ou aqui: Fim dos Tempos – por Bernardo Brum [4/5]

– por Guilherme Bakunin

Praticamente todos os textos por aí que falam sobre Fim dos Tempos vêm acompanhados de um tom passivo-agressivo em relação ao filme (falando, obviamente, das críticas que são favoráveis). São elogios cheio de ressalvas, que costumam definir o filme como um terror b, onde todas as coisas que não se enquadram exatamente nesse raio (do terror b), são dispensadas. Sob essa visão, não existiriam muitas coisas mais b’s do que Os Pássaros, onde uma trupe de pássaros mais recortados devastam uma cidade inteira. Mas as coisas não são exatamente assim.

Certamente inspirado em filmes b, mas sem deixar de lado a estética de seu diretor, Fim dos Tempos explora em graus um pouco mais sutis (relativos ao padrões do Shyamalan, que como eu disse no texto de Sinais, não são sutis) os mesmos temas de fé, natureza, medo, e o palco agora é toda a costa leste dos Estados Unidos que é atacada por algum tipo de toxina que faz com que as pessoas atentem contra a própria vida. Isso já denota algo inusitado: a toxina, que supostamente emana da natureza (flora), não apenas acaba com a vida humana, mas a extingue com masoquismo, crueldade, fazendo com que os homens encontrem formas criativas de se matarem. Nesse sentido, é quase um filme de vingança; e é interessante observar a maneira com a qual Shyamalan filme as plantas no filme, sempre acuando os personagens, como se fossem bestas à espreita, prontas para um ataque a qualquer instante.

Mas aí entram em cena Elliot (Whalberg) e Alma (Deschanel), no cúmulo de suas inexpressividades. O diretor parece ter uma complacência com personagens que não se expressam: Malcolm de Sexto Sentido, Joseph de Corpo Fechado ou Graham de Sinais, Lucius de A Vila. De alguma forma é não-inspirado dizer que são más atuações. A tendência perpassa por toda a carreira de Shyamalan e parece dizer que os personagens inexpressivos são os que essencialmente levam a história sempre para frente, por motivações que são muitas vezes misteriosas (já que a inexpressividade envolve certo mistério, já que não é claro o que se passa realmente na cabeça dos personagens), em contraponto com outros que realmente dizem muito do que pensam. Mas aqui temos Fim dos Tempos, onde o casal principal não conversa e também não se expressa, estando como entrave de sua própria relação.

Que Fim dos Tempos é, em parte, sobre um casal em crise matrimonial, todo mundo já está cansado de saber. E todo mundo meio que já admitiu que os diálogos são bem escusos e desconfortáveis. Mas existem mundos em choque aqui que valem a pena serem destrinchados. O primeiro e mais claro é a natureza x homem, onde o primeiro se rebela contra o segundo, numa ordem de caos que faz despertar a misantropia nas pessoas. Em certo momento do filme, Alma diz algo como “independentemente do que estiver acontecendo, é melhor ficarmos longe de pessoas agora”. Em meio ao caos, os homens se afastam e, pouco a pouco, Elliot e Alma são obrigados a se isolarem do resto do mundo e confrontarem o que há de errado com eles mesmos (mais sobre isso logo mais). É uma noção de enclausuramento bastante similar a de Sinais, exceto que Shyamalan consegue criá-la, em Fim dos Tempos, em amplos e abertos espaços. Pra quem pode.

Outro aspecto dicotômico é a relação entre racionalidade x o desconhecido. Não é exatamente fé, pois não há esse tipo de contorno no filme. É mais essa questão de aceitar que o mistério existe na vida e que nem todos os acontecimentos possuem ordem ou razão. É algo que Elliot sabe ser verdade (vida a cena introdutória na sala de aula), mas que ao longo do caminho, perde, procurando racionalizar demasiadamente em cima da situação em que eles estão, à procura de salvação, ocasionando momentos de forte significado, como a emblemática cena em que os personagens correm do vento. É interessante pegar essa cena um pouco mais, pra observar como a sobrenaturalidade do Shyamalan está pulsante em Fim dos Tempos, onde ele abstrai o e reconstrói o perigo, de forma a tornar o mero ar uma arma letal. Novamente, é pra quem pode.

Finalmente, existe a colisão entre o cinema e a estrutura do filme – enfim, a metalinguagem. Criticando o filme por situações absurdas e diálogos escrotos, o público falha em notar que a estrutura de Fim dos Tempos é bem alucinada. É um suspense catástrofe romântico meio road movie de terror: a cada cena, a necessidade dos personagens mudam para que eles se enquadrem a nova ordem estrutural de gênero que Shyamalan tenta imprimir. Existe o central park, depois o embarque na estação, depois a lanchonete, depois a estrada, depois o campo e depois a casa da senhora zumbi. É desconstrução após reformulação e vice e versa e assim por diante, para que o cineasta tenha a possibilidade de explorar todos os potenciais dos gêneros que ele resolveu se inspirar.

O resultado é Fim dos Tempos, que chega bem próximo de ser um tratado sobre a criação do medo numa história, na mesma linha de Os Pássaros (que também é catástrofe, e que depois foi filme de vanguarda). Apesar do público ter se expelido de admirar o filme, sabemos que grande parte disso envolve o nome de Shyamalan, que tem sido irrevogavelmente relacionado a trabalhos considerados de mau gosto, pelos mais diversos motivos, criando um hype que dificilmente corresponde a realidade (seus filmes são bons, e são autorais e originais além de serem de fácil digestão).

Mas toda a estruturação do perigo toma, no final, a forma de um mcguffin que existe para resolver o conflito matrimonial de Alma e Elliot. Não é exatamente um mcguffin, já que, na minha opinião, esse conflito é colocado em vários momentos do filme em espera, para que M. Night brinque com o suspense e o terror, mas é algo que existe em segundo plano, de qualquer forma. O auge da catástrofe letal de origem desconhecida é também o auge da distância entre os dois. Se durante todo o filme Shyamalan raramente coloca Alma e Elliot no mesmo quadro, nesses últimos momentos muito menos: eles estão a vários metros de distância um do outro, justamente quando a ameaça atinge seus níveis de maior intensidade. Diante desse panorama, os dois conversam e se abrem. “Qual era a cor do amor?”, pergunta Alma. “Eu não me lembro.”, responde Elliot. mas depois os dois se lembram e, no meio da ventania, um corre na direção do outro, até se encontrarem e se reconciliarem bem no meio disso tudo. Se o diálogo é o maior problema do filme, tudo bem: aqui eles não falam, e nem precisam. E também não voltam a conversar durante o resto da metragem (existe um epílogo que existe pra explicar mais ou menos a origem das toxinas, dispensável na minha opinião). Como a visceralidade de um tiro de escopeta na cabeça, a sintonia entre o casal é clara demais para ter a necessidade de demais explicações.

4/5

Ficha técnica: Fim dos Tempos (The Happening) – EUA, 2008. Elenco: Zooey Deschanel, John Leguizamo, Mark Wahlberg, Alison Folland, Brian O’Halloran, Spencer Breslin, Alan Ruck, Betty Buckley, Robert Bailey Jr., Ashlyn Sanchez, M. Night Shyamalan, Jeremy Strong.

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ou aqui: Fim dos Tempos – por Guilherme Bakunin [4/5]

por Bernardo Brum

Catapultado para a fama após O Sexto Sentido, o indiano M. Night Shyamalan arrebatou legiões gigantescas tanto de detratores  e desdenhadores quanto de admiradores e fanáticos. Já havia algum tempo que não havia um caso de “ame ou odeie” tão forte – dos seus contemporâneos, talvez apenas Quentin Tarantino possa ser classificado como integrante do grupo.

Esse era um probleminha meu: nunca havia conseguido nem amar, nem odiar o diretor. Acho que os dois pólos sempre levaram Shyamalan muito a sério: as críticas sociais, mensagens humanistas e pretensões estético-narrativas propostas em seus filmes ou eram consideradas um oásis nesse deserto de idéias ou fracassos retumbantes. Apreciador de algumas de suas obras (como O Sexto Sentido e A Vila) e detrator de outras  (mesmo com mais de cinco revisões, ainda acho Sinais involuntariamente hilário), o lançamento de Fim dos Tempos parecia prenunciar mais uma rodada de discussões sérias (e um tanto sisudas) de duas torcidas muito bem delineadas.

Exceto que, após alguns minutos de desconfiança, eis que surgiu uma agradável surpresa: Fim dos Tempos desbancava com uma facilidade surpreendente o posto de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal como o filme mais divertido do ano de 2008. Ainda que jamais caminhe um passo fora do estilo consagrado pelo diretor tão amado/odiado por aí, Fim dos Tempos é consciente de si mesmo e não tem a vergonha de ser um filme de terror com profunda inspiração no cinema B, além da óbvia referência da obra de Alfred Hitchcock que é ponto de partida para todos os bons filmes cataclísmicos, Os Pássaros. Isso inclui uma grande dose de presença de espírito que já previne a maioria das críticas.

Assim, Shyamalan parte de uma premissa ecochata e logo parte para o que interessa: uma onda de suicídios em massa causada por algum vírus muito cabuloso vindo das plantas que logo parece prenunciar a extinção de toda a vida humana sobre a Terra. E é nessas que prossegue até o vírus repentinamente sumir e deixar todo mundo apenas com um ponto de interrogação.

Ainda que faça concessões para os mais fanáticos pelo seu estilo – como as cenas no porão lá para o final do filme que  expressam a incomunicabilidade humana e coisas assim -, não se engane: Fim dos Tempos é pauleira pura. O grande barato do filme, no final das contas, é ver Shyamalan brincando feito uma criança retardada ou, vai saber, um psicótico sem os remédios: corpos caindo enquanto aparvalhados encaram, diálogos casuais que terminam em gargantas cortadas, além de pequenos arcos dramáticos de puro suspense que, se de início parecem prenunciar salvação pela nossa inteligência, acabam indo pro buraco quando um pequeno rasgo em um carro deixa entrar aquele maldito ar impregnado. O ser humano é impotente e a natureza implacável. Simples e terrível assim.

Tal qual um George Romero em dias inspirados, o indiano desenvolve muitos poucos personagens; a maioria que aparece logo morre após alguns minutos de aparecer em tela e os que restam não vão nos dizer muito a respeito, não vão compôr muitos trejeitos de métodos de atuação, nem nada. Vão ficar correndo de um lado para outro, desesperados em grupos cada vez menores… E mais cedo ou mais tarde terão um destino inevitável. Pura síntese do cinema B: ainda que tenhamos o popular e elogiado Mark e Wahlberg e a musa cult Zooey Deschanel e participação do quase onipresente John Leguizamo a coisa toda é tocada como se o orçamento fosse uma mixaria e os atores fossem zé-ruelas encontrados na lanchonete. A história que poderia ser pra lá de dramática concentra seus esforços, absolutamente na tensão, nas mortes mirabolantes e no medo de ser a próxima vítima. Sensação que o cinema mais polido e regido com ar professoral dificilmente consegue garantir.

Em suma, relaxa a bunda na cadeira e aproveita o fim do mundo. Quer algo mais sincero que isso?

4/5

Ficha técnica: Fim dos Tempos (The Happening) – EUA, 2008. Elenco: Zooey Deschanel, John Leguizamo, Mark Wahlberg, Alison Folland, Brian O’Halloran, Spencer Breslin, Alan Ruck, Betty Buckley, Robert Bailey Jr., Ashlyn Sanchez, M. Night Shyamalan, Jeremy Strong

– por Messias Rodrigues

Ao fim de Martyrs, de Pascal Laugier, senti um grande incômodo oriundo da carnificina, mas também me pareceu que acabava de participar de uma festa. E como pode ocorrer a qualquer um, o evento pode ser muito desagradável, mesmo que você não faça parte do cardápio. E, aliás, em Martyrs o corpo humano é o principal ingrediente. De modo que, para os amantes do carnaval cinematográfico, temos um filme que não economizou em efeitos quando a violência era o foco.

