por Bernardo Brum

Dos mestres da violência oriental, poucos conseguiram ganhar o mesmo status que John Woo – que também foi um dos que deixaram para a posterioridade a câmera lenta nas cenas de matança ao lado de outros especialistas no cinema do gênero Enzo G. Castellari e Sam Peckinpah, este último uma das grandes influências do chinês.

Um dos filmes responsáveis por criar uma vertente bem específica do cinema policial, uma espécie de carnificina heróica com uma subtrama de melodrama que permeia todos os seus filmes, O Matador é um dos produtos mais bem acabados de Woo. Essa cruza de todos os policiais e faroestes contraculturais com o senso de honra ainda que ambíguo da velha Hollywood resultou em filmes no mínimo diferentes, onde seus protagonistas-exércitos-de-um-homem-só são responsáveis pela contagem de corpos equivalentes a de uma guerra civil e tem de lidar com romances tempestuosos e relações de afeto e fidelidade um tanto conturbadas e mutantes.

Os personagens principais são homens do velho mundo – um assassino de aluguel que acidentalmente quase cega uma cantora durante uma de suas missões e cai de amores por ela, obcecado por lhe devolver a visão e um ex-policial obstinado que perde o parceiro em parte por culpa do pistoleiro fora-da-lei  e busca compensação por isso. São quase estereótipos, dada a sua simplicidade na sua construção, mas funcionam: o diretor faz o máximo para esticar a tensão até a última cena, onde eles precisarão sobrepujar toda uma organização mafiosa não apenas para salvar a visão (e a vida) de uma garota indefesa sempre a um fio de descobrir a identidade terrível do amado, mas também buscar uma compensação, ainda neste mundo, por suas vidas dedicadas unicamente à violência.

Como em Meu Ódio Será Sua Herança ou Pat Garrett & Billy The Kid, a sensação de não pertencimento predomina por toda a película, onde os dois clássicos guerreiros, munidos de armas de fogo de alto potencial destrutivo, se engajarão em combates cada vez mais impossíveis filmados não apenas de forma frenética e sufocante, mas também com certo lirismo triste por parte do diretor: a dramaticidade dos combates não é gratuita. Eles realmente estão apostando tudo o que tem para tentarem encontrar uma resposta para essa eterna busca de sentido pela validade de uma vida. Seja nos olhos de uma garota, seja na justiça por alguém que partiu deste mundo de forma brutal, a matança absurda dos filmes do John Woo tem seu lado humano e angustiado.

E esse cuidado que Woo tem com seus personagens, que seria visto também nos melhores filmes da sua fase americana, como A Outra Face, que faz toda a diferença do mundo. Partindo dessa premissa, o chinês faz tiroteios e impasses mexicanos que realmente importam e que realmente tem carga dramática. A narrativa movida a nitroglicerina pára por mais de uma vez para analisar as existências atribuladas; cada plano é uma verdadeira ode sobre a violência e os momentos em que a câmera prolonga são como as notas sustentadas de uma canção triste e antiga engolida pela violência impiedosa que não escolhe vítimas. A lentidão existe para sustentar o desespero, a agonia e o pânico.

Com um final pra lá de triste e agressivo, sem concessão ou piedade de seu espectador, O Matador é produto de uma rara sensibilidade entre os autores de filmes de alto orçamento. Simples, violento e dramático, a tristeza sangrenta dos melhores filmes de John Woo levam suas obras além do mero filme comercial de ação e mostram que contador excepcional de histórias diferenciadas é desprezado como artista de segundo escalão. Mas a boa disposição, aposto, ainda fará com que vejam esse artífice dedicado com melhores olhos. E filmes como este, elevados à uma categoria de maior consideração entre os clássicos realmente relevantes de um gênero tão subestimado. Porque qualidade, assim como balas disparadas, não faltam.

4/5

Ficha técnica: O Matador (Dip huet seung hung) – Hong Kong, 1989. Dir.: John Woo. Elenco: Yun-Fat Chow, Kenneth Tsang, Danny Lee, Sally Yeh, Kong Chu, Fui-On Shing

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por Bernardo Brum

Assistindo filmes como esse que fica difícil de entender como Abel Ferrara não é reconhecido, pelo menos em escala bem maior, como um dos principais realizadores dos últimos anos. A história altamente estilizada sobre a dura realidade dos imigrantes nos EUA através da história de amor entre um adolescente italiano e uma garota chinesa que tem de sobreviver à intensa guerra entre as gangues étnicas que dominam os bairros pobres reaproveita parte do conceito da clássica tragédia Romeu e Julieta de William Shakespeare e mostrar que as histórias de amor impossível ainda  ocorrem. Entre Shakespeare e Ferrara, mesmo com todas as mudanças socio-culturais, ainda há a intolerância, o preconceito e o ódio.

A história simples de Ferrara, porém, não é inocente. Seu poder se dá justamente pelo minimalismo do roteiro, construindo os personagens como representações de párias entre os párias; e pela estilização do underground e da marginália à base de figurinos, trilha sonora própria à época e pelas luzes delineando as curvas dos becos escuros e montando, ao mesmo tempo, um campo de batalha entre afeto e ódio, perda e esperança e um palco onde guerreiros urbanos testam sua virilidade em lutas coreografadas como um balé violento.

Mas longe de representações que acabaram por se tornar datadas desse meio, como Warriors – Os Selvagens da Noite e seu desfile de uniformes e fantasias, a parábola de Ferrara sobre a violência que traga todas as emoções humanas e as deixa estateladas no chão em um emaranhado de sangue, vísceras e lágrimas ainda é intensa mais de vinte anos depois. Mesmo com os figurinos, interiores e músicas ainda seguindo aquela estética oitentista que já se tornou involuntariamente engraçada nos dias de hoje, Inimigos Pelo Destino é um filme muito denso e muito trágico, que com sua câmera exagerada, livre e sem floreios (inclusive com alguns dos travellings mais incríveis já vistos) enfoca, para variar, o assunto preferido de Ferrara: o nosso lado feio e condenável, que por alguma razão misteriosa é o que damos ouvidos. A pulsão de vida é sempre rejeitada com facilidade impressionante.

Esse masoquismo e atração pelo erro, vício e decadência é tratado com a propriedade que só Ferrara saberia tratar, em sua forma mais simples e talvez por isso mesmo tão poderosa: não há quem fique indiferente a esta história ao mesmo tempo tão compreensível e tão complexa, que pouco precisa de diálogos, acontecimentos ou reviravoltas para chegar nas camadas além do óbvio. Sem rodeios e com culhões de sobra, em sua primeira grande obra-prima, que precederia toda uma leva que o homem lançaria depois desconstruindo esse “lado negro” numa das filmografias mais impecáveis já vistas.

5/5

Ficha técnica: Inimigos Pelo Destino (China Girl) – EUA, 1987. Dir.: Abel Ferrara. Elenco: James Russo, David Caruso, Russell Wong, Richard Panebianco,Sari Chang, Joey Chin