masters of horror– por Bernardo Brum

Pesadelo Mortal

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Carpenter, com orçamento limitado, formato de televisão e um roteiro bastante simplório a nível de história – porém possuidor umas discussões bastante interessantes a respeito da criação cinematográfica, faz o espectador perder o fôlego durante uma hora. A direção, o ritmo e a intensidade imprimidas no filme demonstram um fôlego que parecia que o diretor tinha perdido desde A Cidade dos Amaldiçoados.

Neste episódio é contado a história de um endividado dono de cinema especialista em econtrar cópias de filmes obscuros por quantias módicas. Certo dia, é contratado por um ricaço excêntrico para encontrar a única cópia existente do filme mais perturbador que se tem notícia no universo ficcional da história, uma película francesa que atende pelo nome O Fim Absoluto do Mundo, cuja única vez que foi exibido pelo público fez o mesmo matar uns aos outros e destruir o cinema. O interesse só cresce quando o proprietário do cinema, seu ex-sogro, o ameaça de morte caso não quite a dívida.  No meio do caminho, envolve-se com o lado barra pesada do mercado negro, o lado underground e obscuro do cinema e uma série de eventos sobrenaturais. A própria obsessão do protagonista faz o mesmo lembrar-se do seu passado que envolve vício em drogas e uma namorada morta, misturando-se com uma suposta maldição que faz quem procura o filme ver “queimaduras de cigarro” (aqueles círculos tostados que projetores velhos fazem em películas expostas ao calor intenso, como também vemos em determinada cena de Clube da Luta, de David Fincher).

Homenageando tanto o cinema de segundo escalão quanto a profissão de projecionista (como a sequência em que o projecionista gordinho do cinema revela manter uma coleção de fotogramas recortados e roubados das cópias que chegam no cinema de clássicos filmes de terror), Carpenter mistura efeitos bem toscos com sequências bem perturbadoras, e também brincando com a própria forma de se montar e exibir um filme, como quando faz o próprio espectador ver as “queimaduras de cigarro” que sempre dão alguma reviravolta inexplicável na história. Afora o lado semiótico do roteiro que discute a responsabilidade e liberdade dos criadores e responsáveis pelo cinema, o episódio é uma hora inteira de sangreira, suspense e diversão ininterruptas, incluindo sequências próximas ao genial – tipo a que mistura um projetor, película, sangue e tripas. Oh, yeah!

3/5

Pesadelo Mortal (John Carpenter’s Cigarette Burns) – 2005, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Udo Kier, Christopher Redman, Norman Reedus, Gwynyth Walsh

Pro-Life

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Será que quem é contra o aborto mudaria de idéia caso a cria de uma união forçada fosse o filho do próprio tinhoso? Sei lá. Carpenter também não sabe. Mas a idéia é tão tosca e engraçada que com certeza poderia render um filme, certo? Não? Ok!

Sem maiores discussões aprofundadas, a preocupação única é contar uma história maluca de uma jovem grávida que está correndo pela floresta e quase é atropelada por um casal de médicos amigos coloridos. Ela é levada, em estado de choque,para uma clínica de abortos, onde implora que tal procedimento seja feito. Aí, então, chega o pai dela, um bandidão perigoso impedido de chegar a menos de quinhentos metros do hospital. Ele quer que liberem a filha dela, já que uma voz sinistra, que ele acreditar ser Deus, o manda proteger o bebê. Munido de fanatismo, muitas armas e seus filhos quase tão maníacos quanto, parte para o ataque ao “matadouro”, como ele chama – e onde irá descobrir a real origem do rebento.

Enfim, é só isso, com pequenos toques de Assalto à 13ª DP e O Príncipe das Sombras, junto com uma criaturinha meio sinistra à lá Enigma do Outro Mundo. Sobra tiro, mutilação e tortura pra todo lado, inclusive um clímax muito hilário onde o capeta (um bonecão macabro que mais parece feito de látex ou papel machê) sai do hospital com o filho morto por um balaço na testa, com direito a musiquinha triste, câmera lenta e o escambau. Molecagem divertidaça do velho mestre.

2/5

Pro-Life (John Carpenter’s Pro-Life) – 2006, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Caitlin Wachs, Ron Perlman, Derek Mears

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– por Guilherme Bakunin

John Carpenter é um diretor versátil, trabalha com histórias e atmosferas variadas, mas sempre com uma imponente vertente no suspense. Nesse, que é um de seus primeiros trabalhos, Carpenter preocupa-se em criar um ambiente que reflete essa sua preferência, mas nem por isso o trabalho pode ser considerado fechado. Isso porque Assalto à 13ª DP é fortemente incrementado por comédia, romance e drama, uma dosagem imperfeita, mas gloriosamente corajosa.

O início é maravilhoso. Pouco a pouco, sem pressa, os personagens vão sendo apresentados. São pessoas diferentes e desconexas, não se conhecem e alguns deles não chegarão a se conhecer. É o campo de batalha sendo formado ali na nossa frente, o prelúdio para as explosões e tiroteios que viriam mais ou menos nos 40 minutos finais. Carpenter não mede esforços nessa longa introdução, e cria um clima de latência que, céus, funcionou bem pra caramba.

Em curtas palavras, a história consiste em um grupo de pessoas que em decorrência de algumas circunstâncias, ficam trancafiadas numa estação de polícia desativada, com um grupo surrealmente numeroso de jovens arruaceiros como uma ameaça constante a vida de cada um deles. Não existe antagonismo, já que o herói do filme é um mitológico bandido, que luta até o fim ao lado de um incorruptível tenente recém-promovido. Essa desconstrução de valores não é uma novidade, mas com certeza é algo legal de se assistir.

Os dois maiores méritos do filme são a introdução dos personagens e a consolidação do suspense claustrofóbico (dois momentos do filme que acabem sendo meio-e-consequência um do outro), onde os personagens ficam enclausurados na DP. Pelo perigo iminente, qualquer coisa pode acontecer e qualquer um pode morrer e é exatamente essa a sensação tida pelo espectador. As quatro paredes da delegacia são um ambiente tão fundamentado pro suspense que Carpenter se dá ao luxo de sair dele diversas vezes, pra mostrar a ‘ação’ acontecendo em outros locais da cidade. Mas como já mencionado, há pontos fracos na dosagem de gêneros e momentos, piadas fora de hora e de tom, bordões deslocados e romances acompanhado de diálogos que são altamente dispensáveis. Além disso, grandes cenas de ação existem, sim, no filme, em contraste com outras sequencias (como a final) que pediram mais intensidade. Se foi da intenção de Carpenter construir uma espécia de anti-clímax, eu nunca vou saber, mas de qualquer forma, poderia ter ficado melhor.

Porém, nada muito grave e que influencie de forma relevante no resultado final, que é positivo. Assalto à 13ª DP marca uma fase transitória na carreira de John Carpenter. Com esse filme esperto, o diretor conseguiu mais visibilidade e melhores financiamentos para seu trabalho, que melhorou, sem que, porém, tenha abandonado suas raízes modestas. Até porque, simplicidade jamais deve ser encarada, no cinema pelo menos, como sinônimo de algo mais fraco. Carpenter é prova viva disso.

4/5

Ficha técnica: Assalto à 13ª DP (Assault on Precinct 13) – 1976, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Austin Stoker, Darwin Joston, Laurie Zimmer, Martin West, Tony Burton, Charles Cyphers.