trash humpers

– por Guilherme Bakunin

Gummo se mantém como uma das experiências mais impactantes que eu já tive com cinema. Figura ao lado de Sombras (John Cassavetes, 1959) como uma daquelas coisas monumentais que podem ser feitas a partir de praticamente lugar nenhum. A narrativa se esvazia e as tramas, mais do que nunca, deixam de existir. Eu me importo com o que o artista tem a dizer a respeito de sua obra e de suas intenções, mas nesse caso, me esquivei de qualquer informação adicional; fiquei, apenas, com as impressões que eu mesmo captei, sejam elas inequívocas ou não.

Apenas cito Gummo porque parece ser o único filme que se relaciona, em poucos aspectos, com Trash Humpers, um dos filmes mais recentes de Korine; só que este filme se esvazia ainda nas questões narrativas, não cede absolutamente nenhum espaço para tramas ou crônicas (algo que o debut do cineasta tinha em pequenos graus). O diretor nem ao menos se dá ao trabalho de contextualizar. O espectador é apenas violentamente lançado nas desventuras de uma gangue de velhos sociopatas, que andam por aí grunhindo ao praticarem pequenos delitos, que de certa forma, talvez, se escalonem, até chegar num apogeu de loucura e psicopatia, que começa a ocorrer por volta dos quarenta minutos da metragem.

Mas aí alguém pode chegar e perguntar o que um filme com mais de uma hora de duração onde velhos (ou pessoas jovens com máscaras monstruosas de velhos) saem cometendo barbaridades pelas ruas tem a acrescentar a qualquer pessoa; o que, afinal, esse filme tem a oferecer.

Bom, eu acho primeiramente que é interessante pra caralho que, passeando por textos na internet, a principal crítica dirigida ao filme (e ao diretor) seja a de “trapaceiro”. A questão do trapaceiro é extremamente percebida no cinema underground e no cinema independente. É percebida, porém, mais ainda no universo da arte, especialmente se o crítico em questão não tem a menor disposição de sacar a arte que ele analisa. “Trapaceiro” é o que você provavelmente vai ouvir se levar, sei lá, Agnaldo Timóteo? pruma exposição do Gerhard Richter.

Me fode se eu algum dia disser que essas pessoas são simplesmente despreparadas para apreciaram tal ou tal trabalho artístico, porque eu repudio completamente essa noção hierárquica de arte. A questão, a meu ver, simplesmente não é essa. Mas parece ter um senso de baixa auto-estima regendo essas percepções; não que tal ou tal filme seja necessariamente difícil ou complicado, mas porque as regras narrativas e estéticas podem ser outras. Me parece plausível demais que a pessoa, por algum motivo maluco, vai imediatamente se sentir ameaçada pelo baque da diferença.

Então eu tenho como extremamente maldosa essa noção de trapaça, porque simplesmente tenta deslegitimar algo que é legítimo, concreto, sincero. É um tipo de crítica que procura neutralizar o que é desconforme e diferente e que, portanto, em última instância, tenta transformar todas as coisas em iguais.

Cada vez mais eu tenho mais certeza de que, em um texto que fala sobre um filme, é irrelevante que o autor tenha gostado ou não do objeto de estudo dele. As ideias que podem ser extraídas da obra (através de pontos positivos ou negativos) são muito mais interessantes, reveladoras. E o que comentários que circundam a ideia de “trapaça” tem a revelar, exceto que o autor do texto tem um puta complexo de inferioridade? Bom, talvez revela uma pá de outras coisas, todas a respeito da pessoa que escreveu o texto, e como ela enxerga arte, estética, narrativa, imagem, som, e nada a respeito do filme em si.

Portanto eu vou simplesmente agir como um louco aqui e inferir que o Korine não atuou como trapaceiro durante um segundo sequer. Vou inferir, além disso, que Trash Humpers é uma exploração estética séria, e que o diretor está realmente bem interessado em como os desafios que ele se propôs serão explorados e irão resultar no objeto final. Vou inferir que Korine não é um cara que está apenas interessado no choque pelo choque, embora eu ache que o choque pelo choque é uma abordagem bastante legítima pra vários objetos de estudo, mas é um cara que tá interessado no no cinema como linguagem mesmo.

Trash Humpers é uma estimulação brutal à linguagem cinematográfica. É um filme extremo em todas as questões: extremamente insuportável, extremamente inócuo, extremamente fascinante. Desafia o espectador a perdurar na experiência mesmo sem saber que tipo de experiência está sendo mostrada. O que  devemos propor não é se Korine é um farsante ou não. Devemos nos perguntar o que um bando de velhos (ou jovens trajando máscaras mal acabadas de velhos) fodendo lixeiras podem elucidar a respeito do cinema de hoje. Digo cinema de hoje porque me é bastante claro que os filmes do Korine são proposições a respeito desse cinema, da maneira com a qual ele se configura e se configurará a partir de então.

Portanto enxergar como a narrativa de Trash Humpers pode estimular determinadas sensações parece ser, pessoalmente, o caminho mais próspero. Do amor ao ódio e do riso ao medo, é quase como se fosse um Laranja Mecânica sem história: apenas o horror brutal que o homem & o desconhecido podem gerar. Não sabemos quem são aquelas pessoas e porque elas agem daquela maneira, mas é impossível ficar impassível diante de tudo que elas fazem. Ainda que muitos declarem que o filme é apenas chato e insuportável, existe, sem a menor dúvida, uma resposta emocional primária que reage diante dos golpes impassíveis de Harmony Korine. O cinema não precisa de histórias para contar.

Ficha Técnica: Trash Humpers – Estados Unidos, 2009. Direção: Harmony Korine. Elenco:  Paul Booker, Dave Cloud, Chris Crofton, Rachel Korine.

– por Guilherme Bakunin

Nada Pessoal se propõe a refletir sobre o que acredita ser o ciclo natural da existência dos homens, relacionar-se e desprender-se. A história começa com Anne prostada sob uma janela observando pessoas do lado de fora remoendo seus pertences pessoais. No instante seguinte a garota está sozinha, no campo, vasculhando latas de lixo em busca de comida, acampando à praia deserta, caminhando aparentemente sem destino a procura de coisa alguma.

Ainda que sem buscar, ela encontra um homem solitário que perdeu a mulher e com a relutância de quem possui feridas abertas, aceita trabalhar para ele, sob o juramento de não se conhecerem. Mas eles se conhecem, cotidianamente, sem palavras.

O ciclo a que me refiro está inserido na perspectiva total da história contada nos 80 minutos de filme. Cinco vezes a narrativa é interrompida pelo interlúdio textual: Solidão, Fim de relação, Casamento, Início de relação, Só. É o que inversamente acontece na história, mas através de uma suposição quase lógica, deciframos o enigma de Anne (nome que só conhecemos através de um close-up em seus documentos), verbalizado pelas palavras de Martin, “quem é você?”.

A diretora e roteirista Urszula Antoniak parece não se preocupar com especificidades, generalizando a existência de seus dois protagonistas nesse ciclo que se repete durante o filme. Eles não são exatamente identificados, não possuem história, ideias, apenas sentimentos. Por serem capaz de sentir, eles existem dentro de seus universos particulares, numa dinâmica dolorosa de constante renovação de um ciclo interminável de apego e desapego, traduzindo em ações o que de mais trágico e patético no homem: a necessidade imediata de sempre se relacionar. É trágico e forte porque os laços entre duas pessoas são sempre extremamente frágeis e indicam uma condição de um momento. É instável, e um dia se parte. Partiu para Anna, que se desapegou do quase-lar que conseguiu criar naquela ilha desértica, e com a reticências daquele que ela deixou para trás, parte novamente em busca de qualquer coisa para se relacionar e se renovar.

4/5

Ficha técnica: Nada Pessoal (Nothing Personal) – EUA, 2009. Dir.: Urszula Antoniak. Elenco: Stephen Rea, Lotte Verbeek.

– por Guilherme Bakunin

Ninguém precisa ficar se perguntando porque Mad Men dá as caras num blog sobre cinema. A resposta é visceralmente clara. Mad Men possui todas as abordagens que a classificariam como um filme, só mesmo a distribuição e a questão episódica conseguem separá-la de ser a tal ‘sétima arte’. Bom, não tanto, já que a internet tem nos feito o favor de possibilitar nossa aproximação com esse universo de programas de televisão que, pasmem, são excelentes, artísticos, criativos, inteligentes e tudo mais. Eu não to falando de profundidade de tema, ou questões satorianas, ou qualquer coisa assim, porque mesmo as comédias seguem essa mesma ideia de exaltação da criatividade e da qualidade, seja lá o que isso significar. A gente só consegue definir que é bom mesmo e ponto.

