império do desejopor Bernardo Brum

Ainda longe da crise social e moral de Filme Demência e da carta de amor à sua geração que foi Alma Corsária, Carlão lançou no início da década de oitenta O Império do Desejo, um ponto de convergência de toda a sua filmografia até então, encontro de Lilian M – Relatório Confidencial e sua ruptura com o modelo de vida tradicional até o forte contexto político do seu filme de encomenda vertido em cinema autoral A Ilha dos Prazeres Proibidos.

Destilando toda a sua verve cinéfila no filme, inclusive no nome dado aos diferentes episódios através de cartões título (como Cinzas que Queimam e O Beijo Amargo), o diretor cruzou as mais diferentes óticas e discursos em um filme ao seu estilo, característico e autoral, remodelando suas influências em uma estrutura delirante e errônea que não torna  seu filme apenas desobediente com a norma vigente do cinema nacional da época, mas sim uma obra à favor de uma expressão multicultural, notoriamente brasileira, filha de uma geração de excessos  que recusou qualquer paradigma classicista para se inventar. O sonho perdido logo começaria a ser sentido, seja na truculência controversa de um Pra Frente Brasil ou no ironicamente melancólico Festa, de Ugo Giorgetti – e isso para não comentar dos rumos cada vez mais degradantes e violentos das obras saídas da Boca do Lixo.

Carlão mistura personagens díspares – burgueses, hippies, matadores, ex-ícones – e cria, à beira da praia, em uma única casa, um microuniverso  regido à base do humor caricato, com os personagens coadjuvantes histéricos e cartunescos e os hippies personagens centrais lacônicos, “cool” e amorais para retratar a confusão de um país perdido entre o conservadorismo branco e católico e a aceitação de novas mentalidades – sexo e morte são encenados ora de forma visceral, ora de forma cômica em um filme que pauta sua iconografia de vida e destruição pelo deboche e pela paródia, construídos com tal autenticidade que o filme passa longe de ser, apenas, um cruzamento de suas referências, mas antes, os cacos de um Brasil que, séculos depois, ainda teima em não permanecer, em não se definir, e que ainda precisa ser inventada.

Em plena década de oitenta, o filme de Reichenbach no mínimo se destacava por aproveitar-se do erotismo e da pobreza da pornochanchada, do impacto visual do cinema policial, do desmonte ideológico e político do cinema de autor e da anarquia da comédia pastelão para enxergar – tanto com ironia quanto com carinho – as questões de sua geração, confusa entre tantas esferas, entre fundir-se com a natureza através do amor livre e da vida nômade. ou seguir a obstinação cristã da ideia da familiar nuclear, da propriedade, da ostentação. É este cinema plural que tanto atraiu a figura de culto em volta de Carlão e que tornou seu nome tão duradouro, inclusive posteriormente, onde alcançaria uma espécie de segunde auge, seja em filmes de tons mais tristes e descortinadores, como Alma Corsária e Dois Córregos, quanto no aprofundamento no imaginário das questões das classes mais humildes em Garotas do ABC e Falsa Loura.

Ao mesmo tempo, o Carlão de O Império do Desejo era narrativo e poético; visceral e esculhambado; distante e apaixonado. Em sua câmera livre, movimentada com a leveza sensível de um Zurlini e pegando fogo em sua paródia conflitante como o Godard inflamado de Week-End e A Chinesa, o diretor entregou mais uma de suas obras indefiníveis, que só poderiam existir no cinema e como só ele poderia ter feito. Antes de mais nada, O Império do Desejo é a criação ainda pulsante de um artista inimitável.

4/5

Ficha técnica: O Império do Desejo (idem) – Brasil, 1981. Dir.: Carlos Reichenbach. Elenco: Roberto Miranda, Meiry Vieira, Benjamin Cattan, Aldine Muller, Orlando Parolini, Márcia Fraga, Jose Luiz França