Laugier nos convida a acompanhar Lucie (Mylène Jampanoï) e Anna (Morjana Alaoui) num passeio cujo objetivo é vingar os abusos que uma delas sofreu em sua infância.

Antes do grande delírio final, as personagens passarão por uma longa via-sacra, em que é ofertado para nós o gradual desintegrar do corpo e da sanidade delas. Para o caso da desintegração física, esta é provavelmente correspondente a gula do espectador ávido do gênero horror e drama, mas que também flerta com aquilo que alguns chamam de porn torture .

Quando Mel Gibson realizou sua versão de A Paixão de Cristo, optando por captar meticulosamente os sucessivos ferimentos de Cristo, gozando para isto de impecáveis recursos da indústria de cinema norte-americana, acredito que ele farejara esta carência alimentar que ainda existe em certo nível, em nossa espécie. Sede de sangue e fascínio pelo sofrimento alheio.

Sabendo disso também, Laugier não poupou quando teve que adotar o sofrimento, como o tempero principal na sua cozinha. Um sofrimento que não cessa ao atravessar a carne, ele continua até aquele “seja lá o que for” dentro de nós, vulgarmente chamado de espírito. Quando Laugier resolve por isto, ele sabe que está adicionando caras questões cristianas à luz da mesa, como a culpa (sentimento que aqui de certo modo, se materializa e age), a dúvida ou incredulidade (abordagem que ocorre na relação de Lucie e Anna, principalmente, calcada na confiança que alimentam uma ante a outra) e na minha opinião a questão mais cruel, mas que não pretendo demorar nela: a resignação.

Outro ponto forte em Martyrs é o erotismo, superficialmente ele parece negado, se tivermos em mente seu caráter sexual objetivo. Prova disto, é que os médicos reponsaveis pelo tratamento de Lucie, afirmam que ela não sofreu abuso sexual. Contudo, Laugier parece relembrar algo dos antigos cultos a Dionísio, em que a violência e morte, via sacrifício, eram elementos chaves das orgias. Impossível também não mencionar Saló, de Píer Paolo Pasolini. Se Pasolini escolheu ser claro sobre o sexo propriamente dito em seu filme por um lado, contrário de Martyrs, por outro ele também retrata os excessos do desejo e o total desequilíbrio de forças entre os pares, mais especificamente no capitulo Circulo de Sangue. Laugier e Pasolini mostram o corpo, o corpo jovem e belo, estandartes da sedução, sujeitos ao gigante perverso que a Igreja, Estado e a Cultura podem assumir.

Quanto à sedução, vale ressaltar que a mulher sempre foi encarada como fonte deste adjetivo, e ao longo da história isto lhe valeu muito desgosto. Acredito que Laugier não ignorou este “fato”, para potencializar a parte psicológica da composição ocupada pela sensualidade.

Quando o prazer em Martyrs mostra-se aparentemente ignorado, como já dito, por ambas as partes no jogo da tortura, surge outro vínculo com a religião cristã, que desde sempre se mostrou avessa a isto. Contudo, mesmo que o romance latente entre Lucie e Anna não se consubstancie ao longo do filme e sequer ocorra um estupro assumidamente, a atmosfera sexual do filme não é destruída, mas ampliada. O sadomasoquismo se afirma e firma-se como a possível forma de afetividade, a forma mais duradoura e funcional nas relações estabelecidas entre as personagens. Sobretudo, não devemos esquecer o nosso papel nesta estória : o seguro e protegido voyeur.

4/5

Ficha técnica: Martyrs – França/Canadá, 2008. Dir.: Pascal Laugier. Elenco: Morjana Alaoui, Mylène Jampanoï, Catherine Bégin, Robert Tupin, Patricia Tuslane, Juliette Gosselin, Xavier Dolan.

– por Guilherme Bakunin

Ninguém precisa ficar se perguntando porque Mad Men dá as caras num blog sobre cinema. A resposta é visceralmente clara. Mad Men possui todas as abordagens que a classificariam como um filme, só mesmo a distribuição e a questão episódica conseguem separá-la de ser a tal ‘sétima arte’. Bom, não tanto, já que a internet tem nos feito o favor de possibilitar nossa aproximação com esse universo de programas de televisão que, pasmem, são excelentes, artísticos, criativos, inteligentes e tudo mais. Eu não to falando de profundidade de tema, ou questões satorianas, ou qualquer coisa assim, porque mesmo as comédias seguem essa mesma ideia de exaltação da criatividade e da qualidade, seja lá o que isso significar. A gente só consegue definir que é bom mesmo e ponto.

Mas essa Mad Men. Moderna e clássica, ao mesmo tempo, como esses dois conceitos lutassem a todo instante dentro das histórias, transformando o que nas mãos de pessoas menos competentes seria um conto insuportavelmente monótono a respeito de qualquer coisa dos anos 60 numa verdadeiro épico existencial/social a respeito de, sei lá, tudo?, praticamente tudo que existe nessa nossa vidinha ordinária de estudar e trabalhar e morrer? e etc?

Porque Mad Men é uma dicotomia. A começar pelo título. Homens. Loucos. A loucura não é estado do ‘homem’. Sei lá, o homem louco é o homem transgredido, destituído das ‘perfeita’ juízo mental e portanto destituído de humanidade. Mas a série se chama Homens loucos, e a luta entre dois conceitos já começa aí. E (por enquanto) são quatro temporadas de conflitos secundários que são capazes de juntar essas duas ideias tão opostas (homens – loucos) para criar uma reflexão do mundo moderno (moderno? bem, moderno no sentido do mundo de agora, e o agora indo de mais ou menos após a segunda guerra mundial até sabe-se lá quando). Falei no outro parágrafo a respeito do clássico x moderno. Assim, eu nem poderia fazer uma tese ou uma monografia a respeito disso agora, mas afinal de contas, o que foram os anos sessenta, se não esse conflito basilar entre um mundo que já era e o mundo que estava por vir? Afinal, os anos sessenta não ficaram no meio desse tempo, no ponto de impacto desse conflito existencial de gerações, de pais contra filhos, de filhos contra autoridade, de homens contra tabus e tudo mais? Mad Men não poderia ser de outro jeito. Pra falar de clássico x moderno ela se faz clássica e moderna, estabelecendo na própria estética o seu ponto central.

E por onde eu posso começar falando de arte x propaganda? Eu nem começo, porque se não eu vou longe. Mas quando Don Draper diz que ‘nós fazemos o que eles não conseguem, e eles nos odeiam por isso’, a gente sabe do que ele realmente tá falando. Quando as pessoas comentam e riem com a clássica propaganda de 1961 de fusquinha volkswagen, a gente reconhece que já tivemos o mesmo tipo de reação, e de repente a gente começa a pensar nessas coisas aí de impacto da arte e impacto da publicidade, de semiótica e Rothko e Bye Bye, Birdie e e Lucky Strike e etc.

O historiador de arte Simon Schama definiu os anos sessenta, quando falava a respeito de Rothko em O Poder da Arte (BBC, 2006) como a américa presa entre a bomba e o supermercado.

A confluência histórica precisa de Mad Men torna-se então assustadora. Vendo os episódios finais da primeira temporada, onde Don está na guerra (da Coréia, provavelmente, não me lembro agora), dá pra perceber que é exatamente sobre isso que a série fala também. Duma nação que está imersa (ver o poster da quarta temporada) num caos de incerteza, se anestesiando progressivamente (ver Uivo, de Allen Ginsberg) à procura de não se dar conta da falta de sentido de todas as coisas (ver Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen).

Donald Draper é a própria américa. A bomba de um lado, o supermercado do outro, e a américa no meio. A arte de um lado, a propaganda de outro, e a américa no meio. O clássico de um lado, o moderno de outro, e a américa no meio. A américa sem identidade, a américa agressiva, a américa infiel, a américa que bebe, que fuma, que bate na mulher, que procura a felicidade.

Mad Men é uma série de televisão exibida pelo canal pago AMC, nos Estados Unidos. Começou em 2007, e ate agora (março de 2011) possui quatro temporadas. A série foi premiada três vezes consecutivas no Emmy, o maior prêmio  da televisão americana, em 2007, 2008 e 2009 como melhor série de tv, drama. E a coisa mais importante a ser dita sobre a série, definitivamente é: ela possui o mais gostoso elenco de gatinhas da televisão.

por Bernardo Brum

Obviamente com o olhar de um estrangeiro, encarnado nas deliciosas peles de Scarlett Johansson e Rebecca Hall, Woody observa Barcelona. Suas exoticidades, contradições, ironias, risadas e lamúrias.  Com isso, observa o mundo também. O velho truque de ser universal sendo regional, usando o estranho familiar, o diferente do qual já ouvimos falar, olhando com distância pessoas  se enrolando em tragicomédias paralelas na colorida e sexualmente pulsante Barcelona.

Ma como o título não faz distinção de separar nem nenhuma das personagens, nem as mesmas da cidade, como se os três fossem indistintos entre si; o homem é fruto do meio, mas o inverso também é válido. São os personagens – as turistas Vicky, a comportada e reprimida, e Cristina, impulsiva e confusa, e os de casa, o casal divorciado Juan Antonio e Maria Elena, que compõem a fauna que transforma Barcelona em um rico mosaico que funde riso, desespero, neuroses e todo esse universo que Woody filma e refilma há quase quarenta anos – e mais uma vez, recria seu universo de forma deliciosamente refrescante – um sabor de novidade irresistível que só mesmo alguém com necessidade de reinvenção artística constante costuma conseguir parir de forma surpreendente – mesmo para quem já conhece sua obra há tempo considerável e que já poderia encarar os novos exemplares de sua extensa e duradoura filmografia com certo cinismo.

Dos mais notáveis aos menos imperceptíveis detalhes, Vicky Cristina Barcelona é um filme diferente de Woody. Mas, ao contrário do que espalharam por aí, não emula Almodóvar; dá para sentir isso assistindo o filme. As pulsões com as quais ambos os cineastas trabalham são diferentes desde a sua base. O cinema kitsch, intenso, exagerado para os dois lados (quando quer ser engraçado, é histérico; quando quer ser trágico, é um dramalhão arrasador) do espanhol quase não encontra voz no americano; o filme é o que se habitou a chamar de “comédia de costumes”.  Vicky Cristina Barcelona é um filme sobre o êxtase.  Rápido como um orgasmo, tortuoso feito um namoro, incomum como as viagens mais loucas que nós fazemos.

Só por ir na contramão do que seus antecessores (Match Point e O Sonho de Casandra) discutiam, Vicky Cristina Barcelona já foi percebido como uma obra pouco usual dentro do estilo de Woody, apesar de que, de fato, não foge ao que o americano sempre quis filmar. Saem os americanos de aparência um tanto comum para o glamour que Hollywood estão acostumados lá da louca e frenética New York – entram personagens com caráter sexual altamente explicitado. Mas também, é como reza o velho estereótipo;  o que se poderia esperar da Espanha, não é?

As inúmeras reviravoltas tornam o roteiro imprevisível – não se sabe o que esperar de personagens tão confusos, em uma cidade onde nenhuma convicção é o que parece ser, onde moças fiéis se rendem aos seus desejos libidinosos, onde garotas impulsivas e liberais podem desistir de condutas pouco usuais por simplesmente enjoar do que já virou rotina. Woody sabe disso, e não tenta elocubrar razões, justificativas ou causas lógicas para cada nova mudança de rumos. Uma das garotas cai logo vítima da cantada descarada de Juan. Maria Elena inicia Cristina na bissexualidade. Cristina, com Juan e Maria, vivem uma vida a três. Cristina enche o saco de tudo – como fez várias outras vezes. Vicky cede ao charme de Juan. Maria surta de vez. Como a Quadrilha de Drummond, ou como qualquer filme de Woody Allen, acrescido de um pouco de paella.

Mas Woody sabe que é inevitável e seu roteiro não esconde; uma hora, as férias acabam. E é hora de voltar para a terra natal. Onde tudo é tão estranho, maluco e bonito feito em Barcelona. O que a gente levou disso tudo? Mais uma das inúmeras hábeis reflexões cinematográficas sobre como o indivíduo, supostamente sofisticado e civilizado, pode ser bizarro, cômico e trágico ao mesmo tempo dentro do mundo do baixinho quatro olhos – um decalque estilizado do nosso. Um dos filmes mais inteligentemente sensuais dos últimos anos – que brinca com nossos desejos ao invés de apenas esfregar, superficialmente, nos nossos sentidos. Sexo, lágrimas, riso e neurose costurados de forma indissolúvel e indefectível. Penélope Cruz e Scarlett Johansson se beijando.

Enfim, vocês conhecem o Woody Allen.

4/5

Ficha técnica: Vicky Cristina Barcelona – EUA/Espanha, 2008. Dir.: Woody Allen. Elenco: Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Kevin Dunn, Chris Messina, Rebecca Hall, Christopher Evan Welch

clintotorino

– por Michael Barbosa

Preconceituoso, conservador, de direita, tradicionalista. Há certo estereótipo que rege sobre a figura do americano, especialmente do veterano de guerra, e que talvez venha se esvaecendo nas últimas décadas, e em Gran Torino Clint Eastwood presta sua sutil e sagaz homenagem exatamente a este sujeito, e como faz isso com maestria!

Walt Kowalski acabou de perder a mulher e parece que com isso perdeu também as rédeas, não precisa mais agradar, não precisa mais ir à Igreja, nem ser politizado. Agora é apenas um velho cabeça dura, certo do que o fim da vida lhe guardou, e não parece muito empolgado com isso. Seu bairro foi tomado por “chinas”, “chicanos” e “pretos”, mas como americano convicto que é – o que contrasta com o fato dele ser polaco – ele não abandona o gueto e não abre mão dos seus preceitos. Contudo o que se revela logo é que se existe nesse homem algo maior que seus preconceitos é seu senso de justiça que logo se aflora quando vê três negros atacando sua vizinha hmong (povo oriundo da Ásia oriental como se faz questão de esclarecer no filme). Dalí em diante o que veremos é uma jornada de auto-descobrimento depois dos sessenta e a sobrevida de um velho.

Clint chega ao seu último trabalho tanto atrás quanto a frente das câmeras e demonstra uma maturidade artística e vitalidade que corroboram para o mito do cinema americano e classicista que ele se tornou. Gran Torino se faz grande nas pequenas coisas, no modo como se constrói personagens reais e em que podemos acreditar mesmo com tantos estereótipos e lugares comuns (o que se pararmos pra pensar faz o mais perfeito sentido dentro da proposta de contar a história de um sujeito ordinário e tão anacrônico quanto Walt Kowalski).

Talvez, é bem verdade, a mudança de personalidade e atitudinal de Walt soe rápida e abrupta demais, mas, caramba, às vezes na vida do homem é assim que as coisas acontecem. Acontecimentos se sucedem, conceitos e verdades absolutas mudam como em um piscar de olhos e nos provam que somos a tal “metamorfose ambulante” que disse Raul certa vez. Walt é assim, no fundo um sujeito bom, só que ele mesmo não sabia disso.

E é incrível ver que até naquilo que poderia parecer um defeito à primeira vista, olhando com mais atenção é um acerto. O elenco de coadjuvantes que se não exerce atuações magistrais – ainda que corretas – foi todo composto por legítimos e críveis representantes de suas culturas, são hmongs de verdade que interpretam os hmongs da tela. Com os trejeitos, o sotaque, o jeito de ser e agir. E pode ser que isso valha mais, bem mais, que grandes atuações em um filme tão sensível e honesto como esse.

E ao fim Walt tem a sua redenção definitiva e final. E morre consciente de que morreu por aqueles que lhe salvaram a existência nos acréscimos do segundo tempo, não foi um sacrifício, foi um “Muito Obrigado” ao som da linda canção homônima na voz do próprios Clint. Que artista! E se em Os Imperdoáveis Eastwood resgatou um gênero inteiro e fez o western final, aqui ele é um tanto quanto mais minucioso e específico e nos presenteia com a tragicomédia definitiva sobre toda uma geração de americanos, seus medos, preconceitos, anseios e, sim, suas virtudes.

5/5

Ficha Técnica: Gran Torino (Idem) – EUA, 2008. Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her, Christopher Carley.

– por Guilherme Bakunin

Why the fuck did they go to the russians? Ora, eles foram aos russos porque estavam perdidos, num mundo que já não é mais o mesmo e que já nem tantas coisas acontecem mais. Enquanto todo o planeta cria filmes que remetem a acontecimentos passados ou que se focam dentro de personagens, distanciando o cinema completamente do meio, como fazer um filme que reflete os nossos tempos e que possua um valor histórico imensurável? Bom, você vai fazer Queime Depois de Ler.

Dezenas de personagens que estão vivendo um momento qualquer e sem muita importância de suas vidas, e que começam ter suas histórias narradas para nós, espectadores. Essas pessoas são falsas e conspiratórias, sempre procurando uma brecha para dar um chute em alguém e favorecer-se a partir disso. Uma mulher tem um amante e seu marido se demite da CIA shit. A partir daí tudo é paranoia e nada de fato acontece.

Durante a trama quase todos morrem e sagrados matrimônios vão para o espaço, enquanto Joel e Ethan Coen filmam através de de carros, galhos de árvores, com o que parece ser uma máquina fotográfica. Existe alguém espionando George Clooney. CIA? FBI?  Tuchman Marsh cia de advocacia ltda? Quando a consciência pesa, o mundo inteiro está contra você e até um vibrador possui um objetivo maligno.  Suas atitudes demonstram seu estado de espírito e George Clooney, que está traindo a mulher com no mínimo três outras mulheres, está atormentado, atira em  pessoas depois de vinte anos e foge para a Venezuela. Malkovich foi traído pela mulher e pelo trabalho e, sem saída, enlouquece.  McDormand chegou até onde podia com o corpo que tem e faz de tudo para conseguir uma imagem nova. Reflexo das aspirações e dos valores sagrados americanos, consolidados mais ou manos à época da Guerra Fria e que inexoravelmente ajudou a criar os americanos como eles são hoje.

Claro que a análise do filme não precisa ser tão rígida. Queime Depois de Ler é engraçado, dá pra rir muito fácil. O que não dá pra fazer, porém, é ignorar que o filme foi dirigido pelos irmãos Coen e quem os conhece sabe que eles não vão para o campo de batalha à toa. Todos os trabalhos dos cineastas brincam, remontam e estudam determinados aspectos dos Estados Unidos ou da sociedade americana (sendo que o cinema americano é um dos temas mais recorrentes) e portanto, com esse filme essa história não seria diferente. Claramente brincam com a obsolência das grandes corporações governamentais e de forma inusitada narram os reflexos que toda a confusão e falta de rumo, depois de mais de cem anos de guerras e anestesiação, que engoliram os filhos da América. Dois grandes chefões da CIA se questionam o que poderia ter acontecido e o espectador menos atento vai achar que nós estamos personificados neles. Na verdade, somos Jack Nicholson em Chinatown, perdidos, mas cientes. Estamos cientes porque Joel e Ethan Coen nos mostraram que Clooney preparava algo ultra secreto e que no final das contas era uma cadeira de sexo. Com isso em mente, saiamos de nossas casas e encaremos as nossas vidas, cientes de que todas as coisas que acontecem acontecem provavelmente por ócio.

5/5

Ficha técnica: Queime Depois de Ler (Burn After Reading) – 2008, EUA, Inglaterra, França. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, Elizabeth Marvel, David Rasche, JK Simmons.