the unbelievable truth

– por Guilherme Bakunin

Em sua estréia na direção, Hartley faz já um de seus melhores trabalhos. Unbelievable Turth é um retrato exuberante sobre uma pequena cidade de Long Island (Lindenhurst, NY), construído através de um mosaico de personagens e situações que não se enquadram, necessariamente, numa ideia linear ou redonda de narrativa.

O ritmo de história flui, aqui, vagarosamente, e o cineasta cede espaço aos atores para que, cada um a seu tempo, todos obtenham uma chance de se tornar o centro de um determinado acontecimento.

Antagonizando-se ao ritmo lentamente cadenciado, porém, está o dinamismo de Hartley em compor os diálogos mais sintéticos e inspirados de sua carreira, de forma que o filme jamais se torna cansativo. Os personagens aqui são sinceros e objetivos, sempre falando o que lhes vêm a cabeça, de forma que existe essa empatia flamejante, tornando o filme ainda mais sensacional.

É um filme de otimismos, afinal, apesar de seus personagens principais serem extremamente cínicos a respeito de um certo roteiro classe média de vida. Eles conseguem encontrar paz justamente quando abdicam de tudo que lhes é pré-formatado, para viver o que sentem verdadeiramente.

Josh (Robert John Burke, que colabora com Hartley em pelo menos um outro filme, Simples Desejo, de 1992) já começa o filme num estado de paz interior em quase total plenitude. Ele é marcado, porém pelo trauma de seu mirabolante passado: é responsável pela morte da irmã e do pai de Pearl (dois homicídios culposos, porém); Audry (Adrienne Shelly, uma das atrizes mais lindas que os anos 1990 conheceu, assassinada em 2006) por sua vez está numa inquietação constante, pois não parece acreditar muito em qualquer coisa, muito menos em faculdade, que seria o próximo passo lógico na sua vida de recém-formada do colégio; ela vive na iminência de que o fim do mundo está próximo, graças às ogivas nucleares americanas e soviéticas.

Os personagens periféricos aos dois principais vivem suas vidas que, embora narradas em segundo plano, são dotadas de um caráter idílico que é realmente impressionante. Essas pessoas, vivendo nesses cenários alvejados e simplesmente relacionando-se umas com as outras, me lembra bastante das explorações de Uma Mulher é Uma Mulher (Jean-Luc Godard, 1961), que se passa em grande parte num apartamento branco, com Brialy e Karina se enfrentando em mútua admiração.

As explorações de Hartley não são tão cinematográficas e cutting-edges como as de Godard, porém; acredito que haja mais importância, aqui, não na estética do autor, mas sim em como essa estética vai caracterizar e guiar esses personagens, que são todos fantásticos e individuais. E como são individuais e bem construídos, são fortes o suficiente para darem os rumos às histórias. Não é a narrativa que necesariamente guia The Unbelievable Truth, embora haja um mote razoavelmente principal que ofereça redenção ao personagem Josh, mas as ações de determinados pesronagens, que repercutem em outras ações de outros personagens e et cetera.

Era, nos anos 1990, uma maneira inusitada de se fazer cinema. Hartley soube como ninguém subverter os moldes usuais de narrativa do amplo cinema americano que definiu os anos 1980 como um dos mais desastrosos, criativamente falando, da história (embora toda generalização seja apenas isso, uma generalização), e transgride seu cinema do underground para o independente, alcançando prestígio suficiente para lançar outros trabalhos que, provavelmente, superam seu debut, mais especificamente Confiança, de 1990 e As Confissões de Henry Fool, de 1997.

Mas é através dessas relações que se repercutem que o filme de Hartley lida com trauma, família, classe média, depressão, guerra fria e, fatalmente, liberdades individuais. Com a chegada do semi-estrangeiro Josh, surge na atmosfera da pequena Lindenhurst um certo mal estar, que será fundamental para se criar, ao final, a expurgação. Josh, que é um mecânico, que concerta máquinas, nesse filme em que os atores falam como robôs. No final, um movimento orquestrado, ou como alguém definiu, referindo-se ao final de Interiores (Woody Allen, 1979), “espontaneamente ensaiado”. Um a um, as criações de Hartley se resolvem e saem de quadro para dar lugar à próxima, uma resolução lúdica para todos os conflitos traumáticos ou de geração que o filme desenvolve, e que termina com o grande mal estar, o mundo, tudo que existe lá fora, longe de tudo aquilo que conhecemos e compreendemos; tudo que não é familiar e sincero, tudo que é vil e repudiante. Não é a bomba atômica; é o desconhecido, o temível gigante daquilo que está à frente, nas sombras, à espreita.

