– por Guilherme Bakunin

Ninguém precisa ficar se perguntando porque Mad Men dá as caras num blog sobre cinema. A resposta é visceralmente clara. Mad Men possui todas as abordagens que a classificariam como um filme, só mesmo a distribuição e a questão episódica conseguem separá-la de ser a tal ‘sétima arte’. Bom, não tanto, já que a internet tem nos feito o favor de possibilitar nossa aproximação com esse universo de programas de televisão que, pasmem, são excelentes, artísticos, criativos, inteligentes e tudo mais. Eu não to falando de profundidade de tema, ou questões satorianas, ou qualquer coisa assim, porque mesmo as comédias seguem essa mesma ideia de exaltação da criatividade e da qualidade, seja lá o que isso significar. A gente só consegue definir que é bom mesmo e ponto.

Mas essa Mad Men. Moderna e clássica, ao mesmo tempo, como esses dois conceitos lutassem a todo instante dentro das histórias, transformando o que nas mãos de pessoas menos competentes seria um conto insuportavelmente monótono a respeito de qualquer coisa dos anos 60 numa verdadeiro épico existencial/social a respeito de, sei lá, tudo?, praticamente tudo que existe nessa nossa vidinha ordinária de estudar e trabalhar e morrer? e etc?

Porque Mad Men é uma dicotomia. A começar pelo título. Homens. Loucos. A loucura não é estado do ‘homem’. Sei lá, o homem louco é o homem transgredido, destituído das ‘perfeita’ juízo mental e portanto destituído de humanidade. Mas a série se chama Homens loucos, e a luta entre dois conceitos já começa aí. E (por enquanto) são quatro temporadas de conflitos secundários que são capazes de juntar essas duas ideias tão opostas (homens – loucos) para criar uma reflexão do mundo moderno (moderno? bem, moderno no sentido do mundo de agora, e o agora indo de mais ou menos após a segunda guerra mundial até sabe-se lá quando). Falei no outro parágrafo a respeito do clássico x moderno. Assim, eu nem poderia fazer uma tese ou uma monografia a respeito disso agora, mas afinal de contas, o que foram os anos sessenta, se não esse conflito basilar entre um mundo que já era e o mundo que estava por vir? Afinal, os anos sessenta não ficaram no meio desse tempo, no ponto de impacto desse conflito existencial de gerações, de pais contra filhos, de filhos contra autoridade, de homens contra tabus e tudo mais? Mad Men não poderia ser de outro jeito. Pra falar de clássico x moderno ela se faz clássica e moderna, estabelecendo na própria estética o seu ponto central.

E por onde eu posso começar falando de arte x propaganda? Eu nem começo, porque se não eu vou longe. Mas quando Don Draper diz que ‘nós fazemos o que eles não conseguem, e eles nos odeiam por isso’, a gente sabe do que ele realmente tá falando. Quando as pessoas comentam e riem com a clássica propaganda de 1961 de fusquinha volkswagen, a gente reconhece que já tivemos o mesmo tipo de reação, e de repente a gente começa a pensar nessas coisas aí de impacto da arte e impacto da publicidade, de semiótica e Rothko e Bye Bye, Birdie e e Lucky Strike e etc.

O historiador de arte Simon Schama definiu os anos sessenta, quando falava a respeito de Rothko em O Poder da Arte (BBC, 2006) como a américa presa entre a bomba e o supermercado.

A confluência histórica precisa de Mad Men torna-se então assustadora. Vendo os episódios finais da primeira temporada, onde Don está na guerra (da Coréia, provavelmente, não me lembro agora), dá pra perceber que é exatamente sobre isso que a série fala também. Duma nação que está imersa (ver o poster da quarta temporada) num caos de incerteza, se anestesiando progressivamente (ver Uivo, de Allen Ginsberg) à procura de não se dar conta da falta de sentido de todas as coisas (ver Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen).

Donald Draper é a própria américa. A bomba de um lado, o supermercado do outro, e a américa no meio. A arte de um lado, a propaganda de outro, e a américa no meio. O clássico de um lado, o moderno de outro, e a américa no meio. A américa sem identidade, a américa agressiva, a américa infiel, a américa que bebe, que fuma, que bate na mulher, que procura a felicidade.

Mad Men é uma série de televisão exibida pelo canal pago AMC, nos Estados Unidos. Começou em 2007, e ate agora (março de 2011) possui quatro temporadas. A série foi premiada três vezes consecutivas no Emmy, o maior prêmio  da televisão americana, em 2007, 2008 e 2009 como melhor série de tv, drama. E a coisa mais importante a ser dita sobre a série, definitivamente é: ela possui o mais gostoso elenco de gatinhas da televisão.

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– por Guilherme Bakunin

No conturbado cenário do regime militar da década de sessenta, se destaca no cinema nacional esse aparentemente modesto trabalho de Julio Bressane, um dos cineastas que mais intensamente contribuiu para o cinema marginal dos anos setenta no Brasil. Essa vertente do cinema, que se utilizou da chamada estética do lixo para extrair dela uma linguagem cinematográfica latente, ativa, foi utilizada apenas aqui. Não se reconhece, na história do cinema, nenhum outro movimento que conseguiu utilizar o amadorismo como estética, como voz, ao invés de encará-lo como limitação. O movimento propôs uma ruptura radical e necessaria com o cinema novo, que procurou aplicar as chatisses vertovianas soviéticas num cenário político  infértil. O cinema marginal, por outro lado, desabrochou em terra boa e foi fertilizado pelas pequenas revoluções cotidianas, pelos gritos não tão ensurdecedores dos becos e das faculdades das principais cidades, que lançavam-se contra a ditadura, indo pela maré da libertação existencial das drogas, do sexo e do corpo nos anos sessenta.

Matou a Família e Foi ao Cinema é um mockmusical com canções que vão de Carmen Miranda à Roberto Carlos. Pode passar a impressão de ser fundamentalmente aleatório, mas há uma linearidade evidente, não cronológica ou temporal, mas narrativa, que interliga todos os acontecimentos através da violência, do assassinato, ativados pelo cenário político então vigente. Com repressão, censura, manipulação e AI-5, não é de se espantar que os sentimentos dos personagens estejamtão à flor-da-pele. A pertubação se esconde nas sombras das imagens,excercendo pressão psicológica tal que uns se viram contra outros e, constituindo interlúdio para toda essa confusão fotográfica de violência, um homem é torturado em algum lugar, como se quisessem nos lembrar o contexto à que toda a urbanidade está sujeita.

Inteligente, precário e sensacional em seu humor ácido e verdadeiro, na sua metalinguagem desconfortante, nas propostas estéticas narrativas (que vou me eximir de falar, o Bernardo ou o Luiz Carlos pode fazer isso bem melhor do que eu) e nas suas imagens cruas e vitais, Matou a família e foi ao cinema é clássico marginal repleto de ironia, revolta e violência, um dos grandes filmes protagonizados pelo nosso país.

5/5

Ficha técnica: Matou a Família e Foi ao Cinema – Brasil, 1969. Dir.: Julio Bressane. Elenco: Márcia Rodrigues, Renata Sorrah, Antero de Oliveira, Vanda Lacerda, Paulo Padilha, Rodolfo Arena.