– por Guilherme Bakunin

Nós já vimos essa repercussão antes: Aterrorizada, de John Carpenter, O Aviador, de Martins Scorsese, Giallo, de Dario Argento, Fim dos Tempos, de Shyamalan ou Missão: Marte, de Brian de Palma sofrem nas mãos de uma má receptividade e as pessoas parecem cada vez mais convencidas a não procurarem avaliar um filme como um todo, julgando apenas as supostas falhas no desenvolvimento da história.

E de Palma sabe que Missão: Marte tem muitas. Especialmente porque o diretor lida com um roteiro ofensivamente medíocre, com uma coletânea impressionante de diálogos ruins, situações supervisitadas e elementos narrativos de pouco substanciais. Uma discussão de longa data entre quem conversa sobre cinema é até onde um cineasta pode ir com um roteiro ruim, mas a questão aqui não é exatamente essa. Além de um roteiro terrível, pesa sobre os ombros de de Palma um orçamento de 90 milhões de dólares, o que inevitavelmente diminui a autonomia, como qualquer um pode imaginar.

A câmera do diretor é então colocada à gravidade zero, parecendo captar as imagens dos personagens sem interesse em ouvi-los. Flui por entre as conversas, pessoas, objetos e locações numa curiosidade puramente plástica. Essa é a essência de Missão: Marte – ou ao menos a faceta que mais vale à pena conferir: se em 2001, Kubrick orquestrou o balé espacial através da movimentação sutil dos quase-estáticos movimentos de câmera, trilha sonora e objetos, de Palma orquestra o seu a partir  do imperturbável fluxo da steadycam – tudo que a câmera do de Palma captura, das paisagens terrestres às marcianas, está a dispor desse fluir.

A estética adotada pelo diretor confere ao filme a visualidade mais ‘depalmiana’ de todos os seus trabalhos anteriores (Femme Fatale, de dois anos depois, parece elevar sua câmera até a última potência), apesar de servir à história mais estranha aos trabalhos do diretor. Todos os tripulantes, da primeira e da segunda viagem, são retratos como heróis embutidos de bravura, honestidade e talento.

Com personalidades tão incríveis, nenhum conflito pode surgir a partir daí. O único inimigo é o universo. A imensidão negra do espaço é um antagonista não-hesitante, segue e ameaça os personagens a todo instante, apenas à espera de que o menor dos erros de comando da engenhoca espacial seja o erro fatal. A imersão da câmera de ‘de Palma’ eleva o suspense em níveis agoniantes, de forma que nem mesmo os tripulantes das espaço-naves parecem cientes da iminência do perigo que os persegue. É o espectador consciente de todas as coisas, responsável, sozinho, de dar poder ao filme que assiste.

Numa das sequências mais paralisantes do filme, quatro astronautas saltam da nave em seus uniformes especiais e estão, sozinhos e quase desprotegidos, diante da imensidão não apenas de Marte, mas do universo. A pulsão da relação especial e temporal, principalmente nessa, mas também em outras sequências é invejável – existe um autor no controle dessas sequências, e não a maquinaria do CGI.

O terror à flor-da-pele em Missão: Marte é apenas seu melhor aspecto; não é, de modo algum, o seu valor essencial. De Palma parece interessado em esculpir  algo de grandioso a respeito da força humana responsável pera superação. Não é por acaso que todos os personagens deste filme são heroicos. Transgredir a dor, aceitar as limitações e prosseguir. Em Missão: Marte, a partir da abdicação da fuga, a humanidade surge. É a tomada de responsabilidade e o seguir em frente. Seus personagens nunca olham para trás e não tremeluzem diante da decisão. O sacrifício do personagem de Tim Robbins, a última decisão do personagem de Gary Sinise. Nos filmes de ‘de Palma’, sempre há alguém que tenta impedir um assassinato, mas não consegue. Nos mundos que de Palma constrói, a falta de sintonia entre as pessoas está junto ao sangue, à psicose, à morte.  Seus personagens tiveram que fugir desse mundo para encontrar essa sintonia. No vácuo do universo, milhões de quilômetros longe da terra, é onde seus homens e mulheres estão mais próximos uns dos outros – e de si mesmos. E eles sempre chegam a tempo.

3/5

Ficha técnica: Missão: Marte (Mission to Mars) – EUA, 2000). Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Tim Robbins, Gary Sinise, Don Cheadle, Connie Nielsen, Jerry O’Connell, Peter Outerbridge, Kevan Smith, Jill Teed, Elise Neal.