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– por Guilherme Bakunin

JJ Abrams, como bom discípulo de todo o universo soft geek dos anos oitenta, guarda um imenso respeito pelas obras infantis seminais daquele tempo, como Goonies (1985) e E.T. (1982), que de tão poderosas e universais, acabaram fazendo parte não apenas do imaginário daquela geração de norte americanos, mas de todo o mundo. Não existem muitos exemplos de filme de aventura onde crianças são protagonistas. Tem umas paradas da Disney nos anos cinquenta, tipo os filmes do Bobby Discoll, tem as quinhentas versões de Olivers Twists, tem aqueles filmes infantis que de tão infantis não são nem bem uma aventura, mas Goonies cria um novo patamar: é muito divertido, muito bem realizado e, por isso, universal. E você tem toda a coisa da universalidade funcionando a todo vapor no mercado cinematográfico dos anos oitenta, porque é mais ou menos por aí que o conceito de blockbuster se desenvolve mesmo. Essas obras formaram mesmo o caráter desses adolescentes de 30-20 anos atrás. Mas no meio do caminho, alguma coisa deu errado, e aí começou uma cadeia de erros tão desastrosa, que deixou Hollywood em crise, que faliu produtoras, que deixou a Disney queimada e etc.

25 anos depois de Goonies, 30 anos depois de Tubarão, o que a geração que se formou a partir desse universo da estética do blockbuster, tem a dizer? Que tipo de trabalho esse pessoal é capaz de produzir de forma que seja tão universal e tão compromissado com a diversão, sem ser medíocre, quanto os filmes de suas adolescências? Um dos caras que mais se destaca dentro desse contexto é J.J. Abrams, que criou a série de tv Alias, mas que ficou famoso mesmo com Lost.

Abrams surgiu então com essa ideia de misturar Conta Comigo (1986) com Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), resgatando alguns elementos dramáticos da série que o tornou mundialmente famoso, os lendários daddy issues, pra chegar com essa história que se passa no final dos anos 70, contando a aventura de um grupo de crianças se envolvem acidentalmente em algum tipo de conspiração militar ao gravar um filme amador sobre zumbis. É praticamente um coquetel geek. Adams trabalha bem com seus personagens bem construídos e sua pathos bem direcionada. Ele conta uma história sobre crianças dum ponto de vista infantil, adultos em segundos e terceiros planos, capturando com precisão aquela intimidade infantil, onde boys can be boys, falando palavrões, tendo hobbies, sendo eles mesmos.

É aí que ele acerta. Concentra a narrativa nos garotos, desenvolve esses personagens, gera simpatia, tridimensionaliza-os. Mas Super 8 não para por aí, e a história vai além da proporção. De conspiração militar a conspiração militar, a parada atinge níveis interplanetares, afastando o filme do que ele tinha mais força, seus personagens. O roteiro ainda amarra o ‘monstro’ com o personagem de Joe, daquele jeito que só os blockbusters voglerianos sheakspeare wannabe conseguem ser. De alguma forma, ao final do filme, libertar o vilão é a única forma de superar o trauma, e aí valha-me símbolos, metáforas e easter eggs, maçantezando a experiência do que deveria ter sido uma das melhores histórias do ano, mas que acabou sendo um thriller infanto juvenil mal aproveitado.

Outras observações:

– Christopher Volger escreveu “A Jornada do Escritor – Estrutura Mítica para Roteiristas”, um livro bastante influente e recomendável, principalmente pra quem gosta de cinema americano.

– Super 8 me chegou como uma experiência melancólica. É bem óbvio que existem duas histórias aqui, como já mencionado: o drama dos losers colegiais e o thriller, que em nenhum momento deixa de soar desconexo e exagerado. Longe de ser filme de autor ou de circuitos comerciais fechados, Conta Comigo foi produzido e lançado na segunda metade da década de 1980, e se saiu muito bem, obrigado. Vinte anos depois, por algum motivo, não é possível lançar um filme que conte tão pouco. Já existe a espera por elementos grandiosos (que são invisíveis, diga-se de passagem, já que se trata de CGI) que deve ser obrigatoriamente obedecida, do contrário, veta-se a produção.

– J.J. Abrams lançou uma série de crime e mistério esses dias, bem pior que Super 8. A televisão aberta também sofre com essas aberrações da padronização.  A máxima de Matthew Weiner realmente vale: “as pessoas gostam de ver coisas diferentes, mas na verdade não querem”.

– Kyle Chandler ainda é um notório desconhecido, vencedor de um Emmy meio por simpatia há um mês atrás. Podem anotar que o cara vai começar a aparecer.

2/5

Ficha Técnica: Super 8 (idem) – EUA, 2011. Dir: J.J. Abrams. Elenco: Elle Fanning, Joel Courtney, Riley Griffiths, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills, Kyle Chandler, Jessica Tuck, Joel McKinnon Miller, Ron Eldard.


– Luiz Carlos Freitas

“10 segundos – a dor começa.
15 segundos – você não pode respirar.
20 segundos – você explode.”

O trecho acima foi transcrito da edição nacional do DVD de Scanners – Sua Mente Pode Destruir, referenciando a épica cena da cabeça que explode, e que coloca a obra em um curioso paradoxo: longe de ser a contribuição máxima de David Cronenberg ao cinema, possui a cena que talvez seja a mais forte expressão do propósito do diretor enquanto cinematógrafo.

A trama aborda a existência dos Scanners, humanos dotados de terríveis poderes telepáticos (que mais tarde descobrimos serem frutos de uma experiência com drogas aplicadas em mulheres grávidas). Ao todo, são 237 Scanners espalhados pelos EUA, dentre os quais está Darryl Revok (Michael Ironside), conhecido como o mais poderoso de todos, e que planeja liderá-los em um megalômano plano de dominação mundial, mas vê-se confrontado por Kim Obrist (Jennifer O’Neill) e Cameron Vale (Stephen Lack), seu irmão mais novo e que compartilha dos mesmos poderes que ele. No meio dessa batalha, está a ConSec, uma poderosa corporação liderada pelo Dr. Ruth (Patrick McGoohan), cientista responsável pela criação dos Scanners.

Dessa fantástica premissa, após um breve início, somos levados à sede da ConSec, onde um experimento com Scanners está sendo feito e, após algo sair errado, um homem tem a cabeça implodida por Revok utilizando apenas os poderes da sua mente. A cena – fácil um dos momentos mais antológicos de toda a história do cinema -, retrata toda a crueza e poder destrutivo que o Cronenberg, que até então só tinha feito projetos quase independentes e de baixo orçamento, trazia consigo para o grande cinema de massas.

A sequência de menos de um minuto, onde alternam-se planos do algoz manifestando seu poder e da vítima sufocando e agonizando lentamente, é excruciante, sádica e, acima de tudo, uma genial metáfora visual ao conflito que pontua a trama e a filmografia do canadense: a bestialidade humana como uma força suprema que vê o corpo como uma prisão e que, ao se forçar a sair, destrói essa carcaça em que “habitamos” de modo devastador, tal qual um vulcão em erupção. O nosso corpo não nos basta. No cinema de Cronenberg, ele serve apenas para representar estados de espírito.

Claro, a força de Scanners não reside apenas na metáfora visual, também constituida por um embate final entre os dois irmãos telepatas (um espetáculo visual que impressiona até hoje por seu realismo gráfico) com um desfecho que reforça a tese de que o “corpo” é nocivo ao ser, sendo preciso abrir mão dele para sobreviver, mas também em seu argumento rico de contexto, que envolve uma evolução tecnológica que ainda impressionava (devemos considerar a época em que o filme foi feito, início dos 80’s e um embate de gigantes da tecnologia já entrando em voga: IBM versus Microsoft) e que jogava no lixo grandes abordagens anteriores da telecinesia no cinema que tinham em seu sustentáculo preceitos sobrenaturais (a exemplo de Carrie, A Estranha – que se não usava o religioso declaradamente, também não se despia da áurea de ocultismo sob os poderes da personagem).

Se Scanners falha, é justamente na construção do ritmo, em vários momentos arrastado, e na condução da trama, com personagens que poderiam ser facilmente descartados, algumas reviravoltas mal explicadas ou mesmo desnecessárias, como o plano extremado do traidor da ConSec para destruir Cameron, além de muito tempo perdido com passagens quase “didáticas” acerca dos Scanners e suas motivações. Todavia, essas limitações se viam presentes em todas as obras do diretor até aquele período, colocando Scanners também como um marco divisor, tanto por abrir as portas aos grandes orçamentos, quanto por ser um ensaio de Cronenberg ao seu filme seguinte, que seria provavelmente a sua maior obra-prima: Videodrome – A Síndrome do Vídeo.
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3/5
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Scanners – Sua Mente Pode Destruir (Scanners) – Canadá, 1981 – Diretor: David Cronenberg – Elenco: Stephen Lack, Michael Ironside, Jennifer O’Neill, Patrick McGoohan, Lawrence Dane, Adam Ludwig, Mavor Moore, Robert A. Silverman