Outras observações:

– E é ainda mais impressionante que, mesmo depois de 20 anos de cinema independente, e mesmo depois de Wes Anderson retomar e diluir alguns dos maiores aspectos do cinema de Hartley, o cinema independente americano não tenha aprendido a lição. Como alguém comentou, “Audry dorme com a chave inglesa por um motivo”. Essa construção delicada de personagens e motivações se reflete com certeza nos diálogos lacônicos, sinceros e objetivistas que estão presentes nos filmes do diretor. Não se tratam de dois aspectos separados, que juntos formam algum tipo de conjunto ou ideal de cinema independente. Ora, se os personagens são lacônicos e sinceros e sempre falam o que lhes vêm à cabeça, o que eles falam é necessariamente parte fundamental do que eles são. Os personagens e os diálogos são um só. Por isso são em vão os esforços que alguns cineastas tidos como independentes (ou mesmo gente no Brasil que, talvez não saibam, são meio que discípulos dessa ideia de cinema americano, como o canal Porta dos Fundos ou Paranfernalha do youtube), simplesmente porque existe uma compreensão torta a respeito do que essa ideia de humor negro e personagens cínicos e non-sense é.

 – A principal questão que precisa ser discutida aqui, diz respeito a um esforço coletivo e instintivo que o cinema dos anos 1990 revelou, conhecido como Nova Sinceridade. O conceito, talvez, é ainda um pouco nebuloso (igualmente suas variações e/ou evoluções, como o conceito de Pós-Ironia), mas define basicamente que um autor deve andar de mãos dadas em questão de compreensão com seus personagens (empatia), ao invés de obter uma abordagem cínica e/ou irônica com a história.

– Isso é facilmente visto em Unbelievable Truth: as relações dos personagens dão o tom e fluxo do filme, e embora as ambições e motivações sejam diferentes para cada um, existe uma empatia de autor (e, segundo o que acredito, de espectador) com todos eles. Por exemplo: Audry não quer ir à faculdade, porque está deprimida ou sei lá; seu pai, por outro lado, quer que ela vá, pois acredita que será melhor para seu futuro. São duas opiniões opostas, mas que convivem harmonicamente no filme, porque Hartley as aborda de forma sincera (ao invés de criar algum tipo de maniqueísmo barato, aos moldes de “pais são vilões”, por exemplo).

– É justamente o contrário do que existe em (500) Dias com Ela (Marc Webb, 2009), por exemplo. A abordagem do autor é distante, provavelmente porque ele queria ensinar ao público uma lição sobre o amor ou relacionamentos, e se esquece de manter vivos seus personagens, que gritam o tempo todo o que são e o que querem, mas raramente conseguem ser ouvidos na história (e esse é um filme tão incompetente que, mesmo plagiando Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, que mesmo sendo dos anos 1970, já possui esse aspecto de compreensão e identificação de autor e personagem, não consegue plagiar aquilo que o filme de Allen tem de melhor e mais essencial).

5/5

Ficha técnica: The Unbelievable Truth – EUA, 1989. Dir.: Hal Hartley. Elenco: Adrienne Shelly, Chris Cooke, Julia McNeal, Robert John Burke, Gary Sauer, Katherine Mayfield, Mike Brady, Edie Falco.

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por Bernardo Brum

Aqui os Coen delineavam pela primeira vez seus filmes mais sérios e dramáticos. A mão pesada na hora de estilizar com alta precisão uma história crua, violenta e angustiante faz de Ajuste Final, merecidamente, um dos grandes filmes de gânsgter da sua época, junto a Pulp Fiction, Os Bons Companheiros, O Rei de Nova York, O Pagamento Final e tantos outros. E como todos sabemos, em grande parte de seus filmes sérios também podemos encontrar um senso de humor negro despejado por aqui e por ali que, somado aos seus personagens bizarros, leva o cinema dos irmãos a algo além de um recorte da realidade, mas sim a um imaginário pessoal, uma percepção própria de determinada realidade.

A maioria dos filmes de gângster contam histórias de ascensão e decadência. Pessoas entrando para o mundo do crime, trocando tiros, caindo em emboscadas, executando crimes, encontrando a redenção e/ou a desgraça ao final. Ajuste Final não. É um filme que gira em torno de manobras estratégicas audaciosas, de sorte e de malandragem, de reavaliação dos parâmetros. Quem ascende e quem cai chega ao seu destino sem muitos alardes e simbolismos. Tom Reagan come o pão que o diabo amassou e age  com a sagacidade venenosa de uma cobra; um anti-herói completo que faz a conexão com o espectador do que é estar naquele mundo cercado de contrabando, pistolas, enforcamentos, estranhas coincidências, sexo, alcoolismo e dezenas de outros elementos da década de 30 que compõem um panorama assustador. Aqueles que pregam que a violência só cresceu de forma assustadora nas últimas décadas, precisa ver urgentemente essa violência encoberta e glamourizada. Há muito tempo, já vivíamos em um mundo-cão selvagem e impiedoso onde o calculismo e o  acaso têm de ser os principais equipamentos que um homem de sucesso pode levar consigo.

A passividade e covardia de Tom, assim como  seus esquemas renovados constantemente, suas alianças forjadas e destruídas e seu caráter ambíguo e misterioso, quase impenetrável, durante todo o filme. Um cara que tem a sorte de ter amigos em todo lugar que podem sempre dar uma mãozinha – e também o cérebro para determinar o próximo movimento. A cidade é o grande jogo de xadrez de Reagan, e Millers Crossing é seu principal ataque, seu determinante de xeque-mate. Sempre que ele passa por lá, não apenas um novo evento essencial da trama acontece, mas ele tira uma carta da manga para chocar aliados, adversários e espectadores. Mais de uma vez achamos que seus sentimentos por este ou aquele podem atrapalhar no sucesso do que seja lá o que ele quer atirando por todos lados, mas não só o roteiro pragmático está com ele; nós também estamos. Um esquema que não pode dar errado, senão somos arrancados à fórceps daquele mundo. Um mundo do qual não podemos sair até os Coen completarem seu discurso tragicômico sobre o vazio sem sentido da existência e a violência e a crueldade inerentes ao ser humano.

No final, a violência e crueldade que Tom por várias vezes contempla e é vítima, é também a sua carta da manga definitiva – aquela que esperou o filme toda para ser usada para pôr fim em um mar de várias reviravoltas por minuto e que transforma a situação em um mata-mata generalizado e tudo que ele tem a fazer, depois de deixar seus inúmeros adversários se estribucharem uns contra os outros, é chutar rasteiro no canto do gol. E sair dessa de uma vez depois de provar mais uma vez sua lealdade, sua competência, seja lá o que for, mas também a frieza e capacidade estratégica. Que ganhou várias batalhas de uma vez só.

Tanto direção quanto roteiro são tão distantes quanto seu protagonistas. Indiferentes e apáticos, mas ainda assim, carregados e densos. Não se comovem com nada e apenas continuam avançando. Surpreendente que, mesmo  em meio a tanta estilização, os diretores não façam questão alguma de tomar algum partido – a não ser o da desconstrução do glamour, da análise da violência explícita, do humor cruel mas ainda assim funcional em seu papel analítico.

Este é o discurso dos Coen, sua construção de uma realidade possível através de sua narrativa absurda e impossível de deter, afiada como uma faca, rasgando qualquer preceito  e recorrendo quase a certo hermetismo para mostrar o de sempre: pessoas matam e morrem por nada. Talvez por dinheiro, talvez por não terem nada melhor para fazer. Onde momentos que condensam toda uma vida são materializados em chapéus voando caindo lentamente no chão. Apesar da ambientação nos anos trinta, também valia naquele início de década de noventa, e também serve agora, vinte anos depois. Onde, para ficar vivo por algumas horas, precisaremos de um bom plano e uma boa pontaria. Boa sorte pra quem fica…

5/5

Ficha técnica: Ajuste Final (Miller’s Crossing) – 1990, EUA. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: Frances McDormand, John Turturro, Steve Buscemi, Gabriel Byrne, Jon Polito, Albert Finney, Marcia Gay Harden, J.E. Freeman,Michael Jeter, Michael Badalucco

por Bernardo Brum

A grande fábula cinematográfica de Paul Verhoeven, O Vingador do Futuro tem a estética absurda, cafona e brutal dos anos oitenta. Anos que não voltam mais celebrados por um cineasta que reconhece no seu dispositivo de comunicação com o resto uma possibilidade para o ser humano se reinventar – e como não poderia deixar de ser, tratando-se da fase americana do diretor, uma redenção alcançada na base da porrada. Filosofia de bar da melhor qualidade, combinada com diversão de primeira. Simples assim.

5/5

Crítica

por Bernardo Brum

Foi com O Vingador do Futuro que Verhoeven, além de dirigir seu filme mais otimista (à sua moda pervertida, é claro), fez a sua maior declaração de amor ao cinema. Ficção científica básica, movimentada e frenética adaptada de uma história de Philip K. Dick, estrelando o astro de ação definitivo Arnold Schwarzenegger e que com o passar dos anos foi considerado apenas mais um exemplar da ação descerebrada que reinou nos anos 1980, com tiros em profusão, efeitos especiais em quantidade inacreditável, sangue, tripas e buracos de bala explícitos, piadinhas sexuais um tanto inocentes hoje em dia…

Devido a abordagem diferente que Verhoeven quis dar a uma obra de K. Dick, longe, por exemplo, da abordagem  mais “moral” que Ridley Scott mostrou em Blade Runner (se utilizando do sci-fi para perguntar sobre ser ou não ser), O Vingador do Futuro pouco se assemelha ao clima da história original: longe do clima de derrota de We Can Remember It for You Wholesale e dos demais romances e contos cyberpunks, que tornam seus protagonistas indivíduos fora da lei e desesperados batalhando contra um inimigo muito maior que ele, Schwaza é um homem que tem que igualmente lutar contra o governo, mas além de ser mais esperto, rápido, inteligente e foda que qualquer um que cruze o seu caminho, ele também é um daqueles personagens de trinta anos atrás, como o próprio diretor revela no início, mostrando ao medíocre e ignorante protagonista a possibilidade de conseguir memórias falsas, ou seja, uma óbvia encenação, como um filme mesmo, onde ele vai conseguir matar os caras maus, ficar com a gostosinha e salvar o planeta.

Quando o protagonista é confrontado com o fato que ele nao precisa implantar memórias falsas porque ele é de fato como os astros de filme de ação tão cohecidos e tinha apagado a memória por um motivo que ele só vai descobrir lá na frente, O Vingador do Futuro finalmente se transforma em um exercício de estilo explosivo, movimentado e algo brega, sem muito tempo para pensar nos conceitos cyberpunks. Só podendo manter a concentração na ação, o que temos é uma história  que, em velocidade vertiginosa, muda de rumo várias vezes – é uma saraivada de aparentes inimigos que se revelam aliados, aliados traíras que trabalham para o sistema do mal, cientistas e agentes secretos loucos e por aí vai, onde o protagonista, homem comum jogado naqueles enquadramentos de cenários azuis e gélidos ou de um vermelho nauseante, terá de brigar na raça com quem quer que seja – inclusive ele mesmo.

Ao longo da projeção, Douglas Quaid tentará salvar Marte das garras da corrupção das grandes companhias, que como em muitas das piadas sobre o futuro, também comercializam o ar e se negam a acionar as grandes fontes de oxigênio que transformariam Marte em um planeta habitável. Para isso, terá que seguir e então desobedecer todos os roteiros que foram traçados para ele; quando descobrir a si mesmo como alguém sujo, se reinventar na base da força, do poder de fogo e dos cojones. Para poder contribuir com a sociedade como um todo será preciso derrotar a máquina, negar a si mesmo e cumprir o itinerário que as falsas memórias determinaram para ele.

O “total recall” ou lembrança total de Quaid torna ele um ninguém – um elo perdido na transição entre o homem comum e o espião insuperável que teve seu cérebro tão remexido que perde a identidade. Numa cadeira que foi pensada para David Cronenberg e um lugar na frente das câmeras que sondou de Patrick Swayze a William Hurt, Verhoeven e Schwarzenegger revivem a clássica jornada heróica rumo à salvação e a redenção de uma forma absolutamente cinematográfica – a idéia de realidade é destruída e qualquer verossimilhança é abandonada; o principal personagem morre quando senta numa cadeira para então reviver em um novo e excitante mundo; e em um clima que só o cinema blockbuster consegue proporcionar, uma história sobre – como diria o Renatão – “o sistema é mau, mas a minha turma é legal”.

Simples e maniqueísta assim, mas também, tremendamente funcional. O que queremos  quando sentamos a bunda na cadeira para ver uma obra de ação? Certamente, abandonar  uma carcaça limitada e nos jogar no mundo das possibilidades infinitas, conseguir a mulher dos nossos sonhos, explodir e metralhar tudo que aparecer no caminho e assim. Esse foi sempre o fetiche de Douglas Quaid, a porcentagem “pessoa normal” de Scharwzenegger no filme que recusa o que não quer de sua faceta Arnold-andróide-fodão e pega a parte útil (força capaz de dobrar e partir aço, pontaria de um elfo de Tolkien, reflexos de um gato, e lá vamos nós) para a velha reinvenção que o sistema de ação sempre se propôs.

Esse “cérebro” possuído pela obra, apesar de servir como ponto de partida de reflexão, é antes um comentário bem humorado e também, como já dito, uma “carta de amor” à sétima arte e um convite ao espectador; um inspirado agradecimento ao lugar onde, por tantas vezes, por mais ou menos uma hora e meia, nunca erramos um alvo, abrimos um buraco no meio de uma testa, salvamos os necessitados e acabamos admirando o alvorecer e beijando a gostosa. Nós não conseguiríamos nos sentir como Rambo, Braddock, o Exterminador em nenhuma outra arte, só no cinema mesmo. E, obviamente, esse lance infantil e plenamente consciente do filme encontra voz em muitas pessoas – mesmo depois de tantos e tantos filmes mais artisticamente comprometidos, ainda nos resta a lembrança gostosa do nosso primeiro contato com o cinema, que foi em muitos casos, vejam vocês, com a ação descerebrada. E O Vingador do Futuro é um tributo a isso e, talvez, uma das únicas vezes que ocorreu esse reconhecimento dessa faceta específica de uma cultura…

… Mas é claro, e como não poderia deixar de ser, um reconhecimento sem frescura, com mais de dois mil tiros disparados, muito mau gosto estético e uma mina com três peitos!

Screenshots

5/5

Ficha técnica: O Vingador do Futuro (Total Recall) – EUA, 1990. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone, Ronny Cox, Michael Ironside, Rachel Ticotin, Marshall Bell, Mel Johnson Jr., Michael Champion, Robert Picardo, Debbie Lee Carrington, Dean Norris, Bob Tzudiker

– Luiz Carlos Freitas

Certos diretores muitas vezes nem chegam a ter noção do alcance de algumas de suas obras. Ou será que Frank Darabont imaginaria que o seu primeiro trabalho na direção, uma trama de assassinato e vingança feita por encomenda para a TV, e que nem mesmo chegou a ser lançado DVD, alcançaria o status de cult algum dia? Bem, isso pode até não ser consenso entre o meio cinéfilo como um todo, mas os mais saudosistas irão concordar que, nos bons tempos em que a TV aberta ainda tinha algo a nos oferecer, as inúmeras reprises nas tardes (Cinema em Casa) e noites de Domingo (a finada ‘Sessão das Dez’) no SBT, fizeram de Sepultado Vivo um pequeno clássico para muitos.