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por Bernardo Brum

Encarado com menos cinismo do que é habitual, O Homem Sem Sombra levanta uma interessante questão: o rótulo de “filme B” é uma condição ou um estado de espírito? Melhor falando, os filmes considerados desse filão só podem ser considerados como tais quando tem orçamento minúsculo e falta de caras conhecidas pelo grande público, ou ao longo dos anos, o que era uma condição virou, ao criar seu nicho de público, suas abordagens em comum e ícones cult de algumas gerações, uma identidade singular de um tipo de cinema que deixou de depender do dinheiro colocado em sua produção? Os cineastas que fizessem a transição das películas “pobres” para o grande mercado da tecnologia de ponta e das grandes estrelas eram considerados apenas um nome nas fichas técnicas ou levariam para o alto escalão as características de estilo que o destacaram, atributos esses que muitas vezes não combinam com as tendências mercadológicas da indústria cinematográfica?

Visto por esse lado, a última película rodada por Paul Verhoeven em terras americanas é, incontestavelmente, um filme B: gore escatológico, atuações canastronas, cenas softcore aparentemente gratuitas e um claro espírito contracultural que o holandês carrega desde seus exploitations polêmicos e melodramas escandalosos, ainda que cercado de estrelas como Elisabeth Shue, Josh Brolin e Kevin Bacon e equipado com um dos trabalhos mais orgânicos (ou, se não quiser chegar a tanto, “bem elaborados”) de computação gráfica desde o surgimento de tal tecnologia. Um filme que, ainda que produzido por encomenda de uma grande produtora (e com todas as limitações narrativas que esse modo de produção impõe), não deixa de lado o espírito de filme de fundo de prateleira de videolocadora.

Como é comum no que acontece  nos filmes B, O Homem Sem Sombra foi considerado por grande parte do público mais uma subversão, ou melhor, uma corrupção da obra do ilustre romancista científico H. G. Wells, assim como nos anos cinquenta foi produzido o hoje já muito ultrapassado Guerra dos Mundos (refilmado, cinco décadas depois, com o mesmo espírito de Verhoeven de “podreira de alto orçamento” por Spielberg) e A Ilha dos Homens-Peixe, versão altamente esquizofrênica do italiano Sergio Martino de A Ilha do Dr. Moreau.

Em comum com este último, O Homem Sem Sombra tem a semelhança de tomar uma série de liberdades em relação a obra original e dar motivos de sobra para os fãs da obra original criticarem a sua pouca fidelidade e má qualidade evidente por ser “de estúdio”, atendendo mais às vontades de produtores do que aos questionamentos que o livro suscitava.  Se é por isso ou por outro motivo, esta livre adaptação de Verhoeven se atém apenas ao pensamento básico: de que o ser humano seria naturalmente “podre”.

Para Wells, qualquer cidadão de bem, quando visse que a lei não poderia mais capturá-lo, iria perder totalmente a noção de superego e exposição e fazer o que bem entendesse. Para Verhoeven, um indivíduo arrogante, desprezível e medíocre (apesar da sua extrema inteligência, ainda se vê preso a uma hierarquia de patrões) sairia de controle assim que fosse retirada de si uma das trava morais mais básicas: a de que “o inferno são os outros”. Ele nunca havia sido um bom indivíduo que caiu nas garras da corrupção – mas sim um verdadeiro filho da puta que nunca foi além por medo de passar décadas na cadeia ou ganhar uma pena de morte. A palavra usada no título (“hollow”, vazio, oco) denuncia a principal intenção do que Verhoeven queria retratar: ele já era alguém sem nada por dentro muito antes de sumir da vista de todos.

Assim, a preocupação do diretor não é a de quantos homens seriam corrompidos com esse “dom”, mas sim quantos indivíduos potencialmente nocivos finalmente veriam-se livres de suas amarras. Tônica de várias outras de suas obras: muitas pessoas, com um pouco de poder a mais, logo tornam-se hostis e arrogantes. Ou seja, indivíduos que, caso fossem agraciados com mais poder, logo agiriam de maneira totalitária, homicida e brutal.

Mesmo em um filme em que suas “asinhas” de estilo, narrativa e conteúdo são seriamente cortadas, Verhoeven não poderia deixar de perder a oportunidade de fazer suas gracinhas gorecore: Kevin Bacon realiza o sonho de todos que já se imaginaram invisíveis, vendo mulheres nuas sem elas saberem que ele está por lá provavelmente descascando a banana e aprontando mil e umas sacanagens pelas ruas (como assustar crianças e entrar na casa dos outros sem convite), além do cruel humor negro envolvendo cenas particularmente fortes (o surto histérico que o protagonista tem com um cachorro é tão tenso quanto hilário). Verhoeven fez, sem a produtora perceber, um filme B “travestido” – como diz a sabedoria popular, certos hábitos são difíceis de largar. Especialmente se os velhos hábitos envolvem nudez feminina e sangue em profusão…

3/5

Ficha técnica: O Homem Sem Sombra (Hollow Man) – 2000, EUA. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Kevin Bacon, Josh Brolin, Kim Dickens, Elisabeth Shue, Steve Altes, William Devane, Rhona Mitra

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– por Guilherme Bakunin

Ao tocar no campo de trigo ao voltar para o seu lar depois do combate, ainda vestido de soldado, Maximus, com uma interpretação brilhante de Russel Crowe, encarna muito bem a postura de um homem de Roma. Nasceu como agricultor, é soldado e político. O toque na planta denuncia muito mais do que uma composição visual bacana, mas sintetiza a função do civil romano, sua cultura, sua vida, através de corretos, quando necessários, registros históricos. É importante ter em mente que essa obra-prima de Ridley Scott não é a documentação de um fato histórico e não pode, jamais, ser criticado por isso. Antes, porém, é um trabalho inteligente e preciso sobre um momento, composto por décadas ou séculos, do império mais poderoso que já existiu.

Maximus é um nobre e dedicado soldado do império, leal ao imperador Marco Aurélio. Durante um combate onde Maximus, como general, procura impedir a invasão dos bárbaros germânicos, ele toma ciência do fato que o imperador, já velho, quer entregá-lo o trono. Commodus impede, matando seu pai, Marco Aurélio, assumindo o trono. Enquanto isso, Maximus é ferido, se perde de seu exército, torna-se escravo e depois gladiador, e começa a disputar batalhas ferozes até chegar na capital, no Coliseu.

Grande parte da beleza do filme está aí. Maximus é um cidadão de destaque para Roma, saiu do campo, ascendeu como soldado, decaiu, transformou-se, pelo destino, como se uma força maior exercesse algum controle sobre sua vida, escravo, e depois gladiador. Da plateia, saltou para o circo, passeando por diversas camadas políticas e sociais, representa várias classes, elementos. Podemos começar a ver o filme principalmente sobre essa ótica: não um mera história ambientada na antiguidade, com atos nobres e heroicos, mas um retrato humano de uma humanidade ativa, poderosa, que conquistou meio mundo e deixou marcas para sempre na história. Somos mais romanos do que desejaríamos. Nosso direito, nossos dogmas, nossas convenções, nossa arquitetura e nosso pequeno universo derivam diretamente daquele império e é, provavelmente, isso que Scott tenha desejado mostrar, afinal, mesmo o poster do filme já evoca a continuidade interrupta: ‘o que fazemos em vida ecoa por toda a eternidade’, um caráter notável principalmente se pararmos para pensar que era exatamente esse o aspecto que girava o mundo durante o período do crepúsculo do império: o povo romano levantavam monumentos, esculpiam retratos e erguiam sepulcros, acreditando que através dessas coisas, jamais estariam completamente mortos.

Seus memoriais trabalham muito menos com a índole da pessoa – algo que se tem certo destaque em funerais atuais – e muito mais com suas obras. É por esse motivo que a honra adquire uma importância muito mais fundamental da vida daquelas pessoas, e é aí que encontramos a motivação que engatilha a história de vingança de Maximus. O resgate da honra, o acerto de contas consigo mesmo, o culto aos antepassados e à família, as conspirações, as neo-filosofias, os jogos de poder, a mente megalomaníaca… Roma está retratada em Gladiador, não sob a ótica de um documento fiel, mas na elaboração ficcional de um épico. A retratística não é perfeita, o filme possui pequenos ou grandes erros (vai depender de quem assiste), mas a mensagem é clara.

5/5

Gladiador (Gladiator) – 2000, EUA. Dir.: Ridley Scott. Elenco: Russew Crowe, Joaquim Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounsou.