close encounters of third kind

– por Guilherme Bakunin

A saga percorrida em Contatos Imediatos de Terceiro Grau é com certeza a mais esvaziada de Spielberg. Um diretor que adota como marca registrada a redenção através de valores morais, parece buscar a representação do sublime em decorrência de um encontro entre terráqueos e alienígenas. O que está por trás disso é simplesmente uma showcase para efeitos especiais, que apesar de serem realmente incríveis, não importam realmente, quando o que se espera é uma história sendo contada na tela.

No começo, o que vemos é um Spielberg muito mais contido e equilibrado. Ainda um pouco distante do sinfonismo insuportável do John Williams, o diretor cria as melhores sequências de sua carreira: o primeiro contato do garotinho Barry com ets; os encontros de aviões do exército com ovnis; e as incríveis cenas da intimacia familiar de Roy, Ronnie e seus três filhos. Parte do triunfo precoce de Contatos Imediatos existe na incrível capacidade que Spielberg demonstrou em dirigir seus atores, criando cenas isentas de efeitos especiais e música, mas que transbordam de sinceridade e verossimilhança.

O suspense no início também funciona, é inquietante. A sensação de perigo e mistério andam de mãos dadas para transformar a atmosfera paroquial da cidade de Muncie em um angustiante campo minado; cada passo pode te levar mais perto para algo que ninguém sabe exatamente o que é.

Quando as comportas do enredo começam a se abrir, o interesse pelo filme cai drasticamente. Por mais de uma hora e meia, tenta-se conduzir um filme de aventura sem vilões e tenta-se manter uma expectativa suspensa sem que ninguém perceba que já se sabe exatamente o que vai acontecer: um contato entre aliens e humanos. Não me parece que Spielberg estivesse negligente a respeito do ritmo do filme; pra mim, ele, que é a principal cabeça por trás do projeto (concebeu, escreveu, dirigiu e até fotografou), sabia muito bem que algo estava dando errado e por isso é a partir do segundo ato que a música de Williams torna-se mais intrusiva, e uma sucessão de situações bagunçadas e sem muito sentido começa a acontecer.

Uma espécie de paranoia toma repentinamente conta do personagem principal, e a medida em que ele se torna mais obcecado pelas imagens que permeiam sua mente (embora o filme deixe claro apenas depois que essas imagens foram introduzidas pelos aliens), mais ele se afasta da família. O herói de Spielberg, aqui, abandona mulher e filhos para ir atrás de sua obsessão. Um grande filho da puta, se me perguntarem, que se transforma em herói americano, um dos primeiros seres humanos a visitar uma nave espacial alienígena.

Essa é a pior parte do filme, o segundo ato. Espremido entre a primorosa e aterrorizante abertura (aterrorizante principalmente porque o desconhecido e o ambíguo atuam juntos para se criar a atmosfera de medo), e o ato final (onde os aliens finalmente fazem o contato de terceiro grau), que se caracteriza principalmente pelo que as pessoas chamam de “temor” (ou vislumbre), durante quase uma hora os personagens principais de Contatos Imediatos correm apressadamente de um lado para o outro, sem nunca conquistar algo de valor narrativo.

É mero preenchimento de história, é mera criação de terreno para o ato final – que Spielberg e metade do mundo considera uma jóia, um desses grandes acontecimentos do cinema mesmo.

E talvez seja mesmo um grande acontecimento do cinema. Pra quem se liga no filme, provavelmente seja um bom encerramento: contrariando expectativas frutos de meio século de ficção científica de terror, Spielberg cria um terceiro ato onde homens e aliens se comunicam através de sons movidos pela curiosidade e sincero interesse no outro povo, então desconhecido. Mas pra quem não se ligou, como eu, é simplesmente irritante e interminável, e na medida em que as coisas progridem e os pequenos alienígenas saem da nave especial, tudo fica ainda mais sem propósito e indiferente. Os personagens sorriam e lacrimejam, tamanha a emoção do encontro, e o filme simplesmente termina, sem gerar algum senso de compensação pelo marasmo que esteve vigente até então.

Na minha opinião esse pode ser o filme mais superestimado da hollywood nos anos 1970, uma premissa interessantíssima que o diretor simplesmente levou para um lugar errado.

2/5

Ficha técnica: Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of Third Kind) – EUA, 1977. Dir.: Steven Spielberg. Elenco: Richard Dreyfuss, François Truffaut, Teri Garr, Melinda Dillon, Bob Balaban.

Anúncios

– de Guilherme Bakunin

Os anos setenta na América do Norte foram uma era revisionista. Sharon Tate e outras quatro pessoas são brutalmente esfaqueadas pela Manson Family, seita hippie-religiosa que surgiu por volta de 1967 em São Francisco (o CBGB da cultura hippie). A partir daí (e antes daí, na verdade; o valor de Manson nessa história é muito mais simbólico que fatual), ciclos de violência e paranoia desencadearam uma situação insustentável de medo e preconceito, que desestabilizou por completo a estrutura social vigente na América. Era o Easy Rider às avessas. A previsão de Bob Dylan se tornou equivocada. Um cara foi morto num show dos Rolling Stones. A viagem de lsd acabou. E aí os Sly and the Family Stone lançaram este albúm. A produção cultural norte americana se liga definitivamente aos mais diversos panoramas políticos e sociais, e praticamente nada parece escapar. Diretores, produtores, escritos e atores parecem não estarem interessados em neutralizar essas questões, e cada um toma seu partido. De Wes Craven a Robert Altman, todo mundo tem alguma coisa pra dizer. E Wes Craven definitivamente diz.

 Seu Quadrilha de Sádicos é um dos slashers mais poderosos que já se teve notícia. Quando o cinema ainda não era movido pela propaganda, os autores ainda tinham que trabalhar em ambientação e atmosfera, então Craven descortina seu filme para revelar dois personagens estranhos e disfuncionais, que além de caracterizar a peculiaridade daquele lugar, mostram que há peculiaridades maiores a serem temidas. E então a típica família americana dá as caras, naquela articulação que nós já conhecemos bem. Existem certos conflitos entre aquele grupo, que não os afastam do espectador, mas os aproxima, os humaniza. É uma família wasp como qualquer outra que, por acidente, se torna prisioneira das colinas.

 A partir do acidente a tensão é deflagrada, e o uso de ângulos e de posicionamentos de câmera fazem forte sugestão de que a família está cercada e condenada. Não há, portanto, durante a primeira hora de metragem, nenhuma cena de horror forte ou alguma perda significante. Há uma construção claustrofóbica e angustiante de atmosfera e de situação. Todo tipo de conflito e premissa é exposto e desenvolvido, antes que a ação possa se desencadear. Quadrilha dos Sádicos não é, logo, um filme gore. Nem tampouco trash, apesar de ter forte referência a estes estilos. É um filme de horror até às últimas consequências.

 E após a primeira hora de filme, Craven acha que já é tempo de libertar a sua ação. Depois de algumas perdas, a família americana se vê em tremenda desvantagem diante dos selvagens inimigos locais. É então que a carta na manga de Quadrilha dos Sádicos é posta à mesa, e esses comportados protestantes se revoltam e dominam o adversários com requintes de extremo sadismo. Não é apenas uma carnificina para auto defesa. É um prazer pelo sangue e pela vingança.

Dizem que a produção americana dos anos setenta é fortemente investida de valores políticos, e esse mero horror de baixíssimo orçamento não parece fugir do contexto geral. Parece, antes, dizer que dentro de cada indivíduo existe uma besta masoquista adormecida, despertada pelo menor dos abalos, pronta pra destronar os oponentes, defender a honra e o território. Também parece fazer fortes insinuações a respeito da própria gênese do estado americano, que invadiu e dizimou selvagens proclamando boas novas  de um que faz acepção de pessoas. E sugere, ao seu final, que a violência sádica é o berço da américa e permanecerá ali para sempre, à espreita, aguardando o momento de ser cutucada.

Mas definitivamente, a questão fundamental e mais impressionante de Quadrilha de Sádicos é sua construção atmosférica exímia, que impressiona e choca até os dias de hoje, que revela a fonte da juventude para que os filmes não envelheçam datados: articulação narrativa, apenas.

Outras observações:

 – Dizem que, antes do filme ser lançado, ele foi classificado como Rated X, o que proporcionaria um lançamento restrito aos circuitos pornográficos. Então Craven foi obrigado a recortar o filme, amenizando-o para um Rated R (maior de 18 anos). A primeira versão se perdeu para sempre.

 – O filme precede o debut  bem sucedido de Craven com Aniversário Macabro, de 1972. Com orçamento de 230 mil dólares, o filme rendeu apenas mais de cem vezes o valor do custo.

5/5

Ficha técnica: Quadrilha de Sádicos (The Hill Have Eyes) – EUA, 1977. Dir: Wes Craven. Elenco: John Steadman, Janus Blythe, Russ Grieve, Virginia Vincent, Peter Locke, Susan Lanier, Dee Wallace, Brenda Marinoff, Robert Houston, James Whitworth, Michael Berryman, Lance Gordon, Cordy Clark.

No imaginário judaico-cristão, o sangue lava, purifica. Nos cinemas, o sangue também pode corromper. Me vem à mente cinco filmes que não apenas possuem uma carnificina atuando como clímax da história, mas que trabalham com a estética da violência para criar, desenvolver ou discutir um determinado ponto vista. Cinco grandes filmes de cinco grandes cineastas com cinco grandes sequências que não podem ser esquecidas depois de apreciadas.

(mais…)


por Bernardo Brum

Antes de mais nada, é necessário ressaltar a provocação genial de David Cronenberg: não muito tempo após ser criticado por causa do conteúdo temático do predecessor Calafrios, taxado por certos críticos de “pornográfico”, o canadense ao invés de se dobrar às linhas deles chama uma das maiores estrelas dos filmes hardcore da época – Marilyn Chambers – para atuar como protagonista do seu grande filme setentista, Enraveicida na Fúria do Sexo.

Com uma câmera bem mais apurada tecnicamente falando e um orçamento um pouquinho mais gordo, Cronenberg foi mais incisivo ainda – deixando claro para os críticos que repudiaram sua obra anterior que seu cinema não era feito para ser sutil e, querendo eles ou não, a grande potência do horror canadense iria mostrar sua visão de terror, direto na veia: David antecipou todo o clima de desespero das décadas seguintes – que sofreram com a ressaca do espírito hedonista setentista que desaguou doenças sexuais e a paranóia conseqüente – ao contar novamente uma história de um vírus que se espalha através da troca de fluidos corporais e torna os parasitados criaturas violentas e explosivas. Ainda que revestido pelo manto de filme “gore”, fica claro o recado: impossível não se sentir ameaçado

Rose, a quem Marilyn Chambers encarna, é a primeira a apresentar os sintomas, tendo relações sexuais e matando seus parceiros sexuais, mas ela própria é imune ao vírus. Ao contrário dos contaminados que perdem toda a racionalidade, a viúva negra sai à caça em uma cidade movimentada para beber sangue e disseminar o vírus.

É daí que o diretor tira imagens violentíssimas em seu grafismo de preocupação cirúrgica. Se existem dois medos (e portanto, dois fetiches e tabus que fascinam indivíduos, justamente, como um vírus) enraizados em nossa condição são  os temores pela violência física e sexual.  Quando o prazer é posto em risco, a própria disposição para o ato de reproduzir também. O jogo de dominação e submissão é invertido pelo diretor: a fêmea despedaça os machos e os devolve à condição de feras soltas em plena metrópole. Cria-se então, um jogo entre os que liberaram os seus instintos e aqueles ameaçados por demais para conseguir liberá-los.

Preocupação típica do diretor, a sexualidade e a carne jamais podem ser separadas do fator psicológico. Como muitos diretores dos anos setenta, Cronenberg fazia um terror com uma adesão mais realista: deixava de lado os espíritos e demônios e iria mexer com mutações, aberrações, disfunções e perversões. Para que recorrer à espiritualidade se o ser e o corpo humano já eram tão assustador?

E ele sempre mete o dedo na ferida com sua narrativa pouco convencional, altamente sexualizada (até esmo para os dias de hoje) e seus momentos violentíssimos acompanhados com a calma e  a passividade de um monge: não adianta tentar polemizar, pois isso mora em todos nós. Obcecado em destruir as convenções de corpo e ego, o canadense estuda o instinto, a obsessão, a busca pelo orgasmo (ou êxtase) perfeito: algo que está dentro de cada um de nós desde o início da civilização e que sempre procuramos repreender.

Exercício de estilo amadurecido que representa um artista que já havia definido seus objetivos: o corpo humano e toda a sua complexidade intimidante. E para isso, criou um cinema tão intenso quanto. A arte de David é a pura “psicologia do açougue”: se você vai estudar um cérebro, escalpele o topo da cabeça primeiro.

4/5

Ficha técnica: Enraivecida na Fúria do Sexo (Rabid) – Canadá, 1977. Dir: David Cronenberg. Elenco: Frank Moore, Susan Roman, Joe Silver, Robert A. Silverman, Marilyn Chambers, Howard Ryshpan, Patricia Gage

.
– por Luiz Carlos Freitas

Sem textinho elogioso de introdução ao post de hoje. Ainda estou tendo espasmos dos orgasmos múltiplos que tive ao rever o filme (pela enésima vez) e selecionar as cenas para o post.

Cliquem nas imagens para ver em tamanho original (sério, FAÇAM ISSO) e qualquer coisa, to aqui do lado, fumando um cigarrinho e recuperando minhas forças, só me chamar nos comentários.

Crítica

.
5/5

Suspiria (Idem) – 1977, Itália/Alemanha. Dir.: Dario Argento. Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi, Susanna Javicoli, Eva Axén, Rudolf Schundler, Udo Kier, Alida Valli, Joan Bennett.














































































por Bernardo Brum

Se em Louca Paixão Paul Verhoeven já havia dissertado sobre os limites (ou a falta dos mesmos) por um outro indivíduo, o épico de guerra Soldado de Laranja é a história da dedicação a um ideal: a de um universitário que passará os auréos anos de sua vida batalhando como infiltrado, mercenário e sabotador disposto a livrar o seu país da lei que ele não queria – o avassalador nazi-facismo que oprimiu várias culturas com suas idéias generalistas e totalitárias.

A abordagem não poderia ser outra vinda de quem cresceu perto de bases e campos de batalha – Eric, o herói de guerra intepretado por Rutger Hauer, é o alter-ego do diretor: preso à velha cultura, servo da rainha e, aparentemente, um verdadeiro caxias, mas também um libertário, inseguro e perdido. São poucos os diretores do mesmo período que, ao retratar um herói de guerra, também se preocupariam em mostrar seu lado mais humano, seu lado sexualizado, sua certa ingenuidade (atentem,  não do  filme, mas sim do personagem, às voltas contra toda uma sociedade impassível e só ao longo do filme tendo dimensão da mesma) e sua única chance de sobrepujar e sobreviver no seu maior norte: o ideal.

O ideal, é claro, irá custar caro: amigos, mulheres e demais relações de afeto serão trituradas sem dó por traições, torturas e assassinatos. Ao mesmo tempo que parece ser um câncer e destruir toda uma vida, é esta esperança, este símbolo que representa para ele que o mundo ainda poderá ser um lugar melhor, que lhe dá um motivo para continuar. Essa ambiguidade afasta o filme de qualquer saída fácil ou maniqueísmo de “nós contra eles”: todos temos ideais, todos estamos a caminhos de uma corrupção sob a qual podemos nos submeter ou não e todo qualquer indivíduo é vítima das circunstâncias do coletivo. Regra número um de Verhoeven, que perdura até os seus filmes recentes: “o inferno são os outros”.

Ao final do filme, Erik lembra, nostalgicamente, dos seus áureos anos, antes de toda a violência da Segunda Grande Guerra assumir seu lugar na ordem das coisas de forma violenta, e quanto de seus companheiros não tiveram a mesma sorte que ele. Mas isso não importa mais. O ideal prevaleceu e perdeu o sentido. E agora, tudo que ele pode fazer é pensar no futuro. Que apesar de tudo, tem a possibilidade de trazer melhores dias para se viver, longe daquele insensato mundo.

