– por Allan Kardec Pereira

Percebe-se nos 50 anos de carreira como cineasta de Godard, ao menos, três fases distintas. A primeira, foi, justamente, a Nouvelle Vague, que idealizou com os também críticos da Cahiers, Truffaut, Rohmer, Resnais e Chabrol. Uma segunda fase seria aquela do Grupo Dziga Vertov, com teor mais político-panfletário. Um terceiro momento, digamos assim – há quem subdivida em 4 momentos, com diferenças entre a década de 80 e 90 – o cineasta ampliou cada vez mais seus filmes a um teor ensaísta.

Em Éloge de L’Amour vemos um turbilhão de idéias, como parece ser o cinema recente de Godard. Pensemos, então. Desde seus primeiros filmes, percebemos que o cineasta vê o cinema, também, como um modo de expor e refletir sobre idéias, com o Godard provocador sempre proferindo teses, com afinco. Incrível ver como o franco-suiço ainda mantém uma coerência intelectual há tanto tempo. Suas idéias sobre cinema, amor, memória, barbárie, mantém uma vivacidade das mais interessantes, justamente pela consciência que tem Godard ao falar.

Elogio do Amor tem uma estrutura narrativa interessante, faz-me pensar uma (tendência do cinema contemporâneo?) marca de Apichapong Weerasethakul, onde o filme é dividido em dois fragmentos. A primeira parte de Eloge de L’Amour fala de Edgard, um diretor que busca em vão em um Paris soturna, busca atores para um projeto. Mas tem dúvidas do que efetivamente será esse projeto, se um filme, uma ópera. O presente, fotografado magistralmente em P&B constrói-se em torno desta procura e do seu fracasso. É tudo muito poético. Muito filosófico. Há um sem número de indagações fantásticas de Godard, que desde sempre, falou através de seus personagens.

Em um segundo momento, há uma volta ao passado. Dessa vez a fotografia fora realizada em cores digitais dá um tom semelhante à obras de Van Gogh. O processo narrativo fica cada vez menos presente, o diretor explora ao máximo o tom ensaistico do filme. Mas, é esse passado que dará sentido ao presente. Assim, como diz Godard, é a História – essa sua grande reflexão – que justifica o presente.

Nesse ponto, Godard não foge à crítica ferrenha que faz dos EUA. Das mais interessantes é aquela que o cineasta vê aqueles como um povo sem História, indo outros lugares pegar um história para estudá-las, ou filmá-las. Citando diretamente Spilberg, ele lembra que “a senhora Schindler não ganhou um tostão e vive pobre em Buenos Aires”.

É um filme turbilhão-de-idéias, filme-montagem, filme-tese. É um delírio visual dos mais interessantes, ao mesmo tempo que não parece um filme. A narrativa se esvai em determinado momento. Ficam-se as idéias. Godard é isso. Concordando-se, ou não, sua voz, seu cinema, suas idéias ficam.

5/5

Ficha Técnica: Elogio ao Amor (Eloge de L’Amour) – França/Suiça, 2001. Dir: Jean-Luc Godard. Elenco: Bruno Putzlu, Jean Davy, Françoise Verny, Audrey Klebaner.

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– por Luiz Carlos Freitas

Você sabe, as danças, essas festas – elas acertam aonde a ciência falhou. Porque você sabe, eu posso ir a um salão de beleza e ficar sentada lá por horas com o meu cabelo e minhas unhas polidas, mas não me sinto mais jovem. Mas essas danças loucas e selvagens… Elas fazem algo para mim lá dentro.”

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John Cassavetes representa bem aquela máxima de Glauber Rocha sobre o cinema, de “uma boa idéia na cabeça e uma câmera na mão”. Suas obras, quase todas feitas com o apoio de amigos (que além de atuarem sem cobrar cachê, ajudavam com alguns dos custos de produção), encontravam uma série de problemas por todo o processo de realização. Faces é um desses trabalhos de longa gestação. Começando a ser rodado em meados 1965, entre filmagens e pós-produção, só chegou a ganhar o mundo em 1968.

Todavia, mesmo com todo esse tempo gasto, Faces não chega a ser uma produção grandiloquente. Bem longe disso, o filme é todo passado em uma noite, dividido praticamente entre dois cenários com sua trama girando em torno de dois casais em crise e seus conflitos. De um lado, Richard (John Marley), um empresário que, após mais uma discussão com sua mulher Maria (Lynn Carlin), sai no meio da noite para se encontrar com Jeannie (Gena Rowlands), uma jovem garota de programa que conhecera num bar. Maria, por sua vez, sai com as amigas para beber e conhece Chet (Seymour Cassel), um rapaz bem mais jovem que leva imediatamente para a sua casa.