O filme tem um argumento bem simples, com uma mulher ambiciosa que envenena o marido com a ajuda do amante (que é médico) para ficar com a sua fortuna. Porém, o veneno não é tão eficaz quanto se espera e o homem tem a “sorte” de despertar após ser dado como morto. Só que isso acontece com ele já dentro do caixão, depois de ter sido enterrado. Como a vadia de sua esposa quis economizar até no velório, o comprou um caixão de madeira estragada, o que acaba facilitando para que ele consiga escapar (na base da porrada).

O roteiro é básico e ‘redondinho’, e se não se preocupa em explicar muita coisa (por exemplo, por que ele não morreu? Por que o veneno – apresentado como extremamente fatal – falhou?), também não deixa pontas soltas. Boa parte da força vem mesmo do trio que encabeça o elenco e é focado na maior parte da projeção, Tim Matheson e Jennifer Jason Leigh, respectivamente marido e esposa, ainda engatando no início de suas carreiras, e William Atherton no papel do filho da mãe sedutor e sem caráter (pela ducentésima vez em sua carreira). Aliás, o personagem dele é de longe o mais interessante. Suas falas e feições carregadas de cinismo rendem alguns dos melhores momentos.

Mas o grande trunfo, sem dúvidas, era o então estreante Frank Darabont. Com alguma experiência no universo do terror, co-roteirizando A Bolha Assassina e A Hora do Pesadelo III, ambos de Chuck Russel, também admitiu ser um grande fã de Alfred Hitchcock e do universo dos filmes de terror “B” da década de 50 (tanto que seu último trabalho, O Nevoeiro, é uma clara homenagem a esse tipo de filme). Sem muitas firulas, ele consegue conduzir o filme de forma segura, com um clima de suspense que é mantido até os últimos minutos,  construindo alguns bons momentos de tensão, como quando ele “desperta” embaixo da terra, cavando com as mãos para sair antes de morrer soterrado, ou o clímax final, onde há o tão esperado acerto de contas na grande “casa-caixão”.

O filme, certo tempo após lançado, ainda teve seu título inexplicavelmente mudado para o extremamente imbecil Morto Mas Nem Tanto, não chegando a ser lançado em DVD, e restando atualmente no máximo algumas fitas VHS nas mãos de colecionadores. Aliás, provavelmente, Sepultado Vivo não mudou a vida de ninguém (como dito, talvez nem mesmo seus realizadores lembrem muito bem dele). Mas, assim como eu, muitos certamente o guardam na memória com um grande apreço e prova definitiva de que houveram, sim, bons tempos aonde a TV aberta ainda poderia ser considerada um sinônimo de diversão de qualidade.

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3/5

Sepultado Vivo / Morto Mas Nem Tanto (Buried Alive) – EUA, 1990 – Direção: Frank Darabont – Elenco: Tim Matheson, Jennifer Jason Leigh, William Atherton, Hoyt Axton, Jay Gerber

– por Luiz Carlos Freitas

Atualmente, com sua carreira de mais de 30 anos como diretora, Kathryn Bigelow finalmente se vê em evidência após ser a primeira mulher a ganhar os Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme (por Guerra ao Terror). Seus filmes quase sempre foram modestos, com repercussão e orçamento baixos, e nem mesmo seus trabalhos mais conhecidos, Caçadores de Emoção e Estranhos Prazeres, não bastaram para que ela tivesse uma notoriedade que fosse além do título de “ex-mulher do James Cameron”.

Jogo Perverso é um de seus melhores (e mais esquecidos) trabalhos, produzido por Oliver Stone e estrelado por uma Jamie Lee Curtis no auge do sucesso e tentando emplacar em filmes mais diversificados, para fugir dos estereótipos que a perseguiam – de ‘Scream Queen’, após slasher’s vagabundos como Enigma na Estrada e A Morte Convida Para Dançar, e as obras-prima de John Carpenter, A Bruma Assassina e Halloween – A Noite do Terror, à imagem de símbolo sexual por  seus papéis cheios de erotismo – e poucas falas – nas comédias Um Peixe Chamado WandaTrocando as Bolas.

Na trama, a atriz vive Megan Turner, uma policial recém-graduada que acaba matando um assaltante em um tiroteio num supermercado logo na sua primeira ronda. Após a troca de tiros, Eugene Hunt (Ron Silver completamente psicótico), um respeitado corretor da bolsa que fazia compras no local, pega a arma do bandido caído no chão sem que ninguém veja e foge, fazendo com que ela seja suspensa de suas atividades por suspeita de ter atirado em um homem desarmado. Fascinado com o que presenciara, Eugene passa horas admirando a Magnun 44, mirando contra espelhos, vasos e quadros enquanto, até que, na noite seguinte, resolve sair às ruas com seu ‘brinquedinho’. Em meio aos becos escuros de NY, ele atira em um homem. Do nada, sem motivo aparente, sem justificativa. Ele simplesmente descarrega sua vontade de atirar na cabeça do primeiro azarado que encontra no caminho.

À partir daí, a velha e batida, até mesmo para a época em  que fora lançado, fórmula da policial em conflito com seus superiores sendo acusada por algo que não fez corre em paralelo com a busca pelo assassino que, até então, não sabe-se que tem relação com ela. Porém, Eugene faz com que eles se esbarrem “acidentalmente”, dividindo um táxi e, após uma breve conversa carregada de indiretas, saiam para jantar. Esse ato, mais que a um envolvimento amoroso eminente entre os dois, é a partida do tal jogo perverso do título: na mesma noite, um homem é encontrado morto e com o nome de Megan cravado na cápsula que  o atingiu. Agora ela estava diretamente ligada ao caso (só não se sabia ainda se como suspeita ou provável vítima).

Basicamente, o filme se divide em dois atos distintos: a busca pelo assassino, onde tenta-se descobrir sua identidade, quem serão as próximas vítimas e qual a razão de Megan ter sido a escolhida para figurar em tais crimes, e a fuga do mesmo, após descobrirem sua identidade e ele, então, pôr em prática a última parte de seu plano, matar Megan. Em momento algum, o ritmo cai. Pelo contrário, o clima de tensão é crescente, aumentando à cada nova mensagem deixada junto às vítimas e, principalmente, à medida em que vemos Megan mais e mais envolvida com seu próprio algoz.

Nesse meio, uma característica que marca a carreira da diretora se mostra bem evidente: as tramas e motivações de seus personagens, em geral, se baseiam em suas obsessões que, consequentemente, acabam por destruí-los. Em Caçadores de Emoção, Patrick Swayze liderava uma gangue que roubava bancos  para financiar suas viagens para surfar ao redor do mundo (!!!), além, é claro, da iminente adrenalina da fuga das autoridades; O Peso da Água conta com uma escritora que pesquisa sobre um crime do passado para compôr seu livro e, completamente imersa na história, sente como se pudesse mudar o que ocorreu séculos antes; Estranhos Prazeres e seu protagonista “contrabandista de emoções” e o atual Guerra ao Terror, com sua tão elogiada abordagem da guerra como um “vício”, também reafirmam esse veio autoral, que muito lembra um Abel Ferrara (só que de modo bem mais contido).

Eugene é um assassino frio que, aparentemente, tinha algum distúrbio mental latente que é despertado pelo “trauma” do assalto, passando a agir como se estivesse possuído pela arma. Ron Silver confere um ar completamente doentio ao seu personagem, mas o roteiro escorrega bonito por não explicar de forma convincente as motivações aos crimes, limitando-se a mostrá-lo conversando com as “vozes” em sua cabeça. Há referências bem vagas que relacionam sua psicopatia com seu trabalho, inferindo, talvez, uma crítica social (de dia um figurão respeitado, de noite um louco matador frio), mas que se mostram pouco convincentes ou nulas, até, tendo visto a abordagem superficial do roteiro que, à certa altura, pára de tentar explicar as coisas e foca apenas na perseguição do assassino à Megan.

Se por um lado o filme perde em termos de trama, cresce consideravelmente na construção de uma atmosfera de tensão. Longe do vício irritante da “câmera na mão” de seus trabalhos mais recentes, Bigelow se mostra competentíssima ao tornar becos, ruas, um corredor escuro dentro de casa e até mesmo o próprio reflexo de Megan espelho de banheiro, inimigos em potencial. A sequência final peca por uma reviravolta desnecessária e absurda (a psicose adquirida e a inversão de papéis), talvez a maior das falhas do roteiro,  mas é recompensada com o grande clímax do filme, da perseguição no metrô e seu desfecho ao duelo em uma avenida movimentada da cidade, favorecido também pelo excelente trabalho de fotografia de Amir Mokri, de fazer brilhar os olhos dos mais saudosistas àquela época.