4/5

Ficha técnica: Soldado de Laranja (Soldaat Van Oranje) – Holanda, Bélgica. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Jeroen Krabbé, Edward Fox, Derek de Lint, Susan Penhaligon, Lex van Delden

– por Guilherme Bakunin

Star Wars tem provavelmente as piores legiões de fãs do cinema e um criador que não é um cara muito inteligente, mas devemos reconhecer: é um filme incrível, lírico, bem estruturado, e resultado de uma das grandes jogadas de marketing da história, tanto na pré-concepção – na questão de Lucas ter escolhido o episódio IV para iniciar a saga, visando o apelo público – quanto na pós-concepção – divulgação. Na trama, um cara chamado Luke (risos?) Skywalker, que aparentemente vive num negócio caseiro com seus tios é arrebatado no meio de uma enorme revolução onde está em jogo o equilíbrio do universo (???).

Claro que comercialmente foi interessante começar uma saga do meio, afinal Star Wars é um sucesso, mas do lado artístico é um desastre. Sim, porque de uma hora pra outra um adolescente repentinamente salva uma galáxia inteira do maior vilão do universo. Fica eminente também a péssima apresentação de seus personagens, rasos, imprecisos. Afinal, quem são eles? Por mais que isso tenha sido explicado em episódios posteriores, a culpa de Uma Nova Esperança não pode ser eximida.

Relevando esse supermassivo furo, que é proposital, Star Wars se apresenta como uma história de aventura brilhante. Uma ambientação muito digna, uma história extremamente complexa e trabalhada, personagens bem motivados e que são, a despeito do buraco já mencionado, bem construídos. O roteiro, clássico, é construído por três atos: a leve introdução, não dos personagens, mas dos acontecimentos; desenvolvimento da trama, com a chegada de Han Solo e a viagem espacial até a Estrela da Morte; e o fim explosivo com a missão dos rebeldes. Esse forte padrão no roteiro foi fundamental para deixar a trama amarrada, sempre interessante, instigante. Depois de Luke e Obi-Wan começam a jornada, pouco tempo de descanso será dado ao espectador. E num filme supostamente comercial como Star Wars isso é tudo.

Porém, o mais legal do filme é a clara falta de crédito que ele tinha ainda durante as filmagens. A gente percebe que para alguns atores, só faltou dar risada. E o orçamento, que é relativamente modesto, corrobora com a bizarrice cômica de várias cenas. Não que isso seja defeito, mas é apenas um ponto muito interessante a ser observado, e que terrivelmente parece ir de encontro a outros filmes igualmente considerados como revolucionários, ou qualquer coisa que, em larga escala, parece ir contra normas pré-estabelecidas. Porque Star Wars é isso, uma ruptura forte com o sistema, tanto independente quanto hollywoodiano de se fazer filmes. De um ano para outro, cinema não é mais “coisa de adulto”, e um lado maio mágico do cinema é de certa forma resgatado dos early 1900s: o culto à imagem, aos efeitos, às ilusões que o cinema, como forma de arte, iniciou. Pelo menos me parece mais aceitável definir dessa forma a revolução trazida por Star Wars, sem que diminuamos seu valor. Porque ter iniciado um cinema fajuto, fundamentado no lucro (algo que, como mencionei, já não era mais preocupação da produtora FOX, principalmente pelo descrédito) não é recompensador pra ninguém.

Finalmente, o fator que mais me tocou em Star Wars é a energia que permeia o filme. Tem algo de singelo acontecendo ali a todo instante, e o amor parece ser o sentimento mais predominante e o combustível mais estimulante para as principais mudanças daquele universo. Luke inicia sua jornada ao lado de seu tio, de sua família, que não é das melhores, mas ainda sim, é um lar. Depois de perder esse lar, o personagem vaga sem destino até que encontra um novo, ao lado de pessoas igualmente diferentes e disfuncionais, mas ainda sim é um lugar onde ele encontra repouso e paz. E além do amor, os personagens são motivados e conquistam vitórias em função da fé. Os que não tem fé são explodidos junto com a Morte, e os que a possuem, mesmo que sejam maus, sobrevivem. Porque num mundo onde em um piscar de olhos sua vida e toda a sua terra podem desaparecer, ter fé parece ser algo fundamental para simplesmente, entrar no carro e continuar vivendo.

4/5

Ficha Técnica: Star Wars IV: Uma Nova Esperança (Star Wars IV: A New Hope) – EUA, 1977. Dir.: George “Luke” Lucas. Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, James Earl Jones.