Partindo daí, Cassavetes pega o casamento, uma das instituições mais básicas e, ao mesmo tempo, falidas da sociedade, e faz dela um rico microcosmo como poucas vezes se viu no cinema para analisar justamente esse declínio do homem dentro de seu próprio meio. Polarizando a trama de modo quase sexista, de um lado estão os homens com as jovens com menos da metade de suas idades, do outro as quarentonas  e o garotão de vinte anos. Disso, o casamento é só o fio condutor que pontua sobre a velhice  e que, por sua vez, remete a questões muito mais fortes.

Os homens bebem e, num diálogo corriqueiro, vão gradativamente elevando a voz, como numa rinha, onde o vencedor é o que falar por último e mais alto na presença das fêmeas; as mulheres, como num ritual pagão,  giram bêbadas ao redor do jovem de corpo atlético que, como se em um altar, tem de escolher com qual irá dançar de corpo colado. Eles gritam, são broncos e lembram a cada nova fala dos cargos que ocupam. Elas sorriem, fazem voz meiga, colocam dedo na boca. Tudo é travestido por risos, piadas sem nexo e a eventual desculpa do efeito do álcool, mas o que gira essa roda é mais que evidente: tudo não passa de um jogo onde as relações de poder, o conflito de gerações e classes sociais, a virilidade e o embate intelectual são as cartas que, na verdade, são postas à mesa por um grande pulso de afirmação imposto por todo um sistema que se mostra bem acima de qualquer individualidade.

Essa era a sociedade que John Cassavetes retratou lá em meados dos 60’s e, em uma conclusão assustadora, ainda se mostra pouco (ou quase nada) mudada. É uma sociedade que estabelece normas e padrões, conceitua o que é certo ou não, como se deve viver, a que dar importância e, principalmente, como são excomungados os que não se adequam a essas instituições. É um sistema que, no literal sentido do termo, nos distancia do humano e nos aproxima do mecânico, nos condicionando a um conformismo que nos torna cada vez mais impotentes ante ao que nós queremos, nos fazendo questionar até mesmo se realmente queremos aquilo que desejamos.

No fim das contas, todo aquele hedonismo inconsequente da noite só serve para nos mostrar que, ao raiar do dia, somos nós, homens e mulheres, todos fracos, carentes e vazios, os verdadeiros falidos sob a teia de um sistema que se faz cada vez mais forte, e que não nos resta muito mais a fazer que apenas sentar em meio à bagunça que restara da madrugada, acender um cigarro e encarar mais um dia que começa.

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5/5

Faces (Idem) – EUA, 1968 –  Dir.: John Cassavetes – Elenco: John Marley, Gena Rowlands, Lynn Carlin, Fred Draper, Seymour Cassel, Val Avery, Dorothy Gulliver, Joanne Moore Jordan, Darlene Conley, Gene Darfler, Elizabeth Deering, Ann Shirley, Dave Mazzie, Anita White, Julie Gambol

– por Cauli Fernandes

O título denota algo almodóvariano, algo cheio de paixão incontrolável, mas os sentimentos que vemos na tela são tão sutis e bem controlados por seus donos que acaba indo pelo lado contrário do Pedro: a dita paixão e desejo ficam interiorizados (não vemos os rostos daqueles que os realizam), a trilha sonora não é grandiloqüente (mas sim embelezadora) e as grandes tragédias com mortes simplesmente não acontecem.

E a sutileza vai até mais longe. Logo no início do filme não somos confrontados com uma imagem, mas sim com a descrição literal do primeiro encontro do casal principal, o que não diminui sua carga emocional e poética; só porque não é imagem não quer dizer que não seja belo. A partir da entrega em carne viva do olhar essencial entre Chow Mo-wan e Su Li-zhen, vemos o desenvolver do relacionamento, que começa em um corredor para chegar em algo imenso mas, infelizmente, tão facilmente barrado por um dos pilares mais jurássicos da sociedade: o casamento.

Mas tal troca e sede entre os protagonistas não existiria se não fosse pelos seus respectivos cônjuges, que ignoram visceralmente esse pilar e começam um caso; os antes longínquos vizinhos agora estão ligados, um par pela realização do amor, outro par pela não-realização deste, e acompanhamos o martírio desses últimos seres, a angústia de não conseguir ser desleal também e o medo de confrontar com a verdade não só “eles”, mas a própria vida que levam juntos.

Chow e Su, todo o tempo, criam uma realidade particular. Nela, idealizam rompimentos, choros, um futuro de riqueza abastecida pelas histórias de samurais que escrevem. Somente entre eles, fazem o que queriam que acontecesse no casamento deles, criam uma utopia de bonança amorosa absolutamente íntima. Tal dimensão paralela ocorre em lugares inóspitos, que exalam uma tranqüilidade onírica; aquele quarto de hotel e o beco parecem ter sido guardados a anos dentro de uma caixa somente para uso deles dois. Essa sensação também se nota por onde quer que eles passem ou toquem, como um batente de porta (o close na mão de Su quando toca nele é sublime), o lugar onde se vende macarrão e o pote usado para guardá-lo, os livros emprestados e muitas coisas mais. As marcas deixadas por eles são passageiras e somente nós temos oportunidade de desfrutar, enquanto quem realmente deveria tirar proveito delas não está próximo o bastante; aliás, a câmera é incrível ao captar esse não-contato. Ela caça não a presença de uma pessoa, mas a falta de alguém.

E lá vão eles pelo tempo. Os anos passam, já ensaiaram términos dezenas de vezes, a traição continua na outra metade do relacionamento. Por uma série de atos, de coisas que acontecem e a gente não percebe, eles se separam, nem temos noção direito do por que. Mesmo assim, algo continua, um fio de alguma coisa os amarra pelo espaço (nunca se romperá). Mas ainda há chance para redenção, um pedido de desculpas por não ter feito o bastante. Infelizmente, o perdão é concedido por um tijolo de pedra, um final sem glória para algo que podia ter sido realmente glorioso. Realmente, e não em um buraco na parede.

5/5

Ficha técnica: Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa) – Hong Kong, França, 2000. Dir.: Wong Kar-Wai. Elenco: Maggie Cheung, Tony Leung, Ping Lam Siu, Kelly Lai Chen, Roy Cheung, Paulyn Sun.

por Cauli Fernandes

Em Hiroshima, há corpos amontoados e carbonizados. Em uma cama de hotel, há corpos amontoados e carbonizados, mas não por fogo ou radiação, e sim por paixão e loucura. Mas não vemos Hiroshima nessas imagens. Não, vemos tudo.

Conjugar verbos nesse texto é errado. Incutir noções tempo em palavras é ato falho ao discorrer sobre um filme que mescla de forma tão sublime o passado, presente e futuro; em um mesmo momento, vive-se aquilo que foi, o que vemos e o que presumimos e, por conseqüência, o peso de um personagem que sente tudo isso só pode ser colossal.

Mas não vemos Hiroshima. Quem não teve a família dizimada por uma bomba estrangeira e irrelevante não sente a dor de Hiroshima. Amigos viraram pó atômico. É única a angústia de observar virar fantasma o lugar que constituí toda a infância. Olha lá a pele em carne viva, metal e homem retorcido, tem mandíbula na latrina.

Não, vemos Hiroshima. A quilômetros de distância, debaixo de campos burgueses, o coração de uma menina francesa virou Hiroshima. Antes, o soldado alemão agonizava no chão, morrendo e se tornando lembrança. Antes, ele e ela pertenciam ao céu, ao carbono e suor que o outro exalava, a grama debaixo do corpo. Depois, o soldado alemão agonizava no chão, morrendo e se tornando lembrança; ela se abraça nele, um último toque, por favor. Depois, ela é jogada no porão para raspar pedras e gritar sem ninguém na sala de visitas ouvir, por favor, que falta de educação.

Mesmo com tanto sentimento, política e história também se permeiam pelo filme, o que o torna um organismo vivo. Por desenvolver tantos temas relevantes com desenvoltura e inteligência, a película injetou um vigor vital na história do cinema. Em 1959, 14 anos após a bomba atômica, Resnais usou essa ferida aberta para construir uma narrativa inovadora utilizando ferramentas tão diferentes: imagens de documentário, câmeras subjetivas, diálogos repetidos com cadência poética, metalinguagem. Isso resulta em uma unidade pensante, que empurrou o cinema para o status de arte capaz de se afirmar e de se discutir. Além de abrir as portas (junto com Acossado, de Godard, que também promove uma mudança na linguagem) para uma das fases mais ricas e líricas do cinema: a Nouvelle Vague.

Mas somos capazes de ver Hiroshima? Não, não somos. Mesmo estando no hospital, na Praça da Paz, no museu, mesmo tendo visto os chumaços de cabelo. Quem viu Hiroshima virou lenda mal contada.

5/5

Ficha Técnica: Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, Mon Amour) – França, 1959. Dir.: Alain Resnais. Elenco: Emmanuelle Riva e Eiji Okada

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– por Guilherme Bakunin

Os anos noventa declaram algo importante na carreira de Woody Allen: ele está ficando velho e, progressivamente, deixará de ser tão frequente em seus próprios filmes, especialmente porque a temática de seu trabalho costuma ser invariavelmente a mesma: as neuroses do cotidiano na vida dos metropolitanos. Tem sido assim desde A última Noite de Boris Grushenko e até agora, poucos de seus filmes saem dessa alçada.

Tiros na Broadway é o segundo noventista a não contar com a presença do diretor. Aqui, não há personagem que faça paralelo com a persona de Woody. O mais próximo que temos disso é David Shayne, interpretado por Cusack, escritor de peças teatrais com um leve complexo de superioridade que geralmente acompanha autodeclarado artistas, que se vê obrigado a aceitar uma má atriz em sua peça para poder produzi-la.

O filme segue, em geral, dois caminhos: a construção da peça e pequenas cenas onde são narrados acontecimentos paralelos que de uma forma ou de outra envolvem o pessoal do teatro. Allen trabalha aqui com gângsters idealizados, retratados como figuras estereotipadas pelo cinema que o cineasta tanto admira. E se aprendemos algo vendo seus filmes, podemos dizer que os ‘mocinhos’ de Tiros na Broadway foram feitos em torno dos gângsters, e não o contrário, como pode parecer. Além das intrigas no preparo da peça e o conflito interno de auto questionamento de Shayne, o filme abre um leque pra clássica filosofia manhattiana dos filmes de Woody, indo de Nietzsche às artes, Shakespeare à Crepúsculo dos Deuses.

O texto aqui é poderoso, firme e objetivo, porém flexível o bastante para dar espaço às fantásticas reflexões de Woody Allen sobre a vida, sobre a arte, sobre o amor. Referente ao esquema do gângster ser o verdadeiro gênio, não vou corroborar com esse tipo de coisa. Woody Allen deixa sua ideia bem clara: o artista nasce pronto e ninguém pode tornar-se um. É simplista demais, cômico demais pra ser algo levado tão à sério (um tramamento mais dramático poderia ter servido melhor pra sustentar a queda de Shayne e sua arte, algo que Allen hesita em utilizar aqui).

Num universo controlado por armas e chapéus, onde as duas únicas saídas parecem ser viver uma vida ordinária ou se entregar de corpo e alma à salvação da arte, qual é o papel do homem nesse lugar? A discussão pode ir longe, e entre cães e Helens Sinclairs, nós, juntamente com Allen, descobrimos que tudo o que podemos aspirar é ao amor, ainda que jamais venhamos a ter certeza do que ele seja.

5/5

Ficha técnica: Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway) – EUA, 1994. Dir. Woody Allen. Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Jennifer Tily, Chazz Palminteri, Mary-Louise Parker, Jack Warden, Joe Viterelli, Rob Reiner.

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– por Cauli Fernandes

Ah, que frescor guarda os musicais

Tão leves e alegres; são atemporais

Com igual maravilha, encantam gerações

Com suas danças e canções.

O que dizer de um musical parisiense, então?

Junto da força da melodia, há a deslumbrante locação.

Mas o foco não é a Torre ou os seres ilustres

E sim as pequenas ruas e os pedestres.

Assim, é desses passantes habituais

Que Honoré tira seus três personagens joviais

Um rapaz e duas mulheres são um só pelas mãos do amor

Eles caem no mundo e na cama, sem medo nem pudor.

Assim, o trio e a família cantam juntos

Nos becos, nos parques, nos quartos

Sem coreografia produzida

Só executam os passos da vida.

Alguns julgam o filme de ingênuo, tolo

Mas é alegria em meio à nossa tragédia, mesmo parecendo frívolo.

Aquilo pode ser muito doce e distante

Mas é sonho, é Paris do lado da gente.

Você deve se perguntar por que resenhei poeticamente

Porque “Canções de Amor” é uma, porque a vida deveria ser uma

E eu cansei de fazer rima.

5/5

Canções de Amor (Les Chansons d’Amour) – 2007, França. Dir.: Christophe Honoré. Elenco: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Chiara Mastroianni, Grégoire Leprince-Ringuet.