por Bernardo Brum

À essa altura do campeonato, difícil não saber quem é Spielberg – não depois de tantos bonés, bonecos, chaveiros, camisas, estatuetas da Academia, produções, enfim a combinação ideal entre artista e indústria – e, justamente por isso, mais difícil ainda não conhecer sua marca registrada, o arqueólogo Indiana Jones. Ou Dr. Jones, se você quiser ser mais formal.

O carismático personagem, situado na época em que Spielberg queria pertencer e  de onde tirou todas as referências – a primeira metade do século, as roupas finas, as conspirações e guerra de influência entre América e Europa, as aventuras de John Huston e, obviamente, Ian Fleming, Sean Connery e a franquia 007. De tudo isso, Stevie regurgitou o mais clássico herói de entretenimento das últimas três décadas. Muitos, inclusive aqueles patrocinados pelo diretor em sua ocupação de produtor, tentaram; nenhum conseguiu cravar um clássico moderno como Os Caçadores da Arca Perdida.

Desde o início, há o trabalho febril e bem sucedido de construir um arquétipo original e funcional para a obra, que fugisse do clichê e do marasmo instituídos à época e ainda fizesse o espectador se apaixonar pela sua personalidade – ao mesmo tempo em que é um homem audacioso e intrépido, sedutor e simpático, Jones também é um herói cheio de medos (inclusive com uma hilária fobia de répteis), que sabe que só não morreu por sorte, que não luta de igual para igual e aproveita de quaisquer vantagens oportunas (como ter uma arma ou não ser visto pelo inimigo).

Um personagem que passa longe da inocência e do ideal conferindo a outros personagens da ficção popular americana, como o Super Homem (um homem sem falhas de caráter, que jamais fraqueja), e justamente aí que reside o acerto de seus autores George Lucas e Spielberg (e Harrison Ford, como não?): Indiana é um cara palpável – mesmo que suas aventuras sejam, literalmente, coisa de cinema. E se a intenção dos autores era oferecer uma margem de credibilidade realista para garantir a imensão necessária naquele tal universo onde o irreal e o impossível acontecem o tempo todo, conseguiram com êxito, incontestavelmente.

A busca de seu protagonista por relíquias cada vez mais obscuras – e, por mais frequentes que sejam os exageros, com fundo histórico também – iria se tornar, com o passar do tempo, o porto seguro de Steven. Por mais que ele tenha navegado nos mares tempestuosos e intensos do drama, filmando os massacres do Dia D, a violência sexual e o racismo, o holocausto em preto e branco e tantos outros momentos onde tornou-se elogiado por alguns e muito criticado por outros, dá para sentir que, quando arma Harrison Ford de pistola, chicote e chapéu, Spielberg está em casa.

Tal qual os melhores momentos de um Intriga Internacional, a caçada às relíquias que a sociedade moderna esqueceu é apenas um pretexto muito bem bolado para desfiar cena atrás de cena, uma mais divertida que a outra, num crescendo ininterrupto, com uma energia frenética que sustenta o filme sempre à mil por hora. Não há momentos de tédio; você estará sempre tenso, aflito, rindo e torcendo, o tempo todo. Em alguns momentos, os quatro ao mesmo tempo. Mas é um tanto redundante afirmar isso do grande filme de aventura do cinema moderno. É daqueles casos de ver e confirmar com os próprios olhos e entender o significado da velha expressão “diversão garantida ou seu dinheiro de volta”.

5/5

Ficha técnica: Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of The Lost Ark) – 1981, EUA. Dir.: Steven Spielberg. Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Alfred Molina, John Rhys-Davies,Denholm Elliott, Paul Freeman, Ronald Lacey, Wolf Kahler, Don Fellows,Anthony Higgins, William Hootkins, Vic Tablian

– por Bernardo Brum

Sem alongar muito, Um Tiro na Noite é, basicamente, a obra-prima do gênio chamado Brian De Palma. Aqui, ele desmontou o cinema e o reconfigurou a seu bel-prazer. Um thriller de ação que vai bem além de ser fechado em si e exalta o poder de criação do cinema, ainda que da forma mais trágica o possível, ligando-o indissoluvelmente à vida.

É, simplesmente, cerca de uma hora e quarenta poucos minutos de um cinema hiperbólico, escandaloso e intenso com uma abordagem tão diferenciada que quando sobem os créditos finais, não temos certeza se o que vimos foi realmente coisa desse mundo.

Mas claro, se você não confia em mim, já pode ir olhando os screens abaixo…

Crítica

5/5

Ficha Técnica: Um Tiro na Noite (Blow Out) – 1981, Estados Unidos. Dir: Brian De Palma. Elenco: John Travolta, Nancy Allen, John Litgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May, John McMartin

– por Guilherme Bakunin

Em Terror nas trevas, Lucio Fulci delega para si uma das características mais marcantes de Mario Bava: o filme se concentra em torno da idéia da criação de uma atmosfera única e surreal de horror.

Sob esta lógica, tudo no filme pode fazer sentido. Não é como se a lógica narrativa fosse descartada em razão desse objetivo – a criação de uma atmosfera diferenciada -, mas este requer para si um sentido próprio. É por esse motivo que parece não haver linha do tempo nem espaço físico no filme. Corpos aparecem e reaparecem em lugares, tempos e circunstâncias diferentes, apenas para fazer fluir a narrativa, aumentando o terror na mente de quem assiste, e ainda de ressaltar o ponto ‘discutido’ por Fulci (mais uma vez, a atmosfera). Terror nas trevas é um pesadelo coletivo, e os espectadores compartilham deste sonho orquestrado pelo diretor, juntamente com os personagens.

O filme começa em 1927, onde um pintor é brutalmente torturado e assassinado (mas não antes de dizer que o hotel no qual se encontra é uma das entradas para o inferno) por o que parecem ser aldeões revoltados. Trata-se de uma cena forte, logo no inicio, que deixa claro a forma impiedosa como todas as personagens serão tratadas ao longo do filme. Após a morte desse misterioso pintor, a narrativa dá um salto de 50 anos no tempo e começa a acompanhar aquilo que seria os momentos finais de Liza – o que mais próximo podemos chamar de protagonista. Liza herdou o já citado hotel amaldiçoado de um tio que, para quem assiste ao filme, é anônimo. A história não dá rodeios: em menos de dois minutos, assustado com uma visão macabra de dentro do hotel, um pintor cai de uma plataforma e bate a cabeça. A partir desse instante, outros personagens nos são rapidamente apresentados para jamais serem devidamente desenvolvidos. Isso porque eles são meras peças que Fulci utiliza para glamourizar o gore, manipular a narrativa e criar um espetáculo para os sentidos. Não se trata de um filme que precisa ser detalhadamente entendido, pois é simplesmente baseado numa realidade alternativa ao próprio universo ‘normal’ da história (uma cidade no interior dos Estados Unidos) para adquirir significados próprios, que nem sempre podem ser traduzidos em palavras. É, de fato, um pesadelo.

Lançado em 1981, Terror nas Trevas não foi uma obra inovadora em nenhum aspecto, mas foi provavelmente o melhor filme do gênero e intenções utilizadas. Possui um trabalho autoral de Fulci na direção, que condensa a história em puro horror e objetividade, garante atuações aceitáveis e na dose certa para cumprir o objetivo de chocar, e trabalha de maneira inicialmente contida na criação ambiental para depois explodir com a as manifestações e eventos nos vinte minutos finais. Pode não ser o melhor trabalho de Fulci, mas com certeza tem força suficiente para figurar no topo de sua filmografia e consequentemente, entre os mais bem realizados filmes do cinema de terror italiano.