Espero que seu Oscar por Guerra ao Terror sirva ao menos para dar maior visibilidade a esse e outros filmes da diretora, excelentes trabalhos que, infelizmente, não tão lembrados quanto as bobagens de orçamentos milionários do seu célebre ex-marido.

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4/5

Jogo Perverso (Blue Steel) EUA, 1989 – Dir.: Kathryn Bigelow – Elenco: Jamie Lee Curtis, Ron Silver, Clancy Brown, Louise Fletcher, Elizabeth Peña, Tom Sizemore, Philip Bosco, Kevin Dunn, Richard Jenkins, Markus Flannagan, Mary Mara, Skipp Lynch, Mike Hodge, Mike Starr, Chris Walker

– por Guilherme Bakunin

A classe trabalhadora não tem pátria”. O poeta finlandês dos desamparados volta a arrebatar multidões, pelo menos as capazes de sentir, quando em 1990, num trabalho filmado em homenagem ao recém falecido (à época) Michael Powell, lançou este trabalho solitário, melancólico e singelo. Jean-Pierre Léaud, o eterno Antoine Doinel de Os Incompreendidos encarna com a maestria de um gênio o típico herói inexpressivo kaurismakiano, só, pobre, miserável e que irá, sempre durante os curtos filmes, encontrar uma mulher tão perfeitamente podre que a paixão é cintilante, instantânea.

Henri Boulanger é francês, mas vive em Londres, e agora está desempregado. Sem lar, sem afeto, Henri tenta suicídio, mas é incapaz de fazê-lo. Determinado a morrer, decide contratar um assassino de aluguel. No dia marcado para sua morte, conhece uma mulher, numa das cenas mais bizarras da década de 90: uma vendedora de flores, à meia-noite num pub. Com a repentina paixão, muda de ideia e resolve continuar vivendo, mas encontra problemas ao não encontrar os contratantes.

Kaurismäki anda por uma Inglaterra devastada e tão miserável como seus personagens moribundos, forçando o olhar do espectador a imagens feias, cruéis, e sem nenhum pudor, acentua progressivamente a miséria naquelas pessoas que, sem outra alternativa, continuam na luta por seus vãos objetivos, terminando inexoravelmente em um beco úmido e fedorento. O cineasta, de poucas palavras e poucas imagens, faz questão de conduzir sua trama sem sentimentos, sem emoção. Os desamparados de Kaurismäki são andróides, robôs da sociedade que, cada vez mais humilhados e mutilados pela vida, cada vez menos vontade possuem de lutar por ela. E não é por acaso que em menos de 80 minutos o diretor faz questão de prolongar as cenas até que as portas se fechem. Independente de onde você é ou do que você fez, o mundo é o seu lar e nele você não encontrará oportunidades. A vida te oferece portas fechadas e ruas sem saída, socos na cara e relógios de ouro, e Henri não tem outra escolha senão refugiar-se novamente, pois na Inglaterra, seu lar por quinze anos, assim como na França “não o querem por lá”.

E não se assuste com a facilidade das soluções no roteiro, com a robótica da direção ou com a obviedade dos relacionamentos: a obra de Kaurismäki é essencialmente social, realista, então assim como seus heróis encontram esperança no amor de uma não tão bela mulher, nós, cúmplices de todo os seus desesperos, encontramos fôlego na arte, no cinema, onde, com um rápido olhar e umas rudes palavras engatilhadas por whisky e cigarros, o amor e o refúgio podem salvar vidas.

4/5

Ficha Técnica: Contratei Um Assassino Profissional (I Hired a Contract Killer) – Finlândia/Inglaterra/França/Suiça/Alemanha, 1990. Dir.: Aki Kaurismäki. Elenco: Jean-Pierre Léaud, Margi Clarke, Kenneth Colley, T.R. Bowen, Imogen Claire, Tex Axile.