4.44 last day on earth

por Bernardo Brum

Filme a filme, Abel Ferrara mostra-se cada vez mais compromissado com o seu cinema. Após Enigma do Poder, em 1998, seu cinema veio numa progressão crescente em um caminho longe do enquadramento nos filmes do gênero, longe da estruturação narrativa óbvia, distante da câmera presa a um único registro estético-dramatúrgico – seja na comédia do avesso em Go Go Tales, os contos de redenção de Gangues do Gueto e Maria ou a dissolução da fronteira entre documentário e ficção em Napoli, Napoli, Napoli. Sua auto-implosão estética tornou seu cinema um conjunto de sequências que seguem o fio condutor residente na cabeça do seu criador – e jamais nos moldes industriais.

No início do século vinte e um, Ferrara se implodiu como autor – para então se reconstruir. Se já nos anos noventa reivindicava a independência de utilizar gêneros narrativos como dispositivos e não como suportes, agora passou a praticar um cinema  livre de amarras, fragmentado e esquisito em sua narratividade mais subjetiva do que objetiva. 4:44 é um filho desse caminho singular seguido pelo autor, e não à toa conta com a presença novamente de Willem Dafoe, que lá em 1998, junto com Asia Argento e Christopher Walken, protagonizaram um filme que não mais utilizava o tempo, mas era o tempo, e o olhar objetivo não mais fazia sentido quanto à experiência individual de cada personagem que deformavam o filme à favor da sua atmosfera.

O Fim do Mundo de Ferrara, portanto, é o fim do mundo particular, encenado em interiores isolados  mas conectados através da televisão e da internet; é catastrófico com o interior dos seus personagens, que começa a ruir muito antes do primeiro sinal apocalíptico. A entropia de Os Viciosos – que discutia à luz do cinema o instinto predatório e destrutivo de nossa espécie – agora assume contornos de uma lenta e trágica luta pela vida, onde os personagens resistem bravamente à uma fatalidade que sabem ser inevitável, pois foram eles mesmos que a causaram. Se no cinza junkie e doentio cobrava-se a tomada de consciência, aqui ela está tomada mas, como sempre acontece em seus filmes, infelizmente tarde demais.

Apesar de o apocalipse na obra ser relativo à degradação ambiental, Ferrara faz um filme que passa longe de ser um panfleto ecológico – antes é mais uma de suas reflexões sobre a natureza do mal e do vício e das bases fundamentais da mentalidade contemporânea pós-Guerra e pós-revolução.  O diretor lança uma obra onde cada personagem, cada qual com seu julgamento diferente, exibe uma pluralidade de discursos que isenta o filme de uma carga ideológica. Antes, 4:44 é uma tentativa de embaralhar e confundir sobre um tema caro à humanidade e a própria ficção que a mesma desenvolve: a sensação de finitude, a agonia da falta de propósito, o peso da dúvida e da consciência.

As tomadas são longas, as notícias chega de maneira documental, o mundo lá fora é distante e surreal – Cisco e Skye compartilham o fim do mundo de maneira erótica, artística e lúdica, onde apesar das tentações vindas das vidas pregressas de ambos, a câmera impiedosa de Ferrara – que sempre elege quase que imediatamente seus protagonistas frente às lentes  e o seguem de forma fervorosa e obstinada, destinada a dissecar seus desejos e contradições – irá caracterizá-los como algo além de simples espécimes de uma raça esperando a chegada de um destino inevitável – mas sim como verdadeiros seres humanos, feitos de carne, osso, medo e culpa.

É aí também que reside o maior triunfo do diretor, de evitar em biografar e se preocupar apenas com o tempo presente e as relações que se desenvolvem e se consumam dentro de campo. Isso, talvez, nunca tenha feito tanto sentido quanto aqui: não importa de onde viemos, onde estamos, para onde vamos; se viemos todos de uma única parte e estamos tentando voltar a ela, o apocalipse de Ferrara não é uma condenação mas, sim, uma libertação, a exumação dos pecados. Não é o julgamento divino, não é a desintegração sem sentido da vida: é o caminho contínuo e infinito da matéria. Em sua narração que não se pretende narração, 4:44 não é um filme sobre a resolução final, a compreensão de todas as respostas; é o desejo humano de liberdade e comunhão – e a experiência subjetiva desse artista e desses personagens é mais um entre muitos olhares, que podem discordar quanto ao método, quanto à realização, mas que como pode-se ver, o ideal humano de felicidade, prenunciado pelos mais diferentes pensadores, são a única arma contra a danação final. Antes de negar, julgar ou pretender-se definitivo sobre o assunto, o filme de Ferrara é errôneo e incompleto, apaixonadamente e declaradamente humano.

Não há nenhuma ironia, portanto, do filme-apocalipse de Ferrara ser logo o mais otimista de seus filmes.

4/5

Ficha técnica: 4:44 – O Fim do Mundo (4:44 – Last Day on Earth) – EUA, 2011. Dir.: Abel Ferrara. Elenco: Willem Dafoe, Natasha Lyonne, Paul Hipp, Shanyn Leigh, Thomas Michael Sullivan,Anthony Perullo, Nicola Tranquillino, Dierdra McDowell

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ou aqui: Fim dos Tempos – por Guilherme Bakunin [4/5]

por Bernardo Brum

Catapultado para a fama após O Sexto Sentido, o indiano M. Night Shyamalan arrebatou legiões gigantescas tanto de detratores  e desdenhadores quanto de admiradores e fanáticos. Já havia algum tempo que não havia um caso de “ame ou odeie” tão forte – dos seus contemporâneos, talvez apenas Quentin Tarantino possa ser classificado como integrante do grupo.

Esse era um probleminha meu: nunca havia conseguido nem amar, nem odiar o diretor. Acho que os dois pólos sempre levaram Shyamalan muito a sério: as críticas sociais, mensagens humanistas e pretensões estético-narrativas propostas em seus filmes ou eram consideradas um oásis nesse deserto de idéias ou fracassos retumbantes. Apreciador de algumas de suas obras (como O Sexto Sentido e A Vila) e detrator de outras  (mesmo com mais de cinco revisões, ainda acho Sinais involuntariamente hilário), o lançamento de Fim dos Tempos parecia prenunciar mais uma rodada de discussões sérias (e um tanto sisudas) de duas torcidas muito bem delineadas.

Exceto que, após alguns minutos de desconfiança, eis que surgiu uma agradável surpresa: Fim dos Tempos desbancava com uma facilidade surpreendente o posto de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal como o filme mais divertido do ano de 2008. Ainda que jamais caminhe um passo fora do estilo consagrado pelo diretor tão amado/odiado por aí, Fim dos Tempos é consciente de si mesmo e não tem a vergonha de ser um filme de terror com profunda inspiração no cinema B, além da óbvia referência da obra de Alfred Hitchcock que é ponto de partida para todos os bons filmes cataclísmicos, Os Pássaros. Isso inclui uma grande dose de presença de espírito que já previne a maioria das críticas.

Assim, Shyamalan parte de uma premissa ecochata e logo parte para o que interessa: uma onda de suicídios em massa causada por algum vírus muito cabuloso vindo das plantas que logo parece prenunciar a extinção de toda a vida humana sobre a Terra. E é nessas que prossegue até o vírus repentinamente sumir e deixar todo mundo apenas com um ponto de interrogação.

Ainda que faça concessões para os mais fanáticos pelo seu estilo – como as cenas no porão lá para o final do filme que  expressam a incomunicabilidade humana e coisas assim -, não se engane: Fim dos Tempos é pauleira pura. O grande barato do filme, no final das contas, é ver Shyamalan brincando feito uma criança retardada ou, vai saber, um psicótico sem os remédios: corpos caindo enquanto aparvalhados encaram, diálogos casuais que terminam em gargantas cortadas, além de pequenos arcos dramáticos de puro suspense que, se de início parecem prenunciar salvação pela nossa inteligência, acabam indo pro buraco quando um pequeno rasgo em um carro deixa entrar aquele maldito ar impregnado. O ser humano é impotente e a natureza implacável. Simples e terrível assim.

Tal qual um George Romero em dias inspirados, o indiano desenvolve muitos poucos personagens; a maioria que aparece logo morre após alguns minutos de aparecer em tela e os que restam não vão nos dizer muito a respeito, não vão compôr muitos trejeitos de métodos de atuação, nem nada. Vão ficar correndo de um lado para outro, desesperados em grupos cada vez menores… E mais cedo ou mais tarde terão um destino inevitável. Pura síntese do cinema B: ainda que tenhamos o popular e elogiado Mark e Wahlberg e a musa cult Zooey Deschanel e participação do quase onipresente John Leguizamo a coisa toda é tocada como se o orçamento fosse uma mixaria e os atores fossem zé-ruelas encontrados na lanchonete. A história que poderia ser pra lá de dramática concentra seus esforços, absolutamente na tensão, nas mortes mirabolantes e no medo de ser a próxima vítima. Sensação que o cinema mais polido e regido com ar professoral dificilmente consegue garantir.

Em suma, relaxa a bunda na cadeira e aproveita o fim do mundo. Quer algo mais sincero que isso?

4/5

Ficha técnica: Fim dos Tempos (The Happening) – EUA, 2008. Elenco: Zooey Deschanel, John Leguizamo, Mark Wahlberg, Alison Folland, Brian O’Halloran, Spencer Breslin, Alan Ruck, Betty Buckley, Robert Bailey Jr., Ashlyn Sanchez, M. Night Shyamalan, Jeremy Strong

– por Allan Kardec Pereira

Em Shotgun Stories, o primeiro filme do ótimo diretor Jeff Nichols, que antecede a esse Take Shelter, a tragédia familiar era algo iminente desde as primeiras cenas. O diretor, filma as ações de forma calma, serena no início. A trama se desenvolve e os eventos que seguem põe em perigo a base familiar tão importante para essa “América Profunda” de que seus dois filmes tratam. Take Shelter, que não se engane, é um legítimo fruto da paranoia pós-11 de Setembro. Misto de Bug, do Friedkin (e a insanidade do  personagem de Michael Shannon aproxima ainda mais os dois filmes) e The Happening, o poético filme-catástrofe de Shyamalan, o filme de Jeff Nichols se consolida como um dos grandes filmes do cinema recente a trabalhar as liames de temas fundamentais da sociedade atual: crença, o medo e a loucura frente um cenário apocalíptico.

Michael Shannon é Curtis, um sulista, operário exemplar, pai de Hannah, uma filha com problemas auditivos e de uma esposa que o ama, a bela Samantha (Jessica Chastain em um papel que lembra bastante o seu em “Árvore da Vida”. Ele passa a ser atormentado por pesadelos com tons proféticos de morte e destruição, de que uma tempestade de proporções bíblicas estivesse prestes a tomar o mundo, sensação que só ele tem e que provoca distanciamento crescente da sua família e dos membros de sua comunidade.

Entretanto, o brilhantismo da narrativa é, justamente, ir à contrapelo dos ocorridos habituais no cinema-catástrofe. O próprio Curtis é quem primeiro vai questionar sua sanidade perante o ocorrido (até porque, havia uma histórico de esquizofrenia na familia), sem, contudo, deixar de agir. De proteger à sua célula familiar, que era a grande atingida nos pesadelos que frequentemente ele passou a ter. Tal como diz o título do filme, ele procura abrigo. Diante disso, então, há um afastamento do filme para com o público. A  crença, tal qual é forte no cinema de Shyamalan, é necessária de nossa parte para que possamos acreditar que Curtis não é um “falso profeta”.

Nesse processo de crer ou não que Curtis é louco, ou que a catástrofe virá, o filme enfoca o medo. Não à toa, logo no início, parece ser o companheiro de trabalho Dewart (Shea Whigham), quem faz elogios à estabilidade da vida em família de Curtis. O episódio é fundante, na medida em que os proféticos pesadelos do protagonista justificarão um medo absoluto, e aparentemente injustificável, de que esta vida seja desfeita. É quase uma paranoia como a comunista nos tempos da Guerra Fria. Entretanto, a proximidade é mais com “Fim dos Tempos”, onde o desiquilíbrio da natureza ameaça a vida dos homens.

Entretanto, é com o final (os últimos 30 minutos do filme são espetacularmente tensos e imersivos) que o filme opera uma disfunção narrativa interessante. Negando à espetacularização do agora presente apocalipse (o vemos apenas no reflexo de um espelho). Interessa agora, somente que sua esposa Samantha e sua filha Hannah também o vejam. Em uma cena de imagens poderosas acerca da união famíliar . O último abrigo parece ser a confiança da família.

5/5

Ficha Técnica: O Abrigo (Take Shelter), Estados Unidos, 2011. Direção: Jeff Nichols. Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall.

 

 

– por Guilherme Bakunin

A história da relação e reação de um pequeno grupo familiar diante da iminência do fim do mundo. Considerar bom ou ruim, em certos filmes e certamente em Lars von Trier é apenas parte de um processo, simplesmente porque não é o bastante. von Trier parece ter mais controle do que produz ao invés da maneira pela qual ele articula sua produção. O desconcertante Os Idiotas (1996), as três horas de Dogville (2003), a raposa de Anticristo (2009) e agora Melancolia revelam um perspicaz pensador que ainda tateia as paredes na busca por uma obra-prima.

Para trabalhar nas relações entre as duas irmãs, Justine e Claire (Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg), von Trier divide seu filme em duas partes; a primeira, explora a forma pela qual cada uma das irmãs encara convenções sociais – Justine não as compreende, não se encanta, mas se rebela, e Claire não compreende, ao passo, o comportamento da irmã. Um choque de proporções psicológicas que preludiam o factual (e ainda na primeira parte, melancolia – o astro – está presente).

E ainda que a primeira parte dê conta de estabelecer a principal problemática da história, ainda que verse sobre a depressão de Justine e ainda que fale sobre como essa depressão segue uma trajetória constante para relacionar-se diretamente com as próprias inseguranças de Claire (a vida isolada e correta de uma rica dona de casa, o colapso mental a que ela se expõe ao enfrentar a finitude de tudo que ela conhece), ainda sim, essa primeira parte caminha aos tropeços da inobjetividade. Nenhuma relação familiar fica muito clara, inclusive, como em Festa de Família (1995), o que num universo niilista como o que von Trier constrói, pode ser fatal. As personagens de Dunst e Gainsbourg não possuem personalidade se não a necessária para se estabelecerem como dois lados de uma mesma pessoa, a dualidade de um só homem, algo que o segundo ato desenvolve perfeitamente bem.

Por outro lado, somente um esmerado, lendo e gradual desenvolvimento seria capaz de proporcionar a catarse melancólica (sic!) do final. Não existe impacto de imagem no cinema, existem ideias sendo construídas, terrenos sendo nivelados. O final de Melancolia é estupefante, assombroso, desconfortável. O som ascende a níveis inadequados, a imagem em proporções de horror, a extinção revelada no prólogo prestes a acontecer. Um espetáculo apoteótico e vislumbrante para o fim de todas as coisas. Para Claire, até o último segundo é o pavor absoluto. Para Justine, descrente na vida e na bondade das pessoas, ciente da vaidade de todas as instituições do homem, é o que von Trier chamou de “final feliz”.

Outras observações:

– Para Leo, filho da personagem de Gainsbourg, o fim do mundo é visto de olhos fechados. É a ele que Justine mais se apega, é por ela que ela mais se comove. Os olhos fechados muito provavelmente refletem a inocência do garoto diante da extinção.

– Melancolia, sendo sobretudo um filme sobre a depressão, se ampara em diversos símbolos para funcionar. A relação de significados sempre foi, pessoalmente, um exercício exaustivo e até fútil. Alguns são mais claros, como a infância sempre presente (através de Leo, interpretado por Cameron Spurr), ou a paternidade conflituosa, ou o sexo. Outros são de mais difícil articulação. Então, não vou me aventurar nem em um, nem em outro. Contudo, fiquem à vontade.

– Uso impressionante de Wagner na trilha, predominantemente o prelúdio de Tristão e Isolda.

– Grande destaque pra fotografia de Manuel Alberto Carlo, principalmente nos super slow-motions do início (que passam longe do pastiche videoclíptico de sujeitos como Zack Snyder, e surgem mais como estudos da relação entre imagem estática e imagem em movimento) e nas cenas noturnas do casamento de Justine. E também para Pixemondo, empresa que ficou a cargo dos excelentes e contextuais efeitos especiais no filme (e que também está à frente de Hugo Cabret, do saudoso Scorsa, que deve ser lançado daqui a alguns meses nos Estados Unidos).

– Dunst comandou bem o espetáculo de atuações, mas Gainsbourg também me deixou fascinado. Numa das passagens do filme, ela fica repentinamente sufocada, e eu me dei conta de que, completamente imerso no seu pânico, me encontrava na mesma situação.

– Eu sempre desconfio de quando as opiniões que envolvem Lars von Trier são extremas demais. Elas me parecem muito mais frutos de toda a polêmica que o cara sempre provoca (pura provocação, diga-se) do que amparadas na experiencialização de seus filmes. Sejam elas positivas ou negativas.

– Alexander Skarsgård também esteve bem, True Blood mandou abraços. De um vampiro viking soturno a um caipira bem intencionado, feliz de traçar a Mary Jane, sem prejuízo de ambas as partes. E seu pai fazendo uma participação como diretor da empresa onde Justine trabalha como Don Draper.

– Num dos cronologicamente últimos momentos da história, a personagem de Gainsbourg é vista carregando seu filho de volta para o castelo, depois de aceitar a inexorável colisão e perder completamente o controle. Como emblema de seu desfoco mental, nota-se o 19º buraco no campo de golfe do castelo, que possui apenas 18 buracos, como Jack Bauer disse repetidas vezes durante o filme.

– Trier inseriu e partiu de diversas referências artísticas na construção de seu filme. Dentre elas, Os Caçadores na Neve de Bruegel (que dá as caras em Solaris, explicitando uma das referências mais claras de von Trier), Ofélia de Millais, e a seminal Melancholia de Durer, revisitada inúmeras vezes na pintura por vários outros artísticas e que se constitui enquanto uma enigmática inspiração, tanto no título quanto no arcabouço de símbolos que possuí.

3/5

Ficha técnica: Melancolia (Melancholia) – EUA, 2011. Dir.: Lars von Trier. Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgård, Stellan Skarsgåard, Cameron Spurr.