– ou aqui: Terror nas Trevas (Lucio Fulci, 1981) – Bernardo Brum [5/5]

5/5

Ficha técnica: Terror nas Trevas (E tu vivrai nel terrore – L’aldilà) – Itália, 1981. Dir.: Lucio Fulci. Elenco: Catriona MacColl, David Warbeck, Cinzia Monreale, Antoine Saint-John, Veronica Lazar, Anthony Flees, Giovanni De Nava, Al Cliver, Michele Mirabella, Gianpaolo Saccarola, Maria Pia Marsala, Laura De Marchi.

the beyond

– por Bernardo Brum

Quando, muito tardiamente, descobriram Lucio Fulci em Zombie, foi muito injustamente que só então o mundo pode testemunhar então as obras daquele que levou o gore, aquele gênero extremo querido a cinéfilos tidos como perversos, a uma arte intensa, visceral e agoniante. Não tinha, então, para o refinamento formal de pintor de Mario Bava ou para as hipérboles oníricas de Dario Argento. Quem veio e reinou na década de oitenta foi Fulci e seu cinema fragmentado, ilógico e hipergráfico. Em cada obra-prima sua a lógica vai embora depois de alguns minutos e dá espaço à obsessão com a imagem em movimento, pura e simples.

E nesse esquema de história besta que só serve de pretexto para dar lugar a algo maior – no caso, uma mulher que herda uma mansão mal-assombrada que não demora muito a agir contra quem habita/entra nela – encontra seu grau máximo em Terror Nas Trevas, ou The Beyond, como é chamado na terra do Tio Sam. Aqui, Fulci esculpe com mão ensanguentada o que havia apenas rascunhado em obras anteriores como O Segredo do Bosque dos Sonhos, Zombie e Pavor na Cidade dos Zumbis. Com um roteiro tão furado que parece ter sido esquartejado com um picador de gelo – e fazendo isso da forma mais descarada e sem se importar com o que vão achar – sem resquícios de realidade, sem necessidade de “fazer sentido”, e portanto, sem amarra alguma. Não há o que racionalizar e querer ficar tecendo teoria sobre isso e aquilo é totalmente inútil – e provavelmente faz o velho Fulci dar uma risada sete palmos abaixo da terra.

E o que, então, há para ser visto? Simplesmente, uma atmosfera inacreditável. É incrível o que tiozinho conseguia fazer com sangue falso, música instrumental densa, lentes de contato coloridas, fotografia abusando das sombras, mulheres gostosas gritando, pessoas vestidas de zumbis e bichos escrotos – é tudo insuportavelmente pesado, uma verdadeira tortura mental, um pesadelo elevado ao extremo do espírito carniceiro de um italiano demente e genial (esqueçam dos apenas dementes que faziam filmes de canibais) que desfila sua criatividade em set pieces das mais variadas, como a que um homem cai de uma escada e é devorado por tarântulas, as lutas contra os zumbis que aparecem numa simples mudança de plano, aquele início em uma soberba cor sépia que mostra os danos reais que uma crucificação pode causar (em algo que faz Mel Gibson e sua Paixão de Cristo parecerem especial de fim de ano da Sessão da Tarde) e , então, aquele final opressivo – quando não há mais mansão, hospital, cidade, mundo ou canto da mente para fugir, em um dos finais abertos mais impressionantes da história do cinema.

Poucos filmes com o mesmo conceito podem competir com o de Fulci. E, talvez, nenhum vença. Com um verdadeiro arsenal de como destroçar corpos e mentes, o italiano derrubou cada parede existente entre as convenções pentelhas e o seu cinema. Não há limite. Em um cinema livre como esse, tudo pode existir ou inexistir e lógica é só uma desculpa que o homem usa para não estourar os miolos por uma parede. Felizmente, não o velho Lucio. Esse, ainda bem, esteve bem mais preocupado em espalhar pedaços de cérebro por fotogramas.

Traumatizante. Violador. E os trinta minutos finais, então, são sem precedentes em qualquer arte que já mexeu ou já quis mexer com o obscuro.

Ou aqui: Terror nas Trevas (Lucio Fulci, 1981) – Guilherme Bakunin [5/5]

5/5

Ficha técnica: Terror nas Trevas (E tu vivrai nel terrore – L’aldilà) –  1981, Itália. Dir.: Lucio Fulci. Elenco: Catriona MacColl, David Warbeck,Cinzia Monreale, Antoine Saint-John, Veronica Lazar, Anthony Flees, Giovanni De Nava, Al Cliver, Michele Mirabella, Gianpaolo Saccarola, Maria Pia Marsala, Laura De Marchi