Mas essa Mad Men. Moderna e clássica, ao mesmo tempo, como esses dois conceitos lutassem a todo instante dentro das histórias, transformando o que nas mãos de pessoas menos competentes seria um conto insuportavelmente monótono a respeito de qualquer coisa dos anos 60 numa verdadeiro épico existencial/social a respeito de, sei lá, tudo?, praticamente tudo que existe nessa nossa vidinha ordinária de estudar e trabalhar e morrer? e etc?

Porque Mad Men é uma dicotomia. A começar pelo título. Homens. Loucos. A loucura não é estado do ‘homem’. Sei lá, o homem louco é o homem transgredido, destituído das ‘perfeita’ juízo mental e portanto destituído de humanidade. Mas a série se chama Homens loucos, e a luta entre dois conceitos já começa aí. E (por enquanto) são quatro temporadas de conflitos secundários que são capazes de juntar essas duas ideias tão opostas (homens – loucos) para criar uma reflexão do mundo moderno (moderno? bem, moderno no sentido do mundo de agora, e o agora indo de mais ou menos após a segunda guerra mundial até sabe-se lá quando). Falei no outro parágrafo a respeito do clássico x moderno. Assim, eu nem poderia fazer uma tese ou uma monografia a respeito disso agora, mas afinal de contas, o que foram os anos sessenta, se não esse conflito basilar entre um mundo que já era e o mundo que estava por vir? Afinal, os anos sessenta não ficaram no meio desse tempo, no ponto de impacto desse conflito existencial de gerações, de pais contra filhos, de filhos contra autoridade, de homens contra tabus e tudo mais? Mad Men não poderia ser de outro jeito. Pra falar de clássico x moderno ela se faz clássica e moderna, estabelecendo na própria estética o seu ponto central.

E por onde eu posso começar falando de arte x propaganda? Eu nem começo, porque se não eu vou longe. Mas quando Don Draper diz que ‘nós fazemos o que eles não conseguem, e eles nos odeiam por isso’, a gente sabe do que ele realmente tá falando. Quando as pessoas comentam e riem com a clássica propaganda de 1961 de fusquinha volkswagen, a gente reconhece que já tivemos o mesmo tipo de reação, e de repente a gente começa a pensar nessas coisas aí de impacto da arte e impacto da publicidade, de semiótica e Rothko e Bye Bye, Birdie e e Lucky Strike e etc.

O historiador de arte Simon Schama definiu os anos sessenta, quando falava a respeito de Rothko em O Poder da Arte (BBC, 2006) como a américa presa entre a bomba e o supermercado.

A confluência histórica precisa de Mad Men torna-se então assustadora. Vendo os episódios finais da primeira temporada, onde Don está na guerra (da Coréia, provavelmente, não me lembro agora), dá pra perceber que é exatamente sobre isso que a série fala também. Duma nação que está imersa (ver o poster da quarta temporada) num caos de incerteza, se anestesiando progressivamente (ver Uivo, de Allen Ginsberg) à procura de não se dar conta da falta de sentido de todas as coisas (ver Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen).

Donald Draper é a própria américa. A bomba de um lado, o supermercado do outro, e a américa no meio. A arte de um lado, a propaganda de outro, e a américa no meio. O clássico de um lado, o moderno de outro, e a américa no meio. A américa sem identidade, a américa agressiva, a américa infiel, a américa que bebe, que fuma, que bate na mulher, que procura a felicidade.

Mad Men é uma série de televisão exibida pelo canal pago AMC, nos Estados Unidos. Começou em 2007, e ate agora (março de 2011) possui quatro temporadas. A série foi premiada três vezes consecutivas no Emmy, o maior prêmio  da televisão americana, em 2007, 2008 e 2009 como melhor série de tv, drama. E a coisa mais importante a ser dita sobre a série, definitivamente é: ela possui o mais gostoso elenco de gatinhas da televisão.

por Bernardo Brum

Desde o início da sua carreira com Permanent Vacation, Jarmusch mantém-se agarrado a um modo específico de fazer cinema. Quase 30 anos depois em Os Limites do Controle, sua obstinada idéia ainda não mudou.  Os mesmos temas, envolvendo protagonistas solitários, sem casa, sem identidade exata, sem lugar certo no mundo. A mesma linguagem, o ritmo lento, as tramas sem qualquer desenvolvimento dramático tradicional, as histórias contadas em segmento, os longos momentos onde nada de interessante para a cartilha tradicional acontece, os movimentos de câmera e cortes econômicos e calculados…

Tudo o que Jarmusch constrói contribui para a desdramatização, a fuga do conflito; a história de um homem envolvido em uma contratação ilegal – sempre recebendo as informações de maneira fragmentada através dos seus contratantes, que enviam mensageiros exóticos (como o mexicano de Gael García Bernal e a loira-fazendeira de Tilda Swinton) que, pouco a pouco, levam a um desfecho já esperado. É aí que o diretor procura repetir uma marca registrada sua: as conversas de referêcias pop e os diálogos repetidos ao longo de vários conversas – não só para fazer seus roteiros integrarem um mesmo universo, mas também para guiar o espectador pelo seu caminho e despistá-lo sobre alguma possível reviravolta – que talvez nunca venha.

Longe do vício por pólvora e sangue do cinema tradicional, o olhar de Jarmusch é absolutamente casual sobre cada assunto. A tensão inexiste, é diluída dentro do panorama geral; o que resta, como sempre, é o sentimento de desolação e tédio, clima de todos os seus filmes. Tudo o que temos a fazer é acompanhar o lento desenrolar da missão (um serviço de praxe) e os encontros com a garota nua, Paz de la Huerta – em um quarto de hotel que é o contra cromático do filme; Jarmusch não procura transmitir sensualidade, mas suavidade no encontro do homem com a garota. Uma fuga para o clima seco, onde nada acontece, que reina nas tomadas externas.

Mas não espere que o diretor vá além disso: tão radical ou mais que Aki Kaurismäki, por exemplo, as histórias de Jarmusch não crescem para lugar nenhum. Como sentar numa cafeteria, tomar uma xícara e fumar cigarros, seus filmes registram o mundo dos anônimos, que chegam, ocupam o espaço por algum tempo e se vão, como o próprio cinema e a música. Como a própria existência humana, talvez, vá saber.

O diretor não escolhe os vagabundos, excluídos e marginais por acaso: aqueles que passam despercebidos contam as maiores crônicas em seus filmes. Filme após filme, parece levantar a bandeira do não-significado; se cada plano para Eisenstein era um ideograma que no conjunto com outros planos deveria significar algo, Jarmusch tenta fazer com que sejam signos abertos. Ele volta o olhar para os derrotados por ver a liberdade do modelo tradicional neles, o que já leva seus filmes para além do mero interesse sociológico.

O discurso do cinema jarmuschiano é o do contexto da fuga da repressão; da busca pela liberdade; da libertação dos significados. O senso comum aprisiona, e o olhar indiferente com ritmo devagar quase parando, interessado não na ação em si, mas no painel geral de historietas que compõem um mundo pouco lembrado. Sair do nada e ir para nada é uma constante das suas obras – Jarmusch parece acreditar que nada é determinado e cada novo passo, cada novo plano, é um tiro no escuro. Por isso, o presente não importa tanto quanto o passado ou quanto o futuro. Por mais que já tenha variado na fórmula, o assunto continuou o mesmo: a falta de rumo e a busca pelo mesmo.

Os Limites do Controle pode não ser o melhor de seus filmes, mas é um filme consistente feito com a marca indelével de um exercício estético constantemente treinado e refinado ao longo de três décadas que acabaram por constituir uma das carreiras mais autenticamente dissidentes do cinema contemporâneo. Livre do modo de produção tradicional e da linguagem predominante, é o real cinema indie, de “independente”, por natureza.

4/5

Ficha técnica: Os Limites do Controle (The Limits of Control) – Estados Unidos, Espanha, Japão, 2009. Dir.: Jim Jarmusch. Elenco: John Hurt, Gael García Bernal, Tilda Swinton, Jean-François Stévenin, Bill Murray, Alex Descas, Luis Tosar, Isaach De Bankolé, Paz de la Huerta, Óscar Jaenada

por Bernardo Brum

Primeira vez. Primeiro porre. Primeiro carro. Primeiro emprego. Primeiro fora. Todas essas nuances, que dividem homens e mulheres de garotos e garotas, devem ser enfrentados por qualquer um. A adolescência é um período constrangedor, estranho e difícil, porém ainda divertido, frenético e com cheiro constante de novidade. Não somos mais inocentes, mas ainda não estamos “machucados” e cínicos.

Infelizmente, o cinema mainstream – principalmente o norte-americano – pouco parece se interessar sobre essas milhares de camadas, esses ritos de passagem que só significam grande coisa para o indivíduo que tem de enfrentar, esse literal batismo de fogo tragicômico não tão fácil de sobreviver sem carregar traumas e marcas para a vida toda. Na maioria das vezes, o mercado inunda o público-alvo juvenil com bombas travestidas de contos de fada ou aventuras escatológicas, sexualizadas e absurdas. Mas, de vez em quando, aparece algo tipo Férias Frustradas de Verão.

Greg Mottola teve uma evolução simplesmente surpreendente de Superbad – É Hoje para esse filme. Se o primeiro, ainda que com todo o vocabulário pesado e piadas escrotas ainda conseguisse falar sobre a amizade masculina na juventude de um jeito sincero que não se costuma ver por aí, este é um retrato para lá de sensível não apenas sobre um ou dois jovens – mas sobre a maioria deles.

Não me entendam mal; ainda há as piadas bestas, porque sem elas não se vive. Momentos sem noção como o patrão de Adventureland ameaçando arruaceiros com um bastão de beisebol; o amigo idiota e sem noção que passa o filme inteiro socando os testículos do protagonista; o esforço do mesmo para se enturmar contando para qualquer um à vista que é virgem e distribuindo baseados para a turma do trabalho. Mas o viés aqui é outro; é uma obra bem mais dramática e bastante angustiada para uma comédia supostamente leve.

Claro, dá para deduzir que não é como Bergman, chegando às raias dos maiores problemas da existência; mas quem, lá pelos 15, 17, 19 anos nunca se sentiu perdido e preso? Oprimido por família, escola e relações trabalhistas; sem saber o que vai fazer ano que vem ou mesmo no final de semana que vem.

Os personagens serão protagonistas de pequenos dramas – Além de ter que juntar dinheiro em Adventureland para tocar sua vida em outra cidade para frente, James terá que enfrentar a escolha entre a garota que ele caiu de quatro, mas que tem um humor para lá de volúvel, e a gostosinha sem muita coisa na cabeça. A tal maluquinha com flutuações de humor, Em Lewin, encara a madrasta autoritária e ressentida e um relacionamento com um homem bem mais velho. Eles não correm distantes; a todo tempo os problemas se chocam e criam problemas  aonde não deveria ter e nunca estão realmente preparados para nada. Ainda são jovens, com todos os problemas do mundo para enfrentar. James e Em tem um relacionamento tão bonito quanto confuso, e assim é com cada um dos personagens exóticos que monitoram o parque de diversões Adventureland.

Música alternativa desenha a trilha sonora, não apenas sublinhando mas também fazendo parte da história. Todo esse romance complicado (e qual relacionamento na adolescência não o é?) começa com Pale Blue Eyes, do Velvet Underground. Teremos ainda Just Like Heaven e Sattelite of Love; dois hinos de ídolos anacrônicos que passam longe de compôr um filme indie como as dezenas que entram  em evidência hoje em dia.

Férias Frustradas de Verão também é alternativo, mas de forma diferente: é uma digressão da maioria do que tem sido feito em solo americano. Pouca caricatura explode em tela; os tradicionais personagens de alívio cômico jamais sobrepujam a situação complicada que vivem os protagonistas. Há um bom tempo que não víamos, daquele canto do mundo, uma tragicomédia tão sensível e segura, capaz de ser leve e pesada ao mesmo tempo. Mottola não pesa a mão na direção em momento algum, e o filme flui fácil feito água, ainda que no caminho tenha que se misturar a algumas bebidas destiladas…

É compreensível que ultimamente ande todo mundo vacinado contra as comédias americanas; é possível aceitar alguma comédia depois de Billy Wilder, Jack Lemmon e Peter Sellers terem partido e todos os novos ícones incensados do gênero estão mais preocupados em fazer filmes baseados unicamente em peidos, bundas e maconha? Difícil, mas não impossível; aquele que se aventurar pelo rio de emoções orquestrado por alguém que entende do riscado e compreende as alegrias e dramas de seu público alvo ganhará um retorno muito grande. Ainda existe uma luz no fim do túnel, se de vez em quando algo do nível deste filme for lançado no circuito e no mercado. É ver e ficar bêbado, chapado, estropiado ao lado de James, Em e Greg sabendo que lá no final esses batismos de fogo devem ter servido para algo, afinal de contas.

4/5

Ficha técnica: Férias Frustradas de Verão (Adventureland) – EUA, 2009. Dir.: Greg Mottola. Elenco: Ryan Reynolds, Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Wendie Malick, Jack Gilpin, Margarita Levieva, Bill Hader, Kristen Wiig, Kelsey Ford, Michael Zegen, Ryan McFarland, Martin Starr

por Bernardo Brum

E  eis que, ao fazer uma continuação de sua obra-prima Felicidade, Todd Solondz consegue de novo. Consegue descer às profundezas da alma humana, escrevendo um verdadeiro catálogo de perversões pra esfregar na cara do espectador. Consegue tratar novamente da complexa vida do homem do mundo moderno. O uso do bizarro, da provocação e do humor negro faz um filme pesado e sombrio ser interpretado por seus atores como simples banalidade. Eis o grande problema: os indivíduos que Solondz retrata não se vêem mais como pessoas. São, apenas, uma pilha de desespero e culpa presos a uma grande roda que continua girando – independente se eles sobreviverão a isso ou não.

A quarentona tarada, o pedófilo que nunca conseguiu e nem vai conseguir se livrar da sua perversão, a garotinha fofinha de menos de dez anos e já viciada em rivotril, o moleque que em plena época de bar-mitzvah tem de lidar com fantasmas do seu passado sem ter amadurecido nem um pouco ainda, a irmã loser que não consegue se arranjar em nenhum lugar nem com ninguém e que vive tendo alucinações decorrente do fato de nunca entrar em conflito com ninguém, o pretendente divorciado, velho e desesperado; proferindo conversas absurdas em cima de conversas absurdas, esse “freak show” da classe média americana é encenado com cuidado fotográfico e amargura profissonal pelo diretor que começou a despontar em Bem-Vindo à Casa das Bonecas, lá em 1995.

A experiência adquirida é sentida, porém, A Vida Durante a Guerra não chega nem perto do baque pestilento de Felicidade, filme que era nitroglicerina pura, que basicamente queria explodir 95% do globo terrestre em seu desvairado ataque niilista. Essa sequência é bem mais contemplativa e apressada em seu desenvolvimento e conclusão; e ainda mais depressiva. Não há filme de Todd Solondz que não reflita o mal-estar de viver nos dias de hoje. O homem que já foi muito mais desesperado que qualquer um de seus personagens, nos apresenta aqui um novo foco a ser explorado: a do observador cinzento.

3/5

Ficha técnica: A Vida Durante a Guerra (Life During Wartime) – EUA, 2009. Dir.: Todd Solondz. Elenco: Charlotte Rampling, Ciarán Hinds, Michael Lerner, Paul Reubens, Ally Sheedy, Shirley Henderson, Gaby Hoffmann, Allison Janney, Chris Marquette, Renée Taylor, Michael K. Williams, Brian Tester


por Bernardo Brum

Com uma fama de azarão já consolidada há mais de 20 anos, Terry Gilliam parece nunca ter se abalado verdadeiramente com as brigas como a com a produtora para conseguir lançar Brazil – O Filme, a problemática produção de As Aventuras do Barão de Munchausen, ou a morte do intérprete de um dos principais personagens em O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus: o que muitos veriam como um sinal de mau presságio, ou simplesmente um bom argumento para pendurar as chuteiras, Gilliam tirou nitidamente dessas adversidades uma fúria criativa que só fez as obras crescerem em qualidade.

Dr. Parnassus é um filme que, em sua esquisitice muito alegórica, pode até servir como um recorte do que aconteceu por trás das câmeras: afinal, a história inteira é envolta em temas como auto-conhecimento, arrependimento, tentação, escolhas, casualidade, traições, transgressão… E nunca em um caráter seco e direto. Um dos principais atrativos desta obra de Gilliam é a ambiguidade, o fato de nada ser delineado.

Fato que se comprova que, mesmo aparentemente começando a  andar nos trilhos de uma narrativa clássica com um visual maluco, o roteiro reserva pequenas ousadias e liberdades não previstas em nenhuma cartilha, o que não demora muito para virar a obra de cabeça para baixo – coadjuvantes são promovidos a protagonistas por um período considerável de tempo, protagonistas passam a atuar nas sombras e no fundo da tela, distorções de identidade vem à tona, com outros atores entrando no lugar do original (uma grande saída para a infeliz morte de Heath Ledger no meio da produção), o limite entre sonho, realidade e memória nunca é claro o suficiente…  Enfim, um pequeno quebra-cabeças de linguagem dramatúrgica inconstante escondido em uma história já estranha em si, que brinca com as expectativas de quem assiste o tempo todo. Cada opinião que você construir acerca de determinado personagem pode, facilmente, ir para o lixo dez minutos ou meia hora após. Gilliam não esconde isso, muito pelo contrário: essa é uma característica potencializada por suas maluquices estéticas desvairadas. Pernas de pau que alcançam o céu? Espelhos que levam para outra dimensão? Cenários que se despedaçam? Está tudo lá, freneticamente atrativo e  amedrontador.

O roteiro, típico da filmografia de Gilliam, segue caminhos tortuosos ao contar a história de homens que se entregam a tentações e lutam contra a maré, confrontando visual alucinatório algo psicodélico algo kitsch com ruas, vielas e lixões sujos; os personagens vivem em estado de miséria total em um mundo lotado de cinismo e hipocrisia onde o diabo (Tom Waits em mais uma variação de sua persona clássica – o maior filósofo de bar que o mundo já conheceu) leva a melhor tão facilmente que vez por outra até dá uma mãozinha para seus devedores conseguirem sair do mar de lama em que se encontram.

Em um mundo onde até o tinhoso tem caráter ambíguo, o que se pode esperar da humanidade? Curiosamente, uma figura divina superior nada interfere na história do filme. São as escolhas, falhas e erros humanos contra as tentações, vícios e corrupção. Aliás, o próprio Tom Waits já havia dito certa vez, “você não sabia que o diabo não existe, apenas Deus quando está bêbado?”, já denunciando que os males do mundo talvez não sejam nada mais nada menos que uma ressaca de algum delírio coletivo…

Isso constrói aqui um clima de derrota total, como em Brazil – mas também um lugar onde não se sabe o que é certo ou errado, ético ou moral, como em Medo e Delírio. Não dá para dizer que esse é um dos filmes mais otimistas de Gilliam, dado ao seu final. Nós podemos até escolher, mas bem, nós sempre vamos estar à volta com a tentação. Sabedoria para perceber a diferença? Bobagem. O Dr. Parnassus de Christopher Plummer tem séculos de experiência nas costas (dado o seu trato com o diabo, que passa o filme inteiro tentando fazê-lo pagar) pela sorte de sempre ter alguém ao seu lado. Quando não teve, pôs tudo a perder – mulher, filha, uma vida breve, irrelevante e rápida, uma pequena chama, ao invés de arrastar pelos séculos como uma figura anônima e progressivamente patética. É um mundo onde se deve e se precisa de aceitação, compreensão e solidariedade para alcançar a harmonia; ou seja, é uma utopia das maiores.

Mas Gilliam, como o próprio Dr. Parnassus, sabe que se deve dar um passo após o outro. Não há guerra vencida em apenas em uma manobra estratégica – há de se juntar as pequenas peças de quebra cabeça para poder arquitetar algum plano. Talvez a Grande Máquina seja invencível – mas a missão da arte, Gilliam já sabe desde a aurora do Monty Python,  é continuar lutando.

4/5

Ficha técnica: O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (The Imaginarium of Dr. Parnassus) – França, Canadá, Reino Unido, 2009. Dir.: Terry Gilliam. Elenco: Heath Ledger, Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Christopher Plummer, Lily Cole, Tom Waits, Verne Troyer, Andrew Garfield