girls

– por Guilherme Bakunin

Como parte do meu trabalho de conclusão de curso, eu tenho pesquisado um pouco a respeito de Lena Dunham, a mente criativa por trás do seriado Girls. Esse texto é a primeira parte de uma exploração a respeito do que eu tenho pesquisado, e vai lidar principalmente com Tiny Furniture, o filme de estreia da diretora, e um pouco sobre Girls, falando a respeito da narrativa e de como os personagens funcionam dentro dela. É spoiler-free, de forma que, mesmo quem não viu nenhuma das duas obras, é muito bem-vindo a ler.

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Eu não sei muito bem o que eu vou falar agora, mas já faz algum tempo que eu quero escrever sobre Girls, série transmitida & produzida pela HBO, criada por Lena Dunham e Jennifer Konner e produzida pelo Judd Apatow.

Lena Dunham é uma cineasta da tradição mumblecore, talvez, e eu já falei um pouco sobre isso, acho, no texto sobre Uncle Kent. Mas ela se desvia bastante dessa tradição, porque Tiny Furniture (estreou aqui em Belo Horizonte na mostra de cinema INDIE, em 2011, se não me engano) é um filme de camadas que estão constantemente em sobreposição. No filme, a própria diretora interpreta Aura, uma garota que acaba de se formar e volta para a casa, em Nova York, para tentar se decidir na vida. O que era de se esperar naturalmente acontece e Aura não consegue se decidir a respeito de nada, exceto que a vida é bem trágica mesmo. Isso É o mumblecore. É o esvaziamento completo de sentido e de objetivos, é uma mensagem tão preguiçosa ao mesmo tempo que bela justamente por isso. Mas o debut de Dunham oferece muito mais em questões narrativas do que os filmes que são geralmente rotulados como mumblecore.

Vocês provavelmente se lembram de Greenberg, de Noah Baumbach, em que Ben Stiller interpreta um cara bastante depressivo e patético. Acredito que o filme de Baumbach seja o advento mais assimilável e mainstream desse movimento do cinema independente americano. Em Tiny Furniture, assim como em Greenberg, a narrativa é mais coesa, estruturada, é como se as coisas tivessem uma melhor razão de ser do que em filmes como LOL ou Hannah Takes the Stairs. Mas é a sobreposição de camadas que realmente impressiona, porque a gente, enquanto espectador, não é muito capaz de definir os personagens principais. Eles permanecem enigmas indecifráveis e nós simplesmente somos obrigados a aceitá-los dessa forma. Porque sabemos que Aura é egocêntrica, mas sabemos também que é realmente difícil demais trazer algum sentido pessoal no caos da urbanidade de hoje (ou ao menos eu sei disso, porque é uma coisa que eu sinto).

E Tiny Furniture coloca espectador e personagens em um estado de letargia surpreendente, porque existe um esforço ludoviciano, pelo menos na minha apreciação cinematográfica, de tentar elevar qualquer narrativa a um sentido coeso, (fomos treinados a assimilarmos cinema dessa forma) e Lena Dunham jamais permite que esse sentido seja alcançado, porque os rumos da história sempre contradizem as expectativas e os personagens sempre contradizem a si mesmos.

É um puta espetáculo estético quando um diretor consegue dizer ao espectador que o personagem está dizendo “sim” enquanto o personagem está dizendo “não”; é um puta espetáculo estético de outa natureza quando um filme é absolutamente o tempo todo assim, exceto que em Tiny Furniture, ao invés de “sim” e “não” existem outros tipos de diálogos sendo travados, eu acho, que parecem mais murmúrios e questionamentos do que uma mensagem realmente límpida e objetiva.

Porque, voltando a questão da frustração de expectativas, existe uma relação diferente de diálogo entre obra-espectador sendo travado em um filme de suspense, onde o sentido da coisa DEVERIA ser o de surpreender. No caso de Tiny Furniture, que é apenas um exemplo de filmes que fazem isso, a questão de interesse não é a surpresa, mas em como o espectador perceberá a obra a partir do contra-senso.

Um exemplo para ilustrar esse ponto: no começo do filme somos apresentados a uma questão – Aura e sua amiga de faculdade Frankie possuem planos concretíssimos de morarem juntas em Nova York dentro de algumas semanas. Depois de mais ou menos uma hora de filme, há uma cena em que as duas conversam pelo celular e a gente descobre que 1. Aura tem ignorado as ligações da amiga porque 2. ela não quer mais morar com ela. Embora haja certa antecipação sobre essa questão, não é nada razoável ou suficiente do ponto de vista de antecipação narrativa. Essas coisas são, a todo momento, elevadas à superfície de Tiny Furniture sem que haja qualquer tipo de olhar para as coisas que podem estar submersas. Acredito que o lance aqui é que o espectador é colocado numa posição onde ele terá que mergulhar por conta própria.

Agora é importante que eu faça a observação de que, dependendo do tipo de relação que se tem com cinema, essa ausência de antecipação pode se tornar tanto uma benção quanto uma maldição. Meu posicionamento a respeito é que eu absolutamente não me importo com nada disso, enquanto o filme estiver bom (é, portanto, uma ausência de posicionamento basicamente), e Tiny Furniture é bastante bom.

Agora, um pouco sobre bagagem: a minha não é, certamente, muito extensa, e eu cada vez desisto mais de correr atrás disso. Não vi metade dos filmes que já quis ver; não vi metade dos filmes que eu considero fundamentais. Obviamente me falta repertório pra analisar historicamente qualquer coisa, mas eu vou analisar mesmo assim, porque eu prefiro o erro ao silêncio: a não-antecipação é uma questão profundamente ligada a um outro programa da HBO: Sopranos. Os episódios da icônica série de máfia eram construído de forma a funcionarem como pequenos filmes que poderiam ser assimilados isoladamente. Isso não significa dizer Joãozinho não precisa acmopanhar Sopranos para entender. Joãozinho obviamente precisa. Mas em termos de apreciação estética, em termos de ação e reação imediatas dos personagens, basicamente todos os episódios de Sopranos funcionam por si só.

Tiny Furniture parece lidar com a história da mesma forma: são os mesmos personagens, que caminham em direção a algum lugar, mas praticamente cada cena parece se bastar em funções imediatas, como se pequenas esquetes muito bem planejadas ao redor de um arco geral. E, à Sopranos, a situação é posta na lata, de maneira impetuosa. O problema da assimilação sai das mãos do autor e cai violentamente nas mãos de quem assiste ao filme.

Essa parece ser uma posição vulgar para um autor certo? Mas aí a questão do mumblecore retorna ao filme de Dunham porque autor e questionamento estão juntos, nesse tipo de filme, em direção a lugar nenhum.

A grande convergência entre Tiny Furniture e Girls vem dessa questão: se o filme é episódico, e a série obviamente também o é (ou seja, as situações não funcionam necessariamente para cobrir um arco narrativo claro), o risco para que a contradição exista é extremamente maior do que num filme clássico, de forma que, tanto no filme quanto na série de Dunham, os personagens são capazes de expressar inconsistência. É quase como se um mesmo personagem pudesse ser vários ao mesmo tempo, tamanha a discrepância entre seus discursos e atitudes entre as cenas; a pergunta que a cineasta parece fazer a partir dessa questão é: e não somos todos assim?

Girls, desconfio, é uma grande coletânea de histórias que possui, assim como a maioria dos dramas da HBO, a pretensão de se confundir com o grande romance americano. Dezenas de personagens existindo dentro de um arco amplo e aparentemente desconexo. É com Girls que cada uma das características de Tiny Furniture é levada à exaustão e agora, após duas temporadas, as pessoas têm a grata surpresa de que a série se sustenta cada vez mais como uma das séries mais intricadas, narrativamente falando, dos últimos anos.

O aspecto mais superficial digno de nota é que Girls é uma série extremamente feminina e isso é algo extremamente raro. Isso quer dizer que a série vai enaltecer o tempo todo os poderes e as fraquezas de ser mulher, de acordo com a percepção que as escritoras tem do que é ser uma. Isso é tão importante e necessario que, através de reações das pessoas aos episódios a gente consegue perceber que não, o mundo não está ainda completamente pronto pra aceitar que todas as pessoas são iguais. Um dos exemplos mais comentados na segunda temporada, foi um texto da revista Slate, morbidamente misógino. Um exemplo:

I felt trapped by my unwillingness to buy into the central premise. Narcissistic, childish men sleep with beautiful women all the time in movies and on TV, so why should this coupling be so difficult to fathom? I think it’s because Hannah is especially and assertively ugly in this episode. She’s rude (“what did you do?” she asks Joshua, referring to his broken marriage), self-centered (“I’m too smart and too sensitive”), sexually ungenerous (“no, make me come”), and defiantly ungraceful (naked ping-pong). In sum, the episode felt like a finger poked in my guys-on-Girls eyeball, or a double-dog dare for me to ask, How can a girl like that get a guy like this? Am I small-minded if I’m stuck on how this fantasy is too much of a fantasy and remembering what Patrick Wilson’s real-life partner looks like?

Eu poderia me alongar nesse parágrafo e comentar exatamente meus problemas com ele e o porque de eu achar que ele é extremamente sexista, mas eu sinceramente acredito que ninguém precisa se convencer disso, porque o sexismo está bastante aparente ali. A questão que me atraí é que Girls incita esse tipo de reação e provoca o intercâmbio de ideias a respeito disso; Lena Dunham nunca se acorvadou diante dessas críticas, muito pelo contrário, segundo as palavras da própria autora, na segunda temporada, todas as coisas que as pessoas usaram para falar mal de Girls foram utilizadas mais recorrentemente ainda – a nudez, o sexo desconfortável, os temas femininos, os personagens masculinos carentes e desequilibrados emocionalmente, personagens egocêntricos, etc. O fato de que Dunham insiste nesses temas, mesmo com críticas, demonstra não apenas uma certa coragem, mas também demonstra que ela sabe exatamente o que está fazendo com sua série; ela sabe exatamente o que QUER dizer.

As coisas começam a se aprofundar, no entanto, a respeito da questão já mencionada de que arcos e personagens são livres para serem o que querem ser em determinado momento, e depois serem outra coisa em um momento diferente. Isso é importante para uma série como Girls porque ela lida com personagens que são a certo modo infantis, ou possuem, pelo menos, certas questões de auto-estima a serem trabalhadas; pressupõe-se que esses personagens não estão completamente formados (e podem nunca estar), de forma que a questão da inconsistência seja parte determinada na própria personalidade não-completamente-desenvolvida deles. Obviamente existem aspectos claros da personalidade de cada um: Adam é impetuoso, explosivo, ao passo de que Shoshanna é inocente, mas incrivelmente perceptiva, etc. Mas existem partes não preenchidas naquilo que cada personagem é, e essas partes vão sendo completadas com diferentes peças a cada momento, quase como se as pessoas que criaram esses personagens (Dunham, junto de seus escritores e atores) não soubessem muito bem como preencher essas lacunas.

 Ficha Técnica: Tiny Furniture – Estados Unidos, 2010. Direção: Lena Dunham. Elenco:  Lenha Dunham, Laurie Simmons, Grace Dunham, Meritt Wever, Jemima Kirke, Alex Karpovsky, Amy Seimetz, Rachel Howe.

Ficha Técnica: Girls – Estados Unidos, 2012. Direção: Lena Dunham. Elenco:  Lenha Dunham, Jemima Kirke, Zosia Mamet, Adam Driver, Alisson Williams, Alex Karpovsky, Christopher Abbott.

Na parte 2: mais sobre Girls e sua narrativa; ironia e pós-ironia na obra de Lena Dunham; Mike Leigh, Kubrick e Hal Hartley; hipsters?

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like someone in love

– por Guilherme Bakunin

Este, Um Alguém Apaixonado e seu penúltimo filme, Cópia Fiel, de 2010; em ambos, o diretor iraniano parece extremamente preocupado em contar histórias que são, na verdade, a respeito de outra coisa, para então desestruturar suas narrativas de forma a tornar as histórias a respeito daquilo que se imaginava no começo mesmo. Em Cópia Fiel, Juliette Binoche e William Shimell assumem os papéis de dois estranhos que se transformam em marido e mulher e depois em estranhos novamente. Em Um Alguém Apaixonado, Kiarostami está em Tóquio e seus personagens são uma estudante que se prostitui para financiar seus estudos, seu namorado que desconfia deste fato e um senhor que contrata os serviços da estudante.

Através de suas motivações, os personagens do filme encarnam personas que, provavelmente, não são suas próprias, e Kiarostami é um diretor tão ousado e sutil, que isso ocorre como se não ocorresse. Akiko, a estudante, se atormenta em razão do seu segredo, porque não considera digno exercer a prostituição (e por vergonha não se encontra com a avó) e, por razão de seu exercício, é obrigada a trair diversas vezes a confiança do namorado. Porém, quando ela chega a casa de Takashi (o senhor), ela busca ativamente o sexo, enquanto o velho, por algum motivo, reluta.

Esse é provavelmente a primeira repersonificação no filme, que será continuada por outras ocasiões (Takashi encarna um avô, Noriaki encarna um homem educado e agradável, etc). É um conflito de autoidentidades que está latente tanto aqui quanto em Cópia Fiel, que são dois trabalhos de extremo caráter global, multilíngue. Kiarostami é, agora exilado, um homem sem pátria, e seus personagens refletem de uma maneira bem particular essa situação.

É também através dessa questão de globo (e de fronteira), que Um Alguém Apaixonado exerce sua mais arrebatante qualidade. Um filme autoral de diretor iraniano, com recursos majoritariamente franceses, completamente filmado no Japão: obviamente existem grandes transposições fronteiriças aqui, como se o filme rasgasse todas elas para assimilar algum tipo de território que é mais extenso e universal.

Portanto as delimitações espaciais são completamente desestruturadas na narrativa e, como mágica, temos enquanto resultado um filme de 2 horas com percurso de 24 horas e praticamente em tempo real. O espaço também é questionado através da direção, que aproxima e distancia os seus personagens, e os espaços que ele ocupam, de acordo com a serventia narrativa. Kiarostami parece ignorar definitivamente a ideia de elipse (bom, há claramente uma elipse de tempo no filme, que ocorre após Akiko dormir e antes de ela e Takashi estarem no carro, à caminho de Tóquio, na manhã seguinte), já que à exceção da que acabou de ser citada, não existe nenhum outro corte que faça a menor sugestão de passagem de tempo.

O que exatamente significa o fato de que o filme questione e manipule o tempo e o espaço; ou o que significa o fato de que os personagens mentem o tempo todo, e jamais parecem ser o que realmente são (ou são tudo aquilo que parecem ser); ou o que significaria o final abrupto e pastelão, que não concluí a história, tampouco diz alguma coisa a mais a respeito dela, eu não saberia dizer. Eu saberia, no entanto, sugerir, adivinhar, projetar.

Todo questionamento visa, primordialmente, a reflexão. E as deformações que Kiarostami provoca em Um Alguém Apaixonado certamente me atingem dessa maneira. Elas são, de certa forma, ainda mais pungentes que àquelas de Cópia Fiel (que é um filme mais legal de se ver, eu acho), e revelam que o diretor está em escalada, numa exploração constante a respeito das temáticas de não apenas o seu cinema, mas a respeito do cinema e da narrativa em si.

3/5

Ficha técnica: Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love) – 2012, França/Japão. Dir.: Abbas Kiarostami. Elenco: Rin Takanashi, Denden, Tadashi Okuno, Ryo Kase.

– por Guilherme Bakunin

É impressionante, Walter Salles conseguiu ficar à frente de um projeto que iria adaptar um dos livros mais badalados do século XX sem nunca ter realizado nada realmente memorável. A Grande Arte, talvez, seja digno de nota, e eu particularmente gosto bastante de Central do Brasil por algum motivo, mas muita gente despreza. Certamente Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta e Água Negra são terríveis, e Linha de Passe eu considero especialmente desprezível, por ser mais uma daquelas coisas nas quais o Walles tenta penetrar invasivamente com essa alma de pseudo-radicant que ele possui, subvertendo valores e equivocando-se na compreensão.

Na Estrada é mais um desses filmes, o que é chocante, por três motivos. Primeiro, Walles parece bastante apaixonado ao referir-se ao livro. Segundo, se a produção escalou o diretor brasileiro pra levar à obra de Kerouac às telas, ele deve ter tido algum pitching ou algo assim, algo que desse aos produtores certa segurança. Terceiro, segundo o próprio Walles, ele percorreu a mesma jornada de Sal, Dean e companhia, para familiarizar-se com o percurso, permitindo um melhor registro cinematográfico da história.

Ainda assim, mesmo com essas e outras vantagens, Walles conseguiu filmar algo que, embora superficialmente fiel ao material original, é completamente o oposto “espiritual” e filosoficamente daquilo que ele pretendia. E eu não acho que Walles tenha errado de propósito: pra mim ele simplesmente é ruim a esse ponto.

Porém, a diferença entre adaptação e obra original não é necessariamente um problema. A questão é que o livro deu muito certo. Então entre as centenas de escolhas estéticas & narrativas que Walles e sua equipe tinham à disposição, permanecer com àquelas pertencentes ao livro traria melhores resultados para o filme que eles quiseram fazer. Ao se afastarem dessa obra original, o diretor e equipe assumem o risco de acertarem ou não. O não foi definitivamente o caso.

Em Na Estrada, abre-se o filme de forma interessante, com a voz em off de Sal, o protagonista-narrador, entoando uma canção folclórica sobre desapego enquanto a câmera enquadra seus pés andando por diversos tipos de solo. Créditos. Então, Sal pega carona com algum caminhoneiro, e na caçamba, alguém lhe pergunta “você está indo para algum lugar, ou apenas indo?”, e Sal responde “apenas indo, eu acho”. Sal & filme encarnam essa postura de espírito livre e desbravador, sem uma diretriz definida para toda a vida.

O primeiro problema surge aí. Essa noção desaparece logo depois no filme. Raramente existe a impressão de que os personagens estão realmente na estrada. Eles parecem sempre estar em algum lugar bem definido, em interiores, fazendo alguma coisa.

Um segundo grande problema é que Walles nunca consegue expressar seus personagens sem o recurso literário (diálogos e narração). Dessa forma, praticamente todos os personagens carecem de empatia, pois a história é longa, os tipos que Sal encontra pelo caminho são numerosos e ninguém tem muita chance de realmente aparecer e marcar. Cabe ao espectador, portanto, assistir à distância personagens que se apaixonam uns pelos outros, num ato de fé de que eles poderiam se comportar dessa maneira, mas sem jamais entender o motivo dessas paixões.

Logo no início, por exemplo, um dos amigos de Sal e Carlo Marx (um dos personagens mais importantes do filme, e um dos mais marcantes, muito por causa de seus diálogos voluptuosos e a boa atuação de Tom Sturridge) anuncia que “Dean está em Nova York”, e os três disparam em direção à casa do sujeito, em alta expectativa, como se estivessem prestes a conhecer a pessoa mais sensacional do mundo. E eles realmente parecem conhecer a pessoa mais sensacional do mundo, embora o espectador não descubra exatamente o porquê, já que o Dean de Walter Salles não passa de um alcoólatra ignorante e vagabundo.

Essa falta de tato para lidar com personagens permanece como o status quo o tempo todo e durante todo o filme, o espectador é posto tão à distância de quem aquelas pessoas realmente são (e o que elas realmente querem), que as cenas parecem flashes de um sonho de algum desconhecido.

É compreensível que Na Estrada seja assim. Seus personagens viveram um momento específico da história/mitologia americana: os anos 1950. Quase sessenta anos depois, Walles e sua equipe parecem ter se obstinado a não apenas contar a história de Sal, Dean, Marylou e outros, mas usar esses personagens como reflexos de décadas da história: os beatniks dos anos 1950, a liberação sexual dos anos 1960, a ressaca flower power dos anos 1970.

Não me espanta, portanto, que Na Estrada tenha sido um filme ruim. Walter Salles nunca soube trabalhar muito bem com personagens, porque é um diretor idiossincrático, “poeta”, e quanto mais viciosa é a estética de um diretor, de uma maneira geral, menos representação é dada aos seus personagens (por exemplo, qual casal é mais tangível: Bonnie e Clyde de Arthur Penn, ou Pierrot e Marianne de Godard?). Além do mais, com a ambição de não apenas narrar uma história (ie estória, no sentido narrativo), mas usá-la como analogia para falar da História, Walles troca as mãos pelos pés e termina fazendo um filme longo, cansativo, apático e desconfortável, já uma das grandes decepções de 2012.

* Observação: a partir de um momento no texto eu comecei a me referir a Salles como Walles, provavelmente porque boa parte da resenha foi escrita durante as fatídicas wee hours; simpatizei com o apelido e mantive, especialmente porque fiquei com uma preguiça imensa de mudar.

1/5

Ficha Técnica: Na Estrada (On the Road)  –  EUA/França/Brasil, 2012. Dir: Walter Salles. Elenco: Sam Riley, Garret Hedlund, Tom Sturridge, Amy Adams, Viggo Mortensen, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Steve Buscemi, Terrence Howard, Elizabeth Moss, Alice Braga.

– Equipe Cine Cafe

Depois de uma pré-produção especulatória de quase 25 anos, chega às telas dos cinemas de todo o mundo a tão aguardada adaptação cinematográfica do livro que mudou uma geração. Alguns membros da equipe do Cine Café já assistiram ao filme, e garantem que uma resenha rancorosa está à caminho. Pra destilar ainda mais veneno nesse filme que é, segundo dizem, a maior decepção do ano, trazemos um top de dez filmes de estrada que são, de um jeito ou de outro, melhores que Na Estrada.

10. Central do Brasil (Walter Salles, 1998)

09. Lua de Papel (Peter Bogdanovich, 1973)

08. Weekend à Francesa (Jean-Luc Godard, 1967)

07. Verão Feliz (Takeshi Kitano, 1999)

06.  Estranhos no Paraíso (Jim Jarmusch, 1984)

05. Desconstruindo Harry (Woody Allen, 1997)

04. Coração Selvagem (David Lynch, 1990)

03. E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (Joel e Ethan Coen, 2003)

02. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)

01. Corrida Sem Fim (Monte Hellman, 1971)

Menções honrosas: Espantalho (1973), Traga-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974), Paul (2011), Corrida Contra do Destino (1971), Morangos Silvestres (1957), Fuga Alucinada (1974), A História Real (1999), A Deusa de 1967 (2003),  Apocalypse Now (1979), As Aventuras de M. Hulot no Tráfego Louco (1971), Profissão: Repórter (1975), Alice nas Cidades (1974), Paisagem na Neblina (1988).

– Equipe Cine Cafe

No dia 20 de Abril, entra em cartaz em todo território nacional o longa Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, de Beto Brant, adaptação do livro honônimo de Marçal Aquino. O Cine Cafe vai sortear um par ingressos para assistir ao filme, além de um kit promocional que incluí um porta-retrato ou marca-página e um mini-pôster.

Para participar, basta seguir o perfil oficial do filme no twitter e postar no seu perfil a seguinte frase: “Eu quero o Kit do filme “Eu Receberia…” que o @cafecinecafe e o @Eureceberia estão sorteando http://kingo.to/13HW

A promoção será encerrada às 23:59h da quinta-feira do dia 26 de Abril – dentro de duas semanas. O sorteio será feito através do sorteie.me mesmo, e o nome do participante vencedor será divulgado pelo twitter do @cinecafe e na nossa página do Facebook. Perfis fakes obviamente não poderão participar, e se ocorrer de um desses perfis vencer o sorteio, sortearemos o kit novamente.

Além disso, ná página oficial do filme no Facebook, você pode participar de um concurso cultural onde o vencedor vai ganhar uma Câmera Semiprofissional Sony SLT-A35K. Para mais informações, apenas clique na imagem abaixo.

Nós do Cine Cafe vamos falar em alguns dias sobre o filme, e vai rolar também uma entrevista que o Bernardo Brum vai fazer com o Beto Brant, considerado um dos maiores cineastas brasileiros de sua geração, estando sobre o comando de filmes como O Invasor, Cão Sem Dono, Ação Entre Amigos e outros. Só aguardar, participem, e valeu.

 

– por Guilherme Bakunin

Ah, sempre tem aqueles amigos né, “ei, você vai fazer alguma coisa nesse findi?”, e você, na santa inocência vai lá e diz que não, aí ele continua “ei, então vamo chamar a galera pra ver um filme!”. Ficar alimentando a cinefilia virtualmente tem lá suas vantagens. Você pode elaborar melhor seus pensamentos sobre os filmes que assiste, e além disso fica livre de amigos cinéfilos que, acreditem, pessoalmente são um saco (porque ninguém quer discutir a linguagem cinematográfica do Godard enquanto pode dar umas risadas e contar piadas sobre putas). A desvantagem de limitar a sua cinefilia ao mundo virtual é: você vai ser chamado pra ver filmes retardados.

Aí seu amigo te chama pra ir no cinema, e perceba: você sabe que 2012 tá passando, mas vai mesmo assim. Haha, é como ver um acidente (sic) antes de acontecer. E então você está no shopping, você e mais 5 amigos e o destino conspira contra você: vocês chegam tarde pra sessão de Deixe Ela Entrar (você convenceu o pessoal, dizendo que é um filme sobre vampiros… ponto) e só dá tempo de ver 2012. Sua primeira reação é “de jeito nenhum, prefiro dar um rolé no McDonalds”, mas aí satã começa a agir sobre a sua vida, e trás à sua memória aqueles tópicos nos foruns e nas comunidades do orkut… 2012, né, filme badalado do ano, milhões de posts e tudo mais. Satã diz: “você não vai querer ficar de fora das discussões, vai?”. Aí você fica pensando nisso e fica pensando naquele seu “amigo” virtual que diz pra você que 2012 tem diálogos horríveis, mas as cenas de destruição – e só elas – são boas pra caramba, “eletrizantes”, então ele recomenda, e já que seu “amigo” virtual recomendou, você acaba aceitando ir, afinal, você não quer ficar parecendo um pseudo intelectual, não é mesmo?

Bom, tenho uma notícia pra você camarada: sua mente é templo do seu corpo e você não devia ter feito isso. Sua mente é maravilhosa e é capaz de assimilar Bergmans e agora você a sujou, você assistiu 2012. Você está impuro; vai ter que se lavar no Jordão sete vezes e mesmo assim vai continuar impuro até à tarde. E não me venha com essa de que “as cenas de destruição são “eletrizantes””, sua marionete caipira, cinema não foi criado pra ter “cenas de destruição “eletrizantes””, e você sabe disso! – você vê Hawks, pelo amor de Deus!

Caras, sim, eu me recuso a comentar muito sobre o filme. Antes, porém, vou dar algumas dicas para quem for fisgado pela maldição do cinema de shoppings: NÃO, o mundo não vai acabar em 2012. SIM, você tem que ir no cinema com isso em mente, pra, sei lá, não sair chorando no meio na sessão (ninguém vai acreditar que isso aconteceu, mas ok). Outra coisa: o Roland Emmerich é um diretor medíocre. Não, Independence Day não é um bom filme. Nem Godzilla, nem O Dia Depois de Amanhã, nem – hahahaha – 10.000 a.C, por favor. E por último, lembrem-se de ter em mente que pessoas são idiotas, e que se seu “amigo” virtual chega pra você recomendando 2012 por ter cenas de ação legais, você precisa urgentemente conhecer esse amigo pessoalmente, porque ele pertence ao grupo das pessoas que te chamam pra ver filmes retardados, não ao grupo de pessoas com as quais você discute Agnes Varda.

Mas cuidado, não saia dizendo isso por aí. A mediocridade de Emmerich está um pouco em cada um dos corações humanos, e as pessoas tem medo de admitir que BOM CINEMA não é o bastante. Então, elas vem com um papo MUITO ESTRANHO como “ei, seu pseudo intelectual de merda, o mundo não gira em torno do Kubrick! Bays são divertidos, só pra passar tempo!, nem todo filme tem que ser uma tese filosófica de doutorado”. Sim, um papo realmente muito estranho e que, infelizmente, é amplamente apoiado nesses nossos pré-apocalípticos dias. Caras, muito cuidado! Vai chegar o tempo em que apedrejarão aqueles que se negarem a assistir filmes do McG, e esses dias estão próximos. Sua mente é templo do seu corpo e você tem que cuidar desse templo, meu filho!, alimentá-lo bem, com Rohmers e Fords e, mesmo que você dê uma escapadinha leviana pra ver Se Beber, Não Case, fique longe de obras medíocres, fique longe de obras medíocres, fique bem longe de obras medíocres. E eu não sei se mencionei, mas Emmerich fez várias delas.

0/5

Ficha técnica: 2012 – 2009, EUA. Dir.: Roland Emmerich. Elenco: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Thandie Newton, Oliver Platt, THomas McCarthy, Woody Harrelson, Danny Glover, Liam James, Morgan Lily.