rola solta e você já está quase borrado de medo, as criaturas do filme saem da tela e comecem um massacre onde você está, exatamente assim, sem qualquer explicação lógica. Pois bem, esse é Demons – Filhos das Trevas, de Lamberto Bava (filho do célebre diretor italiano Mario Bava), uma pequena obra-prima do Cinema Fantástico Italiano (e um dos seus melhores e mais bem sucedidos representantes).

Antes de tudo, vale citar que alguns dos grandes nomes do cinema italiano à época estavam envolvidos no projeto, desde o roteiro do próprio Bava e Argento (que também produziu o filme) juntamente com Franco Ferrini (Era Uma Vez na América, Síndrome de Stendhal, Terror na Ópera) e Dardano Sacchetti (Zombie – A Volta dos Mortos, Terror nas Trevas, Shock), ao cultuado nos anos 90 Michele Soavi, que além de interpretar dois personagens, dirigiu a segunda parte do longa.

Extremamente bem feito aos padrões da época (gore caprichadíssimo), a obra, antes de tudo, é uma grande brincadeira metalinguística carregada de referências a outros clássicos do horror. Já no começo, vemos uma moça caminhando sozinha por uma rua escura e sendo perseguida por um sujeito ameaçador com uma capa preta (Michele Soavi). Ele à aborda e, ao invés de punhaladas (como já deve ser o esperado pelo expectador), a oferece um par de ingressos para uma sessão especial de reinauguração de um antigo cinema. Chegando lá, somos apresentados aos personagens principais no saguão do cinema, entre eles, uma prostituta que se fere ao colocar no rosto uma máscara de metal que adornava uma estranha escultura da entrada do prédio.

O filme começa e, na cena mais brilhante de Demons, as imagens e acontecimentos do filme exibido a eles vão se alternando e confundindo com o “real” (no caso, o que nós estamos vendo). Um grupo de amigos encontra uma antiga catacumba com o Diário de Nostradamus e uma misteriosa máscara de metal. Um deles (Soavi, em seu segundo personagem no longa) a coloca enquanto o outro lê uma sombria passagem do livro onde fala que “Eles farão dos cemitério as suas catedrais, e das cidades os seus túmulos”. Ao retirar a máscara, o rapaz corta o rosto exatamente como a moça no cinema, que à essa altura já está passando mal e se levanta para ir ao banheiro.

Bem, o que acontece é previsível. Numa cena cheia de sangue, pus e demais nojeiras (todas em close), ela se transforma no primeiro demônio assassino e desata a matar todos que encontra pelo caminho, um a um, até chegar na sala de exibição e iniciar o pânico geral. Uma das vítimas é atacada por trás da tela de exibição e, numa sequência excruciante, a vemos tentar rasgar a tela que a separa da platéia enquanto nesta é exibida uma mulher se escondendo em uma cabana que está sendo rasgada pelo monstro assassino. Seus gritos de socorro se confundem com os da atriz no filme e, ao fim, quando o demônio finalmente consegue invadir o esconderijo da personagem, a moça passa em meio à tela, caindo no chão, liberando o demônio e iniciando o terror.

A metalinguagem se mostra crucial em todo o decurso do filme. Os convidados presos no cinema (misteriosamente, todas as portas e saídas aparecem lacradas) são cada um dos expectadores de seu filme. Ao rasgar a tela e liberar o monstro na platéia, a finalidade do autor (no caso, autores) fica evidente: mostrar quem detem o controle, quem são algozes e vítimas e quem está por trás de tudo. Essa proposta identificada em Demons nem podia ser vista como algo novo. Muito pelo contrário, era uma grande ode ao veio autoral tão característico do Cinema Fantástico Italiano, onde seus realizadores abriam mão de pontos ditos primordiais a um filme (coerência narrativa é sempre o exemplo mais lembrado) em função da construção da atmosfera perfeita, onde contar a história era o de menos, sendo qualquer coisa pretexto para jogar o expectador naquele inferno em tela.

Talvez por isso, o filme não faça a menor questão de nos explicar quem promoveu aquela armadilha e quais suas razões, de onde vieram os demônios e como diabos as saídas do cinema foram lacradas tão rapidamente. A obra, dessa forma, seria um deboche, em uma comparação grosseira (e arriscada, admito), o Janela Indiscreta dos comedores de macarrão, só que em uma homenagem sem o glamour do Hitchcock, em forma de arremedo onde o que vale é a vontade do diretor e, ao expectador, resta apenas sentir medo. Nada de pensar, refletir ou encontrar alguma justificativa para algo. Apenas sentir medo. Só isso. Além, é claro, de se divertir descompromissadamente.

Esse desprendimento é um dos grandes trunfos de Demons. Apesar de ser uma nítida homenagem, a obra se mostra independente de referências,  atingindo assim um público bem maior por poder tanto ser apreciada por um admirador do gênero, quanto por quem procura apenas um bom filme de terror, com muita correria, sangue, violência explícita e diversão. Afinal, não precisa ser profundo conhecedor das teorias cinematográficas para vibrar com um carinha montado numa moto com uma mina gostosinha na garupa, correndo de um lado pro outro dentro de um cinema em chamas decepando braços e cabeças de zumbis-demônios com uma espada samurai (!!!), e tudo isso embalado pelos solos de guitarra nervosos do Accept.

A trilha sonora, aliás, merece menção honrosa. Billy Idol, Motley Crüe,  Rick Springfield, Saxon, Pretty Maids e outros nomes igualmente badalados à época ajudaram o filme a ganhar mais visibilidade ainda (não diminuindo a importância da score de Claudio Simonetti – ex-Goblin e imortalizado, dentre outras, pela trilha do clássico Despertar dos Mortos, de George Romero).

Contudo, ao passo que é um dos maiores filmes do horror italiano e ponto alto da filmografia de Lamberto é, provavelmente, a única coisa realmente boa que ele já fez, se perdendo em meio a giallo‘s vagabundos, como Morirai a Mezzanotte e, mais tarde, chegando ao fundo do poço, dirigindo filmes infantis para a TV. É bem provável que os maiores méritos de Demons sejam mesmo de Argento e Soavi, indiscutivelmente muito mais talentosos que Bava (que parece não ter herdado muita coisa da genialidade do pai).

Talvez, a exceção da medíocridade total em sua filmografia seja a própria “sequência” de Demons, que na verdade não tem nada a ver com esse aqui (apenas pega o argumento da possessão em massa e confinamento e joga em outra situação, substituindo o cinema por um prédio), que é até divertida, apesar de ser bem picareta, mas ainda assim longe de ser tão boa quanto o original. Uma pena, pois potencial criativo aqui é o que não faltava.

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5/5

Demons – Filhos das Trevas (Démoni) – Itália, 1985 – Diretor: Lamberto Bava – Elenco: Urbano Barberini, Natasha Hovey, Karl Zinny, Fiore Argento, Paola Cozzo, Fabiola Toledo, Nicoletta Elmi, Stelio Candelli, Nicole Tessier, Geretta Geretta, Bobby Rhodes, Guido Baldi, Bettina Ciampolini, Sally Day, Jasmine Maimone, Marcello Modugno, Michele Soavi, Lamberto Bava

seis

– por Guilherme Bakunin

Nova excursão do diretor italiano Mario Bava ao gênero criado pelo próprio, Seis mulheres para o assassino contém elementos característicos da arte giallo e da direção extremamente manipuladora e perigosa do diretor. Em 1963 Mario Bava lançou Olhos Diabólicos (La Ragazza Che Sapeva Troppo), didaticamente reconhecido por ser o primeiro giallo da história. Esse tipo de filme possui a trama central concentrada no “whodunit”, ou seja, alguém comete um crime e a polícia tenta descobrir quem. No entanto, em giallos o assassino geralmente mata em série, tem problemas relacionados a traumas (muitas vezes de infância) e boa quantidade de sexo, sangue e violência. No cinema, ainda é característico do gênero trilhas de áudio não convencionais e certos elementos de óperas nas atuações.

Nesse segundo filme do gênero, o diretor Mario Bava realiza com um de seus trabalhos mais impressionantes em fotografia, um verdadeiro épico do horror. A história é concentrada em uma espécie de casa de modelos. Isabella, uma das alunas, é brutalmente assassinada – em uma das cenas de assassinados mais bonitas da história – e diversas pessoas se envolvem na história durante a investigação. Agora, cinco das principais modelos serão atacadas, uma a uma, pelo misterioso assassino.

A grande qualidade por trás do filme está em como foi estruturado. A câmera de Bava passeia por entre os personagens, muitas vezes vai inclusive até o seu íntimo, mas os despreza, fazendo questão de mostrar o quão dissolutos são. Muitos deles envolvidos em relacionamentos que em questão do assassinato e também pela própria impersistência dos casais, acabam se rompendo. Com esse desdém, o diretor posiciona o âmago do expectador onde deseja e cria o espetáculo. O concerto feroz de assassinatos embalado por música, grito e sangue, este último inclusive tendo representação perpétua por toda a projeção, pois o vermelho é a cor exaltada nos cenários e nas roupas e objetos dos personagens. Além de manipular o expectador na estrutura narrativa, com o auxílio do título original da obra, Bava surpreende ainda mais num dos finais mais chocantes e significativos do gênero giallo.

Seis Mulheres para o Assassino é um filme cruel, que muito mais do que apenas servir como terror impressionista, brinca com a fugacidade do amor e a manipulação e insignificância dos relacionamentos. Fotografia com saturação forte, ambientação antológica e os assassinatos mais exorbitantes que a década de 60 já viu, é uma obra que se destaca dentre os filmes do mestre Bava e que ocupa um dos patamares do terror de toda a história do cinema.

5/5

Ficha técnica: Seis Mulheres para o Assassino (Sei donne per l’assassino) – 1964, Itália. Dir.: Mario Bava. Elenco: Cameron Mitchell, Eva Bartok, Thomas Reiner, Ariana Gorini, Dante DiPaolo, Mary Arden.