por Bernardo Brum

Teorema, por Euclides: “a afirmação que pode ser provada”. Provar teoremas é a principal atividade de um matemático.  Para provar um teorema social, Pasolini.

Perguntado certa vez se  gostava de viver, dada a carga pesada e pessimista dos seus filmes, o diretor respondeu que sim, e emendou: “É a sociedade burguesa que não me agrada. É a degeneração da vida no mundo.

Terence Stamp é o visitante. Hóspede de uma família burguesa que acaba seduzindo um por um – o pai, a mãe, o filho, a filha e a empregada. Com isso, Pasolini dava a sua visão da presente revolução, que estourava naquele ano em Paris e em outros países – a mulher e o jovem revisavam seu papel na sociedade. No filme, é mais ou menos isso que acontece quando o visitante seduz cada membro da família, representante fiel de algum segmento da sociedade. Essa representação é devastada, encara uma transformação e tem seus instintos liberados.

Clara tentativa de opor-se aos grandes filmes comerciais da época, mais do que cinema moderno, Teorema é aquilo que Pasolini teorizou por “cinema de poesia”: deixada a prosa e a narrativa tradicional de lado, o lugar agora é dos simbolos, das figuras de linguagem, da experimentação de elementos fílmicos que servissem à proposta.

Particularmente indigesto para iniciantes na proposta, é um filme onde encontramos metáforas a rodo. O tempo todo, como numa metralhadora, sem tempo para respirar.

Ao afirmar a degeneração burguesa, Pasolini em momento algum culpa o visitante – a família já tinha o ‘potencial’ para entrar em crise de uma forma muito simples, com seus homens ausentes e/ou reprimidos  e suas mulheres que não sabem o papel na sociedade. Tudo o que precisava para provar isso, era a simples demonstração. Nada melhor que, assim como Buñuel, inserir um “anjo exterminador” que traria à tona os problemas burgueses e provaria, com a precisão matemática que o diretor queria, sua citação do início do texto. Com isso, a poligamia, a homossexualidade, o incesto, a individualidade e demais tabus e desejos suprimidos pela mola mestra capitalista – a unidade familiar burguesa – vem à tona. Quando o visitante vai embora, além da transformação, resta o vazio.

Uns buscam Deus, outros entram em estado catatônico, outros entram de cabeça em estilos de vida que a burguesia consideraria “degenerados”, outros cruzam o deserto que sua vida virou – longe  da vida que estava acostumado, mas por seus valores incutidos, longe de saber para onde irá depois disso. Mas o que sobra mesmo é o grito de angústia – que continua ecoando por muito, muito tempo após o término do filme.

4/5

Ficha técnica: Teorema (Teorema) – 1968, Itália. Dir.: Pier Paolo Paolini. Elenco: Terence Stamp, Silvana Mangano, Massimo Giroti, Anne Wiazemsky, Ninetto Davoli, Alfonso Gatto

Anúncios

pierrot le fou

– por Bernardo Brum

É esse o filme onde Samuel Fuller diz que o cinema é um campo de batalha. E se isso é verdade, Godard age todo o tempo feito o mais psicótico da frente de batalha francesa que pretendia varrer os artesãos da terra e fincar a bandeira dos autores em terra firme. Temos o drama intimista de Truffaut, a suavidade de Rohmer, a moral e o assassinato com Chabrol… e a política com o mais alucinado deles. Se há tempos Aristóteles já disse que nossa natureza animal é mesmo essa, cada obra produzida deveria ser retrato, construção e olhar das revoluções, anseios e contradições de sua época (ou não, como diria o Imperativo Caêniano).

Se a batalha, de fato, acontecia, e se de fato, cada disparo dado era então uma escolha, O Demônio das Onze Horas é um ponto de virada na carreira do diretor – a insatisfação com a vida burguesa que levam Ferdinand e Marianne Renoir são imediata associação com outro insatisfeito – o próprio Godard, que fez porque fez para desconstruir o cinema burguês que pegou o cinema de Eisenstein para construir suas grandes histórias morais daquele século, indo na contramão alguns anos depois do movimento de ruptura que ajudou a criar para novamente ser um vanguardista – desta vez político – no grupo Dziga Vertov. Mas mesmo nesse, já se percebiam claros sinais.

Aqui, através de uma série de inúmeras pirações, Godard dissolve todo o cinema erigido até então em uma narrativa muito particular, construído à base de sarcasmo, polêmica, provocação e confronto na própria forma do filme. Tudo o que Godard tinha experimentado até então – intertítulos, filmes em atos, quebras de de eixo e diegese, edição picotada, números musicais, descontinuidade narrativa, contexto marginal/nômade, está tudo aqui, mas de forma muito, muito mais radical. Se Acossado provocava o cinema careta de sua época, O Demônio das Onze Horas centra seus esforços em inflamar a discussão, não deixar pedra sobre pedra, e nada escapa do alvo – o cinema e o modo de se assistir cinema, a política e o modo de se pensar política e de como isso domina a sociedade contemporânea de forma irritantemente intrínseca.

Não que o diretor passe a mão na cabeça do espectador. Desde o início, a crítica segue progressivamente impiedosa. Quanto mais o cinema é desconstruído, mais o sentido das palavras “sociedade ocidental” escoa ralo abaixo – até terminar na famosa saída “tudo pelos ares” – após os ciúmes burgueses se apossarem do casal, resultando em fuga, assassinato e suicídio, tudo termina em uma explosão seca, em forma de cogumelo. Depois de duas horas de esculacho conscientizado, realmente não imaginaria final melhor.

5/5

Ficha técnica: O Demônio das Onze Horas (Pierrot Le Fou) – 1965, França/Itália. Dir.: Jean-Luc Godard. Elenco: Anna Karina, Jean-Paul Belmondo, Samuel